Segunda-feira, 5 de Março de 2018

Sapiens: Breve História da Humanidade

Este é o título de um livro escrito pelo historiador Yuval Noah Harari, professor de História do Mundo na Universidade Hebraica de Jerusalém. É um texto interessante e muito bem escrito que descreve de forma exaustiva a História da Humanidade até aos nossos dias. É difícil fazer uma síntese de 486 páginas. De qualquer forma vou tentar fazer um esboço do mais importante.

Logo na primeira página o historiador diz que o Universo começou com um Big Bang há 13,5 mil milhões de anos e 300 000 anos depois a energia começou a fundir-se e a formar átomos e moléculas. Há 3,8 mil milhões de anos formaram-se estruturas mais complexas chamadas organismos. Os biólogos classificam os organismos em espécies, géneros e famílias. O homem pertence à espécie Sapiens (sábio ), ao género Homo( homem) e à família dos Símios. Os nossos parentes mais próximos são os chimpanzés, gorilas e orangotangos sendo os chimpanzés os mais próximos. Para o historiador Yuval Noah Harari a História do Homo Sapiens divide-se em 3 grandes períodos: Revolução Cognitiva ( há cerca 70 000 anos ), Revolução Agrícola (há cera de 12 000 anos ) e Revolução Industrial ( há cerca de 500 anos )

Revolução Cognitiva

Os seres humanos evoluíram inicialmente na África Oriental há cerca de 2,5 milhões de anos a partir do género anterior de símios chamados Australopitecos. Há cerca de 2 milhões de anos alguns desses homens e mulheres deixaram a terra natal e viajaram para o Norte de África, Europa e Ásia. Os humanos da Europa e Ásia Ocidental evoluíram para o Homo Neanderthalensis ( Homem do Vale neander. Nas regiões mais orientais da Ásia foram povoadas pelo Homo Erectus. Na ilha de Java Indonésia o Homo Soloensis ( Vale do Sul ) , na ilha das Flores o Homo florensis ( anões ) . Na gruta de Denisova na Sibéria encontrou-se outra espécie o Homo denisova.. Mas a evolução na África Oriental não parou e apareceram espécies novas : Homo Rudolfensis ( lago Rodolfo), o Homo Ergaster ( homem trabalhador ) e por fim o Homo Sapiens ( homem sábio ). Quando o Sapien chegou à Europa e ao Médio Oriente encontrou os Neandertais. O que terá então acontecido ? Para uns terá havido um cruzamento de espécies ( Teoria do Cruzamento). Para outros os seres humanos tinham anatomias diferentes e por isso não houve cruzamento ( Teoria da Substituição ). As duas populações continuaram separadas e os Neandertais acabaram por se extinguir ou serem mortos. Antes da Revolução cognitiva todas as espécies humanas viviam na região Afro-Asiática. A seguir o Sapiens adquiriu a tecnologia, as habilidades de organização e a visão necessária para se estabelecer no mundo exterior. O primeiro feito foi a colonização da Austrália há cerca de 45 000 anos. Por volta de 10 000 anos antes .de Cristo os seres humanos já viviam no porto mais a sul da América, a ilha da Terra do Fogo. Por volta de 12 000 a.c o aquecimento global derreteu o gelo e abriu uma passagem mais fácil de transpor entre o Alasca e o resto da América. O Homo Sapiens levou à extinção para metade de animais de grande porte do planeta.

Revolução Agrícola

Há cerca de 10 000 começou a Revolução Agrícola. O homem começou a deitar a sementes à terra, a regar, a arrancar as ervas daninhas e a conduzir ovelhas para melhores pastos. Passou assim de uma vida nómada para uma vida sedentária. O cultivo do trigo garantiu mais comida por unidade de trabalho. Aprendeu a domesticar os animais e a utilizá-los no cultivo das terras. À medida que os dados de informação ia aumentando o homem verificou que o cérebro não tinha capacidade para os registar. Os sumérios inventaram um tipo de escrita que lhes permitia converter números em símbolos. Os Egípcios inventaram um sistema de escrita completa através de hieróglifos. Os mesopotâmios criaram também um sistema de escrita completa a que se chamou cuneiforme. No século IX começou a desenvolver-se a linguagem matemática e apareceu a numeração árabe com 10 símbolos. Mais tarde apareceram outros símbolos acrescentados aos números árabes como os sinais de adição, subtração, multiplicação e divisão.

Com a vida sedentária levantou-se a questão de saber como é que os grandes grupos se organizavam. A ordem era mantida através de hierarquias. Havia chefes e subordinados, plebeus e escravos, brancos e negros e até a distinção entre homens e mulheres. Na Índia ainda hoje existem castas e diferenças sociopolíticas entre brâmanes( sacerdotes ) e shudras ( criados). No século XVI a exploração do ouro, diamantes e do açúcar no Brasil levou ao comércio e tráfico de escravos que eram sujeitos a condições desumanas. Na Revolução Agrícola a maior parte das sociedades são patriarcais e valorizam mais os homens do que as mulheres. O primeiro milénio antes de Cristo testemunhou o aparecimento de 3 ordens potencialmente universais: a ordem monetária, a ordem imperial e a ordem das religiões: budismo, cristianismo e islão. O aparecimento do dinheiro facilitou as relações comerciais entre povos e comunidades e permitiu às pessoas comprarem rápida e facilmente o valor dos diferentes bens e também armazenar riqueza. Os impérios agregaram povos distintos e tinham fronteiras flexíveis. As religiões assentam numa ordem sobre-Humana com normas e valores vinculativos. No primeiro milénio antes de Cristo na região Afro-Asiática alastraram religiões como o budismo na Índia e o taoismo e o confucionismo na China. A figura central do budismo não era Deus mas Sidharta Gautana. Depois de 6 anos de meditação compreendeu que que o sofrimento não é provocado pela má sorte, pela injustiça social ou pelos caprichos divinos. O sofrimento é provocado pelos padrões comportamentais da nossa mente. Não devemos ficar presos pela tristeza nem pela alegria e evitar os desejos. Se conseguirmos este objectivo atingimos a nirvana ( extinção do fogo) e somos libertados de todo o sofrimento. No primeiro milénio depois de Cristo a maior parte da Europa, da Ásia Ocidental e Norte de África eram monoteístas. Havia também religiões dualistas que assentam na existência de dois deuses um bom e outro mal que estavam em luta permanente .Esta religião teve como profeta Zoroastro ( Zaratrusta) e tornou-se a religião oficial do Império persa sassânido. Havia ainda duas outras seitas religiosas como os maniqueístas e os gnósticos que admitiam que o Deus Bom criou o espírito e a alma e o Deus Mau criou a matéria e o corpo. Os últimos 300 anos foram retratados como uma época de crescente secularismo, As novas religiões são agora o liberalismo, o comunismo, o capitalismo, o nacionalismo e o nazismo. Estas doutrinas são designadas por ideologias. O nazismo dado o seu carácter racista foi a ideologia que mais desrespeitou os direitos humanos e levou a cabo extermínios inqualificáveis.

Revolução industrial e científica

Que potencial desenvolveu a Europa no início deste período? A esta pergunta responde Yuval Noah Harari: há duas respostas complementares: a ciência e o capitalismo. Nos séculos XVIII e XIX quase todas as expedições militares importantes que deixaram a Europa rumo a terras distantes levavam a bordo cientistas. Durante os séculos XV e XVI os europeus começaram a desenhar mapas-mundi com muitos espaços vazios. Se queriam de facto controlar os vastos territórios tinham de reunir uma enorme quantidade de dados sobre geografia, o clima, a flora, a fauna, as línguas, as culturas e a história dos territórios que descobriam. Sem o apoio imperial é duvidoso que a ciência moderna tivesse progredido muito.

Um outro factor a ter em conta foi o credo capitalista. O dinheiro tem sido essencial tanto para construir impérios como para promover a ciência. Década após década a Europa Ocidental assistiu ao desenvolvimento de um sofisticado sistema financeiro capaz de oferecer grandes somas e crédito rápido que colocava à disposição de empreendedores privados e governantes. Os financiadores concederam aos holandeses crédito suficiente para criarem exército e frotas os quais lhe deram o controle das rotas e do comércio mundiais. E foram os mercadores holandeses e não o Estado Holandês que construiu o Império Holandês. As primeiras colónias inglesas na América foram estabelecidas no início do seculo XVIII através de sociedades por acções.

Entre os séculos XVI e XIX foram importados para a América 10 milhões de escravos africanos para plantações de açúcar. Empresas privadas de tráfico de escravos vendiam as suas acções nos mercados bolsistas de Amsterdão, Londres e Paris. As empresas compravam navios, contratavam marinheiros e soldados, compravam escravos em África e transportavam-nos para a América. O século XIX não trouxe consigo qualquer melhoria em termos de ética do capitalismo. A Revolução Industrial que venceu a Europa enriqueceu banqueiros e os donos do capital, mas condenou milhões de trabalhadores a uma vida de pobreza abjecta. A revolução industrial foi acima de tudo uma revolução Agrícola. A industrialização da agricultura permitiu que não fossem precisas tantas pessoas a trabalhar no campo. À medida que o consumismo aumentou   foi preciso melhorar as técnicas de trabalho utilizando novas   sementes e novas plantas. A revolução científica e industrial deram à humanidade poderes sobre-humanos e energia quase ilimitada A ordem social, a ordem política foram completamente transformadas bem como a vida quotidiana e a psicologia humana. Os nacionalistas acreditam que a autodeterminação política é essencial para a felicidade. Os comunistas postulam que toda a gente seria extremamente feliz sob uma ditadura do proletariado. Os capitalistas sustentam que apenas o mercado livre consegue assegurar a maior felicidade do maior número possível de pessoas. Na Revolução Agrícola nem tudo foram rosas. Os camponeses tiveram de trabalhar mais arduamente do que os recolectores para arrancar à terra os alimentos que precisavam. A disseminação dos impérios europeus aumentou imenso o poder colectivo da humanidade graças à circulação de ideias, tecnologias e colheitas e ao estabelecimento de novas vias de comércio. No entanto não foram boas notícias para milhões de africanos, nativos americanos e aborígenes australianos. Filósofos, sacerdotes e poetas têm-se debruçado sobre a natureza da felicidade durante milénios e muitos concluíram que os factores sociais, éticos e espirituais têm um impacto na nossa felicidade tão grande como as condições materiais. Descobriu-se que a felicidade não depende apenas de condições objectivas mas da inter-relação entre estas e as expectativas subjectivas.Os mecanismos bioquímicos podem também ter influência na felicidade. As pessoas que nascem com uma bioquímica cheia de vida podem ser felizes mesmo nas piores situações. Os que nascem com um bioquímica melancólica podem ser infelizes mesmo que ganhem milhões na lotaria. Para outros a felicidade consiste e entenderem a vida como um todo, como sendo algo significativo que vale a pena.

Os dois últimos capítulos do livro têm por tema: O fim do Homo Sapiens e O Animal que se tornou Deus. O historiador refere que os activistas dos direitos humanos receiam que a engenharia genética possa ser utilizada para criar super-homens que façam de todos nós seus escravos. Admite ainda que a engenharia genética e outras forças de engenharia biológica possam levar-nos a realizar alterações profundas a todos os níveis e que a Segunda Revolução cognitiva poderá criar um tipo de consciência completamente novo e transformar o Homo Sapiens em algo completamente diferente. As objecções éticas e políticas não irão travar a investigação. Se por hipótese for descoberto um medicamento que trave a doença de Alzheimer e esse medicamento possa melhorar a memória de pessoas saudáveis nenhuma autoridade o irá limitar apenas a doentes de Alzheimer. Acrescenta ainda que brincar com os nossos genes não vai necessariamente matar-nos mas poderá alterar o o Homo Sapiens de tal forma que deixaríamos de sê-lo. Diz ainda que a próxima fase da História inclui não só transformações tecnológicas e organizacionais como também transformações na consciência e na identidade humana. O Homo Sapiens está hoje a tornar-se um deus, preparado não só para adquirir a juventude eterna mas também as capacidades divinas da criação e da destruição. A seguir levanta algumas dúvidas. Mas terá diminuído o sofrimento do Mundo ? Muito do que se conseguiu implicou o sofrimento humano e também de animais. Há animais que estão a desaparecer e outros que já se extinguiram. Ninguém sabe para onde vamos e os seres humanos parecem mais irresponsáveis que nunca. Estamos a espalhar o caos sobre os nossos companheiros animais e o ecossistema envolvente. E para terminar ocorre-me também a mim fazer uma pergunta.Será que as grandes potências não poderão de um momento para o outro desencadear uma guerra nuclear capaz de pôr termo ao Universo em que vivemos ?

 

 

 

 

 

publicado por pontodemira às 10:48
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