Terça-feira, 27 de Setembro de 2016

OS GRANDES FILÓSOFOS-PASCAL

 

1-Blaise Pascal nasceu em Clermont-Ferrand no dia 19-08-1623. Foi neste século que subiu ao trono Luís XIV, o Rei Sol, a quem foi atribuída a famosa declaração “ L´ État c´ est moi “ , eu sou o Estado.

Aos três anos Blaise Pascal ficou órfão de mãe. Desde muito cedo começou a interessar-se pela física e pela matemática. A ele se deve a teria das probabilidades e a invenção de uma máquina capaz de fazer as quatro operações aritméticas que foi designada por(Pascalina). O seu primeiro livro “ Ensaio sobre os Cones “ foi escrito em 1640 quando tinha 17 anos. Com a partida da irmã para Port-Royal Pascal atravessou uma crise espiritual profunda. Em 1640 quando tinha 31 anos de idade quase ia morrendo de acidente quando a carruagem em que seguia atravessava uma das pontes de Paris. Foi nesta altura que se converteu ao cristianismo. Aderiu primeiro ao Jansenismo ou seja a um grupo religioso fundado por Cornélio Jansen, conhecido por Jansénio. Os jansenistas adoptaram a teoria da predestinação de Stº Agostinho segundo a qual o homem nasceu com o pecado original e só pela graça de Deus concedida a um número reduzido de eleitos e através de Jesus Cristo a salvação seria possível. Os jansenistas entraram em polémica com os jesuítas acusando-os de concederem facilmente a absolvição a quem confessasse os pecados. Mais tarde com a morte da irmã Jacqueline em 4-10-1651 Pascal repudia o jansenismo e abandona todas as disputas que o separavam da Igreja e do Papa. Pascal veio a falecer em 19-08-1662.

2-Como filósofo Pascal começa por estabelecer a diferença de forma clara e inequívoca entre a razão (espírito geométrico) e o coração (espírito de finura). Os nossos conhecimentos provêm em primeiro lugar do método experimental com as suas três fases: observação, hipótese e verificação. A razão em sentido lato significa raciocínio ou silogismo. Mas os nossos conhecimentos provêm também do coração de forma intuitiva e é aí que têm origem os grandes princípios morais, éticos e religiosos. A este processo rápido de obter a verdade chama Pascal o “ espírito de finura “. A conhecida frase de Pascal “ o coração tem razões que a razão desconhece “ significa que conhecemos a verdade não só pela razão mas também pelo coração.

Para Pascal a realidade encontra-se dividida em 3 ordens ou domínios: a ordem sensível ( ou dos corpos ); a ordem inteligível ou do espírito); a ordem sobrenatural (da graça ou do coração). Na introdução ao livro Pensamentos de Pascal, Roger-Pol Droit diz o seguinte: “ os três registos ou ordens divergem radicalmente. Não se pode ver com os olhos do corpo aquilo que se vê com os olhos do espírito nem se pode perceber com o corpo e o espírito aquilo que se sente com o coração ( Pag IX ). Destas três ordens de realidade a mais importante para Pascal é sem dúvida a última, ou seja, a sobrenatural, da graça ou do coração. Para chegarmos a Deus não podemos partir de princípios à priori,de premissas ou da prova ontológica de Stº Anselmo (se eu penso num ser perfeito, esse ser é Deus e esse ser tem necessariamente de existir).

Para Pascal só podemos chegar a Deus pela fé, pelo coração e pela graça. Mas se não podemos demonstrar a existência ou a inexistência de Deus então o que poderão fazer os que têm dúvidas sobre a existência de Deus? Surge aqui o argumento da aposta em Deus. Se uma pessoa passar a vida a fazer o bem e se no fim não existir Deus não se vai arrepender do que fez. Mas se Deus existir a sua felicidade não terá fim e a beatitude será eterna. Pascal dizia “ Se ganhares ganhas tudo e se perderes não perdes nada “

3-Pascal é um grande pensador sem no entanto ter deixado nenhum tratado filosófico ou sistema organizado de ideias ou teoria filosófica de grande complexidade. A sua filosofia anda indissociavelmente ligada à religião e à teologia. Praticou as regras do método cartesiano mas diverge em muitos aspectos de Descartes. Enquanto Descartes reconhece como trave mestra do seu pensamento o princípio “ cogito ergo sum “( penso logo existo ), Pascal não parte de nenhum princípio ou premissa para estruturar o seu pensamento. Enquanto para Descartes a razão é a única via para alcançar a verdade, Pascal entende que as grandes verdades e os grandes princípios saem intuitivamente do coração. Finalmente convém esclarecer que Pascal ao viver intensamente a sua fé utilizou a sua argumentação filosófica como meio para convencer os cépticos e os incrédulos do seu tempo.

Como complemento à explanação que fiz irei transcrever algumas sentenças de Pascal extraídas do livro “ Pensamentos” edição Livraria Morais Editora

  1. A religião não é contrária à razão; Dois excessos: excluir a razão, ou só admitir a razão
  2. Quereis que se pense bem de vós? Não censureis
  3. Troçar da filosofia é verdadeiramente filosofar
  4. A natureza imita-se: uma semente lançada em boa terra produz; um princípio lançado num bom espírito produz
  5. 5-Eu detesto igualmente o engraçado e o vaidoso: não me faria amigo nem de um nem de outro
  6. Não há nada sobre a Terra que não mostre ou a miséria do homem ou a misericórdia de Deus; ou a impotência do homem sem Deus, ou a força do homem com Deus.
  7. O que é o homem na natureza? Um nada em vista do infinito, um todo em vista do nada, um meio entre o nada e tudo
  8. Por que será que um coxo não nos irrita e um espírito coxo nos irrita? Porque um coxo reconhece quem anda direito enquanto um espírito coxo diz que somos nós que coxeamos.
  9. É sem dúvida um mal, estar cheio de defeitos; mas ainda é um mal muito maior estar cheio e não os querer reconhecer.
  10. Dou por certo que se todos os homens soubessem o que dizem uns dos outros, não havia quatro amigos no mundo
  11. A grandeza do homem é grande na medida em que ele se reconhece miserável. Uma árvore não se reconhece miserável.
  12. Não posso reconhecer o homem sem pensamento: seria uma pedra ou um animal.
  13. Só há duas pessoas que eu posso chamar razoáveis: ou a que serve a Deus de todo o coração porque o conhece ou as que o procuram de todo o coração porque não o conhecem.
  14. É o coração que sente Deus, e não a razão. Eis o que é a fé: Deus sensível ao coração, não à razão
  15. Não conhecemos nem a existência nem a natureza de Deus, porque Ele não tem extensão nem limites.

 

publicado por pontodemira às 22:13
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