Segunda-feira, 20 de Março de 2017

Bandarra: profetismo messiânico e sebastianismo

Da leitura das Trovas do Bandarra podemos tirar três ideias chave: a crítica social, as referências bíblicas e a crença num Messias. Tal como Gil Vicente, seu contemporâneo, Bandarra criticou abertamente a corrupção e as perversidades da sociedade do seu tempo. Ao seu olhar arguto e atento não escaparam os defeitos mais comuns dos diferentes grupos sociais. O alvo das suas críticas são os doutores, tabeliães, bacharéis, fidalgos e por incrível que pareça a própria Igreja. Numa época dominada pelo terror da Inquisição é sem dúvida uma atitude arrojada e temerária atacar as fraquezas das “ cleresias “ e o mau exemplo dos “noviço da ordem episcopal “. E se Gil Vicente gozava da protecção da Corte o mesmo não acontecia com Bandarra. Talvez por isso e ainda pelo impacto e alvoroço que as citações bíblicas provocaram na comunidade judaica, Bandarra foi levado ao Tribunal da Inquisição que proibiu as suas Trovas e o condenou a “ no futuro não se intrometer mais a responder nem escrever em nenhuma coisa da Sagrada Escritura.”

A outra trave mestra das Trovas são as referências bíblicas. Bandarra estudou durante anos a Sagrada Escritura e sabia de cor várias passagens do Antigo Testamento. E de tal forma se saía que segundo o parecer de Jorge Fernandes no Processo da Inquisição ele dava ares de “ grandíssimo teólogo “. Com efeito Bandarra cita várias vezes nas suas Trovas os profetas Isaías, Daniel e Jeremias. Alude ainda a figuras bíblicas como Ruben, Levi, Jacob, Aarão, Elias, etc.

Um outro ingrediente é a crença num Messias ou Salvador que há-de repor a Paz, a Ordem, a Tranquilidade e a Harmonia entre os Homens. Esse Messias é para Bandarra um Rei ( Encoberto ) que porá fim a todas as injustiças. Esta forma de profetizar podemos designá-la por “messianismo judaico “ pois todos os profetas do Antigo Testamento acreditaram num Messias. O Profeta Daniel ( II 31,45 ) aponta mesmo para um 5º Império ( Perfeito e Eterno ) capaz de instaurar uma Jerusalém terrestre. Pinharanda Gomes, a respeito do Messianismo diz o seguinte: “ Em todas as acepções, o messianismo manifesta o conhecimento de antinomias existenciais- o que está mal e o que está bem, pelo que em todas as variantes o Messias é a prognose do remédio, da cura, da salvação. A perspectiva messiânica envolve a reconquista da felicidade original ( Paraíso Perdido), a restauração dos bens destruídos ( Idade do Ouro ) e a instauração da Harmonia ( Paz Perpétua ) e noutra instância a assunção do homem à dignidade essencial ( Reino de Deus ) “. E mais à frente acrescenta :” ainda que o nome Messias apareça pouco no Antigo Testamento, revela a tipologia de um Rei Sacerdote que virá no fim dos tempos para instaurar o amor, a justiça, a vida e a paz. A sua figura é absorvente nos livros históricos, poéticos e sapienciais sendo-nos revelado como Rei Messias ( Jer 30,9 ) Servo Sofredor ( Isaías 53,1 ) e Filho do Homem ( Dan 7,13 ) cognomes antigos que a modernidade evangélica atribui a Jesus de Nazaré, figurando como o verdadeiro Messias já vindo ( Enc. Pólis Vol.4 pag.208)

As Trovas do Bandarra sugerem um Messias Real, dadas as constantes alusões a um misterioso e enigmático Rei Encoberto e ao acolhimento que as mesmas tiveram na comunidade judaica. Há , no entanto uma nota dissonante que parece contrariar esta tese. Nas estrofes CLVI e CLVII do sonho terceiro, Bandarra diz que “ Os judeus serão cristãos/ sem jamais haver erros. E acrescenta em jeito de conclusão “ servirão um só Senhor/ Jesus Cristo, que nomeio. Todos crerão que já veio / o Ungido Salvador “. Isto faz com que as Trovas do Bandarra sejam obscuras, confusas e se prestem às mais diversas interpretações.

Com o desastre de Alcácer Quibir, surge o mito sebastianista ou seja a crença que o rei D. Sebastião não morreu em Árica mas havia de voltar um dia. Para muitos o Rei Encoberto que Bandarra refere nas suas Trovas é afinal D. Sebastião o “ Desejado “. A mística messiânica toma agora a forma de sebastianismo. O principal defensor desta tese é D. João de Castro o autor de “ Paráfrase e concordância de algumas profecias de Bandarra, primeira reprodução impressa, mas incompleta, que se fez das Trovas ( 1603 ). Apareceram ainda alguns impostores que se fizeram passar por D. Sebastião e que acabaram quase todos na forca.

A Restauração de Portugal em 1640 vai dar azo a uma interpretação das Trovas. Para o Padre António Vieira, figura destacada e erudita das letras do século XVII, o que Bandarra tinha profetizado era a restauração do Reino de Portugal. D. João IV não podia morrer e se morresse teria de ressuscitar pois estava predestinado para ser o chefe de um grande Império que iria congregar toda a cristandade ( Judeus e Cristãos ). Nascia assim o mito do 5º Império, tema que o Padre António Vieira iria tratar na carta que escreveu ao Pe. André Fernandes, confessor da rainha e bispo eleito do Japão ( Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo “. Como os factos não vieram confirmar as previsões, Vieira vê-se obrigado a transferir o papel destinado a D.João IV, sucessivamente para D. Afonso VI, D.Pedro II, para o primogénito de D. Pedro II que haveria de morrer e finalmente para D.João V.

A Revolução Francesa e a crise em que mergulha Portugal irão avivar ainda a chama sebastianista, mas esta desaparecerá praticamente com o liberalismo do século XIX . A partir daí, o sebastianismo subsiste apenas como tema inspirador de alguns poetas dos quais se destacam entre outros Pascoais e Fernando Pessoa.

As profecias do Bandarra podem suscitar ainda dois tipos de questões: Serão as Trovas verdadeiras profecias e Bandarra um verdadeiro profeta ? O que terá motivado Bandarra a escrever as suas Trovas ?

Segundo a opinião do Dr. M . Paulo ( in Enc. L.B.C ) a “ Profecia pode ser entendida em sentido lato e em sentido restrito. Em sentido lato é toda a proclamação da palavra de Deus. Equivale a Revelação. Em sentido restrito é conhecimento sobrenatural e predição certa de um acontecimento futuro livre, isto é, dependente da vontade de Deus ou do homem e como tal imprevisível por meios humanos. Para estabelecer bem o argumento profético importa demonstrar que se fez a predição certa de um acontecimento futuro livre e que este realmente se verificou. ( Verdade histórica da profecia ) ( Enc, L.B. vol. 15 pag 1176 )

Seguindo este critério, as Trovas não podem ser verdadeiras profecias. As inúmeras citações bíblicas não chegam para que se possam considerar autêntica Revelação. Sendo citações não trazem nada de novo ao que os antigos profetas revelaram. Por outro lado as Trovas não são a predição certa de acontecimentos futuros. A prova disso está no facto de elas terem sido aproveitadas nas mais diversas situações de crise nacional para prever acontecimentos que a realidade histórica veio a desmentir.

Em meu entender, Bandarra era um visionário, um sonhador, um homem que soube interpretar e verter para as Trovas as preocupações e angústias da sociedade do seu tempo. E aqui se situa a segunda questão que é a de saber quais os motivos que terão levado Bandarra a escrever as suas Trovas. Vivendo numa época de feroz perseguição aos judeus, de terríveis injustiças e de corrupção generalizada, é natural que o sapateiro de Trancoso fosse sensível a estes problemas e lhes quisesse dar vida e eco nas suas Trovas. Acresce a isto que o ambiente no século XVI era propício a profetas e profecias não só na Península como além Pirinéus. A esta época pertence o profeta Nostradamus cujas profecias foram amplamente divulgadas e alimentaram a esperança de muita gente.

Ao escrever sobre o Sebastianismo, Joel Serrão diz que as Trovas do Bandarra são   “ um caso de profetismo a nível popular tendo como raízes mais fundas ou mais próximas: a tradição bíblica pela convergência das vias cristã e judaica ; o exacerbamento do messianismo judaico ante as condições adversas criadas na Península pela política anti-hebraica de Espanha e Portugal ; a criação castelhana do mito do Encoberto após o esmagamento das germanias de Valença“. E mais adiante acrescenta, “ com efeito as Trovas circulavam em cópias manuscritas, primeiramente entre os cristãos-novos de Trancoso, de Lisboa e, por fim, em todo o Reino, que nelas entreviam uma mística que era a sua. ( Dicionário de História vol. V pag 509 ). Para este ilustre historiador o que o Bandarra quis profetizar foi a vinda de alguém ( Encoberto ) que viria pôr termo a todas as injustiças, unir cristãos e judeus e instaurar a Paz em todo o Mundo ( Mito judaico do 5º Império ).

Defendendo uma tese diferente encontra-se o Prof. José Hermano Saraiva.. Para ele tudo acontece quando “ em 1530 o rei D. João III deu a vila de Trancoso a um seu irmão mais novo, o infante D. Fernando, que por essa altura casou. Os lavradores e mesteirais da terra amotinaram-se e não permitiram que o Infante tomasse conta da vila. Não lhes era indiferente estar dependente da administração de um funcionário régio, mais ou menos indulgente na cobrança de impostos, ou pertencerem a um grande senhor que tinha de viver dos rendimentos e que por isso era sempre rigoroso e às vezes cruel na sua exigência. Foi durante os anos de revolta anti-senhorial de Trancoso que um sapateiro que lá morava, Gonçalo Anes Bandarra, escreveu umas trovas que o tempo havia de tornar célebres “ E mais adiante conclui “ quando se iniciou a perseguição da Inquisição aos cristãos-novos estes julgaram ler o anúncio da vinda de um Messias salvador nos versos que, de facto eram um apelo a D. João III para que defendesse Trancoso da ambição do Infante ( Hist.Port. Europa –América ).

Afigura-se portanto difícil traçar com rigor quais foram as motivações que levaram Bandarra a escrever as suas Trovas. Talvez haja verdade em ambas as teses. Querer passar esta ou aquela opinião é legítimo mas não passa de mera especulação. As Trovas do Bandarra são misteriosas e enigmáticas como obscura foi grande parte da vida do Profeta.

Que factores terão contribuído para que as Trovas fossem lidas durante tantos anos alimentando assim o chamado mito sebastianista ? Para Queiroz Veloso “ Se o Prior do Crato ou a duquesa de Bragança conseguissem ocupar o trono do Bandarra teriam caído no esquecimento “( Dic Hist edç Barcelos vol V pag 254 ). Opinião polémica pois é sempre difícil e aleatório argumentar no condicional. Parafraseando Hermano Saraiva diria que “ a consciência sebastianista permanece como estado instintivo e permanente. O mito do “ rei que há-de voltar numa manhã de nevoeiro ainda hoje é um lugar-comum da linguagem “.

As Profecias do bandarra não têm, nos nossos dias, como é óbvio, o interesse que tiveram na sua época. Diga-se o que se disser do Bandarra, ele teve acima de tudo, o mérito de influenciar a Cultura Portuguesa durante séculos. E de tal forma que ainda hoje em momentos de crise se apela e acredita num Messias- Salvador, Homem Providencial – que outra coisa não é que o “ Encoberto “ de Bandarra.

 

 

 

publicado por pontodemira às 09:50
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