Quarta-feira, 30 de Março de 2022

A NOVA ARTE DA GUERRA- Sean Mc Fate

A NOVA ARTE DA GUERRA

Este    é o título de um livro escrito por Sean Mc Fate professor de estratégia na Universidade de Defesa Nacional e na School of Foreign Service da Universidade de Georgetown. Foi também paraquedista da 82ª divisão Aerotransportada do exército americano e mais tarde trabalhou numa empresa militar privada, onde integrou algumas missões a que faz referência . Neste livro  dá-nos uma visão actual sobre os conflitos mundiais  e a geoestratégia do futuro. Em breves palavras irei fazer um resumo dos pontos essenciais tratados no livro.

Sean Mc Fate  diz-nos logo de início que ganhar não é matar o maior número de inimigos ou capturar a maior extensão do território. A França foi derrotada na Argélia e na Indochina, a Grã Bretanha na Palestina e em Chipre, a URSS no Afeganistão, Israel no Líbano e os Estados Unidos no Vietname, Somália, Iraque e Afeganistão. As Nações Unidas não fizeram nada para travar os genocídios no Ruanda e no Dafur. Nem desafiaram a usurpação da Crimeia pela Rússia, nem puseram fim a décadas de matança no Médio Oriente.  Dos 194 países do mundo, quase metade vive alguma forma de guerra. A desordem tomou conta do Médio Oriente e da África, de partes significativas da Ásia e da América Latina. E avança na Europa. Os conflitos não começarão e acabarão, mas eternizar-se-ão em guerras sem fim. A desordem duradoura está aí e aqueles que souberem combatê-la ganharão. Precisamos de nos equivaler ao inimigo  e aprender a jogar segundo as regras da nova arte de guerra

1ª Regra A guerra convencional morreu . É um combate de Estado-contra-Estado em que o instrumento primordial do poder é a força bruta em que a batalha decide tudo o resto Apesar disso, continua ser o nosso modelo, e essa é a razão por que o Ocidente perde guerras contra inimigos mais fracos..É preciso reequilibrar as forças militares de modo a incluírem menos armas convencionais e mais forças de operações especiais  que desempenham tarefas como recolha de informações, engenharia, apoio médico, logística e uma miríade de competências altamente necessárias para apoiar os combatentes em cenário de guerra.. A 2ª  Regra A tecnologia não nos salvará.Os conflitos actuais já nos demonstraram que a tecnologia superior e o poder de fogo não vencem guerras. A guerra é uma forma de política armada e procurar uma solução técnica para um problema político é uma loucura. O poder do cérebro é superior ao poder de fogo e devemos investir nas pessoas, não em plataformas.. 3ª Regra. Guerra e Paz vão coexistir sempre. Conquistar os corações e as mentes é o único caminho para a vitória quando se travam guerras convencionais. É preciso adoptar estratégias. No sentido mais lato a grande estratégia é uma política que rege a maneira como o país se comporta nas relações internacionais.  4ª Regra . Conquistar o coração e a mente não basta.  A legitimidade em sociedades como a iraquiana ou a afegã não é conferida por um contrato social democrático, mas sim pelo Islão político. Devoção sincera a Deus e a observância das leis da sharia são mais importantes e é por isso que a Al-Quaeda, o Estado islâmico e os talibãs ganham terreno. A coerção tem funcionado em muitos casos. Em 1999 a Rússia esmagou a revolta chechena pondo cerco a Grózni, a capital da Chechénia e arrasando-a. Outra estratégia é a deslocalização. Durante a 2ª Guerra Mundial os chechenos queriam aproveitar a oportunidade para se separarem da União Soviética. Em resposta o Exército Vermelho espalhou os chechenos à força pelos 11 fusos horários da URSS.  Há uma terceira estratégia que é a importação e a diluição.  Mao na China anexou o Tibete e enviou para o Tibete milhões de chineses tornando os tibetanos uma minoria na sua própria pátria.5ª Regra. As melhores armas não disparam balas.  Hoje em dia, quando a Rússia pretende desestabilizar a Europa, não ameaça com uma acção militar, como era prática da antiga União Soviética. Em vez disso, bombardeia a Síria. Esta tática empurrou dezenas de milhares de refugiados para a Europa e exacerbou a crise da imigração, instigando o Brexit e alimentando políticas anti-establishment por todo o continente. 6ª Regra.Os mercenários vão dominar o panorama militar. Os mercenários são mais económicos e é por isso que sempre têm existido ao longo da história, sendo os exércitos nacionais actuais a excepção. Os relatórios indicam que existem na Síria 2 500 mercenários a soldo da Rússia. A Rússia utiliza-os igualmente na Ucrânia. A ONU abdicou do seu papel de prevenção de conflitos, a sua missão principal desde 1946. Nada fez para travar o crescimento dos mercenários, tal como não fez nada de significativo para travar as guerras no Iraque, Síria…por toda a parte. O Direito internacional não funciona nem  a ONU.. 7ª Regra. Vão surgir novas potências mundiais A erosão dos Estados encorajará novos tipos de superpotências a preencher o vazio de autoridade. Em 2016, os governos da Turquia e do Egipto avançaram mais abertamente para ditaduras de Estado policial em que o Estado profundo é o único Estado existente.  8ª Regra. Haverá guerras sem Estados O México é um exemplo de uma guerra sem Estados. Os carteis da droga combatem-se uns aos outros pelo controlo da região, enquanto os Estados são marginalizados e transformados em narco-estados zombies .Os conflitos na Somália e na República Centro-Africana inserem-se nesta categoria, uma vez que estes Estados não existem de facto. Chamamos-lhe Estados unicamente para poder localizá-los no mapa. A guerra do Congo é palco de outra guerra sem Estados. 9ª Regra. As guerras na sombra prevalecerão Perto do início da guerra da Ucrânia, forças russas por procuração fizeram explodir nos céus o voo 17 da Malaysia Airlines, matando 298 pessoas a bordo. A Rússia tornou-se uma superpotência de desinformação, adoptando uma estratégia de « matem-nos com confusão». E está a resultar. As evidências estão por toda a parte: tornar invisível uma guerra na Ucrãnia, recorrer à pirataria informática para interferir nas eleições presidenciais de 2016 nos EUA, influenciar a votação no Brexit, apoiar grupos políticos marginais, alimentar o nacionalismo de direita nos países da NATO e engendrar o seu papel dúbio no Médio Oriente. Quando Putin chegou ao poder em 1999, tinha perante si uma nação fraturada, devorada pelo crime organizado e pela anarquia. Então ele teve o seu momento. Uma série de explosões atingiu 4 edifícios de apartamentos em 3 cidades russas, incluindo Moscovo, matando 293 pessoas e ferindo 1000. Em breve se descobriu que as explosões foram obra de terroristas chechenos e ondas de pânico varreram a Rússia. Só que não foram os chechenos; foi Putin a tentar consolidar o seu poder político, facilitando a sua ascensão do cargo primeiro-ministro para a presidência.10ª Regra. Existem muitas maneiras de assegurar a vitória  A guerra híbrida descreve os conflitos actuais como uma mistura de prática da guerra convencional e não-convencional. Por exemplo a Rússia conquistou a Crimeia usando material convencional, como os tanques, e meios não convencionais, como os homenzinhos verdes

N a parte final do livro o autor termina dizendo que  o Ocidente será derrotado se não se adaptar ao futuro da guerra. As guerras deslocar-se-ão para a zona da sombra. Na era da informação, o anonimato é a arma de eleição. A subversão estratégica ganhará guerras, não as vitórias no campo de batalha. Numa era de desordem a grande estratégia devia procurar evitar que os problemas se transformassem em crises, e as crises em conflitos. A vitória será conseguida ou perdida no espaço da informação e não no campo da batalha

 

 

publicado por pontodemira às 22:23
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1 comentário:
De Zé Onofre a 30 de Março de 2022 às 23:45
Boa noite, Francisco Martins

E eu que pensava que a nova arte da guerra era o desarmamento total e absoluto.
E eu que pensava que a nova arte da guerra era cada Povo ser respeitado e respeitar os Outros como iguais.
E eu que pensava que a nova arte da guerra era não haver vencedores, nem vencidos.
Que ingenuidade de pensamento.
O Homem quer continuar a ser explorador do Homem.
As nações poderosas querem continuar a saquear as menos poderosas.
As Nações poderosas querem continuar a apropriarem-se das riquezas, que são de todos, para depois as distribuírem pela minoria de um por cento que controla 90% da riqueza.
Zéw Onofre


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