Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO

O novo Acordo Ortográfico é um assunto polémico e controverso. A língua é um elemento dinâmico e como tal não é de admirar que tenha evoluído ao longo dos séculos. Hoje não se escreve e lê como no tempo do Fernão Lopes. O latim que no tempo dos romanos se disseminou por toda a Europa, hoje é considerado uma língua morta, utilizada apenas pelo Vaticano em documentos oficiais. O português que hoje falamos é o resultado de inúmeras alterações semânticas, fonéticas e ortográficas. Para acompanhar este ritmo surgem periodicamente acordos ou reformas. Desde 1911 até agora foram feitos vários reajustamentos ortográficos tendo em 1945 sido concluído um acordo com o Brasil que este acabou por não ratificar.

 

Este ano volta a falar-se de um novo Acordo Ortográfico. Mas será que este é absolutamente necessário.? As opiniões dividem-se : uns são a favor e outros discordam e  entendem que não se justifica. Para os primeiros é mais fácil escrever o português aproximando a linguagem fonética da ortográfica. As consoantes mudas deviam por isso ser eliminadas. Para os que são contra, as novas regras poderão facilitar a escrita mas vão descaracterizar a língua. O étimo é um elemento importante para compreender o sentido da palavra e não deve ser desprezado.

 

Embora não seja um especialista na matéria penso que devíamos continuar como estamos. Não lucramos nada por andar a reboque dos brasileiros. Os portugueses entendem perfeitamente a grafia brasileira e vice versa. Os livros escritos no Brasil são lidos facilmente em Portugal o mesmo acontecendo na situação inversa. As alterações ortográficas a verificarem-se terão mais implicações em Portugal do que no Brasil que apenas terá que fazer pequenos ajustamentos. Os grandes sacrificados seríamos nós e mesmo assim duvido que o Brasil cumpra à letra o novo acordo.

 Nos dias de hoje a aprendizagem do português na escola do ensino básico já não se faz pelo método fonético mas pelo método global.  Parte-se da palavra que se decompõe em sílabas até chegar ao fonema. A simplificação ortográfica não faz qualquer sentido. Estou a lembrar-me que os ingleses escrevem farmácia e filosofia com ph ( pharmacy, philosophy ) , respeitando assim a origem grega das palavras. Se quisessem simplificar a grafia poderiam escrevê-las como nós com um (f ). Há também palavras em que a consoante  ( r ) não se pronuncia mas ela está lá e ninguém até hoje se lembrou de a eliminar. Isto são apenas exemplos de que a tradição e a origem das palavras têm muita força e nem sempre acompanham o ritmo do modernismo. Confesso que me vai ser difícil escrever ata em vez de acta, recetor em vez de receptor, ou ainda andamos em vez de andámos. Não vai ser fácil deitar para o caixote do lixo hábitos adquiridos durante toda a minha existência.

 

Este novo acordo ou reforma ortográfica nunca deveria ser implementada sem um estudo prévio feito por linguistas e  entendidos na matéria. Só no caso de uma maioria  qualificada se pronunciar favoravelmente é que se avançaria para a ratificação. Quanto a mim penso que me vai ser difícil adaptar a estas novas regras. Mesmo com a uniformização ortográfica continuarão a existir diferenças substanciais na língua portuguesa ao nível das variantes. No caso de ter de se ensinar português na Inglaterra ou na América,em escolas inglesas ou americanas, qual a variante que iria ser adoptada? O português do Brasil ou o de Portugal ?

 

Antes de se tomar uma decisão definitiva sobre a reforma ortográfica deveria reflectir-se sobre o impacto que a mesma vai ter para evitar consequências indesejáveis. Prudência e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

 

 

Francisco Martins

publicado por pontodemira às 21:15
link | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Janeiro 2020

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


.posts recentes

. A Desigualdade No Mundo

. As Ideias Políticas e Soc...

. Europa-Rússia-América: O ...

. REALIDADE E UTOPIA

. POVO VS DEMOCRACIA

. A Economia do Bem Comum

. NÓS CONTRA ELES ( O fraca...

. O DECLÍNIO DO OCIDENTE

. Cmo Revitalizar Uma Econo...

. Trump e a política anti-i...

.arquivos

. Janeiro 2020

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Outubro 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Setembro 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Outubro 2014

. Julho 2014

. Maio 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

blogs SAPO

.subscrever feeds