Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

A INDISCIPLINA NAS ESCOLAS

 

1-Durante todo o meu percurso escolar a autoridade dos professores e a disciplina na escolas nunca estiveram em causa. Na escola primária ( hoje primeiro ciclo do ensino básico) havia sempre o recurso à régua e à vara. Estes mesmos meios eram utilizados para avivar a memória quando se faziam perguntas de História, de Geografia de Portugal ou até para trautear a tabuada. Abusava-se do castigo corporal e os alunos menos dotados eram vítimas de verdadeiras humilhações.

 

2-No Seminário que frequentei dois anos, a pedagogia  não era muito diferente.  A disciplina era escolástica, exagerada e desproporcionada, sobretudo para crianças da faixa etária dos 10 a 14 anos. Recordo-me de um episódio que  me ficou gravado para sempre na memória. Aos domingos o despertar era mais tarde que os outros dias. Como a sineta nunca mais tocava levantei-me e dirigi-me à sala onde todos guardávamos a roupa em cacifos individuais. Quando tinha em meu poder as peças que precisava para tomar banho e me preparava para regressar à camarata fui interceptado pelo prefeito ( padre ) que dormia num quarto ao lado. Sem ter sido inquirido ou repreendido fui despachado escada abaixo à bofetada chegando ao ponto  de onde tinha partido mais rápido do que era normal. Na sala de estudo e nas aulas o método não era muito diferente. Na aprendizagem do latim ,que para crianças não era nenhuma pêra doce, as declinações tinham de ser cantadas sem erro para evitar que as mãos do professor entrassem em acção. No refeitório era o suplício de ter de ouvir em silêncio a leitura de textos que muitos vezes ninguém percebia ou ouvia mal dado que não existia instalação sonora. Quem falasse era de imediato castigado. Se alguém não se sentava direito à mesa lá vinha um murro a lembrar a posição correcta. E com este sistema não é de espantar que ao segundo ano dissesse adeus ao seminário

 

3-No ensino secundário frequentei um colégio particular ( Externato ). Não me lembro de haver casos de indisciplina. Em 1950 o ensino público não estava como hoje democratizado e eram poucos os que estudavam. A competitividade e rivalidade entre estabelecimentos era grande e cada um procurava obter os melhores resultados. Daí que se cometessem alguns excessos. Tive um professor de História que obrigava a despejar tudo o que estava no Compêndio. Se havia um hiato ou hesitação lá estava a mão a impor o ritmo. Ninguém se queixava em casa aos pais. Se estes não estavam contentes só lhes restava mudar os filhos para outro estabelecimento.

 

4-Na Escola do Magistério Primário, que preparava para a profissionalização no ensino básico a disciplina era a regra . Havia alguns casos pontuais como as aulas de Desenho e Trabalhos Manuais onde a postura não era tão rígida e os alunos podiam conversar descontraidamente e muitas vezes sair da sala de aulas sem que o professor desse conta. Tive no entanto um professor de Higiene que logo nas primeiras definiu para os alunos as regras do jogo: “ Se alguém estiver a dormir enquanto falo isso não me incomoda a menos que ressone. Dormir é uma necessidade fisiológica. Mas se for apanhado a conversar é punido com falta e vai para a rua.    E as aulas deste senhor eram chatas e monótonas e como decorriam a seguir ao almoço muitos colegas aproveitavam para dormir graças a tamanha generosidade.

 

5-Hoje a situação nas escolas é bem diferente. Passou-se de um extremo ao outro. É óbvio que sem ordem e disciplina não pode haver aproveitamento nas aulas.  A disciplina não pode porém ser imposta pela força mas na base do respeito e da autoridade que deve emanar do professor. A educação deve começar em casa e por vezes os pais não têm tempo para dialogar com os filhos nem para acompanhar o que se passa na escola. Quando intervêm fazem-no normalmente para desautorizar os professores. Longe vão os tempos em que, como dizia Frei Bento Domingos no jornal “ Público “, os pais reagiam ao castigo dos filhos dizendo: “ Só se perdem as que caem no chão”.

O Ministério da educação tem vindo há uns anos a esta parte a tomar medidas que longe de resolverem os problemas do ensino os têm agravado. Primeiro foram as facilidades no aproveitamento escolar. Só em casos extremos se devia reprovar um aluno. Quem o fizesse teria de justificar tudo através  de um relatório circunstanciado. Se um aluno não aprendia culpa era do professor. Como a palavra reprovação era um estigma inventou-se logo uma palavra mais soft para a substituir a que se deu o nome de “retenção”. Estas medidas tiveram apenas em vista, segundo os entendidos na matéria, melhorar as estatísticas do sucesso escolar de forma a ficarmos ao nível dos outros países desenvolvidos da Europa.

Para melhorar a disciplina na escola surgiram nos últimos tempos o Estatuto do Professor e do Aluno sobre o qual não me vou pronunciar porque  não li. Mas a disciplina nas escolas não se resolve com leis e despachos emanados do ministério. As escolas deveriam ter autonomia suficiente para criar elas próprias os seus regulamentos. Esses regulamentos deviam prever que, em casos devidamente especificados de indisciplina e má educação, os alunos pudessem ser expulsos das aulas pelos professores. Nada de histerias como o que vimos na televisão com o telemóvel que aluna se recusa a dar à professora.

Na minha modesta opinião o problema da disciplina escolar seria resolvido dando aos conselhos directivos mais autonomia e pedindo aos pais mais empenhamento na educação e acompanhamento dos filhos.

 

Francisco Martins

publicado por pontodemira às 09:12
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