Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

PADRE ANTÓNIO VIEIRA ( 4º Centenário do seu nascimento )

Comemora-se este ano o quarto centenário do nascimento do Padre António Vieira. Sendo um grande nome da Igreja e da Literatura portuguesa todas as homenagens que lhe sejam prestadas são inteiramente merecidas.  Vieira nasceu em Lisboa em 1608 e era filho de gente modesta: o pai  desempenhou o cargo de oficial público na Relação da Baía. Aos quinze anos de idade entrou na Companhia de Jesus e concluiu o sacerdócio em Dezembro de 1635.  Foi um grande orador-pregador e tornou-se famoso pelos sermões que fez e deixou escritos. Veio a Portugal três vezes tendo sido incumbido por D.João IV de tratar assuntos diplomáticos. Foi perseguido e preso pela Inquisição que não o via com bons olhos por defender os cristãos-novos e ainda pelas críticas à violência do Santo Ofício. O Padre António Vieira foi ainda atacado e odiado pelos colonos que não gostavam da maneira como ele protegia e defendia os indígenas.  Em  18 de Julho de 1697 morreu na Baía com a proveta idade de  89 anos.

 

Personalidade dinâmica e multifacetada, do seu currículo constam inúmeras actividades. Foi Missionário, Escritor, Pregador, Político e diplomata e até Profeta messiânico. Batalhador incansável nunca desistiu do combate pelas grandes causas que defendia. Não poupava os grandes e protegia incansavelmente os pobres e desprotegidos. A sua voz foi incómoda para muita gente mas nunca se inibiu de criticar o que via de errado na sociedade defendendo com vigor e coragem os direitos do homem.

 

O missionário. Uma grande parte da sua vida foi dedicada às missões. Foi colocado no Maranhão e aí percorreu milhares de quilómetros a pé e de canoa através do rio Amazonas e dos afluentes Madeira e Tocantins. Para melhor comunicar com os indígenas aprendeu o tupi-guarani e chegou mesmo a redigir um catecismo nessa língua.

Foi um defensor e protector dos índios e dos escravos que eram tratados e explorados miseravelmente pelos colonos.

 

O Político e Diplomata. Com a Restauração da Independência , Vieira veio a Portugal comunicar a adesão do Brasil a D.João IV. De tal maneira agradou ao rei que passou a ser seu conselheiro tendo sido encarregado de várias missões diplomáticas : negociação da paz com os holandeses e casamento do príncipe herdeiro de Portugal D.Teodósio( primeiro com uma princesa francesa e depois com a filha do rei Filipe IV).  Em 1650 partiu para a Itália negociar a entrada dos judeus em Portugal dado que estes tinham muito dinheiro e constituíam uma mais-valia para o nosso país. Denunciou também junto do Papa as irregularidades do Santo Ofício.

 

O Profeta Visionário e Messiânico. Para Vieira o “ Encoberto “ das Trovas do Bandarra era o Rei de Portugal, D.João IV que iria derrotar os turcos e reunir toda a cristandade num grande Império ( Quinto Império ). Anteriormente tinha havido quatro impérios: 1º-o dos assírios; 2º- o dos persas ; 3º- o dos gregos ; 4º- o dos romano.

Como D. João IV morreu sem ter realizado o seu sonho, Vieira admitiu a ressurreição de D. João IV . Como tal não se verificou transferiu essa tarefa sucessivamente para o príncipe reinante D.Afonso  ( que era doente e foi deposto ) e depois para o infante D.Pedro que o substituiu. Estas teorias proféticas e messiânicas estão expressa em dois livros:  Quinto Império do Mundo, Esperanças de Portugal e  Clavis Prophetarum.

 

O Escritor e Orador. Vieira escreveu para cima de 200 sermões e inúmeras Cartas além das obras de carácter messiânico atrás referidas. Mas foi sobretudo nos sermões que mais se distinguiu. Orador eloquente falava com clareza e precisão usando com mestria e propriedade as palavras. Os sermões tinham sempre como tema a Sagrada escritura e eram sempre desenvolvidos através de contínuas citações bíblicas .A invejável formação  humanística que possuía permitia-lhe um domínio completo do latim e dos autores clássicos. Usava com perfeição a dialéctica como arte de convencer e persuadir. Na estrutura de um sermão podemos distinguir três partes principais: introdução  ou explicação sumária do tema ; desenvolvimento ou demonstração do assunto ; e  conclusão ou remate do discurso.

Os sermões do Padre António Vieira versam os mais variados assuntos: aspectos de circunstância relacionados com a vida nacional , panegíricos, temas religiosos, sociais e patrióticos.

No século XVII predominava o gongorismo e o estilo “ cultista “ que consistia no uso palavroso e oco de vocábulos que tornavam o discurso obscuro e difícil de entender.  Vieira não só critica esse estilo como dita normas :

  O  estilo há-de ser muito fácil e muito natural…O tal estilo culto não é escuro, é negro e negro e boçal e muito cerrado. É possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador português e não havemos de entender o que diz ?  Diz ainda que” o sermão há-de ter um só assunto e uma só matéria. Há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes. Sermões há que não são comédia são farsa. ( Sermão da Sexagésima )

Quando os holandeses invadem o Brasil vem o patriotismo de Vieira ao de cima. Revoltado e chocado com tudo o que vê chega a invectivar Deus desempenhando um papel semelhante ao de Moisés dialogando com Jeová em nome do povo eleito. No conhecido Sermão “ Pelo Bom sucesso das Armas de Portugal contra as da Holanda “ diz o seguinte, que passo a citar:

Todos estes dias se cansaram debalde os oradores evangélicos em pregar penitência aos homens; e pois eles se não converteram, quero eu, Senhor converter-vos a vós . Tão presumido venho de vossa misericórdia, Deus meu, que ainda que nós somos os pecadores, Vós haveis de ser o arrependido . O que venho a pedir ou protestar, Senhor, é que nos ajudeis e nos liberteis. “  E continua no mesmo tom veemente : “ Abrasai, destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que alguns dia queirais Espanhóis e Portugueses , e que os não acheis. “  Com esta argumentação Vieira parece querer convencer Deus que errou ao permitir aos holandeses tantos desacatos.

 

Um outro tema que encontramos nos Sermões tem a ver com os maus tratos de que eram vítimas os escravos negros e os índios. Alvo fácil da cobiça dos colonos eram submetidos a condições  degradantes . Isto não passava à margem do padre jesuíta como se pode ver nos desabafos que passo a transcrever, extraídos do Sermão Vigésimo Sétimo : “ Oh trato desumano , em que a mercancia são homens ! Oh mercancia diabólica, em que os interesses se tiram das almas, e os riscos das próprias !........ Os senhores poucos e os escravos muitos; os senhores rompendo galas, os escravos despidos e nus; os senhores banqueteando, os escravos perecendo à fome; os senhores nadando em ouro e prata, os escravos carregados de ferros……”

Admitindo o cativeiro dos negros vindos de África( considerado legal ) e não o dos índios( ilegal ) acrescenta Vieira : “ Bem sei que alguns destes cativeiros são justos, os quais só permitem as leis, e que tais se supõem os que no Brasil se compram e vendem, não dos naturais, senão dos trazidos das outras partes: mas que teologia há ou pode haver que justifique a desumanidade e sevícia dos exorbitantes castigos com que os mesmos escravos são maltratados ? “

 

Também no tempo de Vieira havia ladrões e corruptos. Tal como hoje o estigma recaía apenas sobre os mais pobres. Assim , havia uma distinção entre bons e maus ladrões. Os bons eram naturalmente os grandes senhores que podiam roubar à vontade pois isso era inerente ao seu estatuto. Para documentar este assunto vou transcrever alguns excertos extraídos do “ Sermão do Bom Ladrão “ :  Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: “ Basta, Senhor, que eu porque roubo em uma barca sou ladrão e vós que roubais em uma armada sois imperador ? “ Assim é, diz Vieira. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza.. E mais à frente cita outro exemplo.  Diógenes que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: “ Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos “  E não fica por aqui dando ainda outro exemplo: “Encomendou el-rei D.João o Terceiro a S.Francisco Xavier o informasse do estado da Índia por via de seu companheiro, que era mestre do príncipe: e o que o Santo escreveu de lá, sem nomear ofícios, nem pessoas, foi, que o verbo rapio na Índia se conjugava por todos os modos “

Para Vieira o rei tem por dever  corrigir os desmandos dos ladrões obrigando-os a restituir o que roubam. De contrário,em vez de ser o rei a levar para o paraíso o ladrão será o ladrão a levar o rei para o inferno.

 

Muito mais haveria para dizer sobre sobre a a vida e obra deste clássico da Literatura Portuguesa. Dá no entanto para perceber que Vieira foi um génio da oratória sacra e que ainda hoje nos entusiasma pela clareza, vigor e força das suas palavras.

 

 

Francisco Martins

 

 

 

 

 

 

publicado por pontodemira às 23:23
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