Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008

Dos primórdios do ateísmo ao Estado laicista

1-O Papa Bento XVI foi recentemente convidado para discursar na inauguração do ano lectivo da Universidade de La Sapienza de Roma. Segundo imagens que a televisão mostrou um grupo de alunos manifestou-se ruidosamente  o que levou o Papa a cancelar a referida visita. Através de dados que colhi na imprensa portuguesa tendo como fonte os jornais italianos foram 67 os professores que pediram o cancelamento da visita num universo de 2000. No protesto participaram 300 alunos considerados” antiglobalização” ou anarquistas. A iniciativa do boicote partiu de um professor jubilado de física, ex-comunista dissidente e veterano do anticlericalismo. Quase toda a imprensa italiana reprovou o facto considerando-o de pura “ cretinice “ política.  Atitudes destas não são únicas e mostram-nos uma juventude sem referências religiosas nem valores morais apostadas em hostilizar pessoas e criando situações de radicalismo e intolerância. É notória uma certa tentativa para a secularização da sociedade com a proliferação de literatura ateia e anti-religiosa.

 

2- O ateísmo não é de hoje e tem raízes profundas na História. Na antiguidade greco-romana temos ainda um ateísmo incipiente de carácter atomisto-mecanicista. Tudo se reduz à realidade material e sensível. A matéria é constituída por átomos ou partículas indivisíveis. A alma também é formada por partículas corpóreas difundidas por todo o corpo. A morte leva à dissolução do corpo e também da alma. Para Epicuro a felicidade consiste no prazer e uma das vias para lá chegar é eliminar o medo da morte e o temor dos deuses. Os deuses viviam longe no Olimpo sem se preocuparem nem interferirem na vida dos humanos. Quanto à morte , Epicuro tem esta expressão: “ O mais terrível dos males,a morte, não é nada para nós porque quando existimos nós não existe a morte, quando existe a morte não existimos nós “ Lucrécio é um continuador de Epicuro e não acrescenta nada de novo à sua filosofia.

O verdadeiro caminho para o ateísmo começa com o racionalismo iluminista no século XVIII. A razão , a Ciência e o progresso ocupam o lugar de Deus. Os ideais libertários da revolução francesa e a literatura panfletária dos Enciclopedistas  dos quais convém destacar Voltaire, criaram um clima anticristão e anticlerical.

No século XIX aparece o ateísmo revolucionário e político. Dos principais vultos deste movimento ,e na impossibilidade de me referir a todos, passo a destacar os seguintes: Feurbach, Nietzsche e Marx.

Para Feurbach Deus é apenas uma projecção idealizada do que o Homem gostaria de ser e não é. Deus é assim uma criação ou invenção do homem.

Nietzsche proclama a morte de Deus e em vez d’Ele cria o Super-Homem. A Religião, a Moral, a Política são máscaras de que o homem se deve libertar. O verdadeiro valor está no que é terreno, corpóreo e anti-espiritual.

Com Karl Marx vem a consagração do materialismo. Tudo tem origem na matéria e tudo a ela se reconduz. Não há lugar para Deus nem para a Alma separada do corpo. Esta filosofia leva ao materialismo dialéctico e ao materialismo histórico. No primeiro é a matéria que através de negações sucessivas ( movimento dialéctico ) chega ao estado actual ;  no segundo são as relações económicas e a luta de classes que determina a História. O Marxismo considera ainda a Religião como uma alienação, ou seja algo em que o homem se perde sem qualquer resultado prático. Ideias e Filosofia ( teoria )  só fazem sentido quando se convertem em acção ( praxis ) e  de algum modo contribuírem para a transformação social.

No século XX aparece o existencialismo ateu protogonizado por Heidegger e Sartre. O existencialismo entende que é  a existência que determina a nossa essência, a moral e o que somos. Para Sartre a existência é liberdade sem limites nem condicionalismos morais ou religiosos.  Nada mais há senão a nossa existência concreta e por isso há que aproveitar a vida ( profiter  la vie )

Heidegger diz que “ o homem apesar de contingente e limitado, é o único que existe e para além dele nada há.

Recentemente tem aparecido no mercado livreiro uma vasta gama de literatura ateísta cujo objectivo principal é o negócio lucrativo. Os nomes mais destacados deste tipo de literatura são : DawKins e Hitchens. O primeiro recorre à teoria evolucionista e à selecção natural de Darwin para provar a inutilidade de Deus ; o segundo fazendo uma interpretação literal  e descontextualizada da Bíblia procura atingir os mesmos objectivos.

 

3-Um dos assuntos que hoje tem sido posto em evidência é o das relações do Estado e da Igreja. Penso que todos estão de acordo que o Estado deve ser laico sem ingerência na esfera religiosa. Mas a atitude é diferente quando há uma política laicista que procura abafar as tradições e os símbolos religiosos e impede a Igreja de transmitir os seus valores e a sua doutrina na escola ou em locais públicos.

 

4-Nos tempos que correm vamos assistindo um pouco por todo o lado a manifestações de intolerância e  de fundamentalismo religioso. Se o homem não é o “ bom selvagem” de Rousseau também não é o “ lobo do homem “ de Hobbes.  Na aceitação das diferenças e no respeito mútuo, crentes  não crentes, podem e devem colaborar na construção de um mundo melhor. As grandes causas da Humanidade como a Paz, o combate à pobreza e à miséria cabem a todos sem distinção de credo ou ideologia.

 

FRNCISCO MARTINS

 

 

publicado por pontodemira às 20:20
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