Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2011

A LIBERDADE RELIGIOSA EM CAUSA

Algumas comunidades cristãs minoritárias sedeadas na Ásia, África e Médio Oriente estão a ser alvo de atentados, discriminações e até de sequestros. No dia 30 de Outubro de 2010 uma igreja de Bagdad  foi atacada tendo perdido a vida 52 católicos iraquianos. E não se ficou por aqui pois no dia seguinte foram também lançadas bombas contra casas de residentes católicos. Em Alexandria, no Egipto , à saída da Missa de Ano Novo foram atacados cristãos coptas, tendo morrido 23 pessoas e ficado ferido um número considerável de outras. É curioso que estas comunidades se instalaram nesses países no primeiro século do cristianismo. Quer isto dizer que a religião islâmica só surgiu cinco séculos depois.  Mas os casos de atentados não ficam por aqui. Na Índia são frequentes os ataques de hindus às comunidades cristãs. No Paquistão uma mulher cristã de nome Asia Babi foi acusada de blasfémia e condenada à morte. Soube ainda pela revista dos missionários Combonianos, Além-Mar, que na China alguns bispos foram sequestrados nas suas dioceses e levados à força a fim de participarem numa assembleia de cariz politico-partidária.  Estão também a ser consagrados bispos impostos pelo governo chinês sem mandato papal, violando assim a disciplina católica. Há ainda outros exemplos de cristãos que vivem na Terra Santa ou no Golfo Pérsico e que não podem manifestar publicamente a sua fé pois sofrem perseguições e humilhações de toda a ordem. Estas situações são um verdadeiro drama para muitas pessoas que são obrigadas a emigrar e a procurar outras terras de acolhimento. Tudo isto se passa no século XXI onde há Estados que desconhecem os direitos e as liberdades fundamentais dos cidadãos. Por outro lado, vivemos numa época em que os países mais poderosos, nas suas relações diplomáticas, olham mais para os seus interesses económicos e para as suas conveniências, esquecendo as violações dos direitos humanos,que procuram não ver para não criar atritos.

Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz 2011 o Papa Bento XVI abordou o tema “ A liberdade religiosa com caminho para a Paz”. É um texto muito bem escrito, estruturado em princípios éticos e morais que fundamentam a liberdade religiosa e  o direito à vida espiritual sem os quais não pode paz. O homem como ser espiritual   pode abrir-se ao transcendente conseguindo encontrar um sentido para a sua vida e dotar-se de valores e princípios éticos duradouros.  Por isso é ilusório pensar que o relativismo moral e o laxismo sejam a base de uma sociedade pacífica. O Papa destaca ainda o papel da família fundada na complementaridade entre um homem e uma mulher na formação e crescimento social, cultural, moral e espiritual dos filhos.

Sobre a liberdade religiosa Bento XVI diz ainda que” o ordenamento internacional reconhece ao direito de natureza religioso o mesmo status do direito à vida e à liberdade pessoal, comprovando a sua pertença ao núcleo essencial dos direitos do homem, àqueles direitos universais e naturais que a lei humana não pode jamais negar.  “  Deste modo ninguém deve ter medo nem ser impedido de professar em privado ou publicamente a fé que pratica.  O Papa condena ainda todas as formas de fundamentalismo contrárias à dignidade humana . A religião não pode ser “ instrumentalizada ou imposta pela força.  Bento XVI diz ainda que a laicidade do Estado é incompatível com o fundamentalismo religioso que pela violência procura impor ou negar a religião. Critica também o laicismo que procura secularizar a sociedade esvaziando-a de valores e símbolos religiosos.

 

Pensando bem é inacreditável que nos dias de hoje haja pessoas dominadas pelo obscurantismo religioso e se proponham a impor aos outros regimes de terror e de opressão. Como é que dentro do islamismo- religião monoteísta como o cristianismo e do judaísmo- existam pessoas que acreditam num Deus só para eles e que ainda por cima é vingativo, castigador e implacável para os que não seguem a Sharia.  Não faz sentido que pessoas que acreditam em Deus se relacionem pelo ódio e pela vingança quando a religião poderia ser uma excelente plataforma para o entendimento e para o diálogo. È incompreensível que na Terra Santa onde Jesus pregou o Amor haja cristãos impedidos de manifestar a sua fé e de fazer uma vida normal. Todos sabemos que no passado os cristãos também cometeram erros. Estou a lembrar-me , entre outros, da Inquisição e das Cruzadas Mas a Igreja soube reconhecer as suas culpas e hoje apela insistentemente ao diálogo inter-religioso. Enquanto a Europa soube evoluir no sentido da tolerância religiosa noutros continentes como na Ásia e na África os cristãos são obrigados a viver na clandestinidade.  Num passeio que fiz à Turquia soube que o Estado não autoriza a construção de igrejas cristãs e as poucas que existem estão isoladas e quase não se dá por elas. Esta discriminação choca e fere na sua dignidade os cristãos que se vêm desta forma humilhados.

Para se chegar à paz o melhor caminho é sem dúvida o da liberdade religiosa. Nada melhor para terminar do que transcrever as palavras de Bento XVI na parte final da sua exortação : “ Uma sociedade reconciliada com Deus está mais perto da paz, que não é simples ausência de guerra, nem mero fruto de predomínio militar ou económico e menos ainda de astúcias enganadoras ou de hábeis manipulações. Pelo contrário, a paz é o resultado de um processo de purificação e elevação cultural, moral e espiritual de cada pessoa e povo, no qual a dignidade humana é plenamente respeitada……Que todos os homens e as sociedades aos diversos níveis e nos vários ângulos da terra possam brevemente experimentar a liberdade religiosa, caminho para a paz ! “

 

FRANCISCO  MARTINS                 

 

 

publicado por pontodemira às 22:27
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