Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

Algumas notas sobre a cimeira Europa.África

Realizou-se recentemente em Lisboa a cimeira Europa-África. Todos ao órgãos de comunicação deram uma cobertura destacada do acontecimento apresentando reportagens e entrevistas com as figuras políticas mais importantes. Ficámos a saber que os chefes de Estado africanos se instalaram em hotéis de luxo com excepção de Kadafi que para dar nas vistas resolveu hospedar-se numa tenda que trouxe expressamente para o efeito. Quando tantos africanos vivem na miséria e morrem à fome estes  gastos sumptuários são escandalosos e um verdadeiro escárnio à pobreza.

Sempre que falamos de África vem-nos à memória  um continente pobre e subdesenvolvido com doenças que se tornaram endémicas e com índices elevados de mortalidade infantil. Falar de África é abordar problemas relacionados com os direitos humanos, com o poder político e com o desenvolvimento económico e social.

Os direitos humanos são sistematicamente  violados na maioria dos países africanos. Como exemplos podemos citar o tráfico de mulheres e crianças, o trabalho infantil e a exploração sexual de mulheres e crianças.

O poder político é normalmente corrupto e tende a perpetuar-se no poder. Dos 53 chefes de Estado africanos 12 estão a governar há mais de 20 anos, 2 são octagenários e 14 superaram os 70 anos ( dados recolhidos da revista Além Mar ) . O apego ao poder justifica-se pelo desejo de acumular riqueza e prestígio. Por isso se procuram todas as formas de impedir a limitação de mandatos. O presidente do Zimbabué, Robert Mugabe foi um dos políticos apontados a dedo por ser um ditador e não respeitar os direitos humanos e as liberdades individuais. O facto é que os responsáveis políticos do Congo, Angola, Sudão, Ruanda, Etiópia, Eritreia e da Somália poderiam também ser metidos dentro do mesmo saco.

A África possui imensos recursos naturais. O subsolo é rico em diamantes, petróleo, ouro e minérios. Como é possível que haja tanta pobreza,miséria e subdesenvolvimen- to ?! A explicação é simples. O dinheiro proveniente da venda de matérias primas como o petróleo vai engordar as contas bancárias dos dirigentes corruptos. Os grandes senhores da política não investem nos seus países mas na Bolsa de Nova Iorque e nos Bancos Suíços. As multinacionais como a Nestlé fixam os preços dos produtos a um nível tão baixo que por vezes não cobrem os custos de produção. Acresce ainda que a agricultura africana tem dificuldade em competir com a sua congénere europeia que em determinados sectores é altamente subsidiada pelo Estado.  O relator das Nações Unidas Jean Ziegler (1 )  põe o dedo na ferida e vai mais longe ao dizer o seguinte:  Na maioria dos países do continente ( africano ), como se sabe a acumulação de capitais é fraca, o produto dos impostos quase inexistente e os investimentos públicos deficientes.No espaço de um ano ( de 2002 a 2003 ) o número de milionários em dólares oriundos de um ou outro dos 52 países de África aumentou 15% .Já são mais de 100 000. Os africanos ricos detêm hoje, acumulados, haveres privados que se elevam a 600 milhares de milhões de dólares, contra 500 milhares de milhões em 2002….. O desemprego permanente e maciço destrói as famílias.  Entre os predadores das economias africanas encontra-se uma maioria de altos funcionários, ministros e presidentes autóctones. “

Acho que esta análise é suficientemente esclarecedora e diz muito sobre a estagnação económica nos países africanos. Segundo as estatísticas 70% da população vive com menos de dois dólares por dia. Há mesmo quem entenda que , para salvar a Àfrica do subdesenvolvimento, seria necessário um novo Plano Marshall à semelhança do que aconteceu na Europa após a 2ª guerra mundial.

O fluxo migratório de Àfrica para a Europa veio também trazer problemas relacionados com a integração, que, em países como a França, são uma autêntica dor de cabeça para o governo. A miragem do emprego fácil não passa na maior parte dos casos de uma ilusão que conduz ao desespero e por vezes a actividades criminosas.

As organizações terroristas como a Al-Qaida escolheram a  África como terreno privilegiado para montar as suas bases logísticas e iniciar ataques aos países que estão nas sua lista negra. Tudo isto com a complacência dos países africanos muçulmanos que fecham os olhos e os deixam manobrar à vontade.

Finalmente há também uma questão que considero delicada e tem a ver com o colonialismo. Quando se deu o movimento de libertação das colónias, os portugueses foram corridos como exploradores sendo responsabilizados pelo atraso e subdesenvolvimento dos referidos territórios. A África como diziam os negros era dos africanos e os brancos estavam a mais. Hoje as coisas não melhoraram e estão piores do que estavam com a agravante de ainda termos que dar trabalho aos que nos procuram para sobeviver. Imaginemos agora que seguíamos a mesma filosofia e dizíamos aos africanos que a Europa é dos europeus e não havia lugar para eles em Portugal.

O estigma da colonização recaiu inteiramente sobre os portugueses quando outros países europeus foram tão colonialistas ou mais do que nós. Então a Inglaterra, a França, a Espanha não foram colonialistas ? Os colonos ingleses e irlandeses que se instalaram na América do Norte não dizimaram quase por completo os índios para se apoderarem do território ? As sequelas da descolonização ainda estão bem presentes e a verdade é para se dizer. Claro que houve bons e maus colonos. Mas os bons deixaram todos os seus haveres e tudo o que honestamente ganharam com muito suor e trabalho. E tiveram de começar do zero uma nova vida em Portugal.

Espero que a cimeira de Lisboa se traduza em resultados positivos para os africanos porque a política espectáculo só por si não resolve coisa nenhuma.

 

1-O Império da Vergonha- Jean Ziegler ( edições Asa )

 Francisco J. Santiago Martins

  

 

publicado por pontodemira às 19:40
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