Sábado, 8 de Dezembro de 2007

Modos diferentes de ler a Bíblia

 

Estamos a chegar ao Natal e hoje apetece-me falar sobre a Bíblia. Os comentários a um blog anterior que fiz sobre o ateísmo tornam oportuno abordar este tema.

A Bíblia é provavelmente o livro mais lido no mundo. A palavra Bíblia tem origem no termo grego biblion ( livro ). É costume dividi-la em dois grandes grupos : Antigo Testamento ou Primeiro Testamento e Novo Testamento ou Segundo Testamento.

O Antigo Testamento é a história do povo Judeu e das suas  vicissitudes ao longo dos séculos.  A língua original do primeiro texto foi o hebraico. Segundo o Padre Carreira das Neves os livros do AT podem ser agrupados em quatro grandes conjuntos:  Legislativos ( ex. Deuteronómio ), Históricos ( Génesis ) Proféticos ( Ex. Isaías ) e Literatura ( sapienciais ex. Eclesiates e de oração ex. Salmos ).

O Novo Testamento é a história de Jesus que se fez homem e indicou aos judeus do seu tempo através do seu exemplo e dos seus ensinamentos o verdadeiro caminho para Deus. O Deus abstracto do AT é agora com Jesus um Deus humano que está ao lado dos pobres e de todos os que sofrem. Os livros do NT podem também ser agrupados em três conjuntos: Históricos ( ex.Evangelhos) , Proféticos ( Apocalipse ) Literatura (ex.Cartas).

A Bíblia no seu conjunto engloba diferentes géneros literários: mito, saga, poesia, romance, carta, ensaio, evangelho, apocalipse e história. Assim, na interpretação da bíblia têm de se considerar todos estes elementos.

No século II a.c. durante o período helenístico dada a predominância da língua grega a bíblia hebraica foi vertida para o grego por 70 sábios judeus durante 70 dias e passou a chamar-se Septuaginta. Na  idade Média S. Jerónimo traduziu-a para latim passando a chamar-se Vulgata. Os livros que fazem parte do texto grego e não constam do texto hebraico designam-se por Deuterocanónicos. O livros comuns aos dois textos são designados por Protocanónicos.

Durante muitos anos vi na Bíblia um relato fidedigno de acontecimentos. À medida que fui amadurecendo culturalmente comecei a notar certas contradições ou factos que não jogavam certos com a ciência actual. Como conciliar por exemplo a criação do homem com a teoria evolucionista que aponta para o crescimento da vida em etapas cada vez mais complexas e por selecção natural até chegar ao Homem. Quando Josué mandou parar o sol ( Js 10,12-15 ) há aqui uma contradição evidente com a teoria heliocentrista. É que o Sol não anda mas sim a Terra. A criação da Terra em sete dias também não joga certo com a ciência moderna pois ela também foi produto de uma longa evolução durante milhões de anos até chegar ao estado actual. Então como explicar tudo isto. Antes de mais é preciso contextualizar os acontecimentos. Os textos foram escritos para povos de uma determinada época e de uma determinada cultura inseridos num local geográfico bem definido. A ciência desconhecia ainda muitas coisas e explicava de acordo com os conhecimentos da época. O autor bíblico não pretendeu fazer um registo fotográfico de acontecimentos mas explicar o poder de Deus e a sua presença na História. Para os judeus, Deus está sempre presente e nunca abandona o seu povo. Foi Ele que protegeu os judeus da fúria e perseguição do faraó e os conduziu à Terra Prometida. É o Deus que liberta o seu Povo da escravidão do Egipto. Saber se, no Êxodo, as pragas do Egipto ou a divisão das águas do Nilo são realidade ou ficção não me parece que seja importante. O que o autor quis dizer foi que sem a ajuda e a colaboração de Deus seria difícil aos judeus libertarem-se dos seus opressores.

Chegados aqui levanta-se a questão da hermenêutica bíblica ou seja dos problemas relacionados com a sua interpretação. Ainda hoje há pessoas e cristãos como os neopentecostais americanos que interpretam literalmente a Bíblia. Acreditam na teoria criacionista  segundo a qual há uma intervenção directa e imediata de Deus na criação de tudo quanto existe e se passa no Universo. A criação do céu e da terra do homem e da mulher é exactamente como vem descrita na Bíblia. Se alguma coisa não joga certo com a ciência é esta que está errada. São os chamados fundamentalistas.Ora a Religião de forma alguma pode estar contra os dados da Ciência. Deus não quer nem pode querer a nossa ignorância. Os avanços da Ciência não conseguem nunca responder ao sentido último do Mundo e do Homem .

Uma outra forma de estudar a Bíblia é através do método histórico-crítico interpretando o sentido literário e recorrendo às fontes externas e internas de cada livro ou secção. Este estudo é feito com apoio da filologia, arqueologia, história das religiões e da sociologia. Os diferentes modos da criação em Gn 1 e em Gn 2 foram apurados por este método.

Nenhum método é único no estudo da Bíblia. Nos comentários à Bíblia ( ed. Expresso) o Padre Carreira das Neves diz que a Bíblia se deve entender como. uma interpretação teológica da história. Com isto quer significar que em todos os textos está subjacente a fé em Deus “ Pai da família humana que n ´Ele  acredita “.

Para terminar queria abordar os milagres realizados por Jesus que alguns contestam. Todos sabemos pelos Evangelhos que Jesus operou factos prodigiosos que deixaram as pessoas que os viram estupefactas. Isto não quer dizer que todos os milagres tenham a mesma consistência histórica. E passo a citar o Padre Carreira das Neves ( volume 10, pag 64 ed. Expresso) : “ Os crentes, só por serem crentes, não devem cair no erro, aliás comum de tudo lerem e compreenderem como histórico, caindo no fundamentalismo e concordismo. Curar coxos , cegos, surdos, leprosos, doentes mentais não é a mesma coisa que ressuscitar mortos, caminhar sobre as águas do “ mar “, multiplicar milhares de pães e peixes a partir de dois ou três, transformar a água em vinho. Jesus não era nenhum mago ou malabarista. “ Podemos então inferir , concluo eu, que muitos milagres sobretudo os que subvertem as leis da natureza são apresentados com fins simbólicos ou preocupações teológicas. Ou citando outra fonte  ( padres Dehonianos ) alguns milagres poderiam ter sido redigidos como “ representações antecipadas do Cristo glorioso “

Para terminar direi que a Bíblia tem de ser lida com fé pois também foi com fé que os seus autores a escreveram.

 

Francisco Martins

 

 

 

publicado por pontodemira às 19:53
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