Segunda-feira, 27 de Junho de 2022

A TIRANIA DO MÉRITO

 

Este é o título de um livro escrito por Michael .J. Sandel professor de filosofia na universidade de Harvard. Nele abordou como tema o mérito que em países como os Estados Unidos da América se está a transformar em tirania. Para ele há três formas de entrar nas universidades de elite nos EUA : Yale, Stanford, Georgetown e na Universidade da Califórnia do Sul. Os que têm muito dinheiro e fazem uma grande doação à universidade mesmo que sejam pouco qualificados entram pela « porta das traseiras » Os que se servem de testes falsificados e de fraudes nos exames de admissão entram pela « porta lateral ».  Finalmente os que têm mérito próprio e bom desempenho nas provas de aptidão entram pela «porta da frente ». Aqueles que conseguem tirar um curso em universidades de elite ficam no topo da pirâmide e arranjam  um bom emprego. Os que têm apenas o ensino liceal ficam na base sem grandes saídas. É fácil distinguir aqui vencedores e perdedores. No alto da pirâmide estão os arrogantes que devido ao seu mérito tratam os de baixo com desprezo e humilhação. Temos assim uma meritocracia que pode provocar na sociedade efeitos nocivos como a arrogância e o ressentimento. A isto chama o filósofo Sandel a « Tirania do Mérito ». É claro que  a globalização e as novas tecnologias vieram agravar as desigualdades sociais  beneficiando os que estão no topo e lançando no desemprego os menos credenciados. Os trabalhadores aproveitam muitas vezes esta situação para atacar os imigrantes e as elites governantes. Daqui nasceram os partidos populistas que procuram agradar aos descontentes prometendo mundos e fundos que depois não vêm a cumprir. Uma vez no poder subvertem  as instituições democráticas e passam a ditadores ou autocratas. A Tirania do Mérito é em primeiro lugar fruto da desigualdade desenfreada e da mobilidade geral estagnada que desmoraliza os que foram deixados para trás ; em segundo lugar um diploma universitário é a principal via de acesso a um emprego respeitável e a uma vida decente ; em terceiro lugar insistir em que a melhor forma de resolver os problemas sociais e políticos consiste em recorrer a peritos altamente qualificados e imparciais é um conceito que corrompe a democracia e priva de poder os cidadãos. É preciso entender que o mérito se deve aos talentos inatos e como diz Sandel o nosso destino não está apenas nas nossas mãos e o devemos à graça de Deus ou aos caprichos da fortuna ou ao simples acaso, tanto o nosso sucesso como os nossos problemas.

Numa sociedade democrática que trabalha para o bem comum todos são necessários: electricistas, canalizadores, carpinteiros, etc.  Todos eles são aptos para a arte do debate democrático pois não são menos do que aqueles  que querem ser consultores de gestão. Uma comunidade justa e equilibrada só se consegue através de um justiça distributiva em que os grandes rendimentos e fortunas sejam tributados com impostos progressivos para que todos os cidadãos possam ter direito à saúde, à educação e a um emprego digno. Mas também é necessário uma justiça contributiva em que todos trabalhem e colaborem para o bem comum através de salários dignos. 

Na parte final do livro Sandel conclui o seguinte: « A crença meritocrática de que as pessoas merecem todas as riquezas que o mercado lhes outorgam em razão das suas capacidades torna a solidariedade uma proposta quase impossível.  Por que razão as pessoas bem sucedidas devem alguma coisa aos membros menos favorecidos da sociedade ?    A resposta a esta pergunta depende de reconhecermos que, por muito que nos esforcemos, não somos completamente autossuficientes ; viver numa sociedade que aprecia os nossos talentos é um caso de fortuna e não mérito próprio. Um sentido agudo das contingências da vida pode inspirar uma certa humildade : « Poderia ter sido eu, se a graça de Deus ou as circunstâncias do nascimento não tivessem decidido de outra maneira »   Tal humildade é o início do caminho que nos traz de volta da ética brutal do sucesso que nos separa. Aponta para além da tirania do mérito, para uma vida pública menos rancorosa e mais generosa.»

publicado por pontodemira às 17:41
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