Domingo, 9 de Janeiro de 2022

VIVO ATÉ À MORTE

 

Este é o título de um livro de que é autor Paul Ricoeur que começou a escrever em 1996 e acabou um mês antes da sua morte. Quem é Paul Ricoeur ?  É um filósofo que fez o doutoramento em Sorbonne e deu aulas como professor em Strasbourg, Paris e Chicago . A sua actividade como filósofo e pensador começou no período que se seguiu à 2ª Guerra Mundial. O seu nome está ligado ao pensamento filosófico da hermenêutica mas também à filosofia da vontade, à ética, à antropologia filosófica, à epistemologia das ciências humanas, à filosofia do tempo e da narratividade. Ficou órfão prematuramente e acabou por ser criado pelos avós que eram protestantes. Deles herdou a crença na religião. Foi cristão ao longo da sua vida e aluno de Gabriel Marcel e de Emmanuel Mounier. Morreu em Paris em maio de 2005 com 92 anos de idade.

O livro Vivo até à Morte é constituído por 2 textos e 2 fragmentos. Todos eles são meditação sobre a morte.

1º texto  Até à morte : do luto e da boa disposição. Quando alguém desaparece uma questão surge e ressurge obstinadamente. Existirá ainda ? E onde ? Em que lugar ? Que espécie de seres são os mortos ? Todas as respostas dadas pelas outras culturas relativamente à sobrevivência dos mortos inserem-se nessa questão não posta em causa : passagem a um estado de ser, expectativa de ressurreição, reencarnação ou para espíritos mais filosóficos, alteração do estatuto temporal , elevação a uma eternidade imortal. Paul Ricoeur associa também a morte  à mortalidade ao dever-morrer um dia e ao ter de morrer. A ideia que morrerá necessariamente um dia, não sabendo quando nem como, veicula uma certeza( mors certa , hora incerta )  . À ideia de  morte Ricoeur associa também a de agonizante e a de moribundo. A tese ricoeuriana é a de que até à morte está-se sempre vivo e mesmo aquele que agoniza com a proximidade da morte deve ser visto e respeitado como vivente. Diz ainda que  luta contra o imaginário do morrer ligado ao olhar do espectador para quem o agonizante é um moribundo. Toda esta reflexão sobre o morrer e sobre o após-vida ( a ressurreição) passa pela meditação de 2 textos escritos por 2 sobreviventes dos campos de concentração ( Jorge Semprun Primo Levi). Na origem de muitas mortes está o Mal. Não é a morte que tem maiúscula mas o Mal, quando o contágio é extermínio, isto é programa de morte organizado pelo Malvado.

2º Texto A morte.   Paul Ricoeur diz-nos que a morte é verdadeiramente o fim da vida no tempo comum dele, enquanto vivente, e daqueles que lhe sobreviverão. É necessário um desprendimento que consistirá na transferência  para o outro do amor pela vida. Amar o outro, seu sobrevivente. Essa componente da renúncia à nossa sobrevivência completa o « desprendimento» para cá da morte não é somente perda mas ganho, libertação para o essencial.  Na 2ª linha de pensamento estão as implicações da confiança em Deus. Todas elas dizem respeito ao sentido, à inteligibilidade, à justificação da existência. Jesus utilizou uma linguagem diferente da linguagem do depois-da-morte e do fim dos tempos e nisso afasta-se da tradição profética onde tudo está no futuro. Não é somente no fim dos tempos que será concedida a «ressurreição» no último dia, mas é a partir de agora que o crente « passou » da morte à vida  ( Jo 5,245 )

Fragmentos.  Paul Ricoeur diz  que o cristianismo dele é fruto do acaso transformado em destino através de uma escolha contínua. Se fosse chinês haveria poucas possibilidades de ter sido cristão. É cristão devido às suas convicções e motivações. Na motivação estão os aspectos, as emoções e as paixões. Na convicção está o lado racional dos seus argumentos. Por destino entende o estatuto de uma convicção da qual pode dizer: assim me mantenho a isso adiro. Por adesão entendo o apego a uma figura pessoal através da qual o Infinito, o Altíssimo se deixa amar.  A sua adesão à figura de Jesus é assim duplamente mediada pelos textos canónicos e pelas tradições de interpretação que fazem parte da herança cultural e da motivação profunda das suas convicções. Ricoeur diz-nos ainda que não é um filósofo cristão mas um cristão filósofo. É um filósofo preocupado, dedicado e versado na antropologia filosófica. É sim um cristão de expressão filosófica, tal como Rembrand é um pintor em quanto tal e um cristão de expressão pictórica e Bach um músico enquanto tal e um cristão de expressão musical.

Ricoeur confessa que há uma coisa que o atormenta de forma insistente na sua adesão refletida à figura de Cristo. Será que Jesus morreu na cruz para satisfazer a justiça implacável de Deus que pede satisfação aos homens por um pecado que é em si mesmo digno de morte e encontra satisfação pelo próprio Filho de Deus Pai, que morre por nós ?

Eu que sou cristão, mas não teólogo, diria que Jesus morreu pregado na cruz porque não teve medo de dizer a verdade que a hierarquia religiosa e política dos judeus não aceitava mas também por amor aos Homens que quis redimir do pecado. Jesus ao ser crucificado disse: « Perdoa-lhes Pai, porque não sabem o que fazem » ( Luc.23,34 )

publicado por pontodemira às 21:15
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