Segunda-feira, 24 de Maio de 2021

AQUILO EM QUE CREIO

 

Este é o título de um livro escrito pelo teólogo Hans Kung que nasceu em Sursee na Suíça em 1928. Foi ordenado sacerdote em 1934 e  em 1960 nomeado professor de Teologia na Universidade de Tubinga na Alemanha onde trabalhou até 1966. Entre 1962 e1965 trabalhou como perito para o Concílio Vaticano II. Foi professor visitante em várias Universidades e Faculdades de Teologia dos EUA. Por ter posto em causa a infalibilidade papal em 1979 foi-lhe retirada a licença de ensinar teologia nas Universidades católicas permanecendo porém como sacerdote e professor de teologia ecuménica em Tubinga até 1966. Em 6 de Abril de 2021 morreu em Tubinga aos 93 anos de idade.

Na introdução ao livro “ Aquilo Em Que Creio “ o teólogo Hans Kung diz o seguinte : « Crer é o que move a razão, o coração e as mãos de uma pessoa, o que engloba o  pensamento, a vontade, o sentimento e a acção. No entanto, tal como o amor cego, a fé cega é-me suspeita desde os meus tempos de estudante em Roma; a fé cega conduziu à perdição de inúmeras pessoas e povos inteiros. Esforcei-me e esforço-me por cultivar uma fé que procura compreender, que não dispõe de muitas provas concludentes, mas sim de boas razões. Neste sentido a minha fé não é racionalista nem irracional, mas sim razoável.  « Em que creio », inclui portanto consideravelmente mais do que uma confissão de fé em sentido tradicional. « Em que creio » denota as convicções e atitudes fundamentais que foram e são importantes para mim, na vida, e que espero possa ajudar para a orientação existencial. O que se pretende é uma reflexão apoiada na  existência pessoal e seriamente informativa sobre como viver com sentido ».

Ao longo do livro que tem 10 capítulos Hans Kung diz-nos desenvolvidamente tudo o que é necessário fazer para fortalecer a fé e a confiança em Deus e também para dar sentido à vida. A cada pergunta que faz dá uma resposta.

1-O que é importante para mim como fundamento espiritual do ser humano ? Uma confiança básica, uma confiança existencial. É também necessário ultrapassar as crises existenciais.

2-A confiança na vida é boa. A alegria de viver é ainda melhor e ela pode até resultar da apreciação das belezas da natureza.

3-Com confiança na vida e alegria  de viver vamos pelo caminho da vida, mas  onde está o seu itinerário ?  Para que tudo corra bem é necessário aprender a comportarmo-nos humanamente e haver  um ética para a sobrevivência e uma ética universal de afirmação da vida. Todo o ser humano deve receber um tratamento humano. Isto significa que todas as pessoas sem distinção de sexo, idade, raça ou cor da pele possuem uma  dignidade inviolável e inalienável.

4-Qual é o sentido da vida ?  O sentido da vida não reside tanto no trabalho como na procura da vivência bela e da estetização. O hedonismo orientado apenas para a obtenção do prazer e para o gozo dos sentidos não proporciona uma felicidade existencial duradoura. Reconheço que sou incapaz de  me resignar a toda a miséria, à injustiça, à ausência de sentido deste mundo e por isso procuro um sentido último na vida dos outros e na minha própria vida. Toda e qualquer profissão pode transformar-se, independentemente da posição que se ocupa numa verdadeira vocação capaz de infundir satisfação e sentimento de realização.

 

5-Qual é o fundamento da vida ? O Deus eterno concede fundamento e sentido a todo o temporal e hoje não temos de desculpar-nos por professarmos uma fé esclarecida em Deus.

6- De onde vem o poder da vida ? Deus é Senhor de tudo: é o grande poder da vida, que concede e mantém toda a vida e todo o bem. Daí que esteja legitimado para esperar dos seres humanos, confiança e entrega. Deus é Ele mesmo origem, centro e meta do processo do mundo. Deus é verdadeiramente o espiritual, infinito, omnímodo- fundamento, apoio e sentido primigénio do mundo e do ser humano.

7- Um caminho de vida com sentido existencial, apoiado por um poder de vida, mas em conformidade com que modelo de vida ?  O modelo de vida será o de um cristão. E que é ser cristão ? Cristão é aquele que no seu caminho de vida totalmente pessoal ( todas as pessoas têm o seu ) se esforçam por se guiar na prática por Jesus Cristo. Não se exige mais. Para mim Jesus é e continuará a ser « o caminho , a verdade e a vida ». No entanto respeito que para os judeus seja a Tora, para os muçulmanos o Alcorão, para os hindus o darma, para os budistas a senda óctupla e para os tauistas o Tau.

8-Porque sofro ? Porque permite Deus o mal ? Leibniz no seu livro « Ensaios de Teodiceia sobre a Bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal » procura justificar Deus. Para Leibniz havia 3 tipos de mal : o mal metafísico ou limite do ser baseia-se na finitude do homem ; o mal físico ou dor tem a ver com a corporalidade do homem ; o mal moral existe em virtude  da liberdade do homem. Um mundo sem pecado nem sofrimento mas também sem liberdade humana não seria de antemão o melhor. Estaríamos assim no melhor de todos os mundos possíveis. Para Hans Kung há outra maneira de olhar o sofrimento e a cruz da vida pessoal. Dirigir o olhar para o Crucificado pode mostrar aos que vivem situações de extrema necessidade que também não foram abandonados totalmente pelos homens e por Deus. Partindo do Crucificado, o negativo pode ser enfrentado com uma profundidade que dificilmente parece possível para os humanistas não cristãos. Se Jesus não foi a pique no sofrimento mais extremo do abandono por parte dos homens e de Deus então também não se afundará aquele que se aferrar a Ele com confiança e fé.

9-No caminho de vida através da alegria e do sofrimento vital em que consiste a arte de viver ? Para se viver bem é necessário cumprir regras. A primeira é a do amor ao próximo. Santo Agostinho dizia. « Ama e faz o que quiseres »  A segunda é usar o poder em favor dos outros. O poder económico deve subordinar-se ao poder político e tanto o político como o económico à ética.  O outro conselho é consumir com contenção.

 10- No caminho da vida é também necessário uma visão da vida. Devemos pôr de lado todas as utopias ideológicas. Nada de ideias que não tenham os pés na terra.  Para alteração do paradigma que estamos a viver e que afeta o mundo, a política, a economia e as culturas precisamos com urgência de uma visão que tenha a discernir o contorno de um mundo mais pacífico, mais justo e mais humano. É preciso pôr em prática uma ética mundial que possa ser partilhada por pessoas de todas as religiões e tradições éticas. Essa ética assenta em primeiro lugar no princípio do humanitarismo: Todo o ser humano- independentemente de ser homem ou mulher, branco ou de cor, novo ou velho, rico ou pobre- deve receber um tratamento humano. Alguns politólogos preveem para o século XXI um choque de culturas. As religiões e as culturas do mundo em interacção com as pessoas de boa vontade podem contribuir para evitar tal choque , desde que ponham em prática as seguintes ideias:

- não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões.

-não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões

-não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais

-o nosso planeta não sobreviverá em paz e justiça sem um novo paradigma de relações internacionais construído com base em critérios éticos globais.

publicado por pontodemira às 12:48
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