Sábado, 26 de Setembro de 2020

BOA ECONOMIA PARA TEMPOS DIFÍCEIS

 

Este é o título de um livro da autoria de ABIJIT  V. BANERJEE  e  ESTHER DUFLO vencedores do Prémio Nobel da Economia 2019. Para estes economistas a economia não é uma ciência exacta como a física e a Matemática e por isso não há certezas absolutas para partilhar. Os economistas erram com frequência as suas previsões. No entanto é sempre possível colocar a dignidade humana como questão central e repensar as prioridades económicas e a forma como é a sociedade criada pelos seus membros e que estão em dificuldade.

Ao longo do livro são dadas as melhores respostas para os maiores problemas. E são vários os problemas que são abordados: imigração, comércio, crescimento económico, desigualdades sociais, dinheiro e dignidade.

1-Imigração- Para a maioria dos partidos políticos, sobretudo os populistas,  a imigração é um veneno e uma praga a combater. Mas os imigrantes com poucas qualificações geralmente não prejudicam os empregos dos nativos. O impacto sobre os salários dos nativos é em geral muito reduzido. Os salários de pessoas com poucas qualificações não são afectados pela imigração.

2-Comércio. O comércio livre é um tema controverso. Por um lado pode-se comprar mais barato no estrangeiro ,mas as importações mais baratas vão fechar algumas empresas e colocar no desemprego muitas pessoas. A conclusão global a que chegam os autores do livro é que é preciso encontrar uma solução para o sofrimento que acompanha a necessidade de mudar  e de ir para outro lugar. Os economistas  e os decisores políticos ficaram surpreendidos com a reação hostil ao comércio livre pois tomaram como certo que os trabalhadores podem trocar de emprego ou de local e, se o não conseguissem fazer, seria uma falha deles próprios. Esta crença influenciou a política social e criou o conflito que vivemos actualmente entre « vencidos» e todos os outros

3-Crescimento económico. Durante 30 anos que separaram o fim da 2ª Grande Guerra Mundial da crise da OPEP, o crescimento na Europa Ocidental, nos EUA e no Canadá foi o mais rápido da História. Quando os países membros da OPEP em 1973 anunciaram o embargo do petróleo, o crescimento parou. Nos países ricos do Ocidente foi uma época medíocre de estagflação ( estagnação económica acompanhada de inflação. ) Uma grande parte dos economistas chegou à conclusão que impostos reduzidos sobre rendimentos elevados não garantem, por si só, crescimento económico. A China ( e o resto do mundo ) terão de enfrentar a realidade de que o seu crescimento vertiginoso está a chegar ao fim. A teoria que surgiu nos EUA e no Reino Unido de pedir aos pobres que « apertem o cinto » na esperança de que os benefícios concedidos aos ricos acabarão por chegar a todos não favorece em nada o crescimento e ainda menos os pobres. Até o FMI reconhece agora que sacrificar os pobres em prol do crescimento era uma política prejudicial. Não se sabe quando é que o comboio do crescimento irá partir. A verdade é que os pobres se estiverem de boa saúde, souberem ler e escrever e tiverem boa preparação têm mais condições para apanhar o comboio.

4 Desigualdades sociais. Não é razoável aceitar que os mercados produzam sempre resultados justos, aceitáveis ou sequer eficientes. É  necessário , por isso, que haja impostos que tributem os patrimónios muito elevados e também impostos progressivos com taxas máximas para os rendimentos de valor acentuado.

5-Dinheiro e dignidade. A tensão entre dinheiro e dignidade deve ser uma das preocupações da política social. Assim devia ser incluído nos programas sociais um Rendimento básico individual. O RBI prevê que o governo pague a todos um rendimento mínimo garantido substancial ( a quantia de 1000 dólares mensais foi sugerida para os EUA ) . Outra medida sugerida seria o modelo dinamarquês de « flexisegurança ». Se os trabalhadores podem ser despedidos com bastante facilidade, os desempregados são subsidiados para que não sofram uma grande perda económica havendo um esforço do governo para que o trabalhador regresse ao mercado ( talvez depois de uma requalificação significativa ) Mas para as pessoas mais velhas é muito difícill esta solução. Outra estratégia mais realista seria o governo aumentar a procura de serviços públicos que requerem muita mão de obra. Incluem-se aqui os cuidados a idosos, a educação e os cuidados infantis. É provável que os robôs não sejam capazes de substituir completamente o toque humano.  Outra medida seria estabelecer um limite às empresas para substituir pessoas por robôs.

A terminar o livro os autores esclarecem o seguinte: « A boa economia prevalece sobre a ignorância e a ideologia para assegurar que as redes de mosquiteiros tratadas com insecticidas fossem distribuídas gratuitamente em vez de vendidas em África, reduzindo assim em mais de metade as mortes por malária na infância. A economia má apoiou os enormes benefícios concedidos aos ricos e a redução dos programas de  ajuda social e vendeu a ideia que o Estado é impotente e corrupto e que os pobres são preguiçosos e preparou o caminho para o impasse actual de explosão da desigualdade e inércia furiosa. A economia míope disse-nos que o comércio é bom para todos e que o crescimento rápido está em todo o lado. A economia cega não se apercebe da  explosão da desigualdade em todo o mundo, do aumento da fragmentação social que lhe está associada e da catástrofe ambiental iminente protelando a tomada de medidas, talvez de forma irreversível ».

Resumindo diria eu que a boa economia resulta das boas medidas que os governos tomarem e dos investimentos que forem feitos nas seguintes áreas: educação e saúde ;transportes não poluentes como o comboio ; energias renováveis ; segurança social criando subsídios para desempregados ;apoio a jovens empreendedores e as empresas que criem empregos.

E vou terminar com duas frases que vêm no fim do livro e que passo a citar: « A boa economia por si só não nos pode salvar. No entanto, sem ela estaremos condenados a repetir os erros do passado ».

 

publicado por pontodemira às 19:57
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