Segunda-feira, 17 de Junho de 2019

Breve História da Ideologia Ocidental ( Relato Crítico )

 

1-Este é o título de um livro escrito pelo italiano Rolf Petri, professor de História Contemporânea na Universidade de Veneza. Na Introdução começa por esclarecer que o seu trabalho como investigador vai incidir no estudo abrangente e holístico de conceitos que caracterizam a ideologia ocidental. Os neologismos como “ civilização” e cultura são exemplo de conceitos que marcaram a ideologia Ocidental. O termo ideologia tem um passado iluminista e não é fácil de definir. Para uns é uma “ ciência das ideias “ objectivante. Para Napoleão era uma teoria desprovida de relevância e um conjunto de dogmas falaciosos. A ideologia andou desde os primeiros momentos associada às estruturas do poder e tornou possível uma política autónoma abrindo caminho à modernização. As Religiões monoteístas Ocidentais como o cristianismo e o islamismo acreditam que a História tem uma função teleológica ( objectiva) e escatológica. As Religiões Orientais que não acreditam numa divindade omnipotente rejeitam as representações teleológicas da História. O Mundo é visto como um fenómeno em constante mudança em que o absoluto e o supremo não se encontravam na revelação de um objectivo escatológico para o futuro.

2-Ao renascer cristã a Europa recebeu  uma investidura missionária e escatológica.A conquista colonial nos séculos XV e XVI iniciada pelos Reis Ibéricos, para lá dos negócios era entendida como missão cristã. O contraste entre a povoação europeia e as populações nativas que eram colonizadas fez nascer o conceito de” civilização “ . As diferenças entre a Europa civilizada e o ambiente pobre e selvagem que estava a ser colonizado era evidente.

3-No século XVIII aparece a Filosofia da História. Tudo começa com o racionalismo ocidental do qual se destacam nomes como Descarte, Leibniz e cientistas como Galileu e Isac Newton que concebiam um Mundo criado por Deus mas regidos por leis mecânicas e matemáticas de tal modo perfeito que podia funcionar sozinho. Nasce também o conceito de sociedade e contrato social. Thomas More no livro Utopia concebe uma sociedade perfeita onde todos contribuem para a felicidade de todos. Para Hobbes o estado natural é um estado de guerra perpétua onde só poderá haver paz se o homem abdicar da sua liberdade em favor de uma autoridade absoluta. Rousseau entende também que o homem só pode viver em Paz através de um contrato social em que todos abdicam de uma parte das suas liberdades em favor de um poder soberano.  Mas só no século XIX é que a liberdade e a democracia começaram a  consolidar aquilo que devia ser uma relação inseparável. Os Estados democráticos que evoluíram na sequência das Revoluções Francesa e Americana tentaram incorporar o republicanismo delineado por Kant. O republicanismo é o princípio político de separar o poder executivo do governo do poder legislativo. Para Montesquieu a soberania  ilimitada seria sempre tirânica. A separação de poderes era um requisito para um Estado de Direito  e de Paz. Kant e Montesquieu são pontos de referência essenciais na filosofia política  liberal e no constitucionalismo. O Estado de Direito e os conceitos de Constituição e de separação de poderes derivam igualmente da História do Pensamento político Ocidental.

4-O universalismo ocidental começou a coexistir com o estabelecimento conceptual e pratico de  um número crescente de hierarquias entre grupos locais. O princípio de um povo a habitar um território  contribuiu para se estabelecer uma espécie de direito natural de soberania popular. No final do seculo XV a Inquisição exigiu que se expulsassem de Espanha todos os judeus que não se convertessem ao cristianismo. Foi o mais importante processo de estigmatização e de exclusão de judeus entre o fim da Idade Média e o Renascimento. Em relação aos povos de África o Ocidente mantinha também um certo desprezo. As populações eram comparadas ao reino animal. O pensamento racista no século XX não tinha a ver com a teoria biológica mas com o progresso e o atraso da pessoa ou grupo. Este era o princípio mais geral de diferenciação hierárquica entre grupos humanos. Não havia uma divisão marcada entre racismo colonial e racismo social. Não eram apenas os negros que cheiravam mal mas também os camponeses pobres, os operários, os marginalizados e os deslocados. A equiparação entre raça e Nação transformou o racismo numa formidável ferramenta biopolítica do Estado-Nação Ocidental.

5-Para que as gerações possam continuar a viver é necessário que o homem estabeleça um pacto com a Natureza. O destino mais garantido da Humanidade é o mesmo  de qualquer outra espécie, ou seja, a extinção. Essa extinção pode resultar do desrespeito das normas de proteção do meio ambiente ou até da conflagração de uma guerra nuclear. Na parte final do livro e em jeito de resumo Rolf Petri diz que a visão transcendente e escatológica da História não é de forma alguma um valor absoluto ao qual se tem de aderir ou impor aos outros. E argumenta que a História intelectual do Ocidente é rica em ideias que pertencem à visão escatológica da História mas também a outras que a rejeitam explicita ou implicitamente. Muitos dos conceitos, teorias e métodos que pertencem à tradição Ocidental não se limitam à visão escatológica da História. No campo político que normalmente anda lado a lado com a ideologia é preferível o consentimento à coerção,a liberdade de expressão à censura e à vigilância sem necessidade de uma base transcendente de direitos individuais. E termina dizendo : “  se mantivermos a nossa arrogância quanto ao sentido da História e  se presumirmos que nós  é que sabemos e que lutamos “ contra o mal “ melhor do que os outros, faremos com que tudo fique pior. Pelo nosso bem e pelo bem de milhões de outros seres humanos cujo desejo é viver apenas a sua vida,  com as suas mágoas e alegrias e lidar com a injustiça e com a incerteza à nossa maneira, seria melhor rejeitarmos a nossa filosofia equivocada da História “

publicado por pontodemira às 22:32
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