Quarta-feira, 7 de Novembro de 2018

A Estranha Ordem das Coisas

Este é o título de um livro escrito pelo Neurologista e Neurocientista António Damásio Professor da Universidade de Califórnia. Não é fácil resumir um livro com 300 páginas. Irei fazer uma síntese dos aspectos mais interessantes, transcrevendo algumas passagens.

1-As bactérias foram as primeiras formas de vida remontando a quase a 4 mil milhões de anos. O seu corpo consiste apenas numa célula que nem sequer tem um núcleo. Não têm cérebro nem dispõem de mente. No entanto têm um comportamento inteligente. São capazes de lidar com a adversidade do meio ambiente e de competir com outros grupos para obter território e recursos. As bactérias que detectam “ desertores “ no grupo, ou seja, quando  certos membros não ajudam no esforço de defesa, elas isolam-nos pois não aceitam as bactérias vira-casacas que não colaboram. As bactérias regeram durante milhares de milhões de anos a sua vida segundo um esquema automático que prefiguram vários comportamentos e ideias que os seres humanos  vieram a usar na construção de culturas.

Também 2% de todas as espécies de insectos têm comportamentos sociais que rivalizam com muitos feitos sociais humanos. A este grupo pertencem as formigas, as abelhas, as vespas e as térmitas. As suas rotinas estão gravadas geneticamente e permitem a sobrevivência do grupo. Elas colaboram umas com as outras e dividem o trabalho de forma inteligente pelo grupo. Constroem ninhos, sistemas de ventilação e de remoção de resíduos e tratam de guardar em segurança as rainhas. O mecanismo que de forma não consciente e não deliberada orienta a selecção de estruturas e mecanismos biológicos capazes de manter a vida e proporcionar a evolução das espécies designa-se por homeostasia.

Os sentimentos não surgiram ao mesmo tempo que a vida. Para António Damásio isso só aconteceu quando apareceram os organismos dotados de sistema nervoso ou seja há cerca de 600 milhões de anos. A criação das mentes e dos sentimentos que lhe estão associados ou seja as diferente capacidades sensoriais-olfacto, paladar, tacto, audição e visão- baseia-se nas interacções entre o sistema nervoso e o seu organismo.

2-Voltando às bactérias convém salientar que foram as primeiras formas de vida e que são os habitantes mais numerosos da Terra. No intestino humano há 100 biliões de bactérias. Como já foi dito as bactérias são criaturas inteligentes, comunicam umas com as outras. Os cálculos que realizam permitem-lhes viver de forma independente ou unir-se com outras conforme o que for melhor. Às células sem núcleo( procariotas ) seguiu-se as células nucleadas (eucariotas) e depois os organismos multicelulares.As células bacterianas colaboram para criar os organelos de células mais complexas ( as mitocôndrias )  As células nucleadas por sua vez colaboram para construir tecidos e estes colaboram na criação de órgãos e sistemas. O sistema circulatório possibilita a distribuição de moléculas nutrientes e de oxigénio para cada célula do corpo. Distribuem por exemplo as moléculas resultantes da digestão levadas a cabo no sistema gastrointestinal. Os sistemas nervosos são o expoente máximo dos sistemas. O sistema nervoso é constituído por células chamadas neurónios. A extensão fibrosa que sai do neurónio designa-se por axónio e à ligação de um neurónio com outro neurónio dá-se o nome de sinapse. Quando há uma descarga eléctrica de uma célula há uma libertação de moléculas químicas ( neurotransmissor ) na região em que o neurónio entra em contacto com outro neurónio ( sinapse) ou com uma célula muscular. O sistema nervoso é constituído por um processador central a que se dá convencionalmente o nome de cérebro. O corpo humano é assim constituído por um corpo, um sistema nervoso e de uma mente que deriva de ambos. A mente cultural humana surgiu há 50 000 anos. Toda a mente é composta por imagens desde a representação de objectos e acontecimentos aos conceitos  e traduções verbais correspondentes. A maioria das imagens que entra na nossa mente desencadeia uma resposta emotiva. Qualquer processo sensorial pode servir de activador, desde  o paladar,ao olfacto. À visão  não importa se a imagem está a ser criada no momento actual pela percepção ou se está a ser recuperada da memória. Qualquer imagem que entre na mente tem direito a uma resposta emotiva. Na opinão do Professor Damásio os animais com cérebro complexo semelhante ao nosso, terão provavelmente sentimentos sobrepostos como nós.

3-A vida começou por ser regulada sem qualquer tipo de sentimento. Não havia nem mente nem consciência. As criaturas mais simples do que nós , incluindo as plantas sentem e reagem aos estímulos que existem no seu ambiente. Os sentimentos são, simultânea e interactivamente fenómenos tanto do corpo como do sistema nervoso. O sistema nervoso interage com várias partes do corpo graças a vias neurais distribuídas por todo o organismo e na direcção inversa graças a moléculas químicas que se deslocam na corrente sanguínea. Os sentimentos da vida que nos fazem sentir bem promovem estados homeostáticos benéficos. Os estados perturbados que correspondem à representação de um corpo alterado pela doença são desagradáveis. A tristeza contínua motivada por perdas pessoais têm diversas diversas maneiras de perturbar a saúde, reduzindo as respostas imunitárias e diminuindo a capacidade de alerta que nos pode proteger dos mais diversos riscos

Um outro aspecto relacionado com a mente é a consciência que tem a ver com a subjectividade e a experiência integrada. A mente consciente trabalha com as imagens de diversas classes sensoriais: visuais , auditivas, tácteis, gustativas e olfactivas. As experiências mentais que constituem a consciência dependem de imagens mentais e de processos de  subjectividade que faz com que essas imagens sejam nossas. Para o Prof. António Damásio as bactérias e os protozoários reagem e sentem as condições do meio ambiente. As plantas reagem à temperatura, ao nível de hidratação e à quantidade de luz do sol desenvolvendo lentamente raízes ou orientando as folhas ou as flores. Mas não são conscientes pois lhes falta um sistema nervoso e condições básicas  para a existência de experiências conscientes.

No processo cultural humano intervêm todas as faculdades mentais: capacidade de criar imagens, os afectos e a consciência. Nele participa também a actividade cultural, a memória, a linguagem,a imaginação e o raciocínio.

4-A medicina progrediu gradualmente nos últimos dois séculos e hoje através de vacinas, antibióticos e cirurgias é possível pôr termo a doenças e epidemias que eram incuráveis e mortais. Pela manipulação genética podem eliminar-se certas doenças hereditárias mas não é tarefa fácil pois a maior parte das doenças hereditárias não são provocadas por um único gene problemático mas por vários ou até por muitos. Depois não é fácil que tal intervenção não provoque efeitos perigosos e indesejáveis. Todas estas inovações têm vindo a aumentar a longevidade do ser humano. E há até quem diga como o historiador Yaval Harari que estamos a caminho da imortalidade e do Homo Deus. A criação de robots pode levar à execução de quase todas as tarefas que um ser humano faz. Com os humanos a perderem os seus empregos a Humanidade pertencerá, segundo Harari, aos que tiverem adquirido a imortalidade. Mas um robot não é um ser humano porque lhe falta os sentimentos e os afectos. Os robots não têm vida. Até hoje ninguém conseguiu criar vida num laboratório.

5-O progresso técnico e científico e o avanço da medicina permitiram uma melhoria considerável do nível de vida dos seres humanos e uma maior longevidade. Mas nem tudo são rosas e há que considerar também os aspectos negativos. A possibilidade e usar armamento nuclear pode desencadear uma guerra de efeitos catastróficos. O risco do terrorismo e das infecções resistentes a antibióticos são outros aspectos a ter em conta. A globalização gera muitas vezes desigualdades sociais e desemprego. As democracias liberais estão também a abrir caminho a regimes autocráticos e popularistas. Para o Prof. António Damásio a homeostasia pode ser alargada, com maior ou menor esforço, à família e ao pequeno grupo mas não resulta em colectividades grandes ou cacafónicas. E acrescenta “ em condições normais nos organismos humanos individuais o sistema circulatório não luta com o sistema nervoso nem o coração entra em guerra com os pulmões para decidir qual deles é o mais importante. No entanto esse compromisso pacífico não se aplica aos grupos sociais dentro de um país nem aos países de uma união geopolítica. E não é preciso ir mais longe para ver como alguns países recebem os imigrantes que fogem à guerra e à miséria. E volto a citar o Prof. Damásio : “na ausência de uma negociação massiva e  iluminada de afecto e razão é difícil antever qualquer sucesso . As  estratégias cooperativas fazem parte  da composição biológica e homeostática  dos seres humanos. O equilíbrio entre a cooperação salutar e a competição destrutiva depende em grande medida da contenção civilizacional e da governação justa e democrática capaz de representar aqueles que estão a ser governados.” Para alguns filósofos e especialistas em IA e na robótica preveem que o progresso científico e tecnológico irá reduzir o estatuto do ser humano,   a emergência de superorganismos e que nem a consciência nem os sentimentos terão lugar nos organismos futuros. No campo oposto estão aqueles que entendem que a cooperação acaba por dominar graças ao empreendimento civilizacional sustentado ao longo de múltiplas gerações.

6-No último capítulo o Prof. António Damásio acaba por explicar por que razão deu ao livro o título de “ A estranha ordem das coisas “. Todos nós nos interrogamos como é possível que seres vivos tão simples como as bactérias e até mesmo os insectos tenham comportamentos inteligentes como os seres humanos. E, para mim, as interrogações e o mistério prosseguem : “ De onde veio a vida ? Se o Universo é regulado por uma complexidade de leis e obedeceu a uma determinada ordem como é que do BIg Bang inicial resultou tudo isto ? Claro que para um crente como eu  por detrás disto está um Criador ( Deus ) que orientou tudo para que na diversidade surgissem seres de diferentes graus de complexidade e uma evolução programada até chegar ao homem. Será que tudo veio do nada como alguns querem ? Sendo assim é caso para perguntar: E o nada de onde veio ?

O professor Damásio termina o livro dizendo : “Embora seja possível falar com alguma confiança das características e das operações dos organismos vivos e da sua evolução, e embora seja possível situar o início do universo há cerca de 13 mil milhões de anos não temos qualquer relato científico satisfatório quanto à origem do Universo, ou seja, não temos uma teoria de tudo que nos diga respeito. Serve isto para dizer que os nossos esforços são modestos e hesitantes, e que devemos estar abertos e atentos quando decidimos abordar o desconhecido. “

 

publicado por pontodemira às 22:39
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