Segunda-feira, 26 de Novembro de 2012

TEORIAS POLÍTICAS- KARL MARX

1-Karl Marx nasceu em 1818 em Trier, cidade da Renânia na fronteira da Alemanha com o Luxemburgo. A mãe era judia holandesa e o pai advogado e consultor de Justiça. Ingressou na Universidade de Bona para estudar Direito mas no ano seguinte transferiu-se para a Universidade de Berlim e optou pelo curso de Filosofia. Em 1841 obtém o título de doutor em Filosofia. Impedido de seguir a carreira académica tornou-se chefe da Gazeta Renana  onde conheceu Friederich Engels. Em 1843 mudou-se para Paris e casou-se com Jehny Westphalen com quem teve 5 filhos.  Tendo sido expulso da França a pedido do Governo prussiano passa ainda por Bruxelas e Colónia até se fixar definitivamente em Londres onde viveu com extrema dificuldade. Para sobreviver contou com ajuda de Engels e de outros amigos. Morreu de tuberculose em 1883 sendo enterrado no cemitério de Highgate em Londres.

2-O pensamento de Marx encontra-se disperso por inúmeros documentos: artigos de jornal, manuscritos,  panfletos e livros. Aborda uma grande variedade de assuntos que passam pela Filosofia do Direito,  Economia Política, defesa de teses e ensaios. As obras mais conhecidas  e divulgadas são:

-Manifesto do Partido Comunista, de parceria com Engels

-O Capital I vl em 1867 . O II e III vols foram publicados postumamente em 1885 e 1894

3-Manifesto do Partido Comunista

Este documento é uma crítica à burguesia que explorou o proletariado e o reduziu à miséria. A interpretação teleológica que Marx faz da História conduz inevitavelmente a uma sociedade sem classes e ao fim da propriedade privada. Da leitura do Manifesto seleccionei algumas frases que poderão ajudar a compreender o pensamento político de Marx

-A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes.

-A sociedade toda cinde-se, cada vez mais, em dois grandes campos inimigos, em duas grandes classes que directamente se enfrentam: burguesia e proletariado.

- A burguesia , lá onde chegou à dominação, destruiu todas as relações feudais, patriarcais, idílicas. Rasgou sem misericórdia todos os variegados laços feudais que prendiam o homem aos seus superiores naturais e não deixou outro laço entre homem e homem que não o do interesse nu, o do insensível “ pagamento a pronto “

-Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela.

-Estes operários, que têm de se vender à peça, são uma mercadoria como qualquer artigo de comércio.

- Mas toda a luta de classes é uma luta política

 

-O objectivo mais próximo dos comunistas é o mesmo do que o de todos os restantes partidos proletários: formação do proletariado em classe, derrubamento da dominação da burguesia, conquista do poder político pelo proletariado.

-O que distingue o comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa.

-As vossas próprias ideias são o produto das relações de produção e propriedade burguesa, tal como o vosso direito é apenas a vontade da vossa classe elevada a lei, uma vontade cujo conteúdo está dado nas condições materiais de vida da vossa classe.

-As ideias dominantes de um tempo foram sempre apenas as ideias da classe dominante.

-Já vimos que o primeiro passo na revolução operária é a elevação do proletariado a classe dominante, a conquista da democracia pela luta.

-Podem as classes dominantes tremer ante uma revolução comunista ! nela os proletários nada têm a perder a não ser as suas cadeias. Têm um mundo a ganhar.

- Proletários de todo os Países, Uni-vos !

4-MATERIALISMO DIALÉCTCO

Para compreendermos este método filosófico teremos de analisar separadamente cada um dos elementos que o compõem: materialismo e dialéctica.  O materialismo diz-nos que a matéria, a natureza e o ser são uma realidade objectiva que existe fora da consciência e independente dela. A dialéctica é o raciocínio que procura descobrir a verdade através de sucessivas contradições que são depois superadas. Parte-se de uma proposição ( tese ) que é depois confrontada com a sua negação ( antítese ). Do confronto nasce outra proposição que é a síntese das duas primeiras ( síntese ). Este processo continua através de sucessivas contradições até um resultado final.

Marx foi buscar este método a Hegel e este por sua vez a Heráclito de Éfeso. Mas Hegel ao contrário de Marx partiu da ideia, da razão, do espírito do mundo para através de sucessivas objectivações chegar ao Absoluto. Por isso Marx vai “ repor sobre os pés o hegelianismo  que caminhava de cabeça para baixo “. Para Marx a matéria é que conta e não se pode ir para além da experiência sensível . Deus não passa de um produto da imaginação do homem.

Não sendo uma ciência o materialismo dialéctico procura estudar a matéria de forma dinâmica para através de sucessivos processos de tese, antítese e síntese extrair leis.

5-MATERIALISMO HISTÓRICO

Para o marxismo o grande motor da História é a economia ou seja o modo de produção no qual se inclui as forças de produção ( meios e homem ) e as relações de produção ( forma de propriedade e forma de repartição de produtos).  O modo de produção ( infra-estrutura ) é que vai determinar todas as forma sociais de consciência: instituições jurídicas e  políticas( leis ,Estado ), ideologias, artes, religião e moral, que Marx designa por ( superestrutura )

No Manifesto do Partido Comunista, Marx diz dirigindo-se ao proletariado: “ As vossas próprias ideias são produto das relações de produção e propriedade burguesas, tal como o vosso direito é apenas a vontade da vossa classe elevada a lei, uma vontade cujo conteúdo está nas condições de vida da vossa classe “

A mudança no modo de produção vai originar também alterações nas relações de produção.” O moinho  manual deu origem à escravatura ; o moinho de vento à sociedade feudal e o moinho a vapor ao capitalismo industrial. Estas mudanças levaram também ao aparecimento de 5 tipos de relações de produção : comunidade primitiva, escravatura, feudalismo, capitalismo e comunismo.

6-ALIENAÇÃO ECONÓMICA E LUTA DE CLASSES

Quando o operário é submetido a um trabalho intenso deixa de ter existência própria e transforma-se numa mercadoria ou numa engrenagem da máquina de produção. Começa então a criar ilusões: religiões, ideias morais, etc. À medida que a vida do proletário se vai degradando nasce nele o desejo de inverter a situação. Inicia então uma luta política pela defesa dos seus interesses. “ Desde que o proletariado actue como classe, actua como partido político  ( Manifesto ). Mais à frente acrescenta que o Proletariado, a camada mais baixa da sociedade actual, não pode elevar-se, não pode endireitar-se, sem fazer ir pelos ares toda a superestrutura das camadas que formam a sociedade oficial ( Manifesto )

7- DO CAPITALISMO AO COMUNISMO

A primeira revolução foi a passagem da sociedade feudal à sociedade capitalista. A burguesia apodera-se do poder pela força e o proletariado aumenta com a integração nele de rendeiros, artesãos e camponeses. A revolução passará então por duas fases: ditadura do proletariado e comunismo.

a)Ditadura do proletariado- É a fase de transição política para o comunismo. O proletariado apodera-se do poder pela força.

A primeira tentativa de implantar uma Ditadura do Proletariado ocorreu em França em 1871 com a chamada “ Comuna de Paris “. Nasce aqui a primeira tentativa de implantação de uma república socialista.

b)Comunismo- Nesta fase dá-se um enfraquecimento gradual do Estado até à sua extinção

8-A DOUTRINA ECONÓMICA

A teoria económica de Marx encontra-se largamente desenvolvida e exemplificada no livro “ O CAPITAL “.   As fontes que Marx utilizou foram os escritos de Adam Smith, Ricardo e Malthus. Não é fácil sintetizar em poucas palavras uma matéria tão complexa. Irei apenas abordar os conceitos básicos mais importantes.

Mais- valia- é a diferença entre o valor que o produto tem no mercado e o valor pago ao trabalhador. O capitalista irá pagar ao trabalhador apenas o necessário para a sua sobrevivência.

Acumulação de capital- O aumento da mais-valia irá contribuir  para o aumento do capital .  “A utilização da mais-valia como capital ou retransformação da mais-valia em capital, eis o que se chama acumulação do capital “ ( O Capital )

Com o aparecimento da máquina a vapor e a subsequente divisão do tarbalho são precisos mais trabalhadores. Isto leva ao recrutamento de mulheres e crianças pois a mão de obra é mais barata. A fim de melhorar a produtividade e aumentar o lucro alarga-se o horário de trabalho. Esta estratégia vai conduzir ao aumento do número de capitalista.

Centralização ( Super-empresas)

Começa então a “ expropriação de um capitalista por outro, a transformação de muitos pequenos capitais em poucos grandes capitais. …O capital acumula-se nas mãos dum único, porque escapa às mãos de muitos “  ( O Capital )

 A concorrência faz baixar os preços das mercadorias e termina com a morte de muitos pequenos capitalistas. Por outro lado a eliminação de pequenas empresas pela concorrência das mais fortes leva a que haja um excedente de operários em relação às necessidades do mercado. Deste modo à Lei da acumulação de capitais segue-se inevitavelmente a depauperação  e  a miséria progressiva do proletariado que não lhe resta outro caminho se não ir à luta.

9-CONCLUSÃO

Marx teve o mérito de denunciar as desigualdades sociais que resultaram da revolução industrial bem como a miséria e a degradação a que estavam submetidos os trabalhadores no regime capitalista do seu tempo. Ao contrário do que Marx pensava, o comunismo não se instalou primeiro nos países de proletariado industrial mas na Rússia e na China onde predominavam os agricultores e camponeses. A teoria marxista dizia também que o capitalismo continha em si os gérmenes da sua autodestruição. A verdade é que o capitalismo ainda hoje existe, embora para melhor, e os trabalhadores gozam de regalias e de direitos que não tinham no século XIX.

Quanto às profecias do socialismo científico, nada melhor do que citar  João Carlos Espada que no prefácio ao livro A Socieddade Aberta e os Seus Inimigos " ao  resumir o pensamento do filósofo Karl Popper diz o seguinte :” As profecias historicistas acerca do sentido inevitável da História não são em regra susceptíveis de teste. Este é o caso flagrante do marxismo, que profetizou o advento inexorável do socialismo e do comunismo, sem lhe atribuir um horizonte temporal definido e simultaneamente reclamando um estatuto científico para esta profecia. Mas esta profecia não pode ter um carácter científico porque nenhum teste- que, quando ocorrer, ocorrerá sempre no  “ presente” - pode refutar uma teoria que anuncia a sua concretização sempre “ para o futuro “. A previsão marxista sobre o inevitável advento do socialismo no futuro trata-se, por isso , apenas de uma crença ou superstição. “

Para terminar diria ainda que o mundo novo que o marxismo prometeu não se concretizou. Nos poucos países actualmente designados por comunistas ou de ideologia marxista, existe um capitalismo de Estado e um fosso enorme entre a classe dirigente e o cidadão comum.

 

Francisco José Santiago Martins

publicado por pontodemira às 21:19
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