Sábado, 25 de Abril de 2009

TRABALHAR PARA AS ESTATÍSTICAS

 

 

 

 

Num discurso recente o senhor Presidente da República disse que Portugal não devia trabalhar para as estatísticas. Será que esta advertência tem algum fundamento ? A realidade e os números dizem-nos que Portugal é dos países da UE que tem

-  mais quilómetros de auto-estrada por habitante.

- mais casas para habitação própria por habitante.

Quando organizámos o Campeonato Europeu de Futebol em 2004 verificou-se que construímos estádios a mais. O estádio do Algarve que poucas vezes tem sido utilizado é uma prova disso. Por outro lado se o campeonato tivesse sido organizado em parceria com a Espanha a poupança teria sido significativa. Na cidade de Milão existem dois clubes de futebol de grande nomeada ( Inter e AC Milan ) que não se sentem desprestigiados por partilharem o mesmo estádio. Quer isto dizer que os portugueses, de uma maneira geral, sempre tiveram a mania da grandeza e de quererem parecer mais do que realmente são. Aconteceu assim com o ouro do Brasil que foi gasto em palácios e monumentos de grande pompa e não em benefícios do povo, que vivia sabe Deus como. Em Portugal não houve nada parecido com a revolução industrial inglesa iniciada no século XVIII , que abriu as portas ao progresso e ao desenvolvimento de alguns países europeus.

O primeiro-ministro José Sócrates diz que o país não pode ser governado através de recados e remoques. Concordo inteiramente e comungo do mesmo pensamento. Infelizmente há muita gente que só sabe criticar e dizer mal de tudo. Não faltam por aí pessoas que fazem diagnósticos perfeitos da grave situação económica do país mas que são incapazes de  apontar soluções credíveis para minorar ou atacar a crise. Fazer diagnósticos sem adiantar a terapêutica apropriada para erradicar a doença é tempo gasto inutilmente e só serve para baralhar ainda mais as coisas. Muitos pensam erradamente que ao Estado compete fazer tudo. Mas não é bem assim. Ao Estado compete apoiar os projectos  empresariais que sejam viáveis. Se não houver empresários com iniciativa e ideias inovadoras a economia irá estagnar e ficará sem meios para competir com outros países dentro do mercado global . Penso que qualquer pessoa de bom-senso estará de acordo com as medidas propostas pelo primeiro-ministro, designadamente com as que visam o desenvolvimento tecnológico, das energias renováveis, o melhoramento das escola e do ensino. Não concordo, no entanto, com o dinheiro gasto no TGV e com auto-estradas cujo movimento não justifique a sua construção. A estrada que liga Bragança à A25 precisa a apenas de uma ampliação no troço entre Cruz da Galega e Celorico da Beira. O dinheiro poupado na construção do TGV e noutras auto-estradas poderia ser aplicado com mais proveito em escolas, centros de saúde e para rectificar as estradas que realmente o necessitem. Por outro lado não é nada bom agravar ainda mais a dívida externa de Portugal que já vai em 100% do PIB.

 

A informatização dos serviços públicos veio melhorar a qualidade e a produtividade dos mesmos. Mas trouxe também efeitos perversos. Aos funcionários foram impostos objectivos que por vezes não podem cumprir. Aos inspectores e responsáveis pela modernização dos serviços públicos interessa mais a rapidez e a quantidade do que a qualidade do trabalho. Por vezes chega-se ao exagero de exigir o cumprimento de objectivos para serviços que ainda nem sequer estão a funcionar. Ora, quando um trabalho é feito à pressa, sob pressão e com atendimento do público em simultâneo é natural que surjam erros. Em casos destes quem é o responsável ? Obviamente que é o chefe da repartição e não o Estado como pela lógica deveria ser.

A iliteracia dos nossos alunos e os fracos resultados em Matemática mostram que há muito a fazer para melhorar o ensino nas nossas escolas. Mas não é simplificando as provas de aferição que se vai resolver o problema. Se isso acontecer estaremos a melhorar as estatísticas mas ao mesmo tempo a enganarmo-nos a nós próprios.

 

 

 

FRANCISCO MARTINS

 

 

 

publicado por pontodemira às 18:29
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Sábado, 18 de Abril de 2009

DOM NUNO ÁLVARES PEREIRA

                                  

1-Dom Nuno Álvares Pereira terá nascido provavelmente em Cernache do Bonjardim no ano de 1360. Era filho do prior do da Ordem do Hospital, D. Álvares Gonçalves Pereira e de Iria Gonçalves do Carvalhal. Dom Nuno viria a casar com uma dama nobre e viúva , D.Leonor de Alvim. Desse casamento nasceu uma filha D.Beatriz que viria a casar com Afonso filho de D.João I e 1º duque de Bragança dando assim origem à Casa da Bragança.

Nuno Álvares Pereira foi armado cavaleiro muito cedo e ainda jovem começou a ouvir falar e a ler livros de lendas e narrativas medievais como o Santo Graal e os Cavaleiros da Távola Redonda. Não admira que queira imitar Galaaz e outros heróis de cavalaria em voga na época. Impelido pelo seu fervor patriótico vai gastar um longo período da sua vida na luta pela independência de Portugal. Quando a pátria já não precisava dele abandonou o mundo e abraçou a vida religiosa vindo a falecer em 1 Abril de 1431 que curiosamente era dia de Páscoa

 

2- Com a crise de sucessão criada pela morte do rei D.Fernando, Portugal vai entrar em guerra com Castela. O povo não gosta da regente D. Leonor Teles  mulher de D.Fernando, nem tampouco aceita a governação do rei de Castela. A arraia miúda e as corporações apoiam entusiasticamente D. João Mestre de Avis que se torna líder da revolução. Aqui surge Dom Nuno Álvares Pereira que se coloca incondicionalmente ao lado do Mestre de Avis e é nomeado condestável.

Nuno Álvares vem a revelar-se durante a revolução de 1383-85 um grande estratega. Venceu sempre os castelhanos em situação de desigualdade numérica. Sabia escolher e tirar proveito do terreno onde combatia aplicando sempre a táctica que melhor convinha. O cronista Fernão Lopes, historiador imparcial sempre preocupado em narrar a verdade , traça o seguinte retrato de Dom Nuno:  “ E ordenou el-rei que o fosse o seu mui leal e fiel servidor Nun’Álvares Pereira, havendo àquele tempo vinte e quatro anos e nove meses e doze dias, conhecendo dele que era de honestos costumes e mui avisado nos autos da cavalaria. ….. Como a estrela da manhã, foi claro em sua geração, sendo de honesta vida e honrosos feitos, no qual parecia que que reluziam os avisados costumes dos antigos e grandes varões “

Na guerra não deixava que tratassem mal os prisioneiros. Era humano e não mostrava cobiça pelas coisas que apreendia em combate. Não deixava que os seus soldados incendiassem searas ou pilhassem as povoações castelhanas por onde passavam.

 

3-Como prémio do seu reconhecimento, o rei D.João I doou-lhe inúmeras terras e cumulou-o de privilégios e honrarias. Quando Dom Nuno começou a distribuir senhorialmente as terras pelos seus companheiros de armas surgiram conflitos com o rei que alarmado com a riqueza de alguns procurou por todos os meios centralizar o poder.

Agastado com as coisas do mundo e após a morte da mulher tornou-se frade carmelita e ingressou no Convento do Carmo que ele próprio fundou em cumprimento de um voto. Começou assim uma nova vida de devoção e de entrega total a Deus.

Nuno Álvares Pereira foi beatificado em 1918 pelo papa Bento XV e vai no próximo dia 26 de Abril ser canonizado pelo papa Bento XVI. Agora é a Igreja que vai premiar e reconhecer  a sua bondade e as suas excelsas virtudes. Para terminar volto a referir Fernão Lopes que na Crónica de D.João I diz o seguinte do condestável: “Havia compaixão dos pobres e minguados, não os deixando padecer injúria; e a sua larga mão sempre era prestes a dar, onde quer que a sua humanal honra ou espiritual proveito conseguia seu dom.”

 

FRANCISCO MARTINS

 

 

 

 

publicado por pontodemira às 22:45
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Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

CELEBRAR A PÁSCOA

Páscoa é uma palavra de origem grega e que em hebraico se exprime por ( pesakh ) tendo como significado “ passagem “ . Os judeus festejavam a Páscoa na primeira lua cheia da Primavera e a finalidade era comemorar a fuga da escravidão do Egipto. Cada família imolava um cordeiro de um ano, sem defeito e do sexo masculino. A carne era comida com pão ázimo e ervas amargas. O cordeiro simbolizava os primogénitos mortos ; as ervas amargas tinham a ver com a amargura da escravidão e o pão ázimo testemunhava a pressa da saída do Egipto.

Para os cristãos tem um significado e um simbolismo especial. Nela se comemora a paixão, a morte , a ressurreição de Jesus Cristo e ainda a instituição da Eucaristia.

Que motivos condenaram Jesus à morte ? Os judeus entendiam que Jesus não respeitava o sábado, o templo, e as leis sobre o puro e o impuro. Mas o mais grave era proclamar-se filho de Deus ou Messias. Assim,acabou por ser acusado de blasfemo ou falso profeta.  Em casos destes a pena a aplicar seria a morte por apedrejamento. Mas os judeus decidiram entregar Jesus a Pilatos e para o convencer alegaram que Ele se intitulava Rei, o que punha em causa a soberania romana. Hesitante, Pilatos acaba por condenar Jesus à morte por crucifixão.

Se as mulheres estiveram presentes nos últimos momentos de Jesus - os apóstolos desapareceram assustados e cheios de medo - foram elas também as primeiras a visitar o sepulcro. Depois seguiram-se as aparições do ressuscitado.    Onde, quando e a quem apareceu Jesus ? As fontes que podemos consultar sobre este assunto são os quatro evangelistas, os Actos dos Apóstolos e a 1ª carta de São Paulo aos Coríntios. Sabe-se que Jesus apareceu mais vezes em Jerusalém mas também foi visto na Galileia. As aparições foram quase todas no primeiro dia da semana ( Domingo ) mas São Paulo refere que Jesus também apareceu quarenta dias depois da Páscoa.

Quanto aos destinatários das aparições de Jesus Ressuscitado, os quatro evangelistas e S.Paulo divergem de forma evidente. Em Mateus, Jesus apareceu a Maria de Magdala e a outra Maria e também na galileia aos Onze discípulos ;  para Marcos apareceu a Maria de Magdala e aos Onze ; em Lucas as mulheres não viram Jesus mas apenas anunciaram a sua ressurreição. Jesus apareceu no primeiro dia a dois discípulos, um deles chamado Cléofas no caminho de Emaús e também em Jerusalém aos Onze ; para João, Jesus apareceu primeiro a Maria Madalena, aos discípulos uma semana depois  e na Galileia aos sete discípulos ; para S.Paulo aparece a Cefas ( Pedro ), aos Doze, a 500 pessoas, a Tiago e a todos os Apóstolos.       Como explicar estes relatos divergentes ? Os evangelistas não foram testemunhas presenciais e narraram os acontecimentos de acordo com a tradição oral e com os elementos que cada um recolheu. Para o Padre Carreira das Neves trata-se de”  narrativas  catequéticas e apologéticas, de acordo com as exigências das diferentes comunidades “ (1)

Apesar das discrepâncias encontradas nas aparições há, no entanto , um facto comum a todos os evangelistas : as mulheres que foram visitar o túmulo encontraram-no vazio e concluíram que Jesus tinha ressuscitado.  Muitos foram os que tiveram o privilégio de experienciar a ressurreição e que contaram as suas  vivências o melhor que puderam pois tudo o que viram era da ordem do indizível e difícil de traduzir por palavras.

Para rematar este assunto passo a citar Armand Puig ( 2 ), que a respeito das aparições diz o seguinte:    A janela que permite ter uma vista panorâmica daquilo que aconteceu é a janela da fé, uma vez que a fé, tal como a ressurreição, é histórica e meta-histórica, enraíza-se na História, mas vai para além da própria História.. Em suma, os olhos das testemunhas viram com clareza e a sua presença é digna de crédito. Mas eles também não viram a ressurreição. No entanto viram algo mais importante: viram o próprio  Ressuscitado que se manifestava diante deles pessoalmente e os chamava pelo próprio nome. “

Acabámos de festejar a Páscoa, embora ela se comemore todos os domingos na celebração da eucaristia.  Esta é uma festa de grande significado para todos os cristãos. Jesus venceu a morte e ressuscitou. Como diz S.Paulo, todos os que adormeceram em Cristo também como Ele hão-de ressuscitar. Assim, a nossa vida passa a ter um sentido e não vai acabar no nada, o que seria um absurdo. Jesus abre a todos o caminho da esperança.  E é com essa esperança que temos de enfrentar a dor e o sofrimento. É claro que nos revoltamos e não compreendemos o sofrimento, em diferentes situações, ao longo da nossa vida: a morte de um ente querido, a guerra, os terramotos, os furacões e as secas prolongadas. Tudo isso é um mistério que foge à nossa compreensão. O teólogo Albert Nola ( 3) diz o seguinte : Quando os físicos quânticos analisam o comportamento das “ partículas “ no mundo sub-atómico, confrontam-se com uma realidade misteriosa que contradiz as leis da natureza verificadas em todo o Universo. Isso indica, simplesmente , que aquilo que está a acontecer no mundo sub-atómico ultrapassa a nossa compreensão humana.  Tudo o que nós podemos dizer acerca de Deus,  do sofrimento intolerável e do mal horrendo que nos cerca por todos os lados é que não conseguimos entendê-lo. Faz parte do mistério, faz parte daquilo que não conseguimos entender."     Nos nossos dias estamos também a passar um mau bocado devido à crise financeira mundial. Com o desemprego a aumentar muitas famílias foram atingidas pelo flagelo da fome e da miséria. Só pela partilha e pela solidariedade dos que vivem melhor se consegue uma sociedade mais justa e humana. Quando perguntaram a Jesus qual era o maior mandamento Ele respondeu:  "Ama ao próximo como a ti mesmo “.   E o próximo são todos aqueles que vivem juntos de nós e precisam da nossa ajuda. A Cidade de Deus de que fala Santo Agostinho pode muito bem ser construída aqui na Terra se trocarmos o nosso egoísmo e o nosso amor próprio pela compaixão e pela caridade.   Jesus ao morrer na Cruz deu prova do seu amor infinito pelos homens.  Também nós se quisermos viver em paz e construir um Mundo melhor teremos de seguir o Seu exemplo.

1-Comentários ao Novo testamento-Padre Carreira das Neves.ed.franciscana( pág.178 )

2-Jesus-Uma biografia- Armand Puig ,ed.Paulus  (pág.658)

3-Jesus Hoje-Albert Nola, ed. Paulus ( pág-204 e 205 )

 

FRANCISCO MARTINS

 

publicado por pontodemira às 21:09
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Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

VER DEUS PELAS LENTES DE UM ATEISTA

1-Para o político francês André Malraux o século XXI ou seria religioso ou pura e simplesmente não seria nada. Parece que os seus vaticínios não estão a sair certos pois os movimentos ateístas têm-se multiplicado e tentam por todos os meios confundir as pessoas sobretudo os indiferentes ou aqueles para quem a religião lhes passa ao lado. É um facto que as igrejas se estão a esvaziar e isso é notório no que diz respeito aos mais jovens.

O filósofo francês Michel Onfray, autor dos livros “Tratado de Ateologia” e “Potência de Existir- Manifesto Hedonista “ , deu à Revista Visão uma entrevista na qual declara o seu ateísmo e entusiasma os que são crentes a abandonar Deus. Do mais importante passo a citar o seguinte: “ Só num Mundo sem Deus é que o Homem é livre. A queda das ideologias fez com que muita gente se reencontrasse no religioso. Em nome de Deus fizeram-se cruzadas, numerosas guerras e a Inquisição. Se Deus não existe, como acredito, não é preciso uma moral fundada na eternidade. Nas religiões monoteístas há um ódio às mulheres, aos homossexuais, à inteligência e à razão, aos prazeres do corpo, aos desejos e às pulsões. Quando se vive sob o olhar de Deus, não se é livre. Quando se age em função de ser salvo ou condenado, de ficar eternamente no Paraíso ou no Inferno, vive-se na inquietação. Tudo o que acontece é por vontade ou decisão de Deus. E por fim termina dizendo que o “ hedonismo é a arte de ser feliz “.

 

2-Discordo inteiramente do filósofo Michel Onfray pois o seu raciocínio assenta em premissas erradas.

Em primeiro lugar Deus não é nenhum tirano ou Big Brother que ande por toda a parte a vigiar-nos para nos punir implacavelmente. Pelo contrário Deus é Amor, cheio de misericórdia e sempre pronto a perdoar. Se Jesus Cristo disse para perdoarmos 70X7 então o perdão de Deus ultrapassa tudo o que se possa imaginar.

Em segundo lugar Deus criou-nos livres e portanto capazes de praticar o Bem e o Mal. Mas a liberdade não é cada um fazer o que bem lhe apetecer sem sujeição a regras. Há normas éticas e comportamentos morais que ninguém nem mesmo ateu poderá pôr em causa. O filósofo Kant dizia : “ Age de modo que a tua vontade possa valer como lei universal “ A norma moral é assim um imperativo ( Faz isto ) e categórico ( não deve haver razão nenhuma especial para o fazer ). Mas Kant que era agnóstico, vai mais longe e explica que se o Bem nem sempre é recompensado neste Mundo terá de haver outra vida depois da morte onde se possa fazer justiça e a virtude possa ser premiada. Isto pressupõe claramente a existência de Deus. Se Deus escapa ao nosso conhecimento só pela Razão Práticas lá poderemos chegar.

Em terceiro lugar a felicidade pode ser encarada de diferentes maneiras. Enquanto para um crente ela se alcança na virtude , na solidariedade e no amor ao próximo para um hedonista como Michel Onfray só desfrutando a vida se consegue ser feliz. Também o existencialista Sartre entendia que  o homem só é verdadeiramente livre se não ficar preso a normas morais ou religiosas que condicionam negativamente a alegria de viver. Estão assim em jogo duas concepções diferentes da vida: uma altruísta de desprendimento e inter-ajuda e outra egoísta que apenas pensa no prazer físico. O Paraíso e o Inferno começam a construir-se aqui na Terra consoante nos inclinamos para o Bem ou para o Mal.

 

Em quarto lugar Deus não pode ser invocado para praticar o Mal. As cruzadas ,a Inquisição, as guerras de forma alguma se podem justificar e muito menos tendo o apoio e a cobertura de Deus. A Igreja já condenou todos esses crimes e crueldades que desvirtuam por completo o espírito cristão ou sentido religioso de qualquer crente. Como diz o Padre Anselmo Borges ( 1)” as vertentes da Religião boa são: a mística-paixão por Deus e a ética- compaixão por todos. A mística sem ética é ilusória, como a ética, sem a religião no limite, corre o risco de ficar cega. Não há, pois, lugar para o fundamentalismo nem para o choque de religiões “

No Antigo Testamento aparecem de facto apelos à guerra e à violência. Estes textos não podem, no entanto, ser interpretados de forma literal ou fundamentalista. Os textos foram inspirados em Deus, mas de forma alguma foram ditados por Deus. Os autores, no seu tempo histórico, concebiam Deus de uma determinada maneira que não escandalizava ninguém. A ideia de Deus foi evoluindo até chegarmos ao Sermão da Montanha em que Jesus Cristo diz : “Bem -aventurados os mansos porque possuirão a Terra.”

                   "Bem-aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus "

 

Por último, na religião cristã não se  fala de ódio às mulheres, aos homossexuais, à inteligência e à razão, aos prazeres do corpo, aos desejos e às pulsões. As religiões não podem incitar ao ódio pois como já ficou dito Deus apela ao Amor como está expresso no 1º Mandamento ( Amarás a Deus e ao próximo como a ti mesmo ). Por outo lado a fé não pode ser cega e por isso tem de se apoiar na inteligência e na razão. Não há qualquer contradição entre fé e razão nem entre ciência e religião. O facto da Igreja não concordar com a homossexualidade não quer dizer que odeie os que são homossexuais. Quanto à discriminação da mulher ela é mais evidente na religião muçulmana. Na religião cristã criou-se por vezes a ideia de que S.Paulo discriminava as mulheres o que não corresponde à verdade. S.Paulo não fazia qualquer distinção entre homem e mulher. Ambos eram iguais em Jesus Cristo. Algumas cartas, as pseudopaulinas, não foram escritas por ele e são sobretudo essas que colocam a mulher numa relação de subserviência em relação ao homem.

 

3-Para finalizar este tema gostaria de dizer que crentes e ateus embora afastados no que diz respeito à crença em Deus podem até estar próximos no comportamento ético, no espírito humanitário e filantrópico. O ateu até pode estar bem perto de Deus sem o saber. Nada melhor para concluir do que as palavras do padre anglicano Keit Ward (2) que passo a citar: “  A prática religiosa é, ou deve ser, uma prática de formação do eu na virtude, na justa excelência de ser uma pessoa verdadeiramente humana…… Se Deus nos incomodar, esqueçamos Deus, e pensemos em adoptar uma estratégia de formação do eu que veja a vida humana à luz de valores cujo mérito é eterno. Um ateu intelectual, alguém que nega que Deus é uma pessoa sobrenatural, pode orar desta forma. “

 

Anselmo Borges- Janela do Infinito , pág.216

Keith Ward- Deus e os Filósofos,pág. 247

 

 

FRANCISCO MARTINS 

 

 

publicado por pontodemira às 22:37
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