Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

O ATEÍSMO COMO FORÇA ACTUANTE

1-Leio sempre com muito interesse os textos que o Padre Anselmo Borges escreve ao sábado no Diário Notícias. O texto publicado no dia 20 do corrente mês tinha por título: “Provavelmente Deus não existe “. Um tema tão provocante despertou logo em mim a maior curiosidade. Afinal fiquei a saber que na Inglaterra se prepara uma campanha, já para Janeiro de 2009, que visa tão só ridicularizar os que acreditam em Deus. O slogan que segundo dizem vai ser afixado nas ruas e nos autocarros de Londres é o seguinte: “ Provavelmente Deus não existe.. Então deixe de se preocupar e desfrute a vida. ( There,s probably no God. Now stop Worring and enjoy your life ). O cérebro desta campanha promovida pela Associação Humanista Britânica é o conhecido biólogo e Professor da Universidade de Oxford, R.Dawkins chefe de fila do ateísmo contemporâneo. Logo à partida e como o Padre Anselmo Borges muito bem refere, o pequeno texto provocatório começa com uma dúvida: Provavelmente….  Os ateístas querem negar a existência de Deus mas não têm a certeza para o afirmar. Portanto a frase  está viciada “ in limine “ com um advérbio de dúvida. Depois termina incitando as pessoas a desfrutar a vida.  Não há aqui nada de mau se  não vivermos egoisticamente para nós próprios. Tudo o que  Deus fez e criou é para nós desfrutarmos nas devidas proporções. Porém,se a frase é  um apelo fácil ao materialismo e ao hedonismo como filosofia de vida, então, aí, temos que condenar. Como a vida sem Deus não tem sentido é natural e mais lógico que os ateus apontem mais para esta última hipótese.

 

2-Já anteriormente me referi ao ateísmo embora de forma genérica e sucinta. O ateísmo é velho e vamos encontrá-lo nos sofistas da Grécia antiga. Atinge um ponto alto com o iluminismo que pretendeu substituir Deus pela Razão. Os enciclopedistas franceses com Voltaire à cabeça, são de uma maneira geral ateus. No século XIX temos o filósofo Nietzche que proclama a morte de Deus e cria o Super-Homem. Nega os valores morais e os do cristianismo e afirma: “  Permitido é tudo o que me agrada “. Para o existencialismo ateu o homem afirma-se na sua existência. Mas para que o homem exista é necessário que Deus morra.

No ateísmo contemporâneo encontra-se como figura de topo e como já atrás referi, R.Dawkins. De uma maneira simplista diria que os ateus se podem incluir em dois grupos: o primeiro será o dos que negam Deus mas que tomam uma atitude passiva e de indiferença em relação aos crentes ; o segundo seria constituído por todos os que perseguem ou fazem campanhas provocatórias a todos os que têm fé ou acreditam em Deus. É neste último grupo que situamos Dawkins. Não é fácil caracterizar em poucas palavras as teses deste cientista ateu.. Os seus principais trabalhos centram-se na teoria da evolução de Darwin e na selecção natural. O homem é o produto de uma longa evolução que explica tudo sem ser necessário recorrer a Deus. Essa evolução é fruto de mutações ao acaso que ocorrem durante um largo período de tempo. As mutações são registadas nos genes que têm o poder de se replicar e de transmitir essas informações. Dawkins propõe também, por analogia, uma evolução cultural. À semelhança do gene, existe aqui também um replicador cultural que se designa por  “Meme “. Assim, as ideias e a crença em Deus são vistos como efeitos “ meméticos “. E chega ao ponto de considerar Deus como um vírus. Só que,enquanto os genes são uma realidade com estrutura química e física e podem ser observados no laboratório, o meme é uma criação abstracta de Dawkins. Por outro lado se Deus é um vírus das mente o mesmo tem de acontecer com com o ateísmo.

Mas será que a tese evolucionista de Darwin poderá conduzir Dawkins a concluir que Deus se torna desnecessário ? Esta conclusão não tem qualquer fundamento. A Igreja hoje não põe em causa a teoria evolucionista. O Homem é o produto de uma longa evolução que ainda não acabou. Só que essa evolução tem na sua origem Deus. A teoria darwinista se não conduz a Deus também não leva ao ateismo.  Há ateus e crentes que defendem igualmente o evolucionismo. Em última análise,e como diz o filósofo Karl Popper, não há teorias científicas definitivas e acabadas. As conclusões científicas de forma alguma são consideradas dogmas. O que hoje é tido com certo pode vir a ser desmentido amanhã. E para concluir remeto para o teólogo e cientista Alister Mc Grath que no livro “ O Deus de Dawkins “ ( 1) diz o seguinte:  “ Apesar das previsões excessivamente confiantes  dos darwinistas, a questão acerca da existência de Deus – e sobre como será Deus se existir - mantêm ainda toda a sua importância intelectual….Os cientistas e os teólogos têm muito a aprender com os outros. Ao ouvirem-se mutuamente, talvez possam ouvir cantar as galáxias. Ou mesmo os céus, declarando a glória do Senhor ( Salmos 19,1 )"

 

3-Do ateísmo de Dawkins destaco dois pontos: a fé e a praxis. As verdades e as evidências reveladas no método das ciências naturais não conduzem a Deus nem ao ateísmo. O ateísmo é como o cristianismo uma Fé. O cristão, porém, face às descobertas da Ciência e ao assombro perante as maravilhas da Natureza é levado a acreditar que Deus existe. Não é uma Fé cega como Dawkins pretende mas devidamente apoiada na Razão. O ateísmo deste cientista tem ainda uma componente activa, pois procura através de programas minar a Fé dos crentes. Que bom seria se Dawkins se deixasse de retóricas e  orientasse as suas energias para as grandes causas da Humanidade: defesa dos direitos humanos e do meio ambiente , combate à fome e à exclusão social, promoção da Paz e da Justiça, etc..   Aqui , se os ateus dessem as mãos a todos os Homens de boa vontade poderiam realmente fazer obra útil e meritória.

1-O Deus de Dawkins-Alister Mc Grath -Aletheia,editores

 

Francisco Martins

 

publicado por pontodemira às 21:19
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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

RADIOGRAFIA POLÍTICA DA SEMANA

 

1-A Assembleia da República votou recentemente uma proposta do CDS/PP que tinha em vista a suspensão do processo de avaliação dos professores. Como seis deputados do PS votaram com a oposição e um absteve-se, a proposta teria grandes possibilidades de passar se 40% dos deputados do PSD, ou seja 28, não tivessem faltado à votação. Factos como este não dignificam nem os deputados nem a Assembleia da República e levam a olhar com mais desconfiança as instituições democráticas. Infelizmente para alguns políticos os cargos públicos são encarados como uma sinecura,ou com se diz na gíria popular como “ tachos “, para quem não sabe fazer outra coisa na vida. Este triste acontecimento devia ser razão mais que suficiente para se proceder quanto antes a uma revisão do sistema eleitoral e do estatuto dos deputados. Há muito que se fala na inclusão de listas uninominais para a Assembleia da República de forma a permitir uma maior proximidade entre os deputados e o eleitorado. Só que todas estas ideias não têm passado de boas intenções. Na altura das eleições fica tudo congelado à espera de melhores dias. A Assembleia da República precisa urgentemente de deputados independentes que possam defender eficazmente os eleitores que os elegem. Por outro lado, o número de deputados devia ser drasticamente reduzido pois todos sabemos que muitos se limitam a participar nas votações. Um outro aspecto negativo que muitas vezes se atribui aos deputados é o facto de serem meras peças de um xadrez comandado pelo partido a que pertencem. É muito frequente os partidos imporem a disciplina de voto às suas bancadas. É claro que há compromissos que os deputados têm de respeitar. Assim, em questões orçamentais, moções de confiança e de censura e tudo o que conste de programas eleitorais ou que possa pôr em perigo a manutenção do governo, os deputados terão que seguir as orientações do partido a que pertencem. Em tudo o resto que envolva juízos éticos ou de valor - aborto, eutanásia, manipulação genética,etc – deveria ser a consciência individual a prevalecer.
Num jornal de hoje, o dr,Mário Soares comentava a falta dos deputados atrás referida como um “ fait divers “ empolado pela imprensa. Discordo inteiramente. Os deputados têm deveres e um deles é o da assiduidade. Se não cumprem estão a desrespeitar a confiança que os eleitores depositaram neles.
 
2-A figura da semana, nos órgãos de comunicação social, foi mais uma vez o dr. Dias Loureiro. Segundo dados revelados pela revista “ Visão “, em 1991 tinha já comprado e remodelado uma vivenda no valor de 150 mil contos. Entre os gostos caros conta-se também um Mercedes que custou a módica quantia de 275 mil euros, que gasta14,8 l por cada 100 Kms e é uma dos 10 mais no País. Detém ainda com Proença de Carvalho uma coutada em Mértola para onde costuma ir caçar e “ há quem assegure que já participou em caçadas milionárias em Àfrica, que podem chegar a custar 100 mil euros.”     Ficámos assim a saber que o dr. Dias Loureiro é um homem de sucesso nos negócios e não se coíbe de gastar o seu dinheiro em prazeres de luxo.
Mas o perfil e o currículo desta figura pública não se fica por aqui. Segundo o jornal “ Público “ Dias Loureiro é accionista da sociedade gestora “ Valor Alternativo “ que por sua vez administra o Fundo Valor Alcântara que se veio a descobrir foi financiado através de imóveis adquiridos com reembolsos ilícitos de IVA, no montante de 4,5 milhões de euros.     A revista “ Visão divulgou também que Dias Loureiro é administrador único e único empregado da DL- Gestão e Consultadoria, que tem como capital social 50 mil euros e que em 2007 facturou 1,5 milhões de euros obtendo um lucro de 1 milhão de euros. Sabe-se ainda que foi administrador da REDAL, empresa de águas e energia eléctrica que investiu 250 milhões de euros em Marrocos e deu muito dinheiro a ganhar a Dias Loureiro. Este investimento só foi possível dado os conhecimentos que teve com o ministro do interior de Marrocos quando foi ministro da Administração Interna e com quem celebrou protocolos de Estado e visitou a miúde
Resumindo poderemos concluir que Dias Loureiro se encontra enleado numa enorme teia de interesses com ligações a um polvo cujos tentáculos se ramificaram em todo o tipo de negócios por vezes pouco transparentes.
 
3-O Estatuto dos Açores é outro assunto polémico que está a pôr em confronto o Governo e o Presidente da República. O diploma foi vetado pelo senhor Presidente da Republica e a Assembleia aprovou-o sem ter em contas as recomendações expressas na declaração de  veto. Se de facto existe redução dos poderes presidenciais tal só poderia ocorrer através de uma revisão da Constituição com maioria de 2/3 de deputados. Até um leigo em assuntos jurídicos sabe que uma Lei ordinária não tem força para alterar poderes expressos na Constituição. Por isso não se compreende este braço-de-ferro entre o Governo e o Presidente da República. Mas se o diploma tem na realidade matéria inconstitucional também não percebo por que não foi enviado directamente para o Tribunal Constitucional para fiscalização preventiva. Seria mais lógico do que o veto e cortava-se “ ab initio “ todo o mal pela raiz.
 
 
Francisco Martins
publicado por pontodemira às 19:42
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Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

HÁ COISAS QUE CUSTAM A DIGERIR

 

 

1-A crise financeira internacional começou nos Estados Unidos e propagou-se como um incêndio a quase toda a Europa. Portugal também não ficou imune. A princípio falou-se dos depósitos bancários e das garantias dadas pela banca e pelo Estado. A garantia para cada depósito começou pelos 25 000 € e foi passando gradualmente para os 50 000 € e depois para os 100 000€ e neste momento  não sei se as importâncias  estão seguras na sua totalidade.   Os banqueiros portugueses foram rápidos a tranquilizar as pessoas dizendo que os bancos estão bem e de boa saúde mas passado algum tempo todos, sem excepção, aceitaram os milhões de euros que o Estado generosamente lhes concedeu.  Se os bancos estavam assim tão bem não sei por que motivo aceitaram o dinheiro do Estado?  A explicação não tardou. Embora não houvesse ruptura financeira, quase nenhum tinha liquidez suficiente para conceder empréstimos aos empresários e cidadãos que deles necessitassem. E não havendo dinheiro para investir, a economia não arrancaria do estado de estagnação em que se encontra.

 

2-Chegados aqui, uma questão que se coloca é a de saber se o dinheiro dos contribuintes, que o Estado injectou na Banca, foi ponderado caso a caso e se houve o mesmo critério para todos, independentemente de uma boa ou má gestão. Salta à vista, que há três casos distintos a considerar que deveriam ter tratamento diferenciado. O primeiro será o dos bancos que foram cumpridores e apenas têm falta de liquidez. Aqui justifica-se a intervenção do Estado afim de se garantirem os empréstimos a todos os cidadãos que deles precisem.  A segunda situação seria a do BPN em que foram detectadas ilegalidades, erros grosseiros de gestão, fraudes e fugas ao fisco. Neste caso, o Estado deveria penalizar o banco, assegurando apenas os depósitos dos clientes na sua totalidade. Penso que a nacionalização também não se justificavas pois dela não resulta provavelmente qualquer benefício para o Estado.  Finalmente surge o caso BPP, que como é do conhecimento geral, gere as grandes fortunas. Entre os clientes deste banco contam-se Francisco Pinto Balsemão, João Rendeiro e José Miguel Júdice. Seria um verdadeiro escândalo que também aqui, os contribuintes pagassem a crise.  Se o BPP assumia a totalidade dos lucros quando investia na Bolsa por que razão sobrariam para o Estado apenas os prejuízos. Ora, os investimentos de risco são da inteira responsabilidade de quem os faz e a regra é a mesma para todos os bancos, incluindo o BPN. Se assim não fosse, todos os investidores da Bolsa com prejuízos teriam igual direito a pedir ajuda ao Estado.

 

3-Segundo dados revelados pelos órgãos de comunicação social no ano de 2007 foram pagos cerca de 8,2 milhões de euros, em ordenados fixos e variáveis, a administradores executivos da Banca. Afinal, o sector bancário não está assim tão mal. Mas se os lucros são tão grandes que justificam chorudos ordenados então não faz sentido a ajuda por parte do Estado. Estas situações são revoltantes e têm de ser corrigidas o mais rápido possível se quisermos construir uma sociedade mais justa e igualitária. Por alguma razão estamos na cauda da Europa no que toca ao fosso existente entre os mais ricos e os mais pobres.

 

4-Há quem diga que a auto-estima dos portugueses anda muito em baixo. Gostamos de dizer mal de tudo quanto é nosso e apreciamos e louvamos tudo o que se faz lá fora. Mas não há regra sem excepção. Numa entrevista que deu, António Lobo Antunes, considera-se o melhor escritor, quando escreve. Aqui temos um caso em que o ego está uns furos acima do que é normal.

Temos também os que são pessimistas e afinam pela regra geral. Para Filomena Mónica só existem 3 pessoas cultas em Portugal. Ela, provavelmente , encontra-se nesse número restrito. Já reparei que muita gente que se formou no estrangeiro, particularmente em Inglaterra, assume ares de superioridade e olha com desdém e arrogância os colegas de cá.  Eles é que são os bons e por isso toca a dizer mal de tudo e de todos. Mas como diz o povo: “ presunção e água benta cada um toma a que quer “

 

Francisco Martins

 

 

 

 

publicado por pontodemira às 19:28
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