Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

LICENCIADOS NO DESEMPREGO

 

A imprensa desta semana abordou um tema bastante actual e que tem a ver com os licenciados no desemprego. Segundo dados do INE ( Instituto Nacional de Estatística ) são cerca de 60 000 os  que se encontram nesta situação. Este número tem vindo a aumentar de ano para ano e dá que pensar . A revista “Visão “  diz que há cursos em risco e adianta que os diplomados com mais dificuldade em arranjar emprego são os seguintes:  professores do ensino básico, licenciados em Gestão e Administração de Empresas, docentes de disciplinas específicas ( Línguas, Matemática, Ciências e História), educadores de infância, curso de Acção Social da Universidade Católica e Filosofia da mesma instituição e  o de Sociologia da Universidade do Minho.

 

Até ao ano de 1970 eram poucos os que estudavam. A grande maioria ficava-se pela quarta classe e com essa habilitação teriam que arranjar emprego. Só uma minoria entrava na Universidade.  As escolas Comerciais e Industriais tinham cursos práticos que preparavam para o exercício de determinadas profissões.

 

Com a democratização do ensino de Veiga Simão dá-se uma verdadeira explosão escolar .Aumenta consideravelmente o número de alunos que frequenta o ensino e comete-se o erro de fechar as escolas de carácter profissional atrás referidas. As Universidades deixam de ter capacidade de resposta perante o crescimento sempre constante de  interessados na frequência de cursos superiores. Não havendo possibilidade de entrarem todos surgiram os “ numerus clausus “  que são filtros ou travões aos desejos de muitos candidatos.  Daqui surgiu a ideia peregrina de criar uma enxurrada de cursos nas mais diversas áreas, algumas meramente teóricas. Aparecem um pouco por todo o lado Institutos Politécnicos e Escolas Superiores de Educação. Os docentes na maioria licenciados foram recrutados à pressa para preencher lugares. Impunha-se que estas escolas não concorressem com as Universidades repetindo cursos já existentes e formando os técnicos que o país mais precisa para se desenvolver. Infelizmente não foi isso que aconteceu.

 

É um facto incontestável que o desenvolvimento económico de um país tem muito a ver com a formação técnica e cultural dos seus cidadãos. Apostar na educação é portanto uma medida correcta que pode trazer benefícios a médio e a longo prazo. É no entanto paradoxal o que se está a passar no nosso país dado que o número de licenciados no desemprego tem vindo a aumentar. Fica-se com a sensação que ter um curso superior não é nenhuma mais-valia. Quais as razões de fundo que estão na origem desta discrepância?  Há várias opiniões a este respeito. O ministro Mariano Gago entende que nem todos o cursos têm as mesmas saídas profissionais e por isso é necessário saber escolher.  Para Vasco Pulido Valente o sucesso não depende do curso mas da  capacidade e da habilitação. Isto significa que as universidades não desenvolvem capacidades nem habilitam devidamente os alunos que estão a formar. O problema na minha modesta opinião é complexo embora haja razão de ambos lados.

 

Uma fatia considerável dos licenciados no desemprego são potenciais candidatos ao ensino. Ora no ensino básico a população escolar tem vindo a diminuir o que levou à extinção de muitos lugares e à concentração dos alunos nas sedes dos concelhos ou em determinadas freguesias de um concelho. Sendo assim é natural que não sejam necessários tantos professores. Os que optam pela formação no ensino são por isso potenciais candidatos ao desemprego.  Se o ensino da Filosofia tem vindo a diminuir nas Escolas e a deixar de ser obrigatório em determinados anos é lógico que não sejam precisos tantos professores nesta área. Por outro lado, como a economia tem vindo a crescer a um ritmo lento não se vislumbra como possam surgir empregos. E se não forem criados empregos de pouco ou nada valem as capacidades e as habilitações de cada um. A não ser que a estes atributos se junte a iniciativa e o rasgo de o licenciado criar a sua própria empresa. Esta seria uma situação extrema que exige um certo espírito de risco e de aventura que não está ao alcance de qualquer um.

 

FRANCISCO MARTINS 

publicado por pontodemira às 20:31
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

PADRE ANTÓNIO VIEIRA ( 4º Centenário do seu nascimento )

Comemora-se este ano o quarto centenário do nascimento do Padre António Vieira. Sendo um grande nome da Igreja e da Literatura portuguesa todas as homenagens que lhe sejam prestadas são inteiramente merecidas.  Vieira nasceu em Lisboa em 1608 e era filho de gente modesta: o pai  desempenhou o cargo de oficial público na Relação da Baía. Aos quinze anos de idade entrou na Companhia de Jesus e concluiu o sacerdócio em Dezembro de 1635.  Foi um grande orador-pregador e tornou-se famoso pelos sermões que fez e deixou escritos. Veio a Portugal três vezes tendo sido incumbido por D.João IV de tratar assuntos diplomáticos. Foi perseguido e preso pela Inquisição que não o via com bons olhos por defender os cristãos-novos e ainda pelas críticas à violência do Santo Ofício. O Padre António Vieira foi ainda atacado e odiado pelos colonos que não gostavam da maneira como ele protegia e defendia os indígenas.  Em  18 de Julho de 1697 morreu na Baía com a proveta idade de  89 anos.

 

Personalidade dinâmica e multifacetada, do seu currículo constam inúmeras actividades. Foi Missionário, Escritor, Pregador, Político e diplomata e até Profeta messiânico. Batalhador incansável nunca desistiu do combate pelas grandes causas que defendia. Não poupava os grandes e protegia incansavelmente os pobres e desprotegidos. A sua voz foi incómoda para muita gente mas nunca se inibiu de criticar o que via de errado na sociedade defendendo com vigor e coragem os direitos do homem.

 

O missionário. Uma grande parte da sua vida foi dedicada às missões. Foi colocado no Maranhão e aí percorreu milhares de quilómetros a pé e de canoa através do rio Amazonas e dos afluentes Madeira e Tocantins. Para melhor comunicar com os indígenas aprendeu o tupi-guarani e chegou mesmo a redigir um catecismo nessa língua.

Foi um defensor e protector dos índios e dos escravos que eram tratados e explorados miseravelmente pelos colonos.

 

O Político e Diplomata. Com a Restauração da Independência , Vieira veio a Portugal comunicar a adesão do Brasil a D.João IV. De tal maneira agradou ao rei que passou a ser seu conselheiro tendo sido encarregado de várias missões diplomáticas : negociação da paz com os holandeses e casamento do príncipe herdeiro de Portugal D.Teodósio( primeiro com uma princesa francesa e depois com a filha do rei Filipe IV).  Em 1650 partiu para a Itália negociar a entrada dos judeus em Portugal dado que estes tinham muito dinheiro e constituíam uma mais-valia para o nosso país. Denunciou também junto do Papa as irregularidades do Santo Ofício.

 

O Profeta Visionário e Messiânico. Para Vieira o “ Encoberto “ das Trovas do Bandarra era o Rei de Portugal, D.João IV que iria derrotar os turcos e reunir toda a cristandade num grande Império ( Quinto Império ). Anteriormente tinha havido quatro impérios: 1º-o dos assírios; 2º- o dos persas ; 3º- o dos gregos ; 4º- o dos romano.

Como D. João IV morreu sem ter realizado o seu sonho, Vieira admitiu a ressurreição de D. João IV . Como tal não se verificou transferiu essa tarefa sucessivamente para o príncipe reinante D.Afonso  ( que era doente e foi deposto ) e depois para o infante D.Pedro que o substituiu. Estas teorias proféticas e messiânicas estão expressa em dois livros:  Quinto Império do Mundo, Esperanças de Portugal e  Clavis Prophetarum.

 

O Escritor e Orador. Vieira escreveu para cima de 200 sermões e inúmeras Cartas além das obras de carácter messiânico atrás referidas. Mas foi sobretudo nos sermões que mais se distinguiu. Orador eloquente falava com clareza e precisão usando com mestria e propriedade as palavras. Os sermões tinham sempre como tema a Sagrada escritura e eram sempre desenvolvidos através de contínuas citações bíblicas .A invejável formação  humanística que possuía permitia-lhe um domínio completo do latim e dos autores clássicos. Usava com perfeição a dialéctica como arte de convencer e persuadir. Na estrutura de um sermão podemos distinguir três partes principais: introdução  ou explicação sumária do tema ; desenvolvimento ou demonstração do assunto ; e  conclusão ou remate do discurso.

Os sermões do Padre António Vieira versam os mais variados assuntos: aspectos de circunstância relacionados com a vida nacional , panegíricos, temas religiosos, sociais e patrióticos.

No século XVII predominava o gongorismo e o estilo “ cultista “ que consistia no uso palavroso e oco de vocábulos que tornavam o discurso obscuro e difícil de entender.  Vieira não só critica esse estilo como dita normas :

  O  estilo há-de ser muito fácil e muito natural…O tal estilo culto não é escuro, é negro e negro e boçal e muito cerrado. É possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador português e não havemos de entender o que diz ?  Diz ainda que” o sermão há-de ter um só assunto e uma só matéria. Há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes. Sermões há que não são comédia são farsa. ( Sermão da Sexagésima )

Quando os holandeses invadem o Brasil vem o patriotismo de Vieira ao de cima. Revoltado e chocado com tudo o que vê chega a invectivar Deus desempenhando um papel semelhante ao de Moisés dialogando com Jeová em nome do povo eleito. No conhecido Sermão “ Pelo Bom sucesso das Armas de Portugal contra as da Holanda “ diz o seguinte, que passo a citar:

Todos estes dias se cansaram debalde os oradores evangélicos em pregar penitência aos homens; e pois eles se não converteram, quero eu, Senhor converter-vos a vós . Tão presumido venho de vossa misericórdia, Deus meu, que ainda que nós somos os pecadores, Vós haveis de ser o arrependido . O que venho a pedir ou protestar, Senhor, é que nos ajudeis e nos liberteis. “  E continua no mesmo tom veemente : “ Abrasai, destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que alguns dia queirais Espanhóis e Portugueses , e que os não acheis. “  Com esta argumentação Vieira parece querer convencer Deus que errou ao permitir aos holandeses tantos desacatos.

 

Um outro tema que encontramos nos Sermões tem a ver com os maus tratos de que eram vítimas os escravos negros e os índios. Alvo fácil da cobiça dos colonos eram submetidos a condições  degradantes . Isto não passava à margem do padre jesuíta como se pode ver nos desabafos que passo a transcrever, extraídos do Sermão Vigésimo Sétimo : “ Oh trato desumano , em que a mercancia são homens ! Oh mercancia diabólica, em que os interesses se tiram das almas, e os riscos das próprias !........ Os senhores poucos e os escravos muitos; os senhores rompendo galas, os escravos despidos e nus; os senhores banqueteando, os escravos perecendo à fome; os senhores nadando em ouro e prata, os escravos carregados de ferros……”

Admitindo o cativeiro dos negros vindos de África( considerado legal ) e não o dos índios( ilegal ) acrescenta Vieira : “ Bem sei que alguns destes cativeiros são justos, os quais só permitem as leis, e que tais se supõem os que no Brasil se compram e vendem, não dos naturais, senão dos trazidos das outras partes: mas que teologia há ou pode haver que justifique a desumanidade e sevícia dos exorbitantes castigos com que os mesmos escravos são maltratados ? “

 

Também no tempo de Vieira havia ladrões e corruptos. Tal como hoje o estigma recaía apenas sobre os mais pobres. Assim , havia uma distinção entre bons e maus ladrões. Os bons eram naturalmente os grandes senhores que podiam roubar à vontade pois isso era inerente ao seu estatuto. Para documentar este assunto vou transcrever alguns excertos extraídos do “ Sermão do Bom Ladrão “ :  Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: “ Basta, Senhor, que eu porque roubo em uma barca sou ladrão e vós que roubais em uma armada sois imperador ? “ Assim é, diz Vieira. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza.. E mais à frente cita outro exemplo.  Diógenes que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: “ Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos “  E não fica por aqui dando ainda outro exemplo: “Encomendou el-rei D.João o Terceiro a S.Francisco Xavier o informasse do estado da Índia por via de seu companheiro, que era mestre do príncipe: e o que o Santo escreveu de lá, sem nomear ofícios, nem pessoas, foi, que o verbo rapio na Índia se conjugava por todos os modos “

Para Vieira o rei tem por dever  corrigir os desmandos dos ladrões obrigando-os a restituir o que roubam. De contrário,em vez de ser o rei a levar para o paraíso o ladrão será o ladrão a levar o rei para o inferno.

 

Muito mais haveria para dizer sobre sobre a a vida e obra deste clássico da Literatura Portuguesa. Dá no entanto para perceber que Vieira foi um génio da oratória sacra e que ainda hoje nos entusiasma pela clareza, vigor e força das suas palavras.

 

 

Francisco Martins

 

 

 

 

 

 

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Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

As ameaças de Manuel Alegre

1-Manuel Alegre continua a ser uma figura de destaque nos órgãos de comunicação social. Recentemente declarou que o PS está a ser governamentalizado e que não há debate interno. Disse ainda que não tenciona ser candidato a secretário-geral do PS nem apresentar lista à  direcção no próximo congresso. Reconfortado com os resultados obtidos nas presidenciais vai ameaçando que não o” desafiem para coisas que são perigosas, como congressos, porque se o desafiarem vai às urnas”. Estas palavras são elucidativas do peso que ele pensa ter no PS e na sociedade portuguesa.

 

2-Todos sabemos que há coisas que não estão bem no PS e a recente remodelação no governo é a prova disso. A substituição do ministro da saúde mostra que as reformas que estavam a ser implementadas não tinham o apoio de um estrato significativo da população. É necessário poupar e tornar os serviços mais eficazes mas sem pôr em causa direitos fundamentais dos cidadãos. Não se compreende e revolta pensar que haja pessoas sem médico de família ou estejam meses à espera de uma consulta ou um ano para serem operadas. Se os médicos dos serviços públicos de saúde pública trabalhassem em exclusividade de funções tal não aconteceria. Seria bom que os políticos não esquecessem o interior do país dotando-o das infra-estruturas necessárias e dos cuidados de saúde fundamentais por forma a estancar a desertificação que actualmente se está a verificar.

 

3-Um dos problemas que um partido de esquerda não pode ficar insensível é o da exclusão social e do nível de vida das pessoas com ordenados muito baixos. Para elevar o nível de vida é necessário criar riqueza e todos sabemos que a economia está a crescer muito devagar .As contenções orçamentais que nos são impostas também não deixam aumentar a despesa para além de certos limites. Há no entanto uma coisa que destoa no meio desta situação pouco favorável. Refiro-me aos ordenados chorudos e por que não escandalosos de pessoas que ocupam cargos de gestão ou de administração no aparelho do Estado. Estes casos podem e devem ser revistos por que são injustos e não se compreendem numa sociedade onde há pessoas no limiar da pobreza. Um governo socialista não pode ficar indiferente a estes casos que nos chocam a todos.

 

4-Manuel Alegre quando se exprime fá-lo com a autoridade de quem é um socialista e homem de esquerda de longa data. A ele ninguém pode dar lições de democracia. Mas quem tem telhados de vidro não pode atirar pedras. Em data que não posso precisar o Correio da Manhã referia o facto de Manuel Alegre ir receber uma pensão mensal de mais de 3000 euros mensais por poucos meses de trabalho na RDP. Quando lhe perguntaram se não lhe parecia mal receber uma pensão por tão pouco tempo, afirmou apenas que “ é legal “.  Se há pessoas que andam uma vida inteira a trabalhar e ganham de reforma 400 e poucos euros como pode alguém que trabalha alguns meses ter direito a uma reforma deste montante que ainda por cima se vai juntar ao ordenado de deputado Aqui é caso para lembrar: se queres ser socialista prova-o na prática do dia a dia com o teu exemplo.

 

5-O que pretende Manuel Alegre com a sua “ corrente de opinião ? Será que tem como objectivo inverter o processo de reformas iniciadas pelo Primeiro-Ministro José Sócrates? No caso de haver cedência duas ilações poderão ser tiradas: a) as reformas em curso não eram necessárias como à partida se pensava; b) os interesses partidários estão acima dos interesse do país. Pode no entanto acontecer que, contra ventos e marés, o Eng. Sócrates não dê ouvidos a Manuel Alegre. Aqui a situação complica-se pois estaremos na iminência da formação de um novo agrupamento político que irá provavelmente roubar a maioria absoluta ao partido socialista. É de admitir ainda uma última hipótese: haver pequenas cedências que não ponham em causa o trabalho de fundo que está a ser feito pelo governo. Teremos que esperar para ver

 

 

Francisco Martins      

 

publicado por pontodemira às 13:57
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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

Sobre a corrupção ( algumas notas pessoais )

Vai sendo um lugar comum falar da corrupção em Portugal. É um tema velho, batido e rebatido mas pouco se tem avançado na descoberta e punição dos culpados.

Numa entrevista à televisão o Bastonário da Ordem dos Advogados dr. Marinho Pinto disse entre outras coisas que “ o fenómeno da corrupção é um dos cancros que mais ameaça a saúde do Estado de Direito em Portugal “  . Acrescentou ainda que”  há pessoas em cargos de destaque na hierarquia do Estado que praticam crimes e não são punidos”. E terminou concluindo que “ andam aí alguns a exibir os benefícios e os lucros dessa criminalidade ocupando até inclusive cargos relevantes no Estado Português “.

Estas afirmações dão que pensar e justificariam só por si um inquérito rigoroso para averiguar quem são os culpados. O dr. Marinho terá com certeza nomes que provavelmente  não  quis revelar em público. Cabe a quem de direito apurar tudo e punir os corruptos para bem do Estado e de todos os cidadãos que cumprem os seus deveres fiscais.

O General Garcia Leandro aplaudiu o Bastonário e lembrou que tinha denunciado ao Eng. João Cravinho que na altura era  Ministro das Obras Públicas casos de corrupção sem indicar nomes dado que a fonte de informação lhe tinha pedido para não os revelar . Também aqui funcionou o sigilo e as coisas não avançaram. Quando estão em jogo altas figuras do Estado o processo encalha. O Eng. Cravinho, antes de deixar a Assembleia da República, tomou a iniciativa de criar um pacote de medidas anticorrupção mas como não tinham a concordância total do governo ficaram a hibernar na gaveta à espera de outro projecto melhor.

 

Todos sabemos que a corrupção existe a nível da Administração Central e sobretudo nas Autarquias locais onde o terreno se propicia a todo o tipo de trafulhices. No Estado são os ministros que celebram contratos ou beneficiam empresas que depois vão gerir quando saem do Governo. Nas autarquias são as Câmaras Municipais que adjudicam trabalhos sistemáticos às mesmas empresas ou que baixam os valores das obras para não irem a concurso público para depois fazerem adjudicação directa a quem lhes convém ; são os trabalhos a mais em obras mal orçamentadas ou de forma a permitir esses trabalhos extra.

 

Se a corrupção existe como os factos parecem demonstrar quais as causas que estão na origem desta doença ou praga.  Vasco Pulido Valente diz que é a pobreza e o excessivo poder do Estado que gera a corrupção. Ou seja, quanto mais pobre for um país e mais burocracia houver maiores são as probabilidades  de a criar. Produzir riqueza, segundo ele diz, não é fácil nem tem ideia como se pode conseguir.  Muito mais fácil é ,emagrecer o Estado que, segundo os seus cálculos, tem 700 000 funcionários. Reduzir o Estado ao mínimo privatizando tudo o que houver para privatizar seria talvez para ele a melhor solução. Deste modo, para a Administração Central sobraria apenas a Defesa , a Segurança do País e com um pouco de sorte a Justiça. Com estas reformas não sei o que seria. Se hoje as pessoas se queixam que estão a perder os seus postos de trabalho imaginemos o que aconteceria se V.P.V. fosse primeiro-ministro.

José Manuel Fernandes director do jornal “ Público “ também parte dos mesmos pressupostos pois diz que o Estado está em todo o lado e é preciso diminuir o seu peso na sociedade e eliminar a legislação a mais. Diz ainda uma coisa com a qual eu concordo embora não seja a única solução para o problema. Nos países onde o poder está mais desconcentrado não há tanta corrupção.

Sobre a desconcentração há uma teoria defendida pelo sociólogo António Barreto segundo a qual todas as Escolas com excepção da Universidade deveriam ser entregues às Câmaras Municipais.  Ora , se as Câmaras já são hoje o lugar privilegiado do acolhimento da clientela política imaginemos o que seria com mais este suplemento vital.

Na minha modesta opinião a corrupção tem múltiplas causas. Ela não depende apenas da pobreza e da teia burocrática do Estado. Embora esses factores não sejam despiciendos ou para menosprezar. Ela existe também em países ricos ou naqueles onde   há descentralização ou desconcentração de poderes. Na América, na França, na Itália e Espanha também existe corrupção. Penso que um factor relevante que propicia este tipo de situação é a Justiça que temos em Portugal.  Os processos relativos a arguidos e acusados demoram imenso tempo a ser resolvidos. Em certos casos porque não há provas suficientes noutros porque os recursos passam de uns tribunais para os outros a um ritmo muito lento. Assim, quem tem dinheiro para pagar a bons advogados vai de recurso em recurso até chegar à última instância que é na maioria dos casos, o Tribunal Constitucional. Muitas vezes os crimes prescrevem e acaba tudo. Não sei por que é que os nossos tribunais demoram tanto tempo para decidir. Cabe aos especialistas na matéria estudar o assunto e tentar resolver este problema que é fundamental para o País.

 

 

Francisco Martins

 

 

 

publicado por pontodemira às 20:11
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Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

Espaço público democrático

Na revista “ Visão “ aparece periodicamente uma página de José Gil  que tem por título “ Radar: Ensaio “. Esta página não é de fácil compreensão pois é utilizada   uma linguagem hermética que  tira algum sabor à leitura. Lê -se e tem de se voltar atrás para apreender o verdadeiro sentido do texto. Sendo ao autor filósofo é natural que prefira o exercício intelectual à clareza e à objectividade.

 

Na   “ Visão “ do dia 25/ 01/2008  José Gil desenvolve o tema a “ Tensão do Espaço Público “. Pelo seu raciocínio ficamos a saber que há um espaço público no qual as pessoas debatem as suas ideias e manifestam as suas opiniões publicamente. Em relação a esse espaço há a considerar duas tendências : uma aberta e expansionista e outra  que tende a fechar-se e a encolher esse espaço. A primeira diz respeito aos jornais, à rádio e aos blogs onde os cidadãos expõem  livremente e sem censura as suas ideias ;  a segunda tem a ver com o autoritarismo do Governo e com a televisão.

Quanto à primeira tendência subscrevo inteiramente o ponto de vista de José Gil. As cartas aos jornais, os artigos de opinião e os comentários na rádio são um facto indesmentível e uma realidade que ninguém contesta. A discussão e a participação em fóruns que envolvem questões ambientais e ecológicas interessa e motiva cada vez mais  pessoas. Em relação a tudo isto a minha concordância é total.

 

Passando para a segunda tendência a que procura encurtar o espaço público o meu ponto de vista é porém diferente. É certo que o Governo tomou medidas de carácter autoritário que têm provocado protestos de pessoas e de instituições. Há pessoas que se queixam de  falta de diálogo e de insensibilidade para os problemas que as afectam e querem ver resolvidos. As decisões por vezes são demasiado rápidas e requeriam um estudo mais aprofundado para serem  eficazes e atingirem os objectivos propostos. Dialogar é importante em democracia mas nenhum Governo pode ficar refém de  negociações . É sempre difícil senão impossível agradar a todos. Se é mau não dialogar a situação inversa, como aconteceu no Governo do Eng. Guterres, em que se cede ao peso das pressões e dos lobbies pode tornar um país ingovernável. Embora seja preciso corrigir muitos erros que se têm cometido estamos longe de poder afirmar como alguns querem que o Governo é fascista ou ditatorial. Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

 

Vamos agora passar para a segunda força que impede o alargamento do espaço público e a que José Gil designa por televisão. Aqui a minha discordância é total. Não me parece que os canais públicos de televisão ( RTP 1 e 2 ) encurtem esse espaço. Os telejornais noticiam qualquer irregularidade cometida pelos políticos e não escondem as manifestações de protesto contra o governo ou de qualquer ministro sempre que elas acontecem. Há entrevistas a personalidades que estão na ordem do dia dentro e fora da política. No programa “ Prós e contras “ debatem-se os mais diversos assuntos da actualidade com a participação de pessoas, técnicos e especialistas de várias tendências e correntes de opinião. Os “ Gatos Fedorentos “ ridicularizaram até à exaustão o Primeiro-Ministro José Sócrates e outras figuras políticas da actualidade. Os bonecos da “ Contra informação “, satirizam toda a actualidade nacional e não apenas os políticos. Não me parece que haja qualquer censura à televisão ou se de facto há não transparece nada cá para fora. Estamos, assim, perante uma afirmação exagerada de José Gil. Poderei estar enganado mas os factos desmentem essa possibilidade. A política é uma Ciência e uma Arte. Em Ciência política temos aí muita gente competente. E não são só os professores doutores, economistas e políticos de todos os quadrantes. Toda a gente sabe dizer o que está mal e fazer diagnósticos. O problema é quando se passa da teoria à prática. Não basta saber muito. É preciso também saber governar.  Arte de governar implica dialogar e ouvir mas também tomar decisões firmes quando as circunstâncias assim o exigem. Para Platão os filósofos seriam os melhores governantes. Sei que José Gil é um bom filósofo. A minha dúvida é se seria também um bom político.

 

 

Francisco Martins

 

publicado por pontodemira às 12:28
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