No jornal o “ Público “ li um curioso e interessante artigo intitulado : PS críticos acusam secretário-geral de ter abafado oposição interna.
Personalidades bem conhecidas traçam o retrato e fazem a radiografia do PS e é sobre essa matéria que irei fazer alguns comentários.
O sociólogo António Barreto compara o PS actual ao “ mar da Palha “: não há debate,não há crítica tudo é pacífico. Ninguém pensa com medo de represálias.
Ana Gomes entende que não há manifestações de divergência porque não há debate de ideias.
Para Vítor Ramalho as coisas são como são porque o partido se tornou pragmático e está mais preocupado com os resultados imediatos.
Manuel Alegre considera que a ausência de sensibilidade visível no PS passa pelo facto de haver um “ buraco negro na esquerda “
Mário Soares vai mais longe e diz que não foi só o comunismo que implodiu, foi também o socialismo. Hoje não há políticas socialistas.
Finalmente Medeiros Ferreira ao referir que o PS está a fazer o que a direita não se atreveu a fazer tem esta saída espantosa : “ pode ser um serviço patriótico mas não é um serviço ao PS “ Apetecia-me perguntar se um partido eleito para governar deve servir os interesses do povo ou os seus próprios interesses.
Da análise destas considerações e subjacente a algumas delas estão os seguintes pressupostos: 1º - O Partido Socialista já não é um partido de esquerda ; 2º O governo não é socialista porque não tem uma política socialista.
Em primeiro lugar convinha saber o que é um partido de esquerda. De um modo geral diria que é aquele que mais sensibilidade tem pelos problemas sociais e procura soluções para eles. É o caso da exclusão social, da pobreza, do desemprego e dos direitos inerentes a todos os cidadãos. Para ser mais rigoroso irei citar o político e filósofo italiano Norberto Bobbio ( 1 ) que a este respeito diz o seguinte “ quando se atribui à esquerda uma maior sensibilidade para reduzir as desigualdades, isso não significa que ela pretende eliminar todas as desigualdades ou que a direita as queira conservar todas, mas apenas que a esquerda é mais igualitária e a direita menos igualitária. “
À luz destes princípios diria que o Partido Socialista terá que estar atento aos problemas sociais embora, como é óbvio, não os possa resolver na totalidade com todos gostariam e desejariam. Há no entanto algumas questões entre outras, que têm a ver com o princípio da igualdade, e reclamam uma solução urgente: refiro-me às listas de espera nos hospitais e aos médicos de família que nem todos têm. Ora o direito à saúde deverá ser igual para ricos e pobres. Isto é apenas um exemplo e não vou ser exaustivo.
Em segundo lugar conviria saber por que é que o Governo socialista não tem uma política genuinamente socialista. Esta questão poderá ser abordada em três vertentes:
crescimento económico, instituições europeias e internacionais e globalização.
Sem crescimento económico não há riqueza e sem riqueza não há dinheiro.Faltando o dinheiro não se poderá acudir a todas as necessidades. Algumas terão que ficar por satisfazer. Por outro lado tanto o partido socialista como todos os partidos europeus não podem fugir às normas da comunidade europeia e do FMI que impõem regras rigorosas de equilíbrio orçamental. Este espartilho condiciona de forma significativa qualquer política socialista. O dr. Mário Soares ainda se deve lembrar das medidas drásticas que teve de tomar quando foi primeiro ministro. Não foi por gosto que teve de meter o socialismo na gaveta ou mandar os portugueses apertar o cinto. Uma coisa é o que se quer outra o que se pode e nos deixam fazer. Concordo que muitas coisas estão erradas e jogam contra os países mais desfavorecidos . Sendo assim há que lutar para que essas instituições sejam reformadas ou adaptadas aos tempos que correm.
Finalmente outro factor não despiciendo tem a ver com a globalização que afecta todos os países do globo.A circulação de pessoas, bens , empresas e de fluxos financeiros parece beneficiar mais os países ricos e desenvolvidos enquanto os pobres se afundam cada vez mais na miséria. As multinacionais tão depressa se instalam num país como a qualquer momento se retiram deixando centenas de trabalhadores no desemprego.
A este respeito o sociólogo Anthony Guiddens ( 2 ) diz o seguinte : “ À medida que a globalização avança, parece notório que as estruturas e os modelos políticos existentes não estão preparados para enfrentar um mundo cheio de riscos, desigualdades e desafios que transcendem as fronteiras dos países….. Muitos dos processos que afectam as sociedades do mundo inteiro estão além da competência dos actuais mecanismos de exercício de governo. Face a este “deficit” de governo, algumas pessoas têm exigido novas formas de governação mundial para lidar com questões globais de forma global.”
Podemos assim concluir para terminar que não há Estado, Governo ou Partido que seja imune a estes problemas e as saídas para os resolver ultrapassam muitas vezes a boa vontade e o empenho que se põe na sua resolução.
FRANCISCO MARTINS
(1)-Direita e Esquerda-Norberto Bobbio- Editorial Presença
( 2 ) Sociologia –Anthony Guiddens- Fundação Calouste Gulbenkien
. A situação de instabilida...
. O TEMPO VOA ( Tempus fugi...
. UCRÂNIA EM GUERRA E EUROP...
. DEUS , A CIÊNCIA, AS PROV...
. A ESCOLA DA ALMA- Da form...
. LIBERDADE E IGUALDADE- O ...
. DESMASCULINIZAR A IGREJA ...