Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

VINDIMAS ( recordações da minha infância )

                                                                            

 

 

1-No início do Outono começam as vindimas. É um trabalho alegre que se faz com gosto. Miguel Torga nas suas poesias dedica um soneto às vindimas e não fujo à tentação de o transcrever:

 

Vindimas

 

Mosto, descantes, e um rumor de passos

Na terra recalcada dos vinhedos.

Um fermento de forças e cansaços

Em altas confidências e segredos.

 

Laivos de sangue nos poentes baços

Doçura quente em corações azedos.

E sobretudo, pés, olhos e braços

Alegres como peças de brinquedos.

 

Fim de parto ou de vida, ninguém sabe

A medida precisa que lhe cabe

No tempo, na alegria e na tristeza.

 

Rasgam-se  os véus do sonho e da desgraça.

Ergue-se em cheio a taça

À própria confusão da natureza.

 

 

Na minha meninice, pela década de 50, as vindimas sendo como hoje uma actividade agradável, eram um trabalho mais duro sobretudo para os homens que tinham de transportar as uvas aos ombros e percorrer grandes distâncias como se faz ainda hoje nos socalcos do Douro. Como não havia baldes de plástico as uvas eram lançadas em cestos de vime e transportados em burros ou em carros de bois para os lagares. À tardinha o pessoal que comparecia em massa, alguns vinham apenas para ajudar, despedia-se satisfeito e regressava a casa depois de cumprida a sua missão.

 

2-Terminada esta tarefa seguia-se outra não menos importante-  a pisa das uvas. Hoje há toda uma parafernália de máquinas  que executam todo o tipo de trabalhos e que deixam pouco para ser feito pelo esforço humano. Naquela época as coisas eram bem diferentes. Pela tardinha um grupo de 4 ou 5 homens entrava no lagar e à luz do gasómetro e à cadência das cantigas, que entoavam, percorriam o espaço em todas as direcções pisando e esmagando as uvas para delas extrair o mosto. Trabalho árduo e difícil mas que os homens faziam com gosto. Para retemperar as energias e dar um pouco mais de ânimo lá ia um copo de vinho ou  um cálice de água-ardente. Ao fim de algumas horas acabava o trabalho e era servido a todos uma pequena ceia. E a festa terminava aqui coroando em beleza um ano de canseiras e de trabalho na vinhas. Como não havia como hoje tractores, a terra era cavada palmo a palmo e praticamente tudo era feito manualmente. A mão de obra era abundante e facilmente se encontravam homens e mulheres para as diferentes tarefas.

 

3-Noite adentro era o regresso a casa na carroça de meu pai. Por vezes surgia o imprevisto. A égua também tinha as suas manias e quando teimava em não andar não andava mesmo. Se o meu pai insistia e lhe batia as coisas ainda se complicavam mais. Recordo-me de uma vez se ter virado a carroça e sermos projectados para a valeta da estrada mas sem consequências, pois saímos ilesos. Chegados a casa já de madrugada não nos custava a adormecer pois em breve caíamos nos braços de Morfeu. Oh ,que saudades eu tenho da vida pura e simples da minha meninice.

 

Francisco Martins

 

 

 

 

 

 

publicado por pontodemira às 22:36
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