Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2019

Europa-Rússia-América: O caminho para o fim da liberdade

 

Este é o título de um livro escrito por Timothy Snyder, Historiador e Professor na Universidade de Yale e membro do Instituto de Ciências Humanas em Viena. O autor faz uma análise histórica da evolução da política na Rússia desde o começo do século XX até aos nossos dias e da influência negativa que Putin  tem exercido nos Estados Unidos de Trump e nos partidos nacional- populistas da Europa.

Para Timothy Snyder há duas teorias que estão na origem da evolução política do Ocidente ( EUA e Europa). Uma é a teoria da inevitabilidade que nos diz que tudo caminha inevitavelmente para um dado fim e por isso não há alternativa nem nada que possa ser feito. Para o capitalismo americano a natureza criou o mercado, este criou a democracia e esta a felicidade. Na versão europeia a história criou a nação que aprendeu com a guerra que a paz era boa e por isso escolheu a integração e a prosperidade. Durante o período que funcionou a União Soviética o comunismo tinha a sua própria política da inevitabilidade: a natureza criou a tecnologia; a tenologia a mudança social; a mudança social provoca a revolução e a revolução permite a utopia. Quando a União Soviética colapsou em 1991 os Europeus ocuparam-se com a criação da União Europeia e os americanos pensaram que o fracasso do comunismo confirmava o triunfo do capitalismo. Mas em 2008 a crise económica tudo mudou e com o desmoronamento da política da inevitabilidade aparece na Rússia a teoria da eternidade que nos diz que ninguém é responsável pois o inimigo virá independentemente do que fizermos. Os políticos promovem a crença de que o governo não pode ajudar a sociedade como um todo limitando-se a protegê-la das ameaças. Por outro lado desvaloriza e destrói as obras de países que podem servir de modelos para os seus próprios cidadãos. A Rússia foi o primeiro país a recorrer à política da eternidade. Segundo esta teoria os governantes não se devem preocupar com as desigualdades sociais mas apenas com os inimigos externos e internos. Se o povo está a sofrer é necessário que compreendam que há outras pessoas que estão a sofrer ainda mais. Putin escolheu o filósofo fascista Ilyn como seu guia. E foi esta ideologia fascista que deu força à oligarquia na Rússia e ajudou os líderes  a mudarem da inevitabilidade para a eternidade. É esta política da eternidade que faz com que os líderes se agarrem ao poder quebrando as regras inerentes às eleições democráticas. A Rússia de Putin está cheia de  oligarcas e cleptocratas que se apoderaram de uma grande parte da riqueza nacional. Para Putin o que interessa mais é dividir para reinar. Sabe-se que interferiu nas últimas eleições presidenciais norte-americanas procurando favorecer Trump e atacando através do pirateamento  de emails a candidata Hilary Clinton dizendo que sofria de uma doença incapacitante.  A internet americana tornou-se também uma superfície de ataque para os serviços secretos russos que puderam fazer o que queriam na psicoesfera americana durante 18 meses. Um outro objectivo de Putin é desagregar a União Europeia. Quando soube que a Ucrânia queria aderir à União Europeia não tardou a invadir a Crimeia para se poder apoderar de todo o território. Só que a população da Ucrânia reagiu e conseguiu travar a agressão russa. É claro que a Rússia não vai ficar por aqui. Na cabeça de Putin continua a ideia da Eurásia ou seja o prolongamento do continente asiático até às fronteiras da Europa acabando por englobá-la. Na opinião de Teresa  de Sousa que escreve todos os domingos no Jornal Público isto implicaria  e passo a citar: “em termos geopolíticos separar a Europa da sua dimensão atlântica quebrando a unidade do mundo ocidental “

No último capítulo do livro “ Igualdade  e Totalidade “, Timothy Snyder revela alguns factos curiosos que talvez muitos desconhecem. Trump era um empresário  falido  do imobiliário que foi salvo pelos capitalistas russos. A conhecida frase “ América Primeiro “ que Trump utilizou nas eleições foi buscá-la a um movimento que em 1930 se opunha ao Estado Social proposto por Franklin D. Roosevelt e também à entrada dos EUA na 2ª Guerra Mundial. No “ América Primeiro” de Trump não estão incluídos todos os americanos pois ele é racista e odeia os afroamericanos. Também já mostrou vontade de sair da Nato e o seu interesse , tal como o dos russos, é contribuir para o desmembramento da Europa. O sistema democrático americano está a decair e a caminhar para uma oligarquia. Empresas reais e de fachada, entidades civis podem influenciar as campanhas e de tentar comprar as eleições. Também o Supremo Tribunal permitiu alterações nas leis eleitorais dando a possibilidade de os Estados Americanos suprimirem o voto dos afro-americanos e de outros eleitores inconvenientes.

E para terminar vou transcrever o comentário que Timothy Snyder fez na parte final do livro: “ Fazer da política americana uma eternidade de conflito social é permitir o agravamento da desigualdade económica. A América ou terá as duas formas de igualdade( racial e económica) ou não terá nenhuma. Se não tiver nenhuma, a política da eternidade prevalecerá e a democracia americana morrerá. “

publicado por pontodemira às 22:16
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 17 de Dezembro de 2019

REALIDADE E UTOPIA

 

A época em que a Troika impôs a Portugal um rigoroso programa de austeridade já vai longe. As medidas que foram tomadas resultaram e o défice nas contas públicas tem vindo a diminuir prevendo-se que brevemente haja superavit. Há no entanto a ter em conta que a dívida pública ainda é elevada e não podemos dar passos em falso para não sermos obrigados a voltar para trás. O ano de 2020 não vai ser fácil para o Governo pois está em cima da mesa uma mão cheia de reivindicações, de vários sectores da Administração Pública, que podem causar instabilidade social. Dos pedidos que foram feitos passo a destacar os seguintes:

Enfermeiros-criação da carreira de especialidade e um vencimento adequado a estas funções. Uma nova tabela salarial para toda a classe e a generalização do horário de 35 horas semanais.

Médicos-pagamento integral do trabalho extraordinário. Negociação de uma grelha salarial que respeite a diferenciação técnica e profissional dos trabalhadores médicos. Remunerar o trabalho prestado ao sábado e além da urgência de um modo específico. O trabalho ao sábado das 8 h às 13 h ainda é equiparado a dias da semana. Parece que também são precisos mais médicos para algumas especialidades e para o SNS.

Polícias-melhoria de salários e melhores condições de trabalho-

GNR-reivindicam direitos salariais e sociais: actualização da tabela remuneratória e de pagamento de retroactivos.

Professores-contagem do tempo e descongelamento de carrieiras.

Assistentes Operacionais das Escolas- fim da precariedade e aumento dos salários. Corrigir as insuficiências de pessoal.

Registos e Notariado- pedem o fim das assimetrias salariais e melhores condições do sistema remuneratório.

A acrescentar a estas reivindicações há também os investimentos que têm de ser feitos em infraestruturas nomeadamente na Saúde, Educação e Transportes.

Saúde- obras em hospitais e Centros de Saúde.

Educação- obras em edifícios escolares

Transportes- modernização de caminhos de ferro e electrificação de troços : renovação da linha entre Covilhã e Guarda; electrificação do troço Viana do Castelo- Vigo. Modernização da linha do Oeste entre Mira- Meleças e Caldas da Rainha ; electrificação entre Lagos e Tunes e entre Faro e Vila Real de Santo António

Esta é a realidade que não pode ser posta de lado.  Mas em conexão com esta realidade encontra-se também uma utopia. Alguns partidos como o BE vão mais longe e pedem também uma baixa nos impostos e outros como o PSD um desagravamento da carga fiscal. Assim o aumento nas despesas devia ser acompanhado de uma diminuição das receitas baixando os impostos. Deste modo ,onde se vai  buscar o dinheiro para fazer face ao aumento das despesas? Se isto for possível teríamos a cereja no topo do bolo.

Esperamos que tudo seja resolvido, gradualmente e a seu tempo, sem pressas nem precipitações. Para que tudo corra bem é necessário apoio às pequenas e médias empresas e que o crescimento económico nos ajude.

publicado por pontodemira às 21:18
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 28 de Novembro de 2019

POVO VS DEMOCRACIA

 

( Saiba porque a nossa liberdade está em perigo e como a podemos salvar )

Este é o título de um livro escrito por Yascha Mounk, professor de Relações Internacionais na Universidade Johns Hopkins e membro do Conselho de Relações Internacionais. Neste livro o autor faz uma análise da decadência da democracia liberal, das causas que lhe deram origem e das soluções a ter em conta para reverter esta situação. Num texto que escrevi anteriormente referi que a partir da queda do Muro de Berlim e do Fim da Guerra Fria a democracia liberal atingiu o seu pico mais alto. O historiador Fukuyama sentenciou mesmo o fim da História. Mas com  a crise Económica de 2008 e nas últimas décadas a democracia tem vindo a decair devido ao aparecimento de partidos populistas. Democracia e liberalismo são elementos indissociáveis ou seja não há liberdade sem democracia nem democracia sem liberdade. Acontece que no momento actual estão aparecendo regimes políticos antagónicos: Democracia sem liberdades( democracia anti-liberal ) e Liberdades sem democracia( Liberdade não democrática ) . Com a opinião popular a ganhar tendências  iliberais e as preferências das elites a tornarem-se não democráticas, o liberalismo e a decadência começam a entrar em choque. A democracia liberal, essa mistura de direitos individuais e governo popular que há muito tempo caracteriza a maior parte dos governos da América e da Europa Ocidental, está a rebentar pelas costuras.

1-Democracia sem liberdades- Os populistas procuram tirar partido do descontentamento e das frustrações do povo e uma vez no poder vão suprimindo gradualmente todas as liberdades. Na Turquia, Rússia ou na Venezuela a ascensão de homens- fortes iliberais pode ser o prelúdio de um poder autocrático. Depois dos media serem amordaçados e das instituições independentes terem sido abolidas é fácil aos governantes fazerem a transição  do populismo para a ditadura. Assim que os lideres populistas tiverem apartado do caminho todos os obstáculos liberais que impedem  a expressão da vontade popular torna-se mais fácil  desrespeitar o povo. Para os populistas tudo se resolve com facilidade: se um país está inundado de imigrantes é preciso construir um muro. Se os empregos vão para o estrangeiro é preciso proibir outros países de venderem os seus produtos no nosso país. Se os terroristas nos atacam em nome do Islão o que há a fazer é banir os muçulmanos.

2-Liberdades sem democracia. A democracia e o poder democrático do povo é muitas vezes condicionado pelas normas da União Europeia, pelos Tratados e Organizações Internacionais. O Tribunal Constitucional pode também considerar inconstitucionais normas aprovadas pelos representantes do povo no Parlamento. O livre movimento de pessoas dá aos cidadãos europeus amplos direitos de acesso ao território de outros Estados-Membros mas limita a capacidade de os Estados-Membros decidirem quem deve viver no seu território. O argumento para retirar tantas decisões políticas ao debate democrático pode ser perfeitamente válido. Mas a isso não muda o facto de as pessoas terem direito de ter uma palavra decisiva em todas estas áreas políticas. A influência dos lobistas e o abismo que separa as elites políticas das pessoas que são  suposto representar, tudo isto isolou efectivamente o sistema político da vontade popular. A desintegração da democracia liberal nas duas formas de regime( democracia anti-liberal e liberalismo antidemocrático) pode deduzir-se claramente no exemplo que passo a mencionar: “ O Presidente da comunidade turca residente em Wangen bei Olten na Suíça pediu autorização para construir um minarete azul e dourado. A população local opôs-se e a comissão municipal de Planeamento rejeitou o pedido por unanimidade. Foi apresentado um recurso para o Tribunal Administrativo do cantão de Solthurn e este autorizou a construção. Os habitantes locais recorreram para o Supremo Tribunal Federal e este confirmou a decisão. Mas a população não desistiu e recolheram-se assinaturas para um referendo popular que tornaria ilegal a construção de mais minaretes. Milhões de eleitores foram às urnas para restringir a liberdade de culto dos muçulmanos. Apesar dos apelos para respeitar esta religião minoritária a proposta foi aprovada com 58% dos votos. A Constituição Suíça afirma agora:” A liberdade de culto e de consciência é garantida. A construção do minarete é proibida. “. O referendo é um processo democrático de tomar decisões mas estas não podem pôr em causa princípios liberais básicos.

Por que é que a democracia liberal se está  a desconjuntarr?  O autor do livro diz-nos que a origem está nas redes sociais , na estagnação económica e na identidade. As tecnologias de comunicação digital têm um enorme impacto político e prejudicam a democracia ao dar aos populistas a plataforma que eles precisam para envenenar a política. Mas as redes sociais também podem ser aproveitadas para combater as promessas falsas e a política errada dos  populistas. A estagnação económica gera desigualdades e medo no futuro que é aproveitado pelos populistas. O receio em relação à imigração está também no topo das preocupações em toda a Europa. Como  os níveis de imigração têm aumentado rapidamente as mensagens anti-imigração estão no centro da retórica populista e as pessoas com maior grau de ressentimento tendem a votar em muito maior número nos partidos populistas. As regiões monoétnicas têm mais dificuldade em acomodar-se à imigração do que os residentes em áreas com uma longa história de imigração. O medo do futuro , o ressentimento e a perda de identidade de certos grupos sociais são factores que os populistas aproveitam para convencer os eleitores a votar neles.

Quais são as soluções que Yascha MounK propõe para que governos corruptos ou populistas que se agarram ao poder  dêem lugar a governos democráticos  e liberais ?As medidas a propor são as seguintes: criar um patriotismo inclusivo que não oprima minorias nem promova o conflito com outros países; orientar a economia no sentido de uma maior justiça na distribuição da riqueza; aumentar os impostos reais sobre as pessoas com maior rendimento e as empresas com maior lucro e investir em infraestruturas, na investigação e na educação;  reorientar a política da habitação aumentando a oferta das casa disponíveis; aumentar a produtividade financiando a investigação científica; criar um Estado Social capaz de proteger tanto os que estão fora do mercado de trabalho como os que estão dentro e que encoraje as empresas a contratar e não a despedir; reconstruir a confiança na política impondo restrições muito maiores às sinecuras almofadadas que os políticos, depois de saírem dos cargos, podem aceitar; fazer com que a educação cívica faça parte integrante do sistema de ensino desde as escolas pré-primárias do país inteiro até às faculdades das principais universidades

Na parte final do livro Yascha Mounk coloca a seguinte interrogação: Será que os defensores da democracia liberal conseguirão resistir ao assalto populista e renovar o sistema político que, com todas as insuficiências tem promovido uma paz e prosperidade sem precedentes? Nos próximos anos, pode ser necessária mais e mais coragem para defender aquilo em  que acreditamos. É impossível prever qual será o fim último do nosso sistema político.

publicado por pontodemira às 17:34
link do post | comentar | favorito
Domingo, 27 de Outubro de 2019

A Economia do Bem Comum

 

Este é o título de um livro escrito por Christian Felber professor associado de Economia da Universidade de Viena.

Sabemos que num mercado global capitalista e liberal as empresas  procuram concorrer umas com as outras e maximizar os lucros. O bem comum ou seja a igualdade do bem-estar de todas as pessoas fica posto de lado. Será possível inverter esta situação ? O livro que acabei de ler diz-nos que sim e trata de forma holística os pormenores que há que ter em conta para alcançar esse objectivo.  É isso que vou tentar resumir neste texto

A Economia do Bem Comum apoia-se em três ideias principais:  1- Nos valores que nas relações humanas são bem sucedidas: a honestidade , a empatia, a confiança, a cooperação, o compromisso com a natureza, a solidariedade, a vontade de partilhar; 2- O dinheiro, o capital e o benefício financeiro não deverão ser mais do que meios económicos para ajudar a atingir o fim ( bem comum ) ; 3-O êxito económico é aferido pelo Produto do Bem Comum (PBC) que afere o êxito da economia nacional ; pelo Balanço do Bem Comum, que afere o êxito de uma empresa e pelo Exame do Bem Comum para sabermos se um dado investimento contribuiu para o fim da economia.

A Economia do Bem Comum não pretende acabar com os balanços financeiros nem deseja que as empresas privadas não procurem o lucro. O lucro financeiro deixa de ser a finalidade do trabalho empresarial mas um meio para aumentar o mais possível o bem-estar. A Economia do Bem Comum persegue três objectivos : 1- Oferece alternância completa e coerente ao modelo económico existente; 2-Propõe um processo concreto de implementação democrática que permita um modelo aberto para combinações e cooperações; 3-Oferece a todas as pessoas, empresas, organizações e instituições um caminho concreto para uma economia social sustentada, humana e democrática.  Para Christian Felber todas as economias de mercado que busquem o lucro e a concorrência deveriam alterar os seus nomes para economia de marcado sem escrúpulos, desumana e em última instância antiliberal. Felber enuncia depois que os dez problemas graves do capitalismo são : 1-  Concentração e o abuso do poder; 2- Interrupção da concorrência e formação de cartéis; 3. Localização da concorrência: os países procuram  atrair as empresas e melhorar as condições para conseguir obter lucros, dumping salarial, laboral, social e ambiental ; 4-Política de preços: os preços reflectem o interesse dos poderosos e não os custos ou as necessidades reais; 5-Polarização social e medo: quanto maior, global for a livre concorrência mais são as diferenças de poder , as desigualdades e o foso entre ricos e pobres; 6-A não satisfação das necessidades básicas e a pobreza: o objectivo do capitalismo não é  a satisfação das necessidades básicas mas o aumento do capital; 7-Destruição ecológica ;8- Perda de sentido: cada vez mais pessoas são incapazes de encontrar sentido para algo que não seja ganhar dinheiro e consumir ainda mais; 9- Degradação de valores; 10-Eliminação da democracia: multinacionais, bancos e fundos de investimentos tornam-se muitíssimo poderosos através de grupos de pressão, do financiamento de partidos políticos ou da influência em parlamentos e governos conseguindo maximizar os seus próprios interesses e não os do Bem Comum.

 

 

O objectivo da Economia do Bem Comum é alterar as regras de jogo e substituir a procura do lucro e a concorrência pela busca do bem comum e pela cooperação. No capitalismo  o objectivo final  é o aumento do capital. Na Economia do Bem comum o objectivo final é o aumento do bem comum. O balanço do Bem Comum está alinhado com os rótulos dos produtos ( agricultura ecológica, comércio justo ). Os incentivos às empresas que servem o Bem Comum podem ser feitos de várias maneiras: diminuição de impostos sobre o lucro; taxas aduaneiras mais baixas ; créditos bancários em condições mais favoráveis. Os superavits das empresas devem ser empregues no incremento de valores sociais  e ambientais: energias renováveis, alimentos biológicos ou oferecendo serviços de saúde ou educativos.. Na economia do Bem Comum existirá um salário máximo e um salário mínimo para cada hora de trabalho. Na Economia do Bem Comum a lógica concorrencial dá lugar a uma lógica cooperativa e as empresas deverão agir umas com as outras. Quantas mais cooperativas se ajudarem mutuamente melhores resultados obterão no balanço do Bem Comum e maiores possibilidades de sobrevivência terão. A cooperação poderá fazer-se da seguinte maneira: partilhando conhecimentos; cedendo mão de obra; cedendo encomendas; oferecendo empréstimos sem juros e procurando uma liquidez mútua. O “comércio livre” coloca numa plataforma de igualdade as empresas que menosprezam e prejudicam as leis e os valores criados democraticamente na UE e as empresas que os cumprem e respeitam. O comércio livre é um convite político à deslocalização e à exportação de postos de trabalho para países com menos proteção do Bem Comum. Para corrigir estas anomalias Christien Felber propõe uma opção política prática que consistiria em a UE permitir o comércio livre em todos os países que ratificassem os pactos de direito civis e sociais da ONU, as  normas laborais e os acordos ambientais da ONU incluindo o Pacto de Quioto. Ao longo do seu trabalho Christien Felber trata ainda da democratização da banca que deve ser orientada para o bem comum. A banca democrática é criada com o princípio da subsidiariedade. A maior parte dos créditos são concedidos na área municipal e regional. Os bancos democráticos decidirão de maneira autónoma e em total transparência. O director e o consultor administrativo serão eleitos directa e democraticamente por uma junta bancária democrática constituída por representantes dos trabalhadores, consumidores, devedores e pequenas e médias empresas. Poderá ser criada uma moeda complementar para o comércio internacional e as moedas nacionais continuarão a existir. Quanto à propriedade privada quando ela ultrapassa um determinado limite pode ser uma ameaça para a democracia. Algumas empresas e pessoas podem tornar-se tão poderosas que controlem os meios e conduzam os processos políticos de acordo com os seus próprios interesses. O mesmo acontece com as heranças e doações que não devem ultrapassar uns determinados limites. No que diz respeito à democracia também esta deve evoluir de um modelo unidimensional ( apenas democracia representativa ) até chegar a uma democracia tridimensional : democracia indirecta( representativa ), directa ( convenções e referendos populares) e participativa ( participação na economia e nos serviços de interesse comum assim como nas grandes empresas).

Será a Economia do Bem Comum uma utopia ?  Christien Felber diz que não e cita alguns números e dados que confirmam o interesse pela Economia do Bem Comum. No momento em que escreveu o livro( 2010) estavam a apoiar o modelo 1750 empresas em 35 países, 220 organizações e 6000 particulares. Havia também grupos regionais, mais de 100 em 20 países da Europa, América do Norte e América do Sul e também 16 associações de Suporte: 4 nacionais( Áustria, Itália, Espanha e Suiça) e 12 regionais ( Burgenland , Berlim e Canárias).

Para finalizar direi que esta teoria desenvolvida por Christien Felber está de acordo com a doutrina social da Igreja e com o pensamento do Papa Francisco que abordou este tema na encíclica Laudato si ( louvado sejas )

 

 

publicado por pontodemira às 08:48
link do post | comentar | favorito
Sábado, 28 de Setembro de 2019

NÓS CONTRA ELES ( O fracasso da globalização )

 

Nós Contra Eles( o fracasso do globalismo) é o título de um livro escrito por Ian Bremmmer, professor universitário e cronista da Time. O autor faz uma análise exaustiva das causas que levaram ao fracasso do Globalismo e prevê que no futuro, com as novas tecnologias nomeadamente a automação dos serviços, a situação se agrave ainda mais.

Para o fracasso do Globalismo concorreu não só a vaga de populismo nacionalista que varreu a Europa mas também a  desigualdade na distribuição da riqueza e o fosso cada vez maior entre ricos e pobres. Tudo isto levou  ao aparecimento de dois grupos: o do”Nós Contra Eles”

Os  antiglobalistas de esquerda usam o termo Eles para se referirem à elite que governa as grandes empresas e aos banqueiros que permitem essas elites de explorarem o trabalhador e o investidor comum. Os antiglobalistas de direita usam o termo Eles para descreverem governos que defraudam os seus cidadãos ao tratarem de forma privilegiada minorias, imigrantes ou qualquer grupo que esteja explicitamente protegido por Lei.

 As causas que levaram a esta situação são entre outras as seguintes: a crise financeira de 2008-2009;a crise de migrantes; ataques terroristas; deslocalização de empresas; a crise da dívida que criou o caos na Zona Euro e a estagnação económica. Daqui nasceu na Europa de Leste a raiva nacionalista particularmente nos países de Visegrado: Polónia, Hungria, República Checa e Eslováquia. Todos estes países se recusaram a aceitar as quotas da EU que implicavam a aceitação de refugiados vindos de fora da União. Ora a abertura e a tolerância à diversidade étnica racial e de género são ainda aceites na Europa Ocidental mas há cada vez mais gente a questioná-los, tanto na Europa como nos EUA. A viragem a favor do nacionalismo identitário na Europa de leste tornará difícil para a a Alemanha e para a França implementar  as reformas da EU que podem tornar as instituições europeias mais fortes. Acresce a tudo isto que não se prevê um plano de paz abrangente em relação ao Médio Oriente nem um surto de prosperidade no Norte de África. O nacionalismo promete confrontar as forças que se acredita serem criadoras de desordem e que ameaçam a soberania pessoal e nacional. Daí a criação de muros fortes que os mantenham a “Eles” do lado de fora.  Ian Bremmer remata dizendo que “ a batalha entre Nós e Eles continua a flagrar em todos os países onde o medo da mudança  ganha contornos crescentes “

Para que uma sociedade se mantenha unida e coesa é necessário que haja um contrato social entre cidadãos e o Estado. O sonho chinês de Xi  difere do sonho americano. O actor central do sonho chinês não é o indivíduo e a família mas sim um sólido e disciplinado partido governamental. Para os americanos o contrato social terá a ver com um Governo que respeite os direito inalienáveis dos cidadãos. Na Rússia as leis existem para proteger o Estado dos perigos causados por indivíduos que desafiem a sua autocracia e não o contrário.

Com a automatização de parte de trabalhos que se preveem no futuro é necessário reescrever os contratos sociais. Assim,é preciso empregar mais pessoas e pagar salários mais altos a professores, investir mais na educação, haver que cuidar de idosos funções para as quais os humanos ( e não aos robots) ainda serão necessários durante muito tempo.. Um bom Governo não será a única solução para resolver os  problemas  do desemprego gerado pela automatização. É necessário que  instituições  sem fim lucrativo criem oportunidades de aprendizagem para crianças do mundo em desenvolvimento. Para o canadiano Tarik uma das iniciativas seria criar tablets pré-carregadas de livros escolares, aulas interactivas para crianças de zonas com pouco ou nenhum acesso à educação formal incluindo os campos de refugiados.

No final do livro Ian Bremmer coloca os desafios relevantes que os EUA e a Europa terão de enfrentar quando confrontados com a  automação e a inteligência artificial. Nos países ricos irá criar agitação no seio dos trabalhadores e será também um fenómeno perturbador nos países  em desenvolvimento. Há que tomar decisões importantes. Quais ? Construir Muros ? Ou reformular o Contrato Social ?  A construção de muros não mata a ideia de governação responsável. A reinvenção do contrato social será politicamente inexequível em muitos países e durante muito anos. Refazer a relação entre Governo  e cidadãos é bem mais prometedor do que a construção de muros que garantem segurança e prosperidade duradouras no  maior número de pessoas. A sobrevivência exige que se descubramos novas formas de vivermos juntos.

publicado por pontodemira às 17:32
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 28 de Agosto de 2019

O DECLÍNIO DO OCIDENTE

 

Este é o título de um livro escrito pelo historiador Niall Ferguson professor em Harvard. O autor faz um estudo da evolução política Ocidental desde a Revolução Industrial até aos nossos dias. Irei resumir como se chegou ao que ele designa como” O Declínio do Ocidente”.

 Para Ferguson o Ocidente estagnou e não apenas em termos económicos. O crescimento da China viria a ser 4 vezes maior do que os EUA e 3 vezes mais rápido na Índia. A explicação para o declínio Ocidental é a “ desalavancagem “, o doloroso processo de redução da dívida. Nos EUA a soma da dívida pública e da privada excedeu 250% o valor do PIB. As pessoas e os Bancos vivem em grande dificuldade para reduzir as respectivas dívidas. As pessoas procuram gastar menos e poupar mais e a procura agregada tem vindo a cair. Nos EUA os republicanos culpam a globalização e a tecnologia e os democratas  o insuficiente investimento na educação pública e a baixa de impostos realizados pelos republicanos que favorecem os  ricos. A crise das finanças está afectar todos os países com dívidas superiores a 100% do PIB como o Japão, Grécia, Itália, Irlanda e Portugal. Face a uma dívida pública exagerada o leque de soluções é muito restrito: desvalorização cambial, inflacção, inovação tecnológica, incumprimento da dívida e falência no que diz respeito à dívida privada.  O que é que provocou o Declínio do Ocidente?  Resumidamente, e para o historiador Frguson, tem sido : 1-os déficites democráticos; 2-a fragilidade reguladora;3-o primado dos advogados, 4-a sociedade sem civismo.

1-As democracias ocidentais de hoje desempenham um papel tão grande na redistribuição dos rendimentos que os políticos que defendem cortes na despesa, deparam quase sempre com a oposição de funcionários do sector público e dos beneficiários de prestações sociais. Qualquer governo que tente seriamente reduzir o seu déficite estrutural acaba por ser posto na rua.

2-Sem normas para impor o pagamento e punir as fraudes não há sector financeiro. Sem imposição de restrições à gestão bancária é impossível que muitos bancos abram falência numa fase de recessão devido ao desequilíbrio entre activos e passivos. Um Estado de Direito tem muitos inimigos .Um deles é o mau Direito. Foram as instituições mais reguladas do sistema financeiro que, na verdade, se mostraram mais propensas ao desastre: os grandes bancos dos dois lados do Atlântico e não os “hedge funds”. E aqui é pertinente perguntar: “ quis custodiet ipsos custodes” ( quem guarda os próprios guardas ou seja, neste caso, quem regula os reguladores ). Ferguson sugere o seguinte: que se deve fortalecer o Banco Central como autoridade de última instância quer no sistema monetário quer no sistema de supervisão; que os responsáveis do Banco central sejam “ apreensivos “ e até experientes para que actuem quando detetem uma exagerada expansão do crédito; garantir que aqueles que caem sob a alçada da autoridade reguladora paguem caro pelas transgressões.

3-Um mundo financeiro complexo só se tornará menos frágil mediante simplificidade na regulação e severidade na defesa lei. Entre os mais mortíferos inimigos do primado da Lei contam-se as más Leis. Para Fergunson os EUA já foram o primado da Lei. Mas o que vem acontecendo actualmente é o primado dos advogados que é coisa bem diferente.

4- Ao longo dos séculos foram criadas nos EUA , no Reino Unido e por toda a Europa, associações cívicas que ajudaram a consolidar a democracia. Destas instituições há destacar as sociedades cooperativas e as de beneficências, os sindicatos, associações voluntárias de beneficência  de cultura e de carácter religioso. Ao lado das escolas públicas aparecem escolas privadas e da concorrência entre elas surgiu um ensino de excelência. A Suécia e Dinamarca foram pioneiras das reformas educativas. Na Dinamarca as “ Escolas livres “ têm autonomia administrativa e recebem uma prestação do estatal por cada aluno. Na Holanda 2/3 dos estudantes frequentam actualmente escolas independentes. Nos EUA mais de 2000 escolas com alvarás têm financiamento público e autonomia administrativa. Na Grã Bretanha só 7% dos adolescentes frequentam escolas privadas.

Fergunson na parte final do livro concluiu o seguinte: “ Nós humanos vivemos numa matriz complexa de instituições. Há o governo,  o Mercado, o Direito e também a Sociedade Civil. Tempos houve em que esta matriz funcionou  surpreendentemente bem. Esta foi a chave do sucesso Ocidental nos séculos XVIII, XIX e XX. Mas as instituições do nosso tempo perderam o Norte. O nosso grande desafio para os próximos anos consiste em recuperá-las para fazer reverter o Grande Declínio.

publicado por pontodemira às 17:29
link do post | comentar | favorito
Sábado, 3 de Agosto de 2019

Cmo Revitalizar Uma Economia

 

Com a queda do Muro de Berlim e o Fim da Guerra Fria apareceu o livro “O Fim da História “, escrito pelo historiador americano Fukuyama. Este historiador entendia que o capitalismo liberal de mercado era o melhor sistema político e económico e não era possível progredir mais. Mas a Grande Depressão de 2008 veio provar veio provar o contrário. Afinal a economia sem a intervenção do Estado pode evoluir para um descalabro de consequências imprevisíveis.

O economista Joseph Sitglitz tratou deste assunto no livro “ A Economia Mais Forte Do Mundo ( Um plano para revitalizar a Economia e promover a Prosperidade Global ). Nele se faz uma análise das consequências da crise de 2008 , das causas que lhe deram origem  sugerindo um plano para inverter e revitalizar a economia. Como consequência da crise e da profunda recessão que se seguiu 10 milhões de famílias norte americanas perderam as suas casas ou entraram em processo de execução hipotecária; 8,7 milhões de trabalhadores perderam o seu emprego ; de 2009 a 2012 91% de todo o aumento de rendimento foi para 1% dos norte-amerricanos mais ricos.Há ainda milhões de trabalhadores que permaneceram encurralados em empregos a tempo parcial ou no emprego disfarçado. As causas que levaram a esta situação foram múltiplas e variadas: a desregulamentação e a redução de impostos sobre os rendimentos mais elevados ; corte nos programas de acção social e nos investimentos públicos. A economia trickle-down que consiste em aumentar os rendimentos dos que se situam no topo da tabela esperando  que isso acabe por beneficiar os restantes verificou-se que não funcionou. Para se corrigir as desigualdades tem que se começar no meio da tabela a aumentar os rendimentos. Ou seja, tem que ser uma economia trickle-up pois essa teria mais possibilidade de sucesso. Uma parte do sector financeiro preocupa-se mais na obtenção de rendas e lucros do que no investimento e em activos produtivos. As remunerações dos quadros executivos aumentara até níveis que não puderam ser justificados pala sua produtividade. Muitos desses aumentos deram-se à custa dos trabalhadores e dos accionistas que fizeram crescer a desigualdade a nível nacional. Stiglitz propõe então uma série de medidas para revitalizar a economia americana e que se aplicam em qualquer país, inclusive Portugal, e que têm em vista promover a prosperidade global. Dessas medidas há a destacar as seguintes:

1) desenvolver um sistema financeiro que sirva os interesses da sociedade  ajudando a financiar as pequenas empresas, a educação e a habitação

2) regular o sistema bancário paralelo e eliminar as operações bancárias off-shore. Os centros financeiros off-shore são utilizados para fugir às regulamentações desenhadas para garantir um sistema financeiro seguro e saudável.

3) alinhar as taxas de impostos sobre as empresas com o rácio remuneração dos directores executivos/remuneração dos trabalhadores comuns( ou, até, com o

ordenado mínimo)- aplicando uma taxa sobre qualquer excedente. As empresas bem geridas e sem remunerações de topo excessivas poderiam ser tributadas a taxas inferiores.

4) revitalizar o investimento público na educação e na tecnologia.

5) investir na renovação das infraestruturas ferroviárias, energia e telecomunicação

6) alargar o acesso aos transportes públicos

7 ) aumentar o ordenado mínimo

Se estas medidas fossem implementadas teríamos de certo uma sociedade mais justa e igualitária

 

 

publicado por pontodemira às 10:28
link do post | comentar | favorito
Domingo, 21 de Julho de 2019

Trump e a política anti-imigração

 

Trump é um político execrável, um autocrata de pendor ditatorial, que não respeita valores democráticos como a liberdade de expressão e a independência dos tribunais. Dá-se muito bem com políticos autoritários como Putin e Bolsonaro e com governantes europeus populistas e nacionalistas que fecham as suas fronteiras aos imigrantes.         Trump é um inimigo da União Europeia e faz tudo para a desagregar. O seu lema é dividir para reinar.

Mas do seu perfil como mau político há ainda muito mais para dizer. Não assinou o Acordo Climático de Paris e os EUA são responsáveis por 1/3 do total mundial das emissões de carbono e  possuem 4% da população do Planeta. Esta atitude mostra à evidência que Trump está mais preocupado em defender a economia americana do que em preservar a qualidade de vida do Planeta Global. Aqui manda o lema “América “first.

Por fim, “ last but not least “ é um apologista da política anti-imigração.  Aqui não está só e é seguido por países como a Itália e a Hungria. A Inglaterra com o Brexit pretende também fazer o mesmo.

Analisando as migrações com realismo vemos que os emigrantes  saem dos seus lugares de origem devido à guerra, à instabilidade política ou por não terem condições de sobrevivência.

Mas Trump esquece-se que os EUA foram colonizados por imigrantes ingleses e que alguns deles como os puritanos tiveram de sair de Inglaterra devido a perseguições religiosas e políticas. Esta situação está a repetir-se hoje com outros povos que procuram abrigo nos EUA. E voltando atrás à colonização do continente americano há ainda a registar outros factos que não convém ignorar. O continente americano, aquando da colonização, não estava vazio mas era habitado por povos indígenas. A muitos deles foram expropriadas as terras que possuíam e outros foram mesmo exterminados.

A crueldade mantem-se hoje na forma desumana como são tratados os imigrantes. As crianças são separadas dos pais e constroem-se muros de separação para não ter que se prestar a ajuda aos que dela necessitam.

Ninguém é dono e senhor de todos os bens da Terra.  O ser humano tem direito a uma vida digna onde não faltem bens essenciais como o trabalho, alimentos e habitação. Só é possível atingir a Paz e uma Sociedade estável construindo pontes e não muros.

publicado por pontodemira às 09:00
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 8 de Julho de 2019

Tentações e Pecados De Alguns Políticos

 

Qualquer cidadão tem por vezes a tentação de fugir aos impostos não declarando correctamente os rendimentos próprios ou por exemplo a importância exacta relativa à compra e venda de um imóvel.  Mas mais grave é quando os políticos o fazem. Alguns vão longe demais e são apanhados em casos de corrupção e de fraude. A Revista Visão de 20 de Junho dá conta que estão a ser investigados 30 casos que envolvem autarcas de Norte a Sul do país.

Na Operação Rota Final há Câmaras que estão a ser alvo de buscas por suspeitas de corrupção, tráfico de influências, participação económica em negócios, prevaricação e abuso de poder. Nesta operação se incluem as seguintes Câmaras: Guarda( PSD) , Barcelos ( PS), Braga (PSD ),Águeda(movimento juntos ) ,Almeida ( PSD), Armamar (PSD ),Belmonte (PS ),Cinfães (PSD ) ,Fundão ( PSD ), Lamego (PS ), Moimenta da Beira (PS) ,Oleiros (PSD ) Oliveira do Bairro (CDS) .Oliveira de Azeméis (PS ), Sertã (PSD), Soure ( PS ), Pinhel ( PSD),Tarouca( PSD).

Na Operação Teja a PJ e o MP estão a averiguar a “ viciação fraudulenta” de concursos e ajustes directos, num processo que envolve as autarquias de Santo Tirso, Barcelos e o Instituto de Oncologia ( IPO ). Há também casos relacionados com a Transportadora Transdev ( multinacional francesa ) que desde o início de 2018 acumulou 2 milhões de euros em 38 contratos por ajustamento directo com municípios do Norte e Centro.

Na Operação Galpgate são acusados 1 autarca da Câmara de Santiago do Cacém (CDU ) e outro da Câmara de Sines ( PS ) por recebimento indevido de vantagens em viagens a expensas da petrolífera.

Na Câmara de Pedrógão Grande há também um autarca ( PS) entre 28 arguidos que estão envolvidos em esquemas fraudulentos na Reconstrução de casas.

Numa entrevista à Rádio Renascença a ex-procuradora Joana Marques Vidal afirmou “ que a corrupção está a pôr em causa o Estado de Direito Democrático e que há redes que capturam o Estado utilizando o aparelho do Estado para a prática de actos ilícitos. E é categórica ao afirmar que essas redes estão espalhadas por ministérios e  autarquias.  Essas redes de corrupção e compadrio existem nas áreas de  contratação pública espalhadas por vários organismos de vários ministérios e autarquias e serviços directos e indirectos do Estado” ( fim de citação ).

Uma grande parte dos políticos esquece-se que foram eleitos para servir os interesses do povo e do país e não os seus interesses pessoais. Isto não quer dizer que todos os políticos sejam corruptos. Claro que há quem seja honesto e nos actos da administração pública actue com a máxima transparência e dentro da legalidade. Mas o inverso também é verdade. Costuma-se dizer na brincadeira que “quem não arrisca não petisca”. Infelizmente ainda existem muitos políticos para quem a política é um meio para atingir um fim e esse fim são os interesses  pessoais e particulares.

publicado por pontodemira às 21:40
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 17 de Junho de 2019

Breve História da Ideologia Ocidental ( Relato Crítico )

 

1-Este é o título de um livro escrito pelo italiano Rolf Petri, professor de História Contemporânea na Universidade de Veneza. Na Introdução começa por esclarecer que o seu trabalho como investigador vai incidir no estudo abrangente e holístico de conceitos que caracterizam a ideologia ocidental. Os neologismos como “ civilização” e cultura são exemplo de conceitos que marcaram a ideologia Ocidental. O termo ideologia tem um passado iluminista e não é fácil de definir. Para uns é uma “ ciência das ideias “ objectivante. Para Napoleão era uma teoria desprovida de relevância e um conjunto de dogmas falaciosos. A ideologia andou desde os primeiros momentos associada às estruturas do poder e tornou possível uma política autónoma abrindo caminho à modernização. As Religiões monoteístas Ocidentais como o cristianismo e o islamismo acreditam que a História tem uma função teleológica ( objectiva) e escatológica. As Religiões Orientais que não acreditam numa divindade omnipotente rejeitam as representações teleológicas da História. O Mundo é visto como um fenómeno em constante mudança em que o absoluto e o supremo não se encontravam na revelação de um objectivo escatológico para o futuro.

2-Ao renascer cristã a Europa recebeu  uma investidura missionária e escatológica.A conquista colonial nos séculos XV e XVI iniciada pelos Reis Ibéricos, para lá dos negócios era entendida como missão cristã. O contraste entre a povoação europeia e as populações nativas que eram colonizadas fez nascer o conceito de” civilização “ . As diferenças entre a Europa civilizada e o ambiente pobre e selvagem que estava a ser colonizado era evidente.

3-No século XVIII aparece a Filosofia da História. Tudo começa com o racionalismo ocidental do qual se destacam nomes como Descarte, Leibniz e cientistas como Galileu e Isac Newton que concebiam um Mundo criado por Deus mas regidos por leis mecânicas e matemáticas de tal modo perfeito que podia funcionar sozinho. Nasce também o conceito de sociedade e contrato social. Thomas More no livro Utopia concebe uma sociedade perfeita onde todos contribuem para a felicidade de todos. Para Hobbes o estado natural é um estado de guerra perpétua onde só poderá haver paz se o homem abdicar da sua liberdade em favor de uma autoridade absoluta. Rousseau entende também que o homem só pode viver em Paz através de um contrato social em que todos abdicam de uma parte das suas liberdades em favor de um poder soberano.  Mas só no século XIX é que a liberdade e a democracia começaram a  consolidar aquilo que devia ser uma relação inseparável. Os Estados democráticos que evoluíram na sequência das Revoluções Francesa e Americana tentaram incorporar o republicanismo delineado por Kant. O republicanismo é o princípio político de separar o poder executivo do governo do poder legislativo. Para Montesquieu a soberania  ilimitada seria sempre tirânica. A separação de poderes era um requisito para um Estado de Direito  e de Paz. Kant e Montesquieu são pontos de referência essenciais na filosofia política  liberal e no constitucionalismo. O Estado de Direito e os conceitos de Constituição e de separação de poderes derivam igualmente da História do Pensamento político Ocidental.

4-O universalismo ocidental começou a coexistir com o estabelecimento conceptual e pratico de  um número crescente de hierarquias entre grupos locais. O princípio de um povo a habitar um território  contribuiu para se estabelecer uma espécie de direito natural de soberania popular. No final do seculo XV a Inquisição exigiu que se expulsassem de Espanha todos os judeus que não se convertessem ao cristianismo. Foi o mais importante processo de estigmatização e de exclusão de judeus entre o fim da Idade Média e o Renascimento. Em relação aos povos de África o Ocidente mantinha também um certo desprezo. As populações eram comparadas ao reino animal. O pensamento racista no século XX não tinha a ver com a teoria biológica mas com o progresso e o atraso da pessoa ou grupo. Este era o princípio mais geral de diferenciação hierárquica entre grupos humanos. Não havia uma divisão marcada entre racismo colonial e racismo social. Não eram apenas os negros que cheiravam mal mas também os camponeses pobres, os operários, os marginalizados e os deslocados. A equiparação entre raça e Nação transformou o racismo numa formidável ferramenta biopolítica do Estado-Nação Ocidental.

5-Para que as gerações possam continuar a viver é necessário que o homem estabeleça um pacto com a Natureza. O destino mais garantido da Humanidade é o mesmo  de qualquer outra espécie, ou seja, a extinção. Essa extinção pode resultar do desrespeito das normas de proteção do meio ambiente ou até da conflagração de uma guerra nuclear. Na parte final do livro e em jeito de resumo Rolf Petri diz que a visão transcendente e escatológica da História não é de forma alguma um valor absoluto ao qual se tem de aderir ou impor aos outros. E argumenta que a História intelectual do Ocidente é rica em ideias que pertencem à visão escatológica da História mas também a outras que a rejeitam explicita ou implicitamente. Muitos dos conceitos, teorias e métodos que pertencem à tradição Ocidental não se limitam à visão escatológica da História. No campo político que normalmente anda lado a lado com a ideologia é preferível o consentimento à coerção,a liberdade de expressão à censura e à vigilância sem necessidade de uma base transcendente de direitos individuais. E termina dizendo : “  se mantivermos a nossa arrogância quanto ao sentido da História e  se presumirmos que nós  é que sabemos e que lutamos “ contra o mal “ melhor do que os outros, faremos com que tudo fique pior. Pelo nosso bem e pelo bem de milhões de outros seres humanos cujo desejo é viver apenas a sua vida,  com as suas mágoas e alegrias e lidar com a injustiça e com a incerteza à nossa maneira, seria melhor rejeitarmos a nossa filosofia equivocada da História “

publicado por pontodemira às 22:32
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito (1)

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
31


.posts recentes

. Europa-Rússia-América: O ...

. REALIDADE E UTOPIA

. POVO VS DEMOCRACIA

. A Economia do Bem Comum

. NÓS CONTRA ELES ( O fraca...

. O DECLÍNIO DO OCIDENTE

. Cmo Revitalizar Uma Econo...

. Trump e a política anti-i...

. Tentações e Pecados De Al...

. Breve História da Ideolog...

.arquivos

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Outubro 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Setembro 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Outubro 2014

. Julho 2014

. Maio 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

blogs SAPO

.subscrever feeds