Quarta-feira, 20 de Outubro de 2021

THOMAS PIKETTY- PELO SOCIALISMO

 

Este é um livro escrito por Thomas PiKetty que nasceu em França e é professor catedrático na École des hautes Études  em Sciences Sociales e professor da École d´Économie de Paris.

Em 1992 o filósofo nipo-americano Francis Fukuyama publicou o livro “ O Fim Da História “. Com este livro o autor pretendia mostrar que o capitalismo neoliberal de mercado livre era um sistema perfeito e não era possível ir mais longe. Mas a recessão económica de 2008 veio provar o contrário. Se não tivesse havido intervenção do Estado seria uma verdadeira catástrofe.

Também o economista Thomas Piketty refere que se em 1990 lhe tivessem dito que em 2020 publicaria um livro intitulado “ Pelo Socialismo “ pensaria de imediato que seria uma piada de mau gosto. Aos 18 anos acabara de passar o Outono de 1989 a ouvir, na telefonia, o desmoronamento da ditadura comunista e do «Socialismo real » na Europa de Leste. Só que 30 anos depois, em 2020  o hipercapitalismo foi demasiado longe e, agora está convencido de que devemos pensar numa superação do capitalismo, numa nova forma de socialismo participativo e descentralizado, federado e democrático, ecológico ,miscigenado e feminista. Para lá chegarmos é preciso uma longa marcha para a igualdade e para um socialismo participativo. E essa marcha também já começou. Durante o século XX  as desigualdades tiveram uma forte redução graças às políticas sociais e fiscais. A concentração da propriedade ( e por conseguinte do poder económico ) apresentou uma nítida diminuição ao longo do século XX. As reduções das desigualdades patrimoniais foi feita sobretudo em benefício da classe média patrimonial. Como entender esta evolução ?  Para além das destruições de património privados ligados às duas guerras mundiais há que ter em conta as transformações consideráveis do sistema jurídico, social e fiscal introduzido no século XX em numerosos países europeus. O crescimento do Estado Social aumentou o investimento em educação, saúde e nas prestações de reforma e invalidez. Neste momento para termos um socialismo participativo é necessário fazer circular o poder e a propriedade. Para atingir a igualdade real é necessário uma melhor partilha do poder nas empresas. Na Alemanha e na Suécia o movimento sindical e os partidos sociais democratas conseguiram impor aos accionistas em meados do século XX uma nova partilha de poder sob a forma dos chamados sistemas de « cogestão »: os representantes eleitos dos assalariados dispõem de metade dos lugares nos conselhos de administração das grandes empresas, mesmo na ausência de qualquer participação do capital. Piketty defende ainda uma herança mínima para todos, que em termos concretos poderia ser da ordem dos 120 000 €, entregues aos 25 anos. Esta herança para todos seria financiada pelo imposto sobre a propriedade e sobre as sucessões. O sistema fiscal ideal implicaria um imposto progressivo sobre as sucessões que arrecadaria  5% do rendimento nacional e financiaria a herança para todos e por outro lado um sistema integrado de imposto progressivo sobre o rendimento e um imposto de carbono que arrecadaria 45% do rendimento nacional e financiaria o conjunto de outras despesas públicas( saúde, educação, pensões de reforma, rendimento mínimo ). De nada serve circular o poder se forem mantidos os mesmos objectivos económicos. Só se pode considerar uma sociedade justa se houver acesso universal a um conjunto de bens fundamentais: educação, saúde, reforma, habitação, ambiente. E só poderá haver outra organização da globalização através de um Social-federalismo. É perfeitamente possível avançar de uma forma gradual para um socialismo  fazendo evoluir o sistema jurídico, fiscal e social no interior deste ou daquele país  sem ficar à espera da unanimidade do Planeta. A Alemanha e a Suécia não esperaram pela autorização da EU ou das Nações Unidas para porem em vigor a cogestão e os outros países também poderão fazer o mesmo desde já. Há que virar as costas à ideologia do comércio livre absoluto que guiou a globalização ao longo das últimas décadas e implementou outro sistema económico baseado em princípios explícitos e verificáveis de justiça económica, fiscal e ambiental. Cada comunidade política deve fixar  condições ao processo de trocas com o resto do mundo, sem ficar à espera do acordo unânime dos seus parceiros. Antes de aplicação de eventuais sanções aos países que praticam dumping social, fiscal e climático é essencial propor aos outros países um modelo de cooperação baseado em valores universais de justiça social, redução de desigualdades e preservação do planeta.

Thomas Piketty, em resumo, diz-nos que o socialismo participativo se apoia em vários pilares: igualdade educativa, Estado Social, circulação permanente do poder, e da propriedade , social-federalismo e globalização sustentada e justa. Acrescenta também para finalizar que a paridade mulheres-homens tem de avançar de forma concertada com a paridade social. É também necessário, no futuro, alterar o sistema económico tendo como fundamento a redução das desigualdades e um acesso igualitário de todas e de todos à educação ao emprego e à propriedade, incluindo uma herança mínima para todos independentemente das origens de cada um. A exploração desenfreada dos recursos humanos e planetários de há vários séculos a esta parte exige por conseguinte nos dias de hoje uma regulação mundial para garantir a sua sustentabilidade social e ecológica

Todas estas sugestões para um socialismo participativo parecem utópicas e difíceis de concretizar. Mas Thomas Piketty que é economista sabe muito bem que tudo é possível se os cidadãos se interessarem pelas questões socioeconómicas e se souberem organizar-se para tomar deliberações colectivas. Na capa do livro acrescenta que se tornou comum dizer que o sistema capitalista actual não tem futuro, atendendo ao modo como  agrava as desigualdades e esgota o planeta. Tudo isto é correcto só que na ausência de uma alternativa explanada de forma clara, o sistema actual ainda tem longos dias à sua frente.

Não sou economista mas penso que o longo caminho para um socialismo participativo será encurtado se forem atingidos os seguintes objectivos : extinção dos offshores, combate ao dumping fiscal e uniformização das taxas fiscais nos países da União Europeia. Todos sabemos que alguns empresários transferem a sede das suas empresas para os países onde a taxa fiscal é mais baixa.

publicado por pontodemira às 21:18
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Sexta-feira, 24 de Setembro de 2021

HUMANIDADE- Uma História de Esperança

 

Este é o título de um livro escrito por Rutger Bregman, historiador e escritor holandês e um dos jovens pensadores europeus de maior destaque. Este livro foi um bestseller do New York Time e do Sunday Time e também o livro do ano do Guardian.

Ao longo dos séculos tem havido guerras, conflitos entre nações, perseguições e segregações religiosas e raciais. Será possível construir a Paz ou a natureza do homem não o permite? Há dois filósofos que tratam especificamente deste tema. Rousseau no século  XVIII  diz-nos que o homem é naturalmente bom e só quando deixou de ser nómada e se fixou à terra e se tornou agricultor é que começaram a surgir os conflitos. Para Hobbe (século XVI ) os homens são por natureza maus e sempre viveram em guerra uns com os outros ( bellum omnium contra omnes- guerra de todos contra todos )

É claro que há pessoas boas e más, egoístas e altruístas, mas se folhearmos o livro do historiador Rutger verificamos através de inúmeros exemplos que a maioria das pessoas é bastante digna e em situações de perigo há colaboração e inter-ajuda . E vou citar alguns exemplos : Durante a 1ª Guerra Mundial soldados ingleses e alemães no dia de Natal saíram das trincheiras e cantaram cânticos da época natalícia. Alguns chegaram mesmo a trocar lembranças  e a cumprimentarem-se. Em 1943 um contingente americano  tentou tomar uma ilha do Pacífico que estava sobre o jugo  japonês. Apesar dos americanos serem em maior número os japoneses conseguem irromper pelas fileiras norte-americanas. O coronel Marshall em terra observava o que estava a passar. No dia seguinte reuniu os soldados e veio a saber que 15 a 25 % dos soldados não tinha chegado a disparar e que no momento decisivo a esmagadora maioria  hesitava e só conseguiu identificar 36 que tinham carregado no gatilho. Para o sociólogo Collins « os humanos estão programados para a solidariedade e é isso que dificulta a violência. Em 7 de Setembro de 1940, atravessaram o Canal da Mancha 348  bombardeiros alemães que arrasaram quarteirões inteiros em Londres. Foram destruídos um milhão de edifícios e 40 000 pessoas perderam a vida no Reino Unido. Numa situação destas toda a gente se entreajudava e ninguém queria saber da posição política dos outros, fossem ricos ou pobres. Nos ataques terroristas do 11 de Setembro às Torres gémeas muitas pessoas morreram para salvar outras que estavam em perigo de vida.

Porque se tornam as pessoas más  pessoas boas ? Durante dezenas de milhares de anos vagueámos pelo mundo como nómadas e mantinhamo-nos bem longe dos conflitos. Não fazíamos guerra e não construíamos campos de concentração.  E tudo começou com o desenvolvimento da propriedade e da agricultura. Segundo o autor do livro o que vem a tornar as pessoas más são a empatia que  cega, o poder que corrompe e os erros do iluminismo. A empatia é algo que sentimos por quem nos é próximo. A verdadeira empatia  e a xenofobia andam de mãos dadas. A 2ª Guerra mundial foi uma luta heroica em que a amizade, a lealdade, a solidariedade- as melhores qualidades da humanidade- inspiraram milhões de homens comuns a perpetrar o pior massacre da história. O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente. Este é o comentário do historiador Lord Actor no século XIX. Enquanto os chefes de tribos nómadas era todos modéstia, os reis proclamavam reinar por direito divino ou por eles próprios serem deuses. Os filósofos iluministas tinham fé apenas no pensamento racional. E convenceram-se que podiam conceber instituições inteligentes que tivessem em conta o nosso egoísmo inato. Se o Iluminismo nos deu a igualdade, também inventou o racismo. Os filósofos do século XVIII foram os primeiros a classificar os humanos em« raças » diferentes. David Hume escreveu que se inclinava a suspeitar que os negros são naturalmente inferiores aos brancos e Voltaire concordava: « Se o seu raciocínio não é de uma natureza diferente do nosso, é pelo menos bastante inferior.»

Para Rutger Bregman é tempo para defender a bondade  humana. É tempo de novo realismo e de uma nova visão da humanidade.. O filósofo Willian James professava que algumas coisas deviam ser aceites por fé, mesmo que não possamos provar que são verdade. Assim a amizade,o  amor, a confiança e a lealdade tornam-se verdadeiros precisamente porque acreditamos nelas. O « logro» por esperança era preferível ao «logro» por medo. Tal como o ódio também a confiança pode ser contagiosa. A confiança muitas vezes começa quando alguém se atreve a ir contra a maré. O autor apresenta casos de gestores com fé absoluta no seu pessoal; professores que dão rédea solta aos alunos para brincar e representantes que tratam os eleitores como cidadãos criativos e empenhados.

Na parte final do livro ( Epílogo ) o autor apresenta 10 regras por que pautar a vida:

1-Na dúvida assumir o melhor. È mais realista assumir o melhor.A maioria das pessoas tem boas intenções.2- Pensar em cenários em que todos ganham. A maravilha é que vivemos num mundo onde fazer o bem também nos faz sentir bem. Perdoar também funciona no nosso interesse próprio pois deixamos de gastar energia em antipatia e ressentimentos. 3-Fazer mais perguntas. É dar as palavras aos cidadãos como na democracia participativa de Porto Alegre no Brasil em que são os cidadãos que indicam o destino das verbas orçamentais.4- Moderar a empatia, treinar a compaixão. Existe alguma evidência científica em que a meditação pode treinar a compaixão. 5-Tentar compreender o outro mesmo sem perceber a sua atitude. Isto sem que tenhamos de concordar com ele 6-Amar os nossos como os outros amam os deles. Se perdermos de vista a família e os amigos como podemos carregar os fardos do mundo. Temos também de compreender que esses outros, esses desconhecido distantes, também têm famílias que amam. Que são humanos como nós.7- Evitar as notícias. Diz o historiador que se mantém longe das notícias da televisão e de que as substitui pela leitura de um jornal ao domingo com artigos de fundo. E que tira os olhos do ecrã para se encontrar com pessoas reais de carne e osso. 8-Não esmurrar  nazis. Esmurrar nazis só reforça o extremismo. Valida a sua visão do mundo e torna mais fácil atrair recrutas.

9- Sair do armário. Não ter vergonha de fazer boas ações. Ao encobrirmos as boas acções colocamo-las em quarentena onde não podem servir de exemplo aos outros. Inspirar os outros não requer pavonearmos as nossas acções e defender o bem não significa fazermos alarde de nós próprios. No Sermão da Montanha Jesus disse: « Não se pode esconder uma cidade situada no cimo de um monte; nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas em cima do velador e assim alumiar os que estão em casa. Brilhe a vossa luz diante dos homens de modo que, vendo as vossas obras, glorifiquem vosso Pai, que está nos Céus. 10- Ser realista. Vivemos no planeta A onde as pessoas se sentem profundamente inclinadas a ser boas umas como as outras. Por isso, sejamos realistas e corajosos. Sejamos fieis à nossa natureza e ofereçamos a nossa confiança. Façamos o bem à vista de todos e não tenhamos vergonha da nossa generosidade.                                       

 

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Terça-feira, 31 de Agosto de 2021

A DIVINA COMÉDIA

 

 

Este é o título de um poema de carácter épico e teológico que tem como autor Dante Alighieri e foi originalmente  escrito em italiano vulgar no dialeto toscano . A leitura deste clássico foi recomendado para ler em férias, pelo Padre Armindo Vaz, no programa Ecclesia, pois este ano em Setembro comemoram-se 700 anos do falecimento de Dante. Fui à minha estante procurar um livro de Dante que foi editado pela Bertrand em 2000 e traduzido do italiano pelo escritor Vasco Graça Moura. É um livro bilingue escrito em português e italiano e que voltei novamente a ler.

Afinal quem foi Dante Alighieri ?  Dante Alighieri foi um dos maiores poetas italianos da literatura medieval. Nasceu em Florença, Itália por volta de 25 de Maio de 1265. Era filho de uma família de origem aristocrática e ficou órfão da mãe ainda menino.  Dante estudou no Convento de Santa Croce e Maria Novele.  Mostrou interesse pelos textos bíblicos e pelos clássicos gregos e romanos, sobretudo por obras de poetas. Com 16 anos começou a escrever os primeiros poemas. Do seu casamento nasceram 4 filhos. O seu espírito esteve sempre voltado para Beatrice que morreu precocemente em 1290. Dante Alighieri foi também político, militar ao lado dos Guelfos moderados, os chamados «  brancos » contrários às ambições do Papado de dominar Florença. Em 1302 os moderados foram derrotados e Dante foi acusado de corrupção. Aplicaram-lhe uma pesada  multa e teve de mesmo de  sair de Florença pois se aí ficasse seria queimado vivo. Começou então um longo exílio de Dante estabelecendo-se em Verona e também em Bolonha. E é durante o exílio que começou a escrever a « Divina Comédia » . Trata-se de um poema alegórico em 3 partes ( Inferno, Purgatório e Paraíso ) composto de 100 cantos em tercetos. Cada parte tem 33 cantos e mais um de abertura o que perfaz o número 100, que na época era o símbolo da perfeição.  O poeta é o narrador que se  sentiu perdido na floresta na Sexta-feira da Paixão do ano de 1300. Encontra então Virgílio ( a razão ), o maior dos poetas latinos. Virgílio condu-lo ao Inferno ( Reino das trevas e do abismo doloroso ) e ao Purgatório onde ouve histórias e observa os tormentos de uma variedade de pecadores, que ali purgam os seus erros.  Subindo por uma montanha atingem o Paraíso onde Virgílio tem de parar, pois como produto da era cristã é incapaz de receber a Graça. Mas Dante encontra um novo guia em Beatriz ( ciência divina ). Segundo os seus conceitos Dante vai distribuir toda a gente que vê na sua viagem imaginária pelas 3 partes do poema:

 1ª parte INFERNO-  O Inferno é um abismo de terrível escuridade que se abre na estrutura inferior da Terra, até ao centro desta, em forma de cone invertido e divide-se em 9 círculos que se estreitam cada vez mais até ao vértice, formado por Lúcifer de cabeça para baixo que foi para lá precipitado pelo pecado do orgulho. A distribuição pelos círculos é feita do seguinte modo:

Círculo primeiro : Limbo e as almas que não conheceram a fé ; círculo segundo: Luxuriosos ; círculo terceiro: Gulosos ; círculo quarto: Avaros e pródigos ; círculo quinto: Iracundos ; círculo sexto : Ordenamento do Inferno : círculo sétimo: Violentos contra as próprias pessoas ,contra Deus e contra a natureza , usurários; círculo oitavo : Simoníacos ( os que fazem negócio com o sagrado ) ; traficantes e concussionários, fraudulentos ; semeadores de escândalos e de cismo : Maomé e Ali ; falsificadores ; círculo nono: Traidores.

2ª parte PURGATÓRIO – O Purgatório é uma montanha solitária situada numa ilha do hemisfério austral e no seu cume se alarga o Paraíso Terrestre.

Aqui se encontram mortos por violência, arrependidos, almas que invocam sufrágio, os Príncipes negligentes, exemplos de soberba punida, invejosos, preguiçosos, poetas e heroínas do passado, gulosos ( Dante dá como exemplos o Papa  Martinho IV que era guloso e grande apreciador de enguias e de vinho Vernaccia  e Bonifácio bispo de Ravena que também era conhecido pela sua gula.)

3ª parte PARAÍSO- No paraíso vamos  encontrar o discurso de S. Tomé : a sapiência de Adão e de Jesus.  Salomão. Os juízos humanos erróneos. Hino dos Santos. Invectiva de S. Pedro contra os Papas corruptos. Ordenamento dos bem-aventurados na rosa celeste: S. Francisco, S. Bento e Santo Agostinho. E termina o canto XXXIII com a oração de S. Bernardo. Visão de Deus e da unidade do Universo. Mistérios da Trindade e da Encarnação

Da análise literária da Divina Comédia podemos verificar que Dante era um homem culto mostrando conhecimentos de matérias muito diversificadas: História, Mitologia, Cosmologia, Filosofia, Ética, Física, Geometria, Matemática, Psicologia, Música, Política, , etc. Para ele o poder temporal devia estar separado do espiritual. É também um crítico da autoridade papal e dos abusos da Igreja nomeadamente da Simonia ( negócios com o sagrado. ) O texto da Divina Comédia oferece algumas dificuldades na compreensão mas reconheço que a tradução  do italiano medieval para português não seja nada fácil.

 

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Quinta-feira, 29 de Julho de 2021

O Século da Solidão- Como Restaurar As ligações Humanas

 

Este é o título de um livro escrito por Noreena Hertz, doutorada pela Universidade de Cambridge, economista, professora e comunicadora. Para a autora deste livro a solidão não tem a ver apenas com a crise pandémica que estamos a viver mas tem de ser encarada de um ponto de vista holístico ou seja nas múltiplas causas que estão na sua origem e nos múltiplos efeitos que está a provocar.

Logo na Introdução diz-nos que o século XXI é o século mais solitário de que temos conhecimento. A solidão existe em todos os continentes. No Japão por exemplo, os crimes cometidos por pessoas com mais de 60 anos quadruplicou nas últimas décadas. Há uma quantidade significativa de mulheres idosas que optam pela prisão como forma de escapar ao sentimento de isolamento social. Muitas descrevem a prisão como uma maneira de criarem para si uma comunidade a que não conseguem aceder em casa. No Reino Unido 2/5 de todos os idosos indicaram em 2014 que a televisão era a sua companhia principal. Em Tianjin, na China, um avô de  85 ano alcançou fama internacional em 2017 ao publicar o seguinte anúncio na paragem de um autocarro local « Homem só na casa dos 80 anos. A minha esperança é ser adaptado por uma pessoa ou uma família de bom coração. »  Tragicamente morreu 3 meses depois. Muitos vizinhos demoraram duas semanas a reparar que já não andava por ali.

E quais são os efeitos que a solidão provoca ?  A investigação mostra que a solidão é pior para a nossa saúde do que não praticar exercício físico, tão nocivo como o alcoolismo e duas vezes mais prejudicial para a obesidade. Estatisticamente a solidão equivale a fumar 15 cigarros por dia. A solidão pode também desencadear efeitos económicos e políticos. No Reino Unido, estima-se que as pessoas solitárias com mais de 50 anos custam ao Serviço Nacional de Saúde 1,8 mil milhões de libras. Por outro lado a solidão e o populismo de direita andam de mãos dadas e provocam divisões e extremismos nos EUA, na Europa e em todo o planeta.

Afinal o que é a solidão ? Podemos estar fisicamente rodeados de pessoas e sentirmo-nos sós, ou estar sozinhos e não ter solidão. A solidão tem a ver não apenas com a falta de apoio num contexto social ou familiar mas também no sentimento de termos sido excluídos política e economicamente.

Quais foram os factores que desencadearam a solidão ? As coisas não acontecem por acaso. Há uma fusão de causas e acontecimentos que explicam como nos tornámos tão solitários e atomizados. Os nossos smartphones e em particular as redes sociais desempenharam um papel determinante: roubaram a nossa atenção e afastando-a das pessoas em volta alimentaram o que há de pior em nós. A discriminação racial, étnica ou xenófoba no trabalho ou no local da residência aumenta 21% as possibilidades de solidão. A migração em grande escala para as cidades, a reorganização radical do espaço de trabalho e modificações fundamentais na forma de viver também são factores críticos. As políticas governamentais de austeridade asfixiaram bibliotecas, parques públicos, campos de jogos e centros juvenis e comunitários em várias partes do mundo. O neoliberalismo fez com que nos encarássemos a nós mesmos como competidores e não colaboradores, consumidores e não cidadãos, açambarcadores e não partilhadores, tomadores e não dadores, vigaristas e não auxiliadores, pessoas que nem sequer sabem o nome do vizinho. A verdade é que para não nos sentirmos sós precisamos de dar e receber, temos de religar o capitalismo à busca do bem-comum e colocar o cuidado, a compaixão, a cooperação no seu âmago estendendo estes comportamentos às pessoas que são diferentes de nós.

Na parte final do livro Noreea Hertz dá alguns conselhos para unir o mundo que está a desmembrar-se. Esta união só se consegue com a ajuda de todos: governo, sector empresarial e de nós todos. É necessário associar de novo o capitalismo ao cuidado e à compaixão. E tudo isto, acrescento eu , está em consonância com o que pensa o Papa Francisco.. É necessário depois criar uma forma de capitalismo mais cooperativo que produza resultados, não apenas no plano económico mas também social. É preciso  garantir uma rede de segurança social significativa  em que as metas orçamentais dos governos estejam alinhadas com o bem-estar geral dos cidadãos e que sejam consideradas as desigualdades estruturais no que toca à etnia e ao género. É fundamental também que as pessoas se sintam vistas e ouvidas. A democracia representativa tem duas consequências  inevitáveis: não são atendidas as preocupações de toda a gente e nem todas as opiniões recebem o mesmo grau de atenção. Por mais atomizados e polarizados  que estejam os países, as cidades e as comunidades é passando o tempo com as pessoas diferentes de nós e exercitando os nossos músculos de cooperação, compaixão e consideração que podemos sentirmo-nos mais interligados e desenvolvermos uma noção de destino partilhado e de pertença.

 A autora termina o livro dizendo que o futuro está nas nossas mãos. Precisamos de nos apressar menos e de parar mais par conversar, quer seja com o vizinho por quem passamos tantas vezes, mas a quem nunca dirigimos a palavra, um desconhecido que se perdeu ou de alguém que se sente visivelmente só. Precisamos de nos libertar das nossas auto-asfixiantes bolhas de privacidade digitais  e relacionarmo-nos com as pessoas à nossa volta. E para finalizar conclui: « quanto mais negligenciarmos a nossa responsabilidade menos competentes seremos a fazer todas estas coisas e menos humana será a nossa sociedade. O antídoto para o Século da Solidão em última análise é apenas estarmos sempre disponíveis para o outro, independentemente de quem esse outro seja.

 

 

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Segunda-feira, 21 de Junho de 2021

SOBRE O FUTURO ( Perspectivas para a humanidade )

 

Este é o título de um livro escrito por Martin Rees, cosmólogo e astrofísico que foi professor de cosmologia. Astrofísica e Astronomia, presidente da Royal Society, mestre do Trinity College e director do Instituto de Astronomia da Universidade de Cambridge.

Logo no prefácio do livro o autor esclarece que escreve a partir de uma perspectiva pessoal em três modos: como cientista, como cidadão e como membro da espécie humana. A seguir na Introdução faz a seguinte pergunta: No caso de existirem alienígenas a observar o nosso planeta durante os seus quatrocentos e cinco milhões de séculos o que teriam visto ? Durante a maior parte desse período a aparência da Terra alterou-se muito gradualmente . Os Continentes derivaram, a cobertura de gelo expandiu-se e minguou, sucessivas espécies surgiram , evoluíram e extinguiram-se. Nos últimos séculos os padrões  de vegetação alteraram-se muito mais depressa do que antes. Isto assinalou o início da agricultura e depois da urbanização. E apareceram mudanças ainda mais rápidas. Em apenas cinquenta anos a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera começou a subir anormalmente depressa.

Mas este século é especial. É o primeiro em que a espécie, a nossa, terá tanto poder e será tão dominante que tem nas mãos o futuro do Planeta. Entrámos numa era a que alguns geólogos chamam o Antropoceno. Os seres humanos são agora tão numerosos e têm uma «  pegada » colectiva tão pesada que possuem capacidade de transformar e até de devastar a biosfera inteira. Os actos das pessoas podem desencadear alterações climáticas perigosas e extinções em massa se « pontos críticos » forem ultrapassados. A maior parte das pessoa do mundo vivem vidas melhores do que os pais viveram e a população que vivia em pobreza  abjecta tem vindo a diminuir. Essas melhorias não poderiam ter ocorrido sem os avanços da ciência e da tecnologia. As nossas vidas e a nossa saúde  podem beneficiar ainda mais devido aos progressos da biotecnologia da cibertecnologia, da robótica e da IA. É também evidente que o abismo entre aquilo que o mundo é e aquilo que poderia ser  é maior do que nunca. Há ainda mil milhões de pessoas a viver mal no mundo de hoje que poderia ser transformado através da redistribuição da riqueza das mil pessoas mais ricas do Planeta. Os avanços tecnológicos podem também ter os seus aspectos negativos quebrando padrões de trabalho. Por outro lado os avanços na genética e na medicina só irão melhorar a vida humana se estiverem disponíveis a todas as pessoas e não apenas para uns poucos de privilegiados.

Na parte final do livro o autor conclui o seguinte: « Os aspirantes a cientistas não devem aglomerar-se todos na unificação do cosmos e dos quanta e deverão compreender que os grandes desafios na investigação do cancro e na ciência do cérebro têm de ser abordados aos poucos em vez de tentarem fazer tudo de uma vez. O nosso futuro depende de tomarmos decisões sensatas sobre desafios chave: energia, alimentação, robótica, ambiente, espaço, etc. As decisões chave não devem ser tomadas apenas por cientistas ; elas dizem respeito a todos. Os avanços na tecnologia conduziram a um mundo onde a maior parte das pessoas desfruta de vidas mais seguras, mais longas e mais satisfatórias do que as gerações anteriores. Por outro lado a degradação ambiental, mudanças climáticas sem controlo e lados negativos involuntários das tecnologias avançadas são efeitos colaterais desses avanços. Os fossos entre países, nos níveis de riqueza e bem-esta.r mostra poucos sinais de se estreitar. É do interesse do mundo rico investir maciçamente na melhoria da qualidade de vida e das oportunidades de trabalho em países mais pobres. Os cientistas têm obrigações especiais que ultrapassam a sua responsabilidade de cidadãos. Há obrigações éticas a cumprir: evitar experiências que tenham até  o mais minúsculo dos riscos de conduzir à catástrofe. E respeitar o código de ética quando a investigação envolve cobaias animais ou seres humanos. A « Nave espacial Terra » está a precipitar-se pelo vazio. Os seus passageiros estão ansiosos e turbulentos. O seu sistema de suporte de vida é vulnerável a perturbações e colapsos. Mas existe insuficiente planeamento, insuficiente análise de horizontes, insuficiente consciência dos riscos a longo prazo. Seria vergonhoso se legássemos às gerações futuras um mundo empobrecido e perigoso. Temos de pensar globalmente, temos de pensar racionalmente, temos de pensar a longo prazo, capacitados pela tecnologia do século XXI, mas guiados pelos valores que a ciência não pode fornecer sozinha. Quanto às viagens aeroespaciais, pensar que o espaço oferece uma fuga para os problemas da Terra é uma ilusão perigosa. Temos de resolver aqui esses problemas. Lidar com as alterações climáticas pode parecer intimidante mas é uma brincadeira de crianças em comparação com terraformar Marte. Não há nenhum lugar no nosso sistema solar que ofereça um ambiente tão clemente comd são a Antártida ou o topo do Evereste. Não existe um « Planeta B »  para pessoas comuns avessas ao perigo . » O ambiente do espaço é inerentemente hostil aos seres humanos. Mas se nada existir lá fora além de esterilidade talvez seja melhor deixar as viagens para fabricadores robóticos.

publicado por pontodemira às 15:10
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Segunda-feira, 24 de Maio de 2021

AQUILO EM QUE CREIO

 

Este é o título de um livro escrito pelo teólogo Hans Kung que nasceu em Sursee na Suíça em 1928. Foi ordenado sacerdote em 1934 e  em 1960 nomeado professor de Teologia na Universidade de Tubinga na Alemanha onde trabalhou até 1966. Entre 1962 e1965 trabalhou como perito para o Concílio Vaticano II. Foi professor visitante em várias Universidades e Faculdades de Teologia dos EUA. Por ter posto em causa a infalibilidade papal em 1979 foi-lhe retirada a licença de ensinar teologia nas Universidades católicas permanecendo porém como sacerdote e professor de teologia ecuménica em Tubinga até 1966. Em 6 de Abril de 2021 morreu em Tubinga aos 93 anos de idade.

Na introdução ao livro “ Aquilo Em Que Creio “ o teólogo Hans Kung diz o seguinte : « Crer é o que move a razão, o coração e as mãos de uma pessoa, o que engloba o  pensamento, a vontade, o sentimento e a acção. No entanto, tal como o amor cego, a fé cega é-me suspeita desde os meus tempos de estudante em Roma; a fé cega conduziu à perdição de inúmeras pessoas e povos inteiros. Esforcei-me e esforço-me por cultivar uma fé que procura compreender, que não dispõe de muitas provas concludentes, mas sim de boas razões. Neste sentido a minha fé não é racionalista nem irracional, mas sim razoável.  « Em que creio », inclui portanto consideravelmente mais do que uma confissão de fé em sentido tradicional. « Em que creio » denota as convicções e atitudes fundamentais que foram e são importantes para mim, na vida, e que espero possa ajudar para a orientação existencial. O que se pretende é uma reflexão apoiada na  existência pessoal e seriamente informativa sobre como viver com sentido ».

Ao longo do livro que tem 10 capítulos Hans Kung diz-nos desenvolvidamente tudo o que é necessário fazer para fortalecer a fé e a confiança em Deus e também para dar sentido à vida. A cada pergunta que faz dá uma resposta.

1-O que é importante para mim como fundamento espiritual do ser humano ? Uma confiança básica, uma confiança existencial. É também necessário ultrapassar as crises existenciais.

2-A confiança na vida é boa. A alegria de viver é ainda melhor e ela pode até resultar da apreciação das belezas da natureza.

3-Com confiança na vida e alegria  de viver vamos pelo caminho da vida, mas  onde está o seu itinerário ?  Para que tudo corra bem é necessário aprender a comportarmo-nos humanamente e haver  um ética para a sobrevivência e uma ética universal de afirmação da vida. Todo o ser humano deve receber um tratamento humano. Isto significa que todas as pessoas sem distinção de sexo, idade, raça ou cor da pele possuem uma  dignidade inviolável e inalienável.

4-Qual é o sentido da vida ?  O sentido da vida não reside tanto no trabalho como na procura da vivência bela e da estetização. O hedonismo orientado apenas para a obtenção do prazer e para o gozo dos sentidos não proporciona uma felicidade existencial duradoura. Reconheço que sou incapaz de  me resignar a toda a miséria, à injustiça, à ausência de sentido deste mundo e por isso procuro um sentido último na vida dos outros e na minha própria vida. Toda e qualquer profissão pode transformar-se, independentemente da posição que se ocupa numa verdadeira vocação capaz de infundir satisfação e sentimento de realização.

 

5-Qual é o fundamento da vida ? O Deus eterno concede fundamento e sentido a todo o temporal e hoje não temos de desculpar-nos por professarmos uma fé esclarecida em Deus.

6- De onde vem o poder da vida ? Deus é Senhor de tudo: é o grande poder da vida, que concede e mantém toda a vida e todo o bem. Daí que esteja legitimado para esperar dos seres humanos, confiança e entrega. Deus é Ele mesmo origem, centro e meta do processo do mundo. Deus é verdadeiramente o espiritual, infinito, omnímodo- fundamento, apoio e sentido primigénio do mundo e do ser humano.

7- Um caminho de vida com sentido existencial, apoiado por um poder de vida, mas em conformidade com que modelo de vida ?  O modelo de vida será o de um cristão. E que é ser cristão ? Cristão é aquele que no seu caminho de vida totalmente pessoal ( todas as pessoas têm o seu ) se esforçam por se guiar na prática por Jesus Cristo. Não se exige mais. Para mim Jesus é e continuará a ser « o caminho , a verdade e a vida ». No entanto respeito que para os judeus seja a Tora, para os muçulmanos o Alcorão, para os hindus o darma, para os budistas a senda óctupla e para os tauistas o Tau.

8-Porque sofro ? Porque permite Deus o mal ? Leibniz no seu livro « Ensaios de Teodiceia sobre a Bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal » procura justificar Deus. Para Leibniz havia 3 tipos de mal : o mal metafísico ou limite do ser baseia-se na finitude do homem ; o mal físico ou dor tem a ver com a corporalidade do homem ; o mal moral existe em virtude  da liberdade do homem. Um mundo sem pecado nem sofrimento mas também sem liberdade humana não seria de antemão o melhor. Estaríamos assim no melhor de todos os mundos possíveis. Para Hans Kung há outra maneira de olhar o sofrimento e a cruz da vida pessoal. Dirigir o olhar para o Crucificado pode mostrar aos que vivem situações de extrema necessidade que também não foram abandonados totalmente pelos homens e por Deus. Partindo do Crucificado, o negativo pode ser enfrentado com uma profundidade que dificilmente parece possível para os humanistas não cristãos. Se Jesus não foi a pique no sofrimento mais extremo do abandono por parte dos homens e de Deus então também não se afundará aquele que se aferrar a Ele com confiança e fé.

9-No caminho de vida através da alegria e do sofrimento vital em que consiste a arte de viver ? Para se viver bem é necessário cumprir regras. A primeira é a do amor ao próximo. Santo Agostinho dizia. « Ama e faz o que quiseres »  A segunda é usar o poder em favor dos outros. O poder económico deve subordinar-se ao poder político e tanto o político como o económico à ética.  O outro conselho é consumir com contenção.

 10- No caminho da vida é também necessário uma visão da vida. Devemos pôr de lado todas as utopias ideológicas. Nada de ideias que não tenham os pés na terra.  Para alteração do paradigma que estamos a viver e que afeta o mundo, a política, a economia e as culturas precisamos com urgência de uma visão que tenha a discernir o contorno de um mundo mais pacífico, mais justo e mais humano. É preciso pôr em prática uma ética mundial que possa ser partilhada por pessoas de todas as religiões e tradições éticas. Essa ética assenta em primeiro lugar no princípio do humanitarismo: Todo o ser humano- independentemente de ser homem ou mulher, branco ou de cor, novo ou velho, rico ou pobre- deve receber um tratamento humano. Alguns politólogos preveem para o século XXI um choque de culturas. As religiões e as culturas do mundo em interacção com as pessoas de boa vontade podem contribuir para evitar tal choque , desde que ponham em prática as seguintes ideias:

- não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões.

-não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões

-não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais

-o nosso planeta não sobreviverá em paz e justiça sem um novo paradigma de relações internacionais construído com base em critérios éticos globais.

publicado por pontodemira às 12:48
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Sexta-feira, 30 de Abril de 2021

COMO EVITAR UM DESASTRE CLIMÁTICO

 

 

Este é o título de um livro escrito por Bill Gates, empresário, filantropo e que fundou juntamente com Paul Allen a Microsoft. Neste livro o autor descreve as alterações climáticas que se estão a agravar de dia para dia, as causas que lhe dão origem e das soluções e inovações que é necessário fazer.

Logo no início Bill Gates diz-nos que há 50 mil milhões de emissões de gases com efeito de estufa que lançamos anualmente na atmosfera. Para travar o aquecimento global e evitar as piores consequências das alterações climáticas que se revelarão trágicas, a humanidade tem de parar de adicionar gases com feito de estufa na atmosfera. O que está na origem desta poluição é o consumo excessivo de combustíveis fósseis que são usados de diferentes maneiras: nos transportes terrestres, aéreos e marítimos ; no fabrico de energia eléctrica e também no fabrico de cimento e betâo.  Os gases com efeito de estufa aprisionam o calor na atmosfera provocando uma subida da temperatura à superfície do planeta. Quanto maior for a quantidade de gases maior é a subida da temperatura. Estes combustíveis são na verdade o resultado do carbono que foi armazenado no subsolo, graças a plantas que morreram há milhões de anos e foram convertidas em petróleo, carvão ou gás natural. Quando extraímos combustíveis fósseis e os queimamos emitimos dióxido de carbono que se acumula na atmosfera. A luz do sol, por exemplo, passa pela maioria dos gases com efeito de estufa sem ser absorvida. A maior parte atinge a Terra e aquece-a tal como sempre aconteceu. A Terra irradia alguma energia de volta para o espaço e parte é absorvida pelos gases com efeito de estufa. Ao activar as moléculas desses gases fá-los vibrar mais depressa aquecendo a atmosfera. Apenas as moléculas constituídas por diferentes átomos possuem a estrutura certa para absorver a radiação e começar a aquecer, o que acontece com o dióxido de carbono e o metano. O aquecimento da Terra vai provocar o aquecimento dos oceanos e causar o aumento dos furacões. Numas regiões chove de mais e noutras o cenário é de secas. Um clima mais quente significa um aumento do risco de incêndios florestais. Um outro efeito do aumento da temperatura é  a subida do nível dos mares. O fenómeno tem a ver com o derretimento das calotas polares e também porque a água do mar expande-se ao ser aquecida.

As alterações climáticas estão a tornar a vida mais difícil devido à ocorrência de ciclones, tempestades e enchentes. O calor também não  é bom para a actividade pecuária. Os animais serão também menos produtivos e têm mais probabilidades de morrer  cedo o que faz aumentar os preços da carne, dos ovos e dos lacticínios.  As comunidades que dependem da pesca  encontrarão também problemas. O número de pessoas que terá dificuldade em obter água potável duplicará. Por outro lado os efeitos das alterações climáticas  são cumulativos. Os mosquitos, por exemplo, começarão a viver noutro locais à medida que o planeta aquecer e irâo a abandonar as regiões mais secas em troca de outras mais húmidas. E passaremos a ter  casos de malária e outras doenças transmissíveis por insectos onde nunca existiram.

Para reverter esta situação que se adivinha catastrófica para a humanidade é necessário substituir os combustíveis fósseis por energias limpas e renováveis como as fotovoltaicas e as eólicas. Se isso não for feito as emissões de carbono continuarão a aumentar e caminharemos para um desastre ambiental. Para que a descarbonização possa ter êxito é necessário o esforço conjunto de todos: cidadãos, empresários, cientistas e de um compromisso assumido por todos os Estados, sobretudo os mais poluidores a nível internacional.  Os cidadãos devem preferir no futuro os carros eléctricos, escolher máquinas que gastem menos energia, optar por lâmpadas LED e evitar o consumo excessivo de carne, pois as vacas são altamente poluidoras. Os empresários devem investir em equipamentos inovadores e amigos do ambiente. Aos cientistas compete descobrir novas técnicas ou aperfeiçoar as que já existem de forma a melhorar o ar que respiramos. Aos Estados pertence investir em energias limpas e fixar metas para diminuir os gases com efeito de estufa.

Para terminar vou transcrever o que Bill Gates diz  no final do livro : «  Quando temos uma visão das alterações climáticas baseadas em factos, percebemos que temos algumas ferramentas para evitar um desastre eminente,  mas não todas. Identificamos os obstáculos que nos impedem de implementar soluções disponíveis e de  desenvolver as inovações que nos faltam. E vemos o que precisamos de fazer para superar obstáculos. Se nos mantivermos focados ao objectivo- a eliminação de gases com efeito de estufa- e fizermos planos concretos para o atingir, seremos capazes de evitar um desastre climático. Podemos manter o planeta habitável, ajudar centenas de milhões de pessoas pobres a tirar o máximo de proveito das suas vidas e preservar um lugar para as gerações futuras.» 

Nota final: Bill Gates sugere ainda duas soluções para a descarbonização do ar:  A 1ª seria a instalação de centrais de captura do dióxido de carbono do ar ( CDA ) ; A 2ª consisitiria através da geoengenharia espalhar partículas minúsculas nas camadas superiores da atmosfera de forma a dispersar a luz solar e causar a descida da temperatura. A outra hipótese seria tornar as nuvens mais claras através pulverização de um spray de sal o que aumentaria a capacidade   de reflexão reduzindo assim a temperatura da superfície da Terra.

E Bill Gates acrescenta que a geoengenharia é a única capaz de reverter os efeitos do aquecimento global sem consequências diretas na economia

Para terminar diria eu que é nosso dever preservar  o planeta Terra e deixá-lo aos vindouros em condições de ser habitável e de poderem também como nós usufruir das suas maravilhas.

 

publicado por pontodemira às 21:46
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Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2021

SONHEMOS JUNTOSO- CAMINHO PARA UM FUTURO MELHOR - PAPA FRANCISCO

 

Este é um livro que surgiu em tempo de confinamento e que resultou de uma entrevista que o papa Francisco concedeu a Austen Ivereigh, escritor e jornalista britânico e autor de duas biografias do Papa. Da conversa que teve com o papa sugeriu-lhe a redacção de um livro que lhe desse espaço para desenvolver as suas ideias e as pôr à disposição de um público mais vasto. E assim surgiu este livro que comprei numa loja que vende jornais e revistas.

No prólogo o Papa Francisco diz-nos que em momentos de crise vê-se o bem e o mal : as pessoas mostram-se como são. Algumas dedicam tempo a servir os necessitados, enquanto outras enriquecem à custa da necessidade dos demais. Deus quer construir o mundo connosco como colaboradores a todo o momento. Convidou-nos a que nos unamos a Ele desde o princípio, em tempos de paz e em tempo de crise: desde sempre e para sempre. O futuro não depende de um mecanismo invisível e no qual os humanos não são espectadores passivos. Quando o Senhor nos pede que sejamos fecundos, que dominemos a Terra, o que está a dizer é “ sede cocriadores do futuro “. Colocamos a máscara para nos protegermos a nós mesmos e aos outros de um vírus que não podemos ver. Mas que fazemos com os restantes que não  podemos ver ?  Como podemos encarar as pandemias da fome, da violência e da mudança climática ?  Precisamos de economias que permitam a todos o acesso aos frutos da criação e às necessidades básicas da vida : terra, teto e trabalho. Milhões de pessoas perguntam a si mesmas entre si onde poderíamos encontrar Deus nesta crise. O que me vem à mente é a imagem do transbordar de um rio. Na sociedade, a misericórdia de Deus brota nestes  “ momentos de transbordo “. O transbordo encontra-se no sofrimento que esta crise deixou exposta e na actividade  com que tantos procuram responder a ela. Vejo um transbordo de misericórdia derramando-se ao nosso redor. O Papa Francisco expõe o seu pensamento ao longo do livro que está dividido em três partes: Um tempo para ver, um tempo para escolher e um tempo para agir.

1-Um Tempo para Ver-  Logo no começo o Papa Francisco faz as seguinte perguntas :  Como nos tornámos cegos à beleza da criação ? Como nos esquecemos dos dons de Deus e dos nossos irmãos ? Como podemos explicar que vivemos num mundo onde a natureza está sufocada, onde os vírus se propagam como o fogo e causam o desmoronamento das nossas sociedades, onde a pobreza mais dilacerante convive com a riqueza mais inconcebível, onde povos inteiros -como os robingyas – estão relegados para a lixeira ? Os caminhos que impedem de ver a realidade e de reagir a ela são : o narcisismo, o desânimo e o pessismismo. O Papa Francisco lembra que na Encíclica  “Laudato Si “  chama a atenção para a necessidade de uma conversão ecológica., não apenas para evitar que a humanidade destrua a natureza mas também para evitar que se destrua a si própria. E faz um apelo à “ ecologia integral “  ou seja cuidar não apenas da natureza mas também uns dos outros como criaturas de um Deus que nos ama. Por outras palavras se pensas que o aborto, a eutanásia e a pena de morte são aceitáveis o teu coração terá dificuldade em preocupar-se com a contaminação dos rios e com a destruição das florestas. É necessário um novo humanismo que possa canalizar a irrupção de fraternidade e pôr fim à globalização da indiferença e à hiperinflação do individual.

2-Um Tempo para Escolher- O Papa Francisco chama a  atenção para os princípios orientadores da nossa escolha e que constam da Doutrina Social da Igreja ( DSI ) Esses princípios são: o bem comum e o destino universal dos bens. A igreja pede-nos que tenhamos em vista o bem de toda a sociedade, o bem que partilhamos, o bem do povo no seu todo assim como os bens  a que cada um deveria ter acesso. Por outro lado toda a gente ter acesso aos bens da vida : Terra , Teto e Trabalho. Deus planeou os bens da Terra para todos sem excluir ninguém. A  DSI mencionou ainda mis dois princípios: solidariedade e subsidiariedade. A solidariedade diz-nos que temos deveres para com os outros e que somos chamados a participar  na sociedade. Isto significa perdoar dívidas, acolher os deficientes e trabalhar para que os sonhos e esperanças dos outros se convertam nos nossos.  A subsidiariedade diz-nos que devemos respeitar a autonomia dos outros, como sujeitos capazes do seu destino. Chama também a atenção para as escolhas que devemos fazer. Se queremos proteger e regenerar a Mãe Terra então temos que pôr de lado um modelo económico que considera o crescimento a qualquer preço como o seu principal objectvo. A expansão ilimitada da produtividade e do consumo vai provocar um desastre ambiental. E nós somos  parte da criação e não donos dela. Mais à frente o Papa diz que as mulheres foram as mais afectadas e mais resilientes nesta crise. São elas as que tendem a trabalhar nos sectores mais afectados pela pandemia a nível mundial. Cerca de 70% dos que trabalham na saúde são mulheres. Assume ainda como pressuposto que as mulheres qualificadas devem ter igual acesso à liderança, salários equivalentes e outras oportunidades. O Vaticano está a dar o exemplo nomeando mulheres para cargos importantes. Assim no Dicastério para  Leigos, a Família e a Vida, os dois subsecretários são mulheres; o Director do Museu do Vaticano é uma mulher e na Secretaria de Estado ou Chancelaria o subsecretário da secção para as Relações com os Estados é uma mulher.

Para dar unidade à Igreja e acabar com desacordos paralisantes o Papa no seu pontificado já convocou três Sínodos: Sobre a Família, sobre os jovens e sobre a Amazónia. A palavra sínodo vem do grego syn-odos que significa caminhar juntos. A falta de celebração da missa dominical nalgumas regiões da Amazónia não se deve exclusivamente à falta de ministros ordenados mas também à escassez de missionários  na Amazónia. Muitos sacerdotes de nove países que fazem fronteira com a Amazónia ofereceram resistência a serem enviados como missionários para a região

3-Um Tempo para Agir- O modelo do laissez faire centrado no mercado, confunde fins e meios. O lucro converte-se na meta a atingir em vez de meio para alcançar bens maiores. E a ideia de que a riqueza se progredir descontroladamente criará prosperidade para todos é falsa como já ficou provado.  As desigualdades sociais são bem latentes. A dignidade dos nossos povos exige corredores seguros para os migrantes e refugiados. Temos de acolher, promover e integrar aqueles que chegam à procura de uma vida melhor para si mesmos e família. A ideologia neodarwinista da sobrevivência do mais forte apoiada por um mercado desenfreado e obcecado pelo lucro e pela soberania individual, penetrou e endureceu os nossos corações. O populismo gera medo e semeia pânico:  são a exploração da angústia popular não são o seu remédio. E o Papa conclui que não sairemos desta crise senão aceitarmos um princípio de solidariedade entre os povos. E acrescenta: «necessitamos de políticos apaixonados pela missão de garantir para todo o povo os três T : Terra, Teto e Trabalho. Se pusermos a Terra, a habitação e o trabalho digno para todos no centro das nossas acções estaremos a restaurar a dignidade.

Veremos agora o que o Papa Francisco diz sob os Três  T:

TERRA-Os bens e os recursos da terra são destinados a todos. O ar fresco, a água limpa e uma dieta equilibrada são vitais para a saúde e o bem-estar dos nossos povos. Ponhamos a regeneração da terra e o acesso universal aos seus bens no centro do nosso futuro pós-covid.

TETO- É preciso humanizar o nosso ambiente urbano: assegurar habitações sustentáveis e adequadas para as famílias, dignificar as zonas periféricas das nossas cidades integrando-as por meio de políticas sociais.

TRABALHO- O nosso trabalho é condição fundamental para a nossa dignidade e bem-estar. Como será o nosso   futuro quando 40% ou 50% dos jovens não tiverem trabalho. O assistencialismo é por vezes necessário mas o mais importante é contribuir para uma vida digna, ganha com o seu trabalho. O Papa sugeriu ainda um rendimento básico universal ( UBI ) a todos os cidadãos que poderia distribuir através de um sistema de impostos. Sugeriu ainda uma redução do horário de trabalho, ou seja, trabalhando menos para que mais gente tenha acesso ao mercado laboral . Tudo isto em vez dos falsos pressupostos da famosa teoria do derrame segundo a qual uma economia em crescimento nos fará mais ricos a todo.

  Estas sugestões abrem caminho para um futuro melhor.

publicado por pontodemira às 19:27
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Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2021

EUTANÁSIA: SIM OU NÃO

 

A vida é feita  de momentos bons e de outros maus, de alegrias e de tristezas. Há também momentos em que somos felizes e outros em que somos abatidos pelo sofrimento. Actualmente estamos a viver momentos dramáticos com a pandemia covid19 que está a matar todos os dias  milhares de pessoas em todo o mundo

E foi precisamente agora que foi aprovada na Assembleia da República uma Lei que permite a eutanásia. Trata-se de uma lei fracturante  que divide a sociedade em dois grupos divergentes. Há os que defendem a eutanásia e os que são contra. O segundo grupo, dos que estão contra, é constituído na sua grande maioria por cristãos ( católicos, protestantes, evangélicos, etc). Para os crentes a vida tem sentido.  Sabem que Deus criou o mundo e o homem e que Deus nunca os abandona nem nos momentos  mais difíceis ou de sofrimento. A vida é um dom gratuito de Deus e há que respeitá-la. No primeiro grupo estão os cépticos para quem a vida não tem qualquer sentido e o remédio neste caso é  pôr fim ao sofrimento pelo suicídio ou através da morte assistida. Este é o desespero de quem acredita que não há vida para além desta e que tudo acaba quando morrermos. Ao absurdo da vida só resta o absurdo do suicídio. E aqui vou citar o pensamento do Padre e Professor de Filosofia Anselmo Borges que na crónica que escreveu no dia 31-01-2021 no Diário de Notícias, com o título , O sentido da vida e o sofrimento, diz o seguinte : «  Há um pensamento radical que põe o pensamento em sobressalto.  Cada um de nós sabe que não esteve sempre no mundo, isto é, que nem sempre existiu e que não existirá sempre. Houve um tempo em que ainda não existíamos, ainda não vivíamos e haverá um tempo em que já não existiremos, já não viveremos cá, deixaremos de viver neste mundo . Nesta constatação experienciamos que somos de nós, somos donos de nós- essa é a experiência da liberdade – mas não  nos pertencemos totalmente, não somos a nossa origem nem temos poder pleno sobre o nosso fim. Viemos ao mundo sem nós -ninguém nos perguntou se queríamos vir- e um dia a morte chega e leva-nos pura e simplesmente. Não nos colocámos a nós próprios na existência nem dispomos totalmente do nosso futuro, não somos o nosso fundamento. Aqui, perante a certeza de que nem sempre estive cá e de que não estarei cá sempre, pois morrerei, ergue-se, enorme, irrecusável, a pergunta:  donde vim ,? Para onde vou ? qual o sentido da minha existência ? que valor tem a minha vida ?   Esta pergunta formula-se em relação a todos os seres humanos, à vida em geral, a toda a realidade: porque há algo e não nada. E continua…    De facto o ser humano não pode viver sem sentido.  Aliás a existência humana está baseada na convicção do sentido. Há um pré-saber do sentido, de tal modo qua sua própria negação ainda o afirma. No limite, não é possível o “  suicídio lógico “, pois quem pegasse numa arma para suicidar-se, porque tudo é absurdo, estava a negar o absurdo e afirmar o sentido… »

Mas a Lei da Eutanásia pode esbarrar ainda com o artigo 24º da Constituição que nos diz que a vida é um direito inviolável. É óbvio e não temos dúvidas que se pretende condenar a pena de morte e que ninguém pode tirar a vida a outra pessoa. O que está em causa também é se a nossa liberdade nos permite que deleguemos noutra a capacidade de nos matar. Para os médicos existe o dever deontológico de preservar a vida e não de eliminá-la. Se a Lei chegar ao Tribunal Constitucional  iremos ver se  vai ser  ou não considerada inconstitucional.

 

publicado por pontodemira às 16:37
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Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2021

O REGRESSO DA ULTRADIREITA- DA DIREITA RADICAL À DIREITA EXTREMISTA

 

Este é o título do livro escrito por CAS MUDDE que nasceu em 1967 nos Países Baixos. É professor de Relações Internacionais da Universidade de Geórgia e também professor do Centro de Investigação sobre o Extremismo ( C-Rex ) da Universidade de Oslo.

Neste livro o autor faz uma análise detalhada dos partidos de ultradireita pondo em destaque todos os elementos que ajudam a uma melhor compreensão dos mesmos partidos como a história, a ideologia, a organização, as causas e as consequências. Sugere ainda o que a sociedade civil e os partidos devem fazer para enfrentar e combater estas ideologias.

Em primeiro lugar convém esclarecer o que o autor entende por ultradireita. Logo na introdução do livro estabelece uma diferença entre a chamada « direita » mainstream na qual se incluem os conservadores e os liberais libertários e a « direita »  antissistema que é hostil à democracia liberal e a que ele chama  ultradireita. A ultradireita divide-se em dois subgrupos:  1- a direita extremista e  a 2- direita radical.   A direita  extremista rejeita a essência da democracia, isto é a soberania popular e a regra da maioria. E dá como exemplo desta direita extremista o fascismo que levou ao poder Hitler e Benito Mussolini. A direita radical aceita a essência da democracia mas opõe-se  a elementos fundamentais da democracia liberal como os direitos das minorias, o Estado de Direito e a separação de poderes. A direita radical confia no poder do povo e  a direita extremista não. À direita radical é também associado o tema populista. O populismo em teoria é a favor da democracia  mas de uma democracia antiliberal. No populismo há também 2 grupos homogéneos mas antagónicos: o povo puro e a elite corrupta

Quando o autor acabou de escrever o livro em 2019 três dos cinco  países mais populosos do mundo tinham líderes de ultradireita ( Brasil, Índia e EUA ) O maior partido do mundo é o partido  do povo Indiano ( BJP ) da direita radical populista. Na União Europeia ( EU ) há 2 governos completamente controlados por partidos da direita radical  populista ( a Hungria e a Polónia ).  Outros 4 governos incluem partidos deste tipo ( Áustria, Bulgária, Itália e Eslováquia ) Os partidos da ultradireita em questão são  FPO ( Áustria,  Frente Patriótica ( Bulgária, DF ( Dinamarca, Fidesz ( Hungria), Lega ( Itália ) , Pis ( Polónia ), SNS ( Eslováquia ).

Os termos «esquerda»  e «direita » remontam à Revolução Francesa ( 1789-1791 ), quando os apoiantes do Rei se sentavam à direita do presidente do Parlamento francês e os adversários à sua esquerda. Os do lado direito eram a favor do« ancien» regime enquanto os do lado esquerdo apoiavam a democratização e a soberania popular.  Com A Revolução Industrial a direita e a esquerda passaram a ser definidas principalmente em termos de política socioeconómica, com a direita a apoiar o marcado livre e a esquerda defendendo um papel mais activo do Estado. Na última década a distinção esquerda direita tem sido definida mais em termos socioculturais, com a direita a defender o autoritarismo( contra a esquerda libertária ), ou o nacionalismo  ( contra  o internacionalismo de esquerda ). Para o italiano Norberto Bobbio a esquerda  considera que as desigualdades fundamentais  entre pessoas são artificiais e negativas, devendo ser  superadas por intervenção do Estado enquanto a direita acredita que as desigualdades entre as pessoas são naturais e positivas devendo ser ignoradas pelo Estado. Estas desigualdades podem ser também culturais, económicas, raciais ou religiosas.

As ideologias fundamentais no âmbito da direita extremista são o fascismo e o nazismo e os aspectos  ideológicos fundamentais da direita radical populista são o nativismo ( combinação de nacionalismo e de xenofobia), o autoritarismo e o populismo. O objectivo último da direita radical  populista é a etnocracia em que a cidadania se baseia na etnicidade e por isso se devem fechar as fronteiras aos imigrantes. O autoritarismo acredita numa sociedade com uma ordem rigorosa na qual as infracções à autoridade têm de ser punidas severamente. As políticas da ultradireita surgem em variadas formas de acordo com as ideologias e com os tipos de  organizações.. Nas organizações temos  partidos, movimentos sociais e subgrupos. Os partidos políticos concorrem às eleições mas os movimentos sociais não o fazem mas são bem organizadas. As subculturas nem sequer têm boa organização. Todos os partidos têm líderes importantes e conhecidos, membros e activistas e uma base eleitoral demarcada. A ultradireita dedica-se fundamentalmente a três tipos de acções: eleições, manifestações e violência.

O que se pode fazer para derrotar a ultradireita ?  Das abordagens que foram feitas há   destacar quatro atitudes mais proeminentes: demarcação, confronto, cooptação e incorporação.

Demarcação: Muitos partidos do mainstream declaram oficialmente que os partidos da direita radical populista estão fora campo democrático e, por isso, excluíram-nos do jogo político.

Confronto: Estratégias de confronto implicam uma oposição activa a partidos de ultradireita e na maior parte das vezes à sua política.

Cooptação: Os partidos democráticos liberais excluem partidos da direita radical populista mas não as suas ideias, começando por adoptar o discurso da direita radical.

Incorporação: A incorporação significa que posições da direita radical populista e também partidos são incorporados no mainstream e normalizados. Em 1940   o populista Berlusconi formou um governo de coligação da Aliança Nacional « pós-fascista » com  a LN da direita radical populista.

Na parte final do livro CAS MUDDE diz que a melhor estratégia para enfrentar a direita radical é o fortalecimento da democracia liberal. E enumera alguns princípios que devem ser seguidos:  1- É preciso explicar por que  motivos a democracia liberal é o melhor sistema político; 2-Desenvolver e difundir políticas baseadas nas ideologias democratas liberais ( por ex. ( democrata-cristã, conservadora, verde, liberal, social democrata ) ;3-Abordar as questões que nos dizem respeito e à maioria da população e postular as nossas posições informadas do ponto de vista ideológico sem esquecer os temas como a corrupção, o crime e a imigração; 4 –Definir direitos claros no que se refere  a formas de colaboração e a posições compatíveis com valores democratas liberais.

 Em Portugal temos neste momento um partido de ultradireita que é o Chega. É como se sabe um partido racista, xenófobo, anti-imigração e que procura aproveitar-se do descontentamento de vários estratos sociais. Está  a fazer uma campanha suja nas eleições para  Presidente da República fazendo críticas ridículas aos outros candidatos

Quase todos os candidatos estão a fazer uma miríade de promessas ao eleitorado. Esquecem-se no entanto que o Presidente da República não tem poderes legislativos nem executivos. O candidato do CHEGA, André Ventura vai até mais longe e diz que se for eleito demite o primeiro ministro António Costa. Mas não é pelo facto do primeiro ministro agradar ou desagradar ao Presidente da República que este o pode demitir. Só em casos excepcionais previstos no artº 198 º da Constituição é que o Presidente da República o pode fazer. O Presidente da República tem o papel de árbitro e nesse âmbito a magistratura de influência. A ele cabe também a fiscalização do sistema político.

O CHEGA dificilmente ganhará umas eleições legislativas. Mas se algum dia obtiver um bom resultado quem sabe se o PSD e o CDS não se juntarão a ele para formar uma coligação como aconteceu nos Açores.

publicado por pontodemira às 20:54
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