Sábado, 28 de Setembro de 2019

NÓS CONTRA ELES ( O fracasso da globalização )

 

Nós Contra Eles( o fracasso do globalismo) é o título de um livro escrito por Ian Bremmmer, professor universitário e cronista da Time. O autor faz uma análise exaustiva das causas que levaram ao fracasso do Globalismo e prevê que no futuro, com as novas tecnologias nomeadamente a automação dos serviços, a situação se agrave ainda mais.

Para o fracasso do Globalismo concorreu não só a vaga de populismo nacionalista que varreu a Europa mas também a  desigualdade na distribuição da riqueza e o fosso cada vez maior entre ricos e pobres. Tudo isto levou  ao aparecimento de dois grupos: o do”Nós Contra Eles”

Os  antiglobalistas de esquerda usam o termo Eles para se referirem à elite que governa as grandes empresas e aos banqueiros que permitem essas elites de explorarem o trabalhador e o investidor comum. Os antiglobalistas de direita usam o termo Eles para descreverem governos que defraudam os seus cidadãos ao tratarem de forma privilegiada minorias, imigrantes ou qualquer grupo que esteja explicitamente protegido por Lei.

 As causas que levaram a esta situação são entre outras as seguintes: a crise financeira de 2008-2009;a crise de migrantes; ataques terroristas; deslocalização de empresas; a crise da dívida que criou o caos na Zona Euro e a estagnação económica. Daqui nasceu na Europa de Leste a raiva nacionalista particularmente nos países de Visegrado: Polónia, Hungria, República Checa e Eslováquia. Todos estes países se recusaram a aceitar as quotas da EU que implicavam a aceitação de refugiados vindos de fora da União. Ora a abertura e a tolerância à diversidade étnica racial e de género são ainda aceites na Europa Ocidental mas há cada vez mais gente a questioná-los, tanto na Europa como nos EUA. A viragem a favor do nacionalismo identitário na Europa de leste tornará difícil para a a Alemanha e para a França implementar  as reformas da EU que podem tornar as instituições europeias mais fortes. Acresce a tudo isto que não se prevê um plano de paz abrangente em relação ao Médio Oriente nem um surto de prosperidade no Norte de África. O nacionalismo promete confrontar as forças que se acredita serem criadoras de desordem e que ameaçam a soberania pessoal e nacional. Daí a criação de muros fortes que os mantenham a “Eles” do lado de fora.  Ian Bremmer remata dizendo que “ a batalha entre Nós e Eles continua a flagrar em todos os países onde o medo da mudança  ganha contornos crescentes “

Para que uma sociedade se mantenha unida e coesa é necessário que haja um contrato social entre cidadãos e o Estado. O sonho chinês de Xi  difere do sonho americano. O actor central do sonho chinês não é o indivíduo e a família mas sim um sólido e disciplinado partido governamental. Para os americanos o contrato social terá a ver com um Governo que respeite os direito inalienáveis dos cidadãos. Na Rússia as leis existem para proteger o Estado dos perigos causados por indivíduos que desafiem a sua autocracia e não o contrário.

Com a automatização de parte de trabalhos que se preveem no futuro é necessário reescrever os contratos sociais. Assim,é preciso empregar mais pessoas e pagar salários mais altos a professores, investir mais na educação, haver que cuidar de idosos funções para as quais os humanos ( e não aos robots) ainda serão necessários durante muito tempo.. Um bom Governo não será a única solução para resolver os  problemas  do desemprego gerado pela automatização. É necessário que  instituições  sem fim lucrativo criem oportunidades de aprendizagem para crianças do mundo em desenvolvimento. Para o canadiano Tarik uma das iniciativas seria criar tablets pré-carregadas de livros escolares, aulas interactivas para crianças de zonas com pouco ou nenhum acesso à educação formal incluindo os campos de refugiados.

No final do livro Ian Bremmer coloca os desafios relevantes que os EUA e a Europa terão de enfrentar quando confrontados com a  automação e a inteligência artificial. Nos países ricos irá criar agitação no seio dos trabalhadores e será também um fenómeno perturbador nos países  em desenvolvimento. Há que tomar decisões importantes. Quais ? Construir Muros ? Ou reformular o Contrato Social ?  A construção de muros não mata a ideia de governação responsável. A reinvenção do contrato social será politicamente inexequível em muitos países e durante muito anos. Refazer a relação entre Governo  e cidadãos é bem mais prometedor do que a construção de muros que garantem segurança e prosperidade duradouras no  maior número de pessoas. A sobrevivência exige que se descubramos novas formas de vivermos juntos.

publicado por pontodemira às 17:32
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 28 de Agosto de 2019

O DECLÍNIO DO OCIDENTE

 

Este é o título de um livro escrito pelo historiador Niall Ferguson professor em Harvard. O autor faz um estudo da evolução política Ocidental desde a Revolução Industrial até aos nossos dias. Irei resumir como se chegou ao que ele designa como” O Declínio do Ocidente”.

 Para Ferguson o Ocidente estagnou e não apenas em termos económicos. O crescimento da China viria a ser 4 vezes maior do que os EUA e 3 vezes mais rápido na Índia. A explicação para o declínio Ocidental é a “ desalavancagem “, o doloroso processo de redução da dívida. Nos EUA a soma da dívida pública e da privada excedeu 250% o valor do PIB. As pessoas e os Bancos vivem em grande dificuldade para reduzir as respectivas dívidas. As pessoas procuram gastar menos e poupar mais e a procura agregada tem vindo a cair. Nos EUA os republicanos culpam a globalização e a tecnologia e os democratas  o insuficiente investimento na educação pública e a baixa de impostos realizados pelos republicanos que favorecem os  ricos. A crise das finanças está afectar todos os países com dívidas superiores a 100% do PIB como o Japão, Grécia, Itália, Irlanda e Portugal. Face a uma dívida pública exagerada o leque de soluções é muito restrito: desvalorização cambial, inflacção, inovação tecnológica, incumprimento da dívida e falência no que diz respeito à dívida privada.  O que é que provocou o Declínio do Ocidente?  Resumidamente, e para o historiador Frguson, tem sido : 1-os déficites democráticos; 2-a fragilidade reguladora;3-o primado dos advogados, 4-a sociedade sem civismo.

1-As democracias ocidentais de hoje desempenham um papel tão grande na redistribuição dos rendimentos que os políticos que defendem cortes na despesa, deparam quase sempre com a oposição de funcionários do sector público e dos beneficiários de prestações sociais. Qualquer governo que tente seriamente reduzir o seu déficite estrutural acaba por ser posto na rua.

2-Sem normas para impor o pagamento e punir as fraudes não há sector financeiro. Sem imposição de restrições à gestão bancária é impossível que muitos bancos abram falência numa fase de recessão devido ao desequilíbrio entre activos e passivos. Um Estado de Direito tem muitos inimigos .Um deles é o mau Direito. Foram as instituições mais reguladas do sistema financeiro que, na verdade, se mostraram mais propensas ao desastre: os grandes bancos dos dois lados do Atlântico e não os “hedge funds”. E aqui é pertinente perguntar: “ quis custodiet ipsos custodes” ( quem guarda os próprios guardas ou seja, neste caso, quem regula os reguladores ). Ferguson sugere o seguinte: que se deve fortalecer o Banco Central como autoridade de última instância quer no sistema monetário quer no sistema de supervisão; que os responsáveis do Banco central sejam “ apreensivos “ e até experientes para que actuem quando detetem uma exagerada expansão do crédito; garantir que aqueles que caem sob a alçada da autoridade reguladora paguem caro pelas transgressões.

3-Um mundo financeiro complexo só se tornará menos frágil mediante simplificidade na regulação e severidade na defesa lei. Entre os mais mortíferos inimigos do primado da Lei contam-se as más Leis. Para Fergunson os EUA já foram o primado da Lei. Mas o que vem acontecendo actualmente é o primado dos advogados que é coisa bem diferente.

4- Ao longo dos séculos foram criadas nos EUA , no Reino Unido e por toda a Europa, associações cívicas que ajudaram a consolidar a democracia. Destas instituições há destacar as sociedades cooperativas e as de beneficências, os sindicatos, associações voluntárias de beneficência  de cultura e de carácter religioso. Ao lado das escolas públicas aparecem escolas privadas e da concorrência entre elas surgiu um ensino de excelência. A Suécia e Dinamarca foram pioneiras das reformas educativas. Na Dinamarca as “ Escolas livres “ têm autonomia administrativa e recebem uma prestação do estatal por cada aluno. Na Holanda 2/3 dos estudantes frequentam actualmente escolas independentes. Nos EUA mais de 2000 escolas com alvarás têm financiamento público e autonomia administrativa. Na Grã Bretanha só 7% dos adolescentes frequentam escolas privadas.

Fergunson na parte final do livro concluiu o seguinte: “ Nós humanos vivemos numa matriz complexa de instituições. Há o governo,  o Mercado, o Direito e também a Sociedade Civil. Tempos houve em que esta matriz funcionou  surpreendentemente bem. Esta foi a chave do sucesso Ocidental nos séculos XVIII, XIX e XX. Mas as instituições do nosso tempo perderam o Norte. O nosso grande desafio para os próximos anos consiste em recuperá-las para fazer reverter o Grande Declínio.

publicado por pontodemira às 17:29
link do post | comentar | favorito
Sábado, 3 de Agosto de 2019

Cmo Revitalizar Uma Economia

 

Com a queda do Muro de Berlim e o Fim da Guerra Fria apareceu o livro “O Fim da História “, escrito pelo historiador americano Fukuyama. Este historiador entendia que o capitalismo liberal de mercado era o melhor sistema político e económico e não era possível progredir mais. Mas a Grande Depressão de 2008 veio provar veio provar o contrário. Afinal a economia sem a intervenção do Estado pode evoluir para um descalabro de consequências imprevisíveis.

O economista Joseph Sitglitz tratou deste assunto no livro “ A Economia Mais Forte Do Mundo ( Um plano para revitalizar a Economia e promover a Prosperidade Global ). Nele se faz uma análise das consequências da crise de 2008 , das causas que lhe deram origem  sugerindo um plano para inverter e revitalizar a economia. Como consequência da crise e da profunda recessão que se seguiu 10 milhões de famílias norte americanas perderam as suas casas ou entraram em processo de execução hipotecária; 8,7 milhões de trabalhadores perderam o seu emprego ; de 2009 a 2012 91% de todo o aumento de rendimento foi para 1% dos norte-amerricanos mais ricos.Há ainda milhões de trabalhadores que permaneceram encurralados em empregos a tempo parcial ou no emprego disfarçado. As causas que levaram a esta situação foram múltiplas e variadas: a desregulamentação e a redução de impostos sobre os rendimentos mais elevados ; corte nos programas de acção social e nos investimentos públicos. A economia trickle-down que consiste em aumentar os rendimentos dos que se situam no topo da tabela esperando  que isso acabe por beneficiar os restantes verificou-se que não funcionou. Para se corrigir as desigualdades tem que se começar no meio da tabela a aumentar os rendimentos. Ou seja, tem que ser uma economia trickle-up pois essa teria mais possibilidade de sucesso. Uma parte do sector financeiro preocupa-se mais na obtenção de rendas e lucros do que no investimento e em activos produtivos. As remunerações dos quadros executivos aumentara até níveis que não puderam ser justificados pala sua produtividade. Muitos desses aumentos deram-se à custa dos trabalhadores e dos accionistas que fizeram crescer a desigualdade a nível nacional. Stiglitz propõe então uma série de medidas para revitalizar a economia americana e que se aplicam em qualquer país, inclusive Portugal, e que têm em vista promover a prosperidade global. Dessas medidas há a destacar as seguintes:

1) desenvolver um sistema financeiro que sirva os interesses da sociedade  ajudando a financiar as pequenas empresas, a educação e a habitação

2) regular o sistema bancário paralelo e eliminar as operações bancárias off-shore. Os centros financeiros off-shore são utilizados para fugir às regulamentações desenhadas para garantir um sistema financeiro seguro e saudável.

3) alinhar as taxas de impostos sobre as empresas com o rácio remuneração dos directores executivos/remuneração dos trabalhadores comuns( ou, até, com o

ordenado mínimo)- aplicando uma taxa sobre qualquer excedente. As empresas bem geridas e sem remunerações de topo excessivas poderiam ser tributadas a taxas inferiores.

4) revitalizar o investimento público na educação e na tecnologia.

5) investir na renovação das infraestruturas ferroviárias, energia e telecomunicação

6) alargar o acesso aos transportes públicos

7 ) aumentar o ordenado mínimo

Se estas medidas fossem implementadas teríamos de certo uma sociedade mais justa e igualitária

 

 

publicado por pontodemira às 10:28
link do post | comentar | favorito
Domingo, 21 de Julho de 2019

Trump e a política anti-imigração

 

Trump é um político execrável, um autocrata de pendor ditatorial, que não respeita valores democráticos como a liberdade de expressão e a independência dos tribunais. Dá-se muito bem com políticos autoritários como Putin e Bolsonaro e com governantes europeus populistas e nacionalistas que fecham as suas fronteiras aos imigrantes.         Trump é um inimigo da União Europeia e faz tudo para a desagregar. O seu lema é dividir para reinar.

Mas do seu perfil como mau político há ainda muito mais para dizer. Não assinou o Acordo Climático de Paris e os EUA são responsáveis por 1/3 do total mundial das emissões de carbono e  possuem 4% da população do Planeta. Esta atitude mostra à evidência que Trump está mais preocupado em defender a economia americana do que em preservar a qualidade de vida do Planeta Global. Aqui manda o lema “América “first.

Por fim, “ last but not least “ é um apologista da política anti-imigração.  Aqui não está só e é seguido por países como a Itália e a Hungria. A Inglaterra com o Brexit pretende também fazer o mesmo.

Analisando as migrações com realismo vemos que os emigrantes  saem dos seus lugares de origem devido à guerra, à instabilidade política ou por não terem condições de sobrevivência.

Mas Trump esquece-se que os EUA foram colonizados por imigrantes ingleses e que alguns deles como os puritanos tiveram de sair de Inglaterra devido a perseguições religiosas e políticas. Esta situação está a repetir-se hoje com outros povos que procuram abrigo nos EUA. E voltando atrás à colonização do continente americano há ainda a registar outros factos que não convém ignorar. O continente americano, aquando da colonização, não estava vazio mas era habitado por povos indígenas. A muitos deles foram expropriadas as terras que possuíam e outros foram mesmo exterminados.

A crueldade mantem-se hoje na forma desumana como são tratados os imigrantes. As crianças são separadas dos pais e constroem-se muros de separação para não ter que se prestar a ajuda aos que dela necessitam.

Ninguém é dono e senhor de todos os bens da Terra.  O ser humano tem direito a uma vida digna onde não faltem bens essenciais como o trabalho, alimentos e habitação. Só é possível atingir a Paz e uma Sociedade estável construindo pontes e não muros.

publicado por pontodemira às 09:00
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 8 de Julho de 2019

Tentações e Pecados De Alguns Políticos

 

Qualquer cidadão tem por vezes a tentação de fugir aos impostos não declarando correctamente os rendimentos próprios ou por exemplo a importância exacta relativa à compra e venda de um imóvel.  Mas mais grave é quando os políticos o fazem. Alguns vão longe demais e são apanhados em casos de corrupção e de fraude. A Revista Visão de 20 de Junho dá conta que estão a ser investigados 30 casos que envolvem autarcas de Norte a Sul do país.

Na Operação Rota Final há Câmaras que estão a ser alvo de buscas por suspeitas de corrupção, tráfico de influências, participação económica em negócios, prevaricação e abuso de poder. Nesta operação se incluem as seguintes Câmaras: Guarda( PSD) , Barcelos ( PS), Braga (PSD ),Águeda(movimento juntos ) ,Almeida ( PSD), Armamar (PSD ),Belmonte (PS ),Cinfães (PSD ) ,Fundão ( PSD ), Lamego (PS ), Moimenta da Beira (PS) ,Oleiros (PSD ) Oliveira do Bairro (CDS) .Oliveira de Azeméis (PS ), Sertã (PSD), Soure ( PS ), Pinhel ( PSD),Tarouca( PSD).

Na Operação Teja a PJ e o MP estão a averiguar a “ viciação fraudulenta” de concursos e ajustes directos, num processo que envolve as autarquias de Santo Tirso, Barcelos e o Instituto de Oncologia ( IPO ). Há também casos relacionados com a Transportadora Transdev ( multinacional francesa ) que desde o início de 2018 acumulou 2 milhões de euros em 38 contratos por ajustamento directo com municípios do Norte e Centro.

Na Operação Galpgate são acusados 1 autarca da Câmara de Santiago do Cacém (CDU ) e outro da Câmara de Sines ( PS ) por recebimento indevido de vantagens em viagens a expensas da petrolífera.

Na Câmara de Pedrógão Grande há também um autarca ( PS) entre 28 arguidos que estão envolvidos em esquemas fraudulentos na Reconstrução de casas.

Numa entrevista à Rádio Renascença a ex-procuradora Joana Marques Vidal afirmou “ que a corrupção está a pôr em causa o Estado de Direito Democrático e que há redes que capturam o Estado utilizando o aparelho do Estado para a prática de actos ilícitos. E é categórica ao afirmar que essas redes estão espalhadas por ministérios e  autarquias.  Essas redes de corrupção e compadrio existem nas áreas de  contratação pública espalhadas por vários organismos de vários ministérios e autarquias e serviços directos e indirectos do Estado” ( fim de citação ).

Uma grande parte dos políticos esquece-se que foram eleitos para servir os interesses do povo e do país e não os seus interesses pessoais. Isto não quer dizer que todos os políticos sejam corruptos. Claro que há quem seja honesto e nos actos da administração pública actue com a máxima transparência e dentro da legalidade. Mas o inverso também é verdade. Costuma-se dizer na brincadeira que “quem não arrisca não petisca”. Infelizmente ainda existem muitos políticos para quem a política é um meio para atingir um fim e esse fim são os interesses  pessoais e particulares.

publicado por pontodemira às 21:40
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 17 de Junho de 2019

Breve História da Ideologia Ocidental ( Relato Crítico )

 

1-Este é o título de um livro escrito pelo italiano Rolf Petri, professor de História Contemporânea na Universidade de Veneza. Na Introdução começa por esclarecer que o seu trabalho como investigador vai incidir no estudo abrangente e holístico de conceitos que caracterizam a ideologia ocidental. Os neologismos como “ civilização” e cultura são exemplo de conceitos que marcaram a ideologia Ocidental. O termo ideologia tem um passado iluminista e não é fácil de definir. Para uns é uma “ ciência das ideias “ objectivante. Para Napoleão era uma teoria desprovida de relevância e um conjunto de dogmas falaciosos. A ideologia andou desde os primeiros momentos associada às estruturas do poder e tornou possível uma política autónoma abrindo caminho à modernização. As Religiões monoteístas Ocidentais como o cristianismo e o islamismo acreditam que a História tem uma função teleológica ( objectiva) e escatológica. As Religiões Orientais que não acreditam numa divindade omnipotente rejeitam as representações teleológicas da História. O Mundo é visto como um fenómeno em constante mudança em que o absoluto e o supremo não se encontravam na revelação de um objectivo escatológico para o futuro.

2-Ao renascer cristã a Europa recebeu  uma investidura missionária e escatológica.A conquista colonial nos séculos XV e XVI iniciada pelos Reis Ibéricos, para lá dos negócios era entendida como missão cristã. O contraste entre a povoação europeia e as populações nativas que eram colonizadas fez nascer o conceito de” civilização “ . As diferenças entre a Europa civilizada e o ambiente pobre e selvagem que estava a ser colonizado era evidente.

3-No século XVIII aparece a Filosofia da História. Tudo começa com o racionalismo ocidental do qual se destacam nomes como Descarte, Leibniz e cientistas como Galileu e Isac Newton que concebiam um Mundo criado por Deus mas regidos por leis mecânicas e matemáticas de tal modo perfeito que podia funcionar sozinho. Nasce também o conceito de sociedade e contrato social. Thomas More no livro Utopia concebe uma sociedade perfeita onde todos contribuem para a felicidade de todos. Para Hobbes o estado natural é um estado de guerra perpétua onde só poderá haver paz se o homem abdicar da sua liberdade em favor de uma autoridade absoluta. Rousseau entende também que o homem só pode viver em Paz através de um contrato social em que todos abdicam de uma parte das suas liberdades em favor de um poder soberano.  Mas só no século XIX é que a liberdade e a democracia começaram a  consolidar aquilo que devia ser uma relação inseparável. Os Estados democráticos que evoluíram na sequência das Revoluções Francesa e Americana tentaram incorporar o republicanismo delineado por Kant. O republicanismo é o princípio político de separar o poder executivo do governo do poder legislativo. Para Montesquieu a soberania  ilimitada seria sempre tirânica. A separação de poderes era um requisito para um Estado de Direito  e de Paz. Kant e Montesquieu são pontos de referência essenciais na filosofia política  liberal e no constitucionalismo. O Estado de Direito e os conceitos de Constituição e de separação de poderes derivam igualmente da História do Pensamento político Ocidental.

4-O universalismo ocidental começou a coexistir com o estabelecimento conceptual e pratico de  um número crescente de hierarquias entre grupos locais. O princípio de um povo a habitar um território  contribuiu para se estabelecer uma espécie de direito natural de soberania popular. No final do seculo XV a Inquisição exigiu que se expulsassem de Espanha todos os judeus que não se convertessem ao cristianismo. Foi o mais importante processo de estigmatização e de exclusão de judeus entre o fim da Idade Média e o Renascimento. Em relação aos povos de África o Ocidente mantinha também um certo desprezo. As populações eram comparadas ao reino animal. O pensamento racista no século XX não tinha a ver com a teoria biológica mas com o progresso e o atraso da pessoa ou grupo. Este era o princípio mais geral de diferenciação hierárquica entre grupos humanos. Não havia uma divisão marcada entre racismo colonial e racismo social. Não eram apenas os negros que cheiravam mal mas também os camponeses pobres, os operários, os marginalizados e os deslocados. A equiparação entre raça e Nação transformou o racismo numa formidável ferramenta biopolítica do Estado-Nação Ocidental.

5-Para que as gerações possam continuar a viver é necessário que o homem estabeleça um pacto com a Natureza. O destino mais garantido da Humanidade é o mesmo  de qualquer outra espécie, ou seja, a extinção. Essa extinção pode resultar do desrespeito das normas de proteção do meio ambiente ou até da conflagração de uma guerra nuclear. Na parte final do livro e em jeito de resumo Rolf Petri diz que a visão transcendente e escatológica da História não é de forma alguma um valor absoluto ao qual se tem de aderir ou impor aos outros. E argumenta que a História intelectual do Ocidente é rica em ideias que pertencem à visão escatológica da História mas também a outras que a rejeitam explicita ou implicitamente. Muitos dos conceitos, teorias e métodos que pertencem à tradição Ocidental não se limitam à visão escatológica da História. No campo político que normalmente anda lado a lado com a ideologia é preferível o consentimento à coerção,a liberdade de expressão à censura e à vigilância sem necessidade de uma base transcendente de direitos individuais. E termina dizendo : “  se mantivermos a nossa arrogância quanto ao sentido da História e  se presumirmos que nós  é que sabemos e que lutamos “ contra o mal “ melhor do que os outros, faremos com que tudo fique pior. Pelo nosso bem e pelo bem de milhões de outros seres humanos cujo desejo é viver apenas a sua vida,  com as suas mágoas e alegrias e lidar com a injustiça e com a incerteza à nossa maneira, seria melhor rejeitarmos a nossa filosofia equivocada da História “

publicado por pontodemira às 22:32
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito (1)
Quarta-feira, 1 de Maio de 2019

A SEXTA EXTINÇÃO

 

Este é o título de um livro escrito por Elisabeth Kolbert jornalista do “ New York Times durante 15 anos e ao qual foi atribuído o prémio Pulitzer. Da leitura deste livro concluímos que no espaço de 500 milhões de anos houve 5 extinções de espécies. As alterações climáticas, erupções vulcânicas e também a queda de meteoritos provocou o desaparecimento das seguinte espécies: rã dourada panamiana, mastodonte americano, arau gigante(pinguim original) do hemisfério Norte, amonites e dinossauros. A 1ª extinção teve lugar durante o período Ordovício há cerca de 450 milhões de anos; a 2ª durante o período Devónico Superior há cerca de 350 milhões de anos ; a 3ª extinção no período Pérmico há 250 milhões de anos e esteve perto de esvaziar a Terra ; a 4ª extinção no Triásico Superior há cerca de 200 milhões de anos; a 5ª foi a extinção em massa mais recente e ocorreu no período Cretácico há 50 milhões de anos e eliminou além dos dinossauros as amonites.

A causa da morte da rã do panamá foi um fungo que se movimentou na água com facilidade e percorreu grandes distâncias contaminando outros habitats. Há cerca de 30 milhões de anos a linha proboscídea que daria origem aos mastodontes separou-se da que mais tarde conduziu aos  mamutes e elefantes. O mastodonte americano desapareceu há cerca de 13 mil anos. A sua extinção faz parte de uma onda de desaparecimentos que se tornou conhecida como a extinção da megafauna. Esta coincidiu com a proliferação dos seres humanos modernos e é vista, cada vez mais, como resultante da mesma. Os araus eram uma das poucas aves não voadoras do hemisfério Norte. Como o arau era uma presa fácil e abundante os colonizadores da Islândia aproveitavam-nos como menu para o jantar. Os araus eram também utilizados como isco para o peixe e como fonte de penas para encher os colchões. Depois ocorreu o massacre maciço. As amonites flutuaram nos oceanos pouco profundos durante 300 milhões de anos. Era formado por conchas em espiral divididas em múltiplas câmaras. Os  próprios animais ocupavam apenas a última câmara e o resto estava cheio de ar. As amonites são normalmente retratadas como lulas às quais se assemelham, enfiadas dentro de conchas de caracóis.. Nos ambientes terrestres parece que terão morrido todos os animais maiores do que um gato. As vítimas mais famosas foram os dinossauros.

A teoria evolutiva de Darwin segundo a qual era a selecção natural e a competição dos mais fortes que comandava a evolução veio a provar-se que não estava totalmente correcta. O arau-gigante, a tartaruga gigante de Gálapos não foram aniquiladas pela mesma espécie mas devida a uma extinção  causada pelo homem ou através de um cataclismo de ordem natural.  A actividade do homem na caça , na pesca, na desflorestação irá também contribuir para a extinção de determinadas espécies.

Quando o Homo Sapiens, provavelmente o invasor mais bem sucedido da história biológica, vindo da África do Sul  chega à Europa dá-se o confronto com o Homem de Neandertal. Este acaba por desaparecer. Há teorias que dizem que houve um cruzamento entre as duas espécies e que alguns seres humanos ainda têm no seu ADN  entre 1 a 4% do homem de Neandertal. O Homo Sapiens devido à sua capacidade de mobilização espalhou-se depois por todos os continentes.

Com a Revolução Industrial no século XVII começa um novo período chamado Antropocénico. Com a explosão demográfica que se seguiu à 2ª Guerra Mundial, as tecnologias modernas das quais resultou o aparecimento de turbinas, caminhos de ferro, motosserras, os seres humanos tornaram-se forças capazes de dominar o mundo. Antes dos seres humanos entrarem em cena, as criaturas de grandes dimensões  e de reprodução lenta  dominavam o planeta . Depois esta estratégia tornou-se perdedora. Animais como o elefante, os ursos e os grandes felinos estão a diminuir gradualmente. Os seres humanos são capazes de provocar a extinção de praticamente qualquer espécie mamífera embora se façam esforços para o evitar. Se as autoestradas e a desflorestação criaram ilhas onde não existiam ilhas, o comércio global e as viagens globais fizeram o contrário. Houve assim uma remistura da flora e da  fauna mundiais. Durante um período de 24 horas calcula-se que 10 000 espécies diferentes sejam transportadas pelo mundo no lastro dos barcos. Um avião de passageiros, um superpetroleiro pode anular milhões de anos de separação geográfica. Mas também muitas doenças e pragas se podem disseminar rapidamente. Segundo dados estatísticos nos últimos 2 séculos foram provocados danos irreparáveis no clima e no ecossistema global. Mais de 1/4 de todos os mamíferos da Terra está hoje em vias de extinção tal como acontece com 40 % dos anfíbios ; 1/3 dos  corais e dos tubarões ; 1/5 dos répteis e um 1/6 das aves.

Estamos portanto a caminho da Sexta Extinção e esta pode ser causada pelos seres humanos. Para terminar irei transcrever a parte final do livro que diz o seguinte:

“ O episódio da extinção actual podia ser evitado se as pessoas se preocupassem mais e estivessem dispostas a fazer sacrifícios. Nós seres humanos continuamos a depender dos sistemas biológicos e bioquímicos da Terra. Ao perturbar estes sistemas- abatendo as florestas, alterando a composição química da atmosfera, acidificando os oceanos- estamos a colocar a nossa sobrevivência em perigo. O antropólogo Richard Leakey  avisou que o “ Homo Sapiens  “ não só pode ser o único causador da Sexta Extinção como também se arrisca a ser uma das suas vítimas. “

publicado por pontodemira às 21:21
link do post | comentar | favorito
Sábado, 23 de Março de 2019

Os Grandes Mestres da Psicologia : Sigmund Freud

 

1-Freud nasceu em 1856 em Freiberg na Morávia, actual República Checa. Era filho primogénito  de pais judeus Tinha sete irmãos e o pai era comerciante de lã. Em 1859 a família mudou-se para Viena . Em 1873 entrou na faculdade de Medicina de Viena. Terminado o curso cedo verificou  que a sua vocação era a investigação científica. Em 1881 obtém o título de doutor. Depois de estagiar no Hospital  Geral de Viena obteve o cargo de médico e mestre conferencista. Em 1885 estudou em Paris com Jean Martin Charcot. Em 1930 recebeu o prémio Goethe pelo valor  conjunto dos seus trabalhos. Em 1938 quando o exército nacional- socialista hitleriano invadiu a  Áustria, Freud foi obrigado a fugir para Londres onde veio a falecer em 1939.

2- Dos trabalhos que publicou em vida  há a referir  os seguintes: Estudos sobre o histerismo; Interpretação dos Sonhos ; Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ; O Futuro de Uma Ilusão e o Mal Estar na Civilização-

3- Como médico dedicou-se à psiquiatria e à psicanálise. Cedo abandonou   o estudo fisiológico do cérebro para se dedicar à análise da mente. Para ele tanto  a histeria como as neuroses são doenças do foro psicológico e nada tinham a ver com lesões orgânicas ou deficiências somáticas ou biofisiológicas. Par estudar essas doenças Freud utilizou  os seguintes métodos: hipnose, associação livre de ideias e de experiências do doente; interpretação dos sonhos e estudos da sexualidade.  Segundo a teoria psicanalista de Freud no homem existem duas forças antagónicas em conflito: a pulsão da libido que se rege pelo princípio do prazer e a e a pulsão de conservação do eu que se rege pelo princípio da realidade e que procura um equilíbrio entre as duas pulsões Tudo o que pode pôr em perigo a integridade e a segurança do Eu é objecto de recalcamento ou censura . No capítulo 7º  da Interpretação dos Sonhos Freud estabelece a 1ª tópica ( modelo ) da psique humana que é constituída pelo Consciente, Pré Consciente e Inconsciente. Para o Inconsciente vai parar tudo o que é reprimido, recalcado e as lembranças das situações de conflito; O consciente representa o  Eu autêntico que interage com o mundo e as pessoas que o rodeiam ; no pré-consciente estão todos os conteúdos capazes de se tornarem em representações conscientes ou de se afundarem no inconsciente ; à censura compete libertar esses conteúdos de acordo com a conveniência. Segundo Freud o inconsciente manifesta-se de três formas diferentes : a) erros triviais do quotidiano; b) relato de sonhos; c) sintomas de neuroses

a )Os lapsos de linguagem são frequentes no dia a dia. “Se uma pessoa em vez de dizer não tive intenção  de te magoar  diz tive intenção de te magoar “.  b) Os sonhos são quase sempre a manifestação de um desejo reprimido. Têm  uma natureza simbólica e para se obter o verdadeiro significado precisam de ser descodificados. ”Estou a beber água a grande golos, sabe-me tão deliciosamente como só o pode saber uma bebida fresca quando tenho a garganta seca; e então acordo a verificar que tenho um grande desejo de beber “ ; c) O outro método de explorar o inconsciente é através dos sintomas de pacientes neuróticos. As neuroses são a maior parte das vezes consequência do recalcamento de comportamentos sexuais anormais : desvios, inversões e perversões sexuais. As forças que restringem a direcção do instinto sexual são a vergonha, a repulsa a compaixão e as construções sociais da moral e da autoridade. Para Freud  a sexualidade infantil passa pelas seguintes fases: oral, anal e fálica.. É só na puberdade que a sexualidade do indivíduo se concentra permanentemente noutras pessoas. Muitos sintomas neuróticos são também resultado da repressão dos impulsos sexuais da infância. Os rapazes quando são pequenos têm atracção sexual pela mãe de quem vêm os afectos e encara o pai com uma certa hostilidade. Com o tempo vão gradualmente identificando-se com o pai. Era neste conflito de forte preferência pela mãe e de um ódio  inconsciente pelo pai que mais tarde Freud designou por Complexo de Édipo.

A partir de 1920 Freud criou uma 2ª tópica ( modelo ) na estrutura da psique A mente passa a ser constituída por três partes distintas : Ego. Id e Super Ego. O Ego ( Eu ) é regido pelo princípio da realidade e formou-se à medida que a criança vai interagindo com o mundo. O Eu luta constantemente para preservar a sua integridade. No ID ( Isso ) encontram-se duas pulsões em conflito: uma pulsão erótica ( impulso de vida ) e uma pulsão tânatos( impulso de morte ). A ânsia de autoconservação, o desejo amoroso e sobretudo o sexual e mesmo a  tendência de carácter  narcisista são manifestações de pulsão erótica. Pelo contrário as tendências agressivas e destrutivas, o sadismo e o masoquismo são  expressões da pulsão tânatos. O Super Ego funciona como Tribunal interior que observa e controla as decisões  e as acções do Eu. O Super Ego é o resultado da interligação muitas vezes traumática de exigências e proibições familiares, sociais e culturais. Freud tem da cultura um olhar pessimista. A vida em sociedade complica-nos a existência e obriga-nos a renunciar aos nossos desejos mais autênticos em prol da segurança. Quanto à Religião considera-a como um tipo de ilusão de carácter infantil que radicava num interesse e íntimo desejo de protecção. A Arte é para Freud uma forma de muitos sublimarem uma sexualidade que por motivos pessoais ou sociais não puderam expressar ou aceitar interiormente

4-Conclusão

As teorias de Freud foram muito contestadas no seu tempo por filósofos e cientistas. Para ele o homem era mais controlado pelos seus impulsos sexuais e pelo inconsciente do que pela razão. Chama-se a isto determinismo comportamental. Considerava também a sua teoria como científica pois  todos os actos humanos podiam ser explicados pelo prisma da sexualidade. Mas na Ciência não há verdades absolutas. Uma teoria científica tem de admitir sempre uma hipótese que a possa contestar. O Complexo de Édipo assenta também numa concepção errada da família. Mas o modelo familiar evoluiu. Os papeis do pai e da mãe transformaram-se com o tempo e podem ser desempenhados por qualquer dos cônjuges. Também a concepção que Freud tem de Deus é muito contestável. O crente acredita em Deus, não pela ilusão de um desejo de protecção, mas por uma experiência pessoal ou por uma questão racional de que nada existe por acaso.

publicado por pontodemira às 08:57
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2019

A tragédia da União Europeia: Desintegração ou Renascimento

 

Este é o título de um livro publicado pelo Círculo de Leitores ( Temas e Debates ) e em que o  um jornalista da Revista Der Spiegel entrevista o economista George Soros sobre assuntos relacionados com a economia global e particularmente com a situação política da União Europeia.

George Soros nasceu na Hungria, estudou na London School of Economics e depois emigrou para Nova Iorque. É um dos homens mais ricos do Mundo com uma fortuna avaliada em 20 mil milhões de dólares em activos financeiros. Soros é também um filantropo e fundador de um rede global de fundações dedicadas à promoção de sociedades  abertas .

Nas entrevista atrás referida o jornalista coloca a Soros as seguintes questões-chaves sobre a Europa:

A União Europeia acredita nos ideais que levaram à sua fundação ? ;  Qual foi a causa da crise do euro e o que podemos aprender com os erros cometidos ? ;-Qual é a relação entre a política e os mercados ? ; - Para onde se dirige a União Europeia ? .

A todas estas questões Soros responde objectivamente  com base nos conhecimentos e  na experiência pessoal, esclarecendo o seguinte:

  • A União Europeia criou dois problemas, um político e outro financeiro. O problema político é que a União Europeia que foi concebida para ser uma associação voluntária de Estados iguais se converteu numa relação entre credores e devedores em que, quando os devedores não conseguem pagar os credores ditam os termos. Isto proporciona aos credores uma muito maior influência sobre as políticas dos países devedores do que estes têm na política dos países credores. O problema financeiro é  que a Alemanha para manter as suas obrigações a um nível mínimo força os países devedores a equilibrar os seus orçamentos, o que é a política errada em tempos de procura insuficiente quando se devia estimular a economia
  • A Alemanha receia transformar-se no bolso sem fundo da Europa numa união de transferência. Esta atitude tem sido fatal para a União Europeia. Se pensarmos em Estados-Nações normais cada país é de alguma forma uma  “ união de transferência”. São sempre as áreas mais produtivas e bem sucedidas de um país que têm de apoiar as regiões menos desenvolvidas. Normalmente são as áreas urbanas industrializadas a suportar as regiões rurais mais atrasadas. Se a chanceler Merkel estivesse realmente empenhada em preservar a União Europeia, a melhor forma de o fazer seria a criação de uma união bancária suportada por garantias pan-europeias e algum tipo de me mercado obrigatoriamente mutualizado.
  • A crise do euro foi consequência directa da crise de 2008 e revelou falhas graves na construção do euro. Os países desenvolvidos com os seus próprios bancos centrais não incumprem, porque podem sempre imprimir dinheiro. As suas divisas podem desvalorizar normalmente mas o risco de incumprimento não surge. Para Soros a forma de salvar o euro seria a criação de eurobonds. Todas as dívidas públicas existentes seriam convertidas em eurobonds mas cada país seria responsável pelas suas próprias dívidas.
  • No fim da última entrevista Soros diz que a oportunidade de introduzir transformações radicais nas regras de supervisão do euro fechou-se. A partir de agora as negociações serão meramente para alterações de pormenor. Com o Brexit deu-se um passo enorme em direcção à desintegração da União Europeia. A França é para Soros o doente da Europa. Foi dispensada de prémios de risco penalizantes devido à sua associação com a Alemanha mas o seu desempenho económico é inferior ao da Itália e da Espanha. A União Europeia perdeu a capacidade de propor mais adesões porque ela própria está em processo de desintegração. Isto reduziu drasticamente a sua influência no Mundo. A Rússia beneficiou do facto da Europa estar desunida e agora está a emergir como uma ameaça para a Europa. O número crescente de crises políticas por resolver em todo o mundo é um sintoma do colapso na governação global.  Enquanto os problemas estruturais da união monetária não forem resolvidos e não for dada aos países atingidos pela crise uma verdadeira oportunidade para restabelecerem a sua competitividade a crise não terá fim. De tudo o que foi dito conclui-se que a concepção da moeda única teve muitas falhas. Todos sabiam que era uma moeda incompleta ; tinha um banco central mas não tinha um erário comum. A crise de 2008 veio revelar muitas outras deficiências. A mais importante foi  que ao transferir o direito de imprimir dinheiro para um banco central independente, os países-membros correm o risco de incumprimento com os seu títulos de dívida .Ao transferir  um direito par um banco central independente que nenhum Estado-membro controla, os Estados-membros colocam-se na posição de países do Terceiro Mundo que contraíram divida em moeda estrangeira. Em vez de uma associação entre iguais, a Zona Euro ficou dividida entre duas classes: credores e devedores. Numa crise financeira, são os credores que mandam. As políticas que estão a impor perpetuam a divisão porque os devedores têm de pagar prémios de riscos não apenas sobre os títulos de dívida como também no crédito  bancário. O custo adicional de crédito, que é um fardo recorrente, torna praticamente impossível que os países altamente endividados recuperem a competitividade.

Para terminar a análise exaustiva de George Soros eu acrescentava que o crescimento por toda Europa de partidos populistas e xenófobos  vai aumentar ainda mais o risco de uma desintegração europeia.  Esperemos que haja uma reversão desta tendência e que a união política e o consenso prevaleça para bem da Europa.

publicado por pontodemira às 22:47
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2019

Fascismo ( Um Alerta )

 

Este é o título de um livro escrito por Madeleine Albright que foi publicado este ano. A autora nasceu em 15 de Maio de 1937 em Praga na antiga Checoslováquia. É de origem judia e teve de fugir duas vezes da sua cidade natal; a primeira devido à ocupação nazi em 1939 e a segunda quando os comunistas tomaram o poder em 1948. A família foi obrigada a emigrar para os Estados Unidos e foi aí que Madeleine estudou. Em 1957 recebeu a cidadania norte-americana.

No livro Fascismo ( Um alerta ) Madeleine Albright  faz uma história do fascismo que começou nas primeiras décadas do século XX com Mussolini e Hitler. Depois houve uma longa lista de seguidores em todos os continentes: Péron na Argentina, Chavez e Maduro na Venezuela, Erdogan na Turquia, Putin na Rússia, Órban na Hungria, Kaczynski na Polónia, Kim Jong-un na Coreia do Norte, Duterte nas Filipinas e Trump nos Estados Unidos

Antes de mais convém esclarecer o que se entende por fascismo e como tem a sua origem. Quando um governo se encontra fragilizado e incapaz de governar aparecem sempre ídolos que prometem fazer tudo e mais alguma coisa e através de uma retórica nacionalista e populista conseguem agradar às massas. Normalmente apelam ao ódio,à vingança e ao medo para fazer vingar os seus pontos de vista. Uma vez no governo concentram em si todos os poderes proibindo as manifestações, impondo a censura aos media e prendendo os opositores.. Foi isto que fizeram Mussolini e Hitler. Na Itália o rei Vitor Emanuel incapaz de governar escolheu Mussolini para primeiro ministro. Em 1926 o Duce tinha abolido os partidos políticos concorrentes, abolido a liberdade de imprensa, neutralizando o movimento sindical e garantindo o direito de nomear ele próprio os funcionários municipais.  Convidado por um jornalista a resumir o seu programa, Mussolini respondeu: “ É quebrar os ossos aos democratas  … e quanto mais depressa, melhor. “ Quanto a Hitler sabemos que foi um estudante medíocre e que era intratável, obstinado e arrogante. Abandonou a Escola aos 16 anos. Alistou-se no exército Bávaro com a graduação de cabo. No fim da 1ª Grande Guerra Mundial foram impostas à Alemanha sanções severas e obrigada a aceitar as culpas da guerra, a ceder territórios e a pagar indemnizações. No dia 30 de Janeiro de 1933 o Presidente Hindenburg incapaz de governar entregou o poder a Hitler. Uma vez no poder Hitler acabou por destruir o que restava da democracia alemã. Os verbos de acção que empregava eram sempre os mesmos : esmagar, destruir, aniquilar e matar.

Estaline assumiu o poder governamental a partir de 1924. Através de um processo de depuração e deportações maciças o seu poder afirmou-se progressivamente.  O principal alvo de ataque na União soviética eram os proprietários de terras, a burguesia e só mais tarde os judeus. Enviou para a Sibéria milhões de “inimigos de classe” e ordenou a execução de milhares de pessoas, incluindo oficiais das forças militares, funcionários do partido e membros do bureau político. Durante a Guerra Fria a União Soviética apoderou-se  de vários países balcãs.

Com a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria pensou-se que a democracia liberal seria o regime político a ser adoptado pela maioria dos Estados de todos os continentes. Acontece que a crise financeira de 2008 veio negar estas expectativas. Também o fluxo migratório provocado pela guerrilha jiadista agravou ainda mais a estabilidade política. Alguns países fecharam as suas fronteiras erguendo muros e tomaram posições isolacionistas, protecionistas, racistas e nacionalistas. Na Hungria Órban é “ um nacionalista  antidemocrático e xenófobo com um programa cruel antirrefugiados. Na Polónia Jaroslaw Kaczynski subverteu a independência do Tribunal Constitucional reduzindo-o a um órgão sem capacidade de decisão. O Parlamento aprovou uma lei aumentando o controlo do Conselho Judicial Nacional ( que nomeia os juízes ) e obrigou quase metade do Supremo Tribunal a demitir-se. Na Venezuela Maduro tenta perpetuar-se no poder e tornar-se um presidente vitalício.  Erdogan na Turquia controla a imprensa e nomeia para os tribunais juízes da sua confiança. Na Rússia o ditador Putin utiliza hoje no governo o mesmo método que usava quando era operacional do KBG. As eleições fazem-se apenas para prolongar os mandatos dos candidatos apoiados. As cadeias de televisão são órgãos de propaganda. As pessoas que criticam Putin são presas ou assassinadas. A administração das grandes empresas estão nas mãos de antigos membros do KBG. Na Coreia do Norte o poder transmite-se sem interrupção de uma geração para a outra. Actualmente está no poder Kim Jong-un que é um ditador fascista. Os cidadãos que são presos por crimes e delitos comuns são confinados em campos prisionais. Podem ser torturados, trabalhar até à morte ou morrer por inanição. Uma pessoa acusada de crime pode ser executada em público sem julgamento. Mulheres e raparigas que são alvo de abusos sexuais por funcionários governamentais, guardas prisionais ou polícias não têm o direito de recorrer. A prática religiosa é proibida. Nos Estados Unidos Trump adopta medidas protecionistas, procura fugir às despesas com a NATO e faz tudo para desunir a Europa. Apoia ditadores como Duterte das Filipinas ou Erdogan da Turquia. Para Trump os tribunais americanos são parciais, o FBI é corrupto, a imprensa quase sempre mente e as eleições são manipuladas.

Quase no fim do livro em jeito de conclusão Madeleine Albbright diz o seguinte: “ O que torna um movimento fascista não é a ideologia mas a predisposição para fazer tudo o que for necessário- incluindo recorrer à força e espezinhar os direitos dos outros-para alcançar a vitória e impor a violência “. E acrescenta : “ Um governo fascista que silencia um meio de comunicação acha mais fácil silenciar um segundo; o Parlamento que ilegaliza um partido político passa ter um precedente para banir o seguinte; a maioria que  priva determinada minoria dos seus direitos não fica por aí; a força de segurança que espanca manifestantes e fica impune não hesita em voltar a fazê-lo.

A instabilidade política a nível mundial tem provocado surpresas pois alguns países democráticos estão a adoptar políticas nacionalistas e racistas. Temos o que se chama democracias iliberais ou seja os políticos foram eleitos por processos democráticos mas uma vez instalados no poder não respeitam os direitos e as liberdades dos cidadãos e das minorias. Por isso faz todo o sentido que Madeleine Albright faça um Alerta par prevenir os perigos do fascismo

 

publicado por pontodemira às 20:59
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27

29
30


.posts recentes

. NÓS CONTRA ELES ( O fraca...

. O DECLÍNIO DO OCIDENTE

. Cmo Revitalizar Uma Econo...

. Trump e a política anti-i...

. Tentações e Pecados De Al...

. Breve História da Ideolog...

. A SEXTA EXTINÇÃO

. Os Grandes Mestres da Psi...

. A tragédia da União Europ...

. Fascismo ( Um Alerta )

.arquivos

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Outubro 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Setembro 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Outubro 2014

. Julho 2014

. Maio 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

blogs SAPO

.subscrever feeds