Segunda-feira, 17 de Junho de 2019

Breve História da Ideologia Ocidental ( Relato Crítico )

 

1-Este é o título de um livro escrito pelo italiano Rolf Petri, professor de História Contemporânea na Universidade de Veneza. Na Introdução começa por esclarecer que o seu trabalho como investigador vai incidir no estudo abrangente e holístico de conceitos que caracterizam a ideologia ocidental. Os neologismos como “ civilização” e cultura são exemplo de conceitos que marcaram a ideologia Ocidental. O termo ideologia tem um passado iluminista e não é fácil de definir. Para uns é uma “ ciência das ideias “ objectivante. Para Napoleão era uma teoria desprovida de relevância e um conjunto de dogmas falaciosos. A ideologia andou desde os primeiros momentos associada às estruturas do poder e tornou possível uma política autónoma abrindo caminho à modernização. As Religiões monoteístas Ocidentais como o cristianismo e o islamismo acreditam que a História tem uma função teleológica ( objectiva) e escatológica. As Religiões Orientais que não acreditam numa divindade omnipotente rejeitam as representações teleológicas da História. O Mundo é visto como um fenómeno em constante mudança em que o absoluto e o supremo não se encontravam na revelação de um objectivo escatológico para o futuro.

2-Ao renascer cristã a Europa recebeu  uma investidura missionária e escatológica.A conquista colonial nos séculos XV e XVI iniciada pelos Reis Ibéricos, para lá dos negócios era entendida como missão cristã. O contraste entre a povoação europeia e as populações nativas que eram colonizadas fez nascer o conceito de” civilização “ . As diferenças entre a Europa civilizada e o ambiente pobre e selvagem que estava a ser colonizado era evidente.

3-No século XVIII aparece a Filosofia da História. Tudo começa com o racionalismo ocidental do qual se destacam nomes como Descarte, Leibniz e cientistas como Galileu e Isac Newton que concebiam um Mundo criado por Deus mas regidos por leis mecânicas e matemáticas de tal modo perfeito que podia funcionar sozinho. Nasce também o conceito de sociedade e contrato social. Thomas More no livro Utopia concebe uma sociedade perfeita onde todos contribuem para a felicidade de todos. Para Hobbes o estado natural é um estado de guerra perpétua onde só poderá haver paz se o homem abdicar da sua liberdade em favor de uma autoridade absoluta. Rousseau entende também que o homem só pode viver em Paz através de um contrato social em que todos abdicam de uma parte das suas liberdades em favor de um poder soberano.  Mas só no século XIX é que a liberdade e a democracia começaram a  consolidar aquilo que devia ser uma relação inseparável. Os Estados democráticos que evoluíram na sequência das Revoluções Francesa e Americana tentaram incorporar o republicanismo delineado por Kant. O republicanismo é o princípio político de separar o poder executivo do governo do poder legislativo. Para Montesquieu a soberania  ilimitada seria sempre tirânica. A separação de poderes era um requisito para um Estado de Direito  e de Paz. Kant e Montesquieu são pontos de referência essenciais na filosofia política  liberal e no constitucionalismo. O Estado de Direito e os conceitos de Constituição e de separação de poderes derivam igualmente da História do Pensamento político Ocidental.

4-O universalismo ocidental começou a coexistir com o estabelecimento conceptual e pratico de  um número crescente de hierarquias entre grupos locais. O princípio de um povo a habitar um território  contribuiu para se estabelecer uma espécie de direito natural de soberania popular. No final do seculo XV a Inquisição exigiu que se expulsassem de Espanha todos os judeus que não se convertessem ao cristianismo. Foi o mais importante processo de estigmatização e de exclusão de judeus entre o fim da Idade Média e o Renascimento. Em relação aos povos de África o Ocidente mantinha também um certo desprezo. As populações eram comparadas ao reino animal. O pensamento racista no século XX não tinha a ver com a teoria biológica mas com o progresso e o atraso da pessoa ou grupo. Este era o princípio mais geral de diferenciação hierárquica entre grupos humanos. Não havia uma divisão marcada entre racismo colonial e racismo social. Não eram apenas os negros que cheiravam mal mas também os camponeses pobres, os operários, os marginalizados e os deslocados. A equiparação entre raça e Nação transformou o racismo numa formidável ferramenta biopolítica do Estado-Nação Ocidental.

5-Para que as gerações possam continuar a viver é necessário que o homem estabeleça um pacto com a Natureza. O destino mais garantido da Humanidade é o mesmo  de qualquer outra espécie, ou seja, a extinção. Essa extinção pode resultar do desrespeito das normas de proteção do meio ambiente ou até da conflagração de uma guerra nuclear. Na parte final do livro e em jeito de resumo Rolf Petri diz que a visão transcendente e escatológica da História não é de forma alguma um valor absoluto ao qual se tem de aderir ou impor aos outros. E argumenta que a História intelectual do Ocidente é rica em ideias que pertencem à visão escatológica da História mas também a outras que a rejeitam explicita ou implicitamente. Muitos dos conceitos, teorias e métodos que pertencem à tradição Ocidental não se limitam à visão escatológica da História. No campo político que normalmente anda lado a lado com a ideologia é preferível o consentimento à coerção,a liberdade de expressão à censura e à vigilância sem necessidade de uma base transcendente de direitos individuais. E termina dizendo : “  se mantivermos a nossa arrogância quanto ao sentido da História e  se presumirmos que nós  é que sabemos e que lutamos “ contra o mal “ melhor do que os outros, faremos com que tudo fique pior. Pelo nosso bem e pelo bem de milhões de outros seres humanos cujo desejo é viver apenas a sua vida,  com as suas mágoas e alegrias e lidar com a injustiça e com a incerteza à nossa maneira, seria melhor rejeitarmos a nossa filosofia equivocada da História “

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Quarta-feira, 1 de Maio de 2019

A SEXTA EXTINÇÃO

 

Este é o título de um livro escrito por Elisabeth Kolbert jornalista do “ New York Times durante 15 anos e ao qual foi atribuído o prémio Pulitzer. Da leitura deste livro concluímos que no espaço de 500 milhões de anos houve 5 extinções de espécies. As alterações climáticas, erupções vulcânicas e também a queda de meteoritos provocou o desaparecimento das seguinte espécies: rã dourada panamiana, mastodonte americano, arau gigante(pinguim original) do hemisfério Norte, amonites e dinossauros. A 1ª extinção teve lugar durante o período Ordovício há cerca de 450 milhões de anos; a 2ª durante o período Devónico Superior há cerca de 350 milhões de anos ; a 3ª extinção no período Pérmico há 250 milhões de anos e esteve perto de esvaziar a Terra ; a 4ª extinção no Triásico Superior há cerca de 200 milhões de anos; a 5ª foi a extinção em massa mais recente e ocorreu no período Cretácico há 50 milhões de anos e eliminou além dos dinossauros as amonites.

A causa da morte da rã do panamá foi um fungo que se movimentou na água com facilidade e percorreu grandes distâncias contaminando outros habitats. Há cerca de 30 milhões de anos a linha proboscídea que daria origem aos mastodontes separou-se da que mais tarde conduziu aos  mamutes e elefantes. O mastodonte americano desapareceu há cerca de 13 mil anos. A sua extinção faz parte de uma onda de desaparecimentos que se tornou conhecida como a extinção da megafauna. Esta coincidiu com a proliferação dos seres humanos modernos e é vista, cada vez mais, como resultante da mesma. Os araus eram uma das poucas aves não voadoras do hemisfério Norte. Como o arau era uma presa fácil e abundante os colonizadores da Islândia aproveitavam-nos como menu para o jantar. Os araus eram também utilizados como isco para o peixe e como fonte de penas para encher os colchões. Depois ocorreu o massacre maciço. As amonites flutuaram nos oceanos pouco profundos durante 300 milhões de anos. Era formado por conchas em espiral divididas em múltiplas câmaras. Os  próprios animais ocupavam apenas a última câmara e o resto estava cheio de ar. As amonites são normalmente retratadas como lulas às quais se assemelham, enfiadas dentro de conchas de caracóis.. Nos ambientes terrestres parece que terão morrido todos os animais maiores do que um gato. As vítimas mais famosas foram os dinossauros.

A teoria evolutiva de Darwin segundo a qual era a selecção natural e a competição dos mais fortes que comandava a evolução veio a provar-se que não estava totalmente correcta. O arau-gigante, a tartaruga gigante de Gálapos não foram aniquiladas pela mesma espécie mas devida a uma extinção  causada pelo homem ou através de um cataclismo de ordem natural.  A actividade do homem na caça , na pesca, na desflorestação irá também contribuir para a extinção de determinadas espécies.

Quando o Homo Sapiens, provavelmente o invasor mais bem sucedido da história biológica, vindo da África do Sul  chega à Europa dá-se o confronto com o Homem de Neandertal. Este acaba por desaparecer. Há teorias que dizem que houve um cruzamento entre as duas espécies e que alguns seres humanos ainda têm no seu ADN  entre 1 a 4% do homem de Neandertal. O Homo Sapiens devido à sua capacidade de mobilização espalhou-se depois por todos os continentes.

Com a Revolução Industrial no século XVII começa um novo período chamado Antropocénico. Com a explosão demográfica que se seguiu à 2ª Guerra Mundial, as tecnologias modernas das quais resultou o aparecimento de turbinas, caminhos de ferro, motosserras, os seres humanos tornaram-se forças capazes de dominar o mundo. Antes dos seres humanos entrarem em cena, as criaturas de grandes dimensões  e de reprodução lenta  dominavam o planeta . Depois esta estratégia tornou-se perdedora. Animais como o elefante, os ursos e os grandes felinos estão a diminuir gradualmente. Os seres humanos são capazes de provocar a extinção de praticamente qualquer espécie mamífera embora se façam esforços para o evitar. Se as autoestradas e a desflorestação criaram ilhas onde não existiam ilhas, o comércio global e as viagens globais fizeram o contrário. Houve assim uma remistura da flora e da  fauna mundiais. Durante um período de 24 horas calcula-se que 10 000 espécies diferentes sejam transportadas pelo mundo no lastro dos barcos. Um avião de passageiros, um superpetroleiro pode anular milhões de anos de separação geográfica. Mas também muitas doenças e pragas se podem disseminar rapidamente. Segundo dados estatísticos nos últimos 2 séculos foram provocados danos irreparáveis no clima e no ecossistema global. Mais de 1/4 de todos os mamíferos da Terra está hoje em vias de extinção tal como acontece com 40 % dos anfíbios ; 1/3 dos  corais e dos tubarões ; 1/5 dos répteis e um 1/6 das aves.

Estamos portanto a caminho da Sexta Extinção e esta pode ser causada pelos seres humanos. Para terminar irei transcrever a parte final do livro que diz o seguinte:

“ O episódio da extinção actual podia ser evitado se as pessoas se preocupassem mais e estivessem dispostas a fazer sacrifícios. Nós seres humanos continuamos a depender dos sistemas biológicos e bioquímicos da Terra. Ao perturbar estes sistemas- abatendo as florestas, alterando a composição química da atmosfera, acidificando os oceanos- estamos a colocar a nossa sobrevivência em perigo. O antropólogo Richard Leakey  avisou que o “ Homo Sapiens  “ não só pode ser o único causador da Sexta Extinção como também se arrisca a ser uma das suas vítimas. “

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Sábado, 23 de Março de 2019

Os Grandes Mestres da Psicologia : Sigmund Freud

 

1-Freud nasceu em 1856 em Freiberg na Morávia, actual República Checa. Era filho primogénito  de pais judeus Tinha sete irmãos e o pai era comerciante de lã. Em 1859 a família mudou-se para Viena . Em 1873 entrou na faculdade de Medicina de Viena. Terminado o curso cedo verificou  que a sua vocação era a investigação científica. Em 1881 obtém o título de doutor. Depois de estagiar no Hospital  Geral de Viena obteve o cargo de médico e mestre conferencista. Em 1885 estudou em Paris com Jean Martin Charcot. Em 1930 recebeu o prémio Goethe pelo valor  conjunto dos seus trabalhos. Em 1938 quando o exército nacional- socialista hitleriano invadiu a  Áustria, Freud foi obrigado a fugir para Londres onde veio a falecer em 1939.

2- Dos trabalhos que publicou em vida  há a referir  os seguintes: Estudos sobre o histerismo; Interpretação dos Sonhos ; Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ; O Futuro de Uma Ilusão e o Mal Estar na Civilização-

3- Como médico dedicou-se à psiquiatria e à psicanálise. Cedo abandonou   o estudo fisiológico do cérebro para se dedicar à análise da mente. Para ele tanto  a histeria como as neuroses são doenças do foro psicológico e nada tinham a ver com lesões orgânicas ou deficiências somáticas ou biofisiológicas. Par estudar essas doenças Freud utilizou  os seguintes métodos: hipnose, associação livre de ideias e de experiências do doente; interpretação dos sonhos e estudos da sexualidade.  Segundo a teoria psicanalista de Freud no homem existem duas forças antagónicas em conflito: a pulsão da libido que se rege pelo princípio do prazer e a e a pulsão de conservação do eu que se rege pelo princípio da realidade e que procura um equilíbrio entre as duas pulsões Tudo o que pode pôr em perigo a integridade e a segurança do Eu é objecto de recalcamento ou censura . No capítulo 7º  da Interpretação dos Sonhos Freud estabelece a 1ª tópica ( modelo ) da psique humana que é constituída pelo Consciente, Pré Consciente e Inconsciente. Para o Inconsciente vai parar tudo o que é reprimido, recalcado e as lembranças das situações de conflito; O consciente representa o  Eu autêntico que interage com o mundo e as pessoas que o rodeiam ; no pré-consciente estão todos os conteúdos capazes de se tornarem em representações conscientes ou de se afundarem no inconsciente ; à censura compete libertar esses conteúdos de acordo com a conveniência. Segundo Freud o inconsciente manifesta-se de três formas diferentes : a) erros triviais do quotidiano; b) relato de sonhos; c) sintomas de neuroses

a )Os lapsos de linguagem são frequentes no dia a dia. “Se uma pessoa em vez de dizer não tive intenção  de te magoar  diz tive intenção de te magoar “.  b) Os sonhos são quase sempre a manifestação de um desejo reprimido. Têm  uma natureza simbólica e para se obter o verdadeiro significado precisam de ser descodificados. ”Estou a beber água a grande golos, sabe-me tão deliciosamente como só o pode saber uma bebida fresca quando tenho a garganta seca; e então acordo a verificar que tenho um grande desejo de beber “ ; c) O outro método de explorar o inconsciente é através dos sintomas de pacientes neuróticos. As neuroses são a maior parte das vezes consequência do recalcamento de comportamentos sexuais anormais : desvios, inversões e perversões sexuais. As forças que restringem a direcção do instinto sexual são a vergonha, a repulsa a compaixão e as construções sociais da moral e da autoridade. Para Freud  a sexualidade infantil passa pelas seguintes fases: oral, anal e fálica.. É só na puberdade que a sexualidade do indivíduo se concentra permanentemente noutras pessoas. Muitos sintomas neuróticos são também resultado da repressão dos impulsos sexuais da infância. Os rapazes quando são pequenos têm atracção sexual pela mãe de quem vêm os afectos e encara o pai com uma certa hostilidade. Com o tempo vão gradualmente identificando-se com o pai. Era neste conflito de forte preferência pela mãe e de um ódio  inconsciente pelo pai que mais tarde Freud designou por Complexo de Édipo.

A partir de 1920 Freud criou uma 2ª tópica ( modelo ) na estrutura da psique A mente passa a ser constituída por três partes distintas : Ego. Id e Super Ego. O Ego ( Eu ) é regido pelo princípio da realidade e formou-se à medida que a criança vai interagindo com o mundo. O Eu luta constantemente para preservar a sua integridade. No ID ( Isso ) encontram-se duas pulsões em conflito: uma pulsão erótica ( impulso de vida ) e uma pulsão tânatos( impulso de morte ). A ânsia de autoconservação, o desejo amoroso e sobretudo o sexual e mesmo a  tendência de carácter  narcisista são manifestações de pulsão erótica. Pelo contrário as tendências agressivas e destrutivas, o sadismo e o masoquismo são  expressões da pulsão tânatos. O Super Ego funciona como Tribunal interior que observa e controla as decisões  e as acções do Eu. O Super Ego é o resultado da interligação muitas vezes traumática de exigências e proibições familiares, sociais e culturais. Freud tem da cultura um olhar pessimista. A vida em sociedade complica-nos a existência e obriga-nos a renunciar aos nossos desejos mais autênticos em prol da segurança. Quanto à Religião considera-a como um tipo de ilusão de carácter infantil que radicava num interesse e íntimo desejo de protecção. A Arte é para Freud uma forma de muitos sublimarem uma sexualidade que por motivos pessoais ou sociais não puderam expressar ou aceitar interiormente

4-Conclusão

As teorias de Freud foram muito contestadas no seu tempo por filósofos e cientistas. Para ele o homem era mais controlado pelos seus impulsos sexuais e pelo inconsciente do que pela razão. Chama-se a isto determinismo comportamental. Considerava também a sua teoria como científica pois  todos os actos humanos podiam ser explicados pelo prisma da sexualidade. Mas na Ciência não há verdades absolutas. Uma teoria científica tem de admitir sempre uma hipótese que a possa contestar. O Complexo de Édipo assenta também numa concepção errada da família. Mas o modelo familiar evoluiu. Os papeis do pai e da mãe transformaram-se com o tempo e podem ser desempenhados por qualquer dos cônjuges. Também a concepção que Freud tem de Deus é muito contestável. O crente acredita em Deus, não pela ilusão de um desejo de protecção, mas por uma experiência pessoal ou por uma questão racional de que nada existe por acaso.

publicado por pontodemira às 08:57
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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2019

A tragédia da União Europeia: Desintegração ou Renascimento

 

Este é o título de um livro publicado pelo Círculo de Leitores ( Temas e Debates ) e em que o  um jornalista da Revista Der Spiegel entrevista o economista George Soros sobre assuntos relacionados com a economia global e particularmente com a situação política da União Europeia.

George Soros nasceu na Hungria, estudou na London School of Economics e depois emigrou para Nova Iorque. É um dos homens mais ricos do Mundo com uma fortuna avaliada em 20 mil milhões de dólares em activos financeiros. Soros é também um filantropo e fundador de um rede global de fundações dedicadas à promoção de sociedades  abertas .

Nas entrevista atrás referida o jornalista coloca a Soros as seguintes questões-chaves sobre a Europa:

A União Europeia acredita nos ideais que levaram à sua fundação ? ;  Qual foi a causa da crise do euro e o que podemos aprender com os erros cometidos ? ;-Qual é a relação entre a política e os mercados ? ; - Para onde se dirige a União Europeia ? .

A todas estas questões Soros responde objectivamente  com base nos conhecimentos e  na experiência pessoal, esclarecendo o seguinte:

  • A União Europeia criou dois problemas, um político e outro financeiro. O problema político é que a União Europeia que foi concebida para ser uma associação voluntária de Estados iguais se converteu numa relação entre credores e devedores em que, quando os devedores não conseguem pagar os credores ditam os termos. Isto proporciona aos credores uma muito maior influência sobre as políticas dos países devedores do que estes têm na política dos países credores. O problema financeiro é  que a Alemanha para manter as suas obrigações a um nível mínimo força os países devedores a equilibrar os seus orçamentos, o que é a política errada em tempos de procura insuficiente quando se devia estimular a economia
  • A Alemanha receia transformar-se no bolso sem fundo da Europa numa união de transferência. Esta atitude tem sido fatal para a União Europeia. Se pensarmos em Estados-Nações normais cada país é de alguma forma uma  “ união de transferência”. São sempre as áreas mais produtivas e bem sucedidas de um país que têm de apoiar as regiões menos desenvolvidas. Normalmente são as áreas urbanas industrializadas a suportar as regiões rurais mais atrasadas. Se a chanceler Merkel estivesse realmente empenhada em preservar a União Europeia, a melhor forma de o fazer seria a criação de uma união bancária suportada por garantias pan-europeias e algum tipo de me mercado obrigatoriamente mutualizado.
  • A crise do euro foi consequência directa da crise de 2008 e revelou falhas graves na construção do euro. Os países desenvolvidos com os seus próprios bancos centrais não incumprem, porque podem sempre imprimir dinheiro. As suas divisas podem desvalorizar normalmente mas o risco de incumprimento não surge. Para Soros a forma de salvar o euro seria a criação de eurobonds. Todas as dívidas públicas existentes seriam convertidas em eurobonds mas cada país seria responsável pelas suas próprias dívidas.
  • No fim da última entrevista Soros diz que a oportunidade de introduzir transformações radicais nas regras de supervisão do euro fechou-se. A partir de agora as negociações serão meramente para alterações de pormenor. Com o Brexit deu-se um passo enorme em direcção à desintegração da União Europeia. A França é para Soros o doente da Europa. Foi dispensada de prémios de risco penalizantes devido à sua associação com a Alemanha mas o seu desempenho económico é inferior ao da Itália e da Espanha. A União Europeia perdeu a capacidade de propor mais adesões porque ela própria está em processo de desintegração. Isto reduziu drasticamente a sua influência no Mundo. A Rússia beneficiou do facto da Europa estar desunida e agora está a emergir como uma ameaça para a Europa. O número crescente de crises políticas por resolver em todo o mundo é um sintoma do colapso na governação global.  Enquanto os problemas estruturais da união monetária não forem resolvidos e não for dada aos países atingidos pela crise uma verdadeira oportunidade para restabelecerem a sua competitividade a crise não terá fim. De tudo o que foi dito conclui-se que a concepção da moeda única teve muitas falhas. Todos sabiam que era uma moeda incompleta ; tinha um banco central mas não tinha um erário comum. A crise de 2008 veio revelar muitas outras deficiências. A mais importante foi  que ao transferir o direito de imprimir dinheiro para um banco central independente, os países-membros correm o risco de incumprimento com os seu títulos de dívida .Ao transferir  um direito par um banco central independente que nenhum Estado-membro controla, os Estados-membros colocam-se na posição de países do Terceiro Mundo que contraíram divida em moeda estrangeira. Em vez de uma associação entre iguais, a Zona Euro ficou dividida entre duas classes: credores e devedores. Numa crise financeira, são os credores que mandam. As políticas que estão a impor perpetuam a divisão porque os devedores têm de pagar prémios de riscos não apenas sobre os títulos de dívida como também no crédito  bancário. O custo adicional de crédito, que é um fardo recorrente, torna praticamente impossível que os países altamente endividados recuperem a competitividade.

Para terminar a análise exaustiva de George Soros eu acrescentava que o crescimento por toda Europa de partidos populistas e xenófobos  vai aumentar ainda mais o risco de uma desintegração europeia.  Esperemos que haja uma reversão desta tendência e que a união política e o consenso prevaleça para bem da Europa.

publicado por pontodemira às 22:47
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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2019

Fascismo ( Um Alerta )

 

Este é o título de um livro escrito por Madeleine Albright que foi publicado este ano. A autora nasceu em 15 de Maio de 1937 em Praga na antiga Checoslováquia. É de origem judia e teve de fugir duas vezes da sua cidade natal; a primeira devido à ocupação nazi em 1939 e a segunda quando os comunistas tomaram o poder em 1948. A família foi obrigada a emigrar para os Estados Unidos e foi aí que Madeleine estudou. Em 1957 recebeu a cidadania norte-americana.

No livro Fascismo ( Um alerta ) Madeleine Albright  faz uma história do fascismo que começou nas primeiras décadas do século XX com Mussolini e Hitler. Depois houve uma longa lista de seguidores em todos os continentes: Péron na Argentina, Chavez e Maduro na Venezuela, Erdogan na Turquia, Putin na Rússia, Órban na Hungria, Kaczynski na Polónia, Kim Jong-un na Coreia do Norte, Duterte nas Filipinas e Trump nos Estados Unidos

Antes de mais convém esclarecer o que se entende por fascismo e como tem a sua origem. Quando um governo se encontra fragilizado e incapaz de governar aparecem sempre ídolos que prometem fazer tudo e mais alguma coisa e através de uma retórica nacionalista e populista conseguem agradar às massas. Normalmente apelam ao ódio,à vingança e ao medo para fazer vingar os seus pontos de vista. Uma vez no governo concentram em si todos os poderes proibindo as manifestações, impondo a censura aos media e prendendo os opositores.. Foi isto que fizeram Mussolini e Hitler. Na Itália o rei Vitor Emanuel incapaz de governar escolheu Mussolini para primeiro ministro. Em 1926 o Duce tinha abolido os partidos políticos concorrentes, abolido a liberdade de imprensa, neutralizando o movimento sindical e garantindo o direito de nomear ele próprio os funcionários municipais.  Convidado por um jornalista a resumir o seu programa, Mussolini respondeu: “ É quebrar os ossos aos democratas  … e quanto mais depressa, melhor. “ Quanto a Hitler sabemos que foi um estudante medíocre e que era intratável, obstinado e arrogante. Abandonou a Escola aos 16 anos. Alistou-se no exército Bávaro com a graduação de cabo. No fim da 1ª Grande Guerra Mundial foram impostas à Alemanha sanções severas e obrigada a aceitar as culpas da guerra, a ceder territórios e a pagar indemnizações. No dia 30 de Janeiro de 1933 o Presidente Hindenburg incapaz de governar entregou o poder a Hitler. Uma vez no poder Hitler acabou por destruir o que restava da democracia alemã. Os verbos de acção que empregava eram sempre os mesmos : esmagar, destruir, aniquilar e matar.

Estaline assumiu o poder governamental a partir de 1924. Através de um processo de depuração e deportações maciças o seu poder afirmou-se progressivamente.  O principal alvo de ataque na União soviética eram os proprietários de terras, a burguesia e só mais tarde os judeus. Enviou para a Sibéria milhões de “inimigos de classe” e ordenou a execução de milhares de pessoas, incluindo oficiais das forças militares, funcionários do partido e membros do bureau político. Durante a Guerra Fria a União Soviética apoderou-se  de vários países balcãs.

Com a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria pensou-se que a democracia liberal seria o regime político a ser adoptado pela maioria dos Estados de todos os continentes. Acontece que a crise financeira de 2008 veio negar estas expectativas. Também o fluxo migratório provocado pela guerrilha jiadista agravou ainda mais a estabilidade política. Alguns países fecharam as suas fronteiras erguendo muros e tomaram posições isolacionistas, protecionistas, racistas e nacionalistas. Na Hungria Órban é “ um nacionalista  antidemocrático e xenófobo com um programa cruel antirrefugiados. Na Polónia Jaroslaw Kaczynski subverteu a independência do Tribunal Constitucional reduzindo-o a um órgão sem capacidade de decisão. O Parlamento aprovou uma lei aumentando o controlo do Conselho Judicial Nacional ( que nomeia os juízes ) e obrigou quase metade do Supremo Tribunal a demitir-se. Na Venezuela Maduro tenta perpetuar-se no poder e tornar-se um presidente vitalício.  Erdogan na Turquia controla a imprensa e nomeia para os tribunais juízes da sua confiança. Na Rússia o ditador Putin utiliza hoje no governo o mesmo método que usava quando era operacional do KBG. As eleições fazem-se apenas para prolongar os mandatos dos candidatos apoiados. As cadeias de televisão são órgãos de propaganda. As pessoas que criticam Putin são presas ou assassinadas. A administração das grandes empresas estão nas mãos de antigos membros do KBG. Na Coreia do Norte o poder transmite-se sem interrupção de uma geração para a outra. Actualmente está no poder Kim Jong-un que é um ditador fascista. Os cidadãos que são presos por crimes e delitos comuns são confinados em campos prisionais. Podem ser torturados, trabalhar até à morte ou morrer por inanição. Uma pessoa acusada de crime pode ser executada em público sem julgamento. Mulheres e raparigas que são alvo de abusos sexuais por funcionários governamentais, guardas prisionais ou polícias não têm o direito de recorrer. A prática religiosa é proibida. Nos Estados Unidos Trump adopta medidas protecionistas, procura fugir às despesas com a NATO e faz tudo para desunir a Europa. Apoia ditadores como Duterte das Filipinas ou Erdogan da Turquia. Para Trump os tribunais americanos são parciais, o FBI é corrupto, a imprensa quase sempre mente e as eleições são manipuladas.

Quase no fim do livro em jeito de conclusão Madeleine Albbright diz o seguinte: “ O que torna um movimento fascista não é a ideologia mas a predisposição para fazer tudo o que for necessário- incluindo recorrer à força e espezinhar os direitos dos outros-para alcançar a vitória e impor a violência “. E acrescenta : “ Um governo fascista que silencia um meio de comunicação acha mais fácil silenciar um segundo; o Parlamento que ilegaliza um partido político passa ter um precedente para banir o seguinte; a maioria que  priva determinada minoria dos seus direitos não fica por aí; a força de segurança que espanca manifestantes e fica impune não hesita em voltar a fazê-lo.

A instabilidade política a nível mundial tem provocado surpresas pois alguns países democráticos estão a adoptar políticas nacionalistas e racistas. Temos o que se chama democracias iliberais ou seja os políticos foram eleitos por processos democráticos mas uma vez instalados no poder não respeitam os direitos e as liberdades dos cidadãos e das minorias. Por isso faz todo o sentido que Madeleine Albright faça um Alerta par prevenir os perigos do fascismo

 

publicado por pontodemira às 20:59
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Domingo, 30 de Dezembro de 2018

PREVISÕES E PROFECIAS POLÍTICAS

 

Ao longo da História vão aparecendo filósofos e economistas  que costumam fazer previsões ou profecias sobre a evolução política da sociedade. No século XIX Karl Marx, influenciado pela dialéctica de Hegel criou uma teoria em que a História consiste numa luta de classes acabando esta com a vitória do proletariado. Assim, a evolução política passaria pelas seguintes fases: ditadura do proletariado, socialismo, comunismo terminando este com o desaparecimento do Estado, das classes sociais  e da propriedade privada.

 A queda do Muro de Berlim em 1980  e o colapso da União Soviética veio desmentir esta tese. Depois com o fim da Guerra Fria  a economia global com o impulso dos Estados Unidos ganhou uma grande força com a propaganda dos valores democráticos do Ocidente e do capitalismo do mercado livre. E foi em 1992 no auge deste período que o cientista político Francis Fukuyama escreveu o livro “ O Fim da História e o Último Homem “. Segundo este ilustre historiador a evolução sociocultural veio mostrar que,  “ a democracia liberal se mantém como única aspiração política coerente e que o mercado livre e os princípios liberais foram bem sucedidos produzindo níveis sem precedentes de prosperidade material, tanto em países industrialmente desenvolvidos mas também em países que tinham feito parte do empobrecido Terceiro Mundo “ E Francis Fukuyama acrescentou ainda que, “  a crise do socialismo provocou o avanço do capitalismo no Mundo e o modelo económico liberal seria o melhor caminho para os países civilizados e com a liberdade atingia-se o ponto mais alto da evolução económica da sociedade contemporânea. Podiamos assim concluir que a melhor forma de governo seria a democracia liberal e o mercado livre sem a intervenção do Estado.

Mas os factos vieram demonstrar que a China atingiu um elevado nível de desenvolvimento sendo hoje  a maior economia do Mundo sem ter um governo democrático nem ter perfilhado os direitos, liberdades e garantias dos países ocidentais.

Mais tarde a crise financeira de 2008 veio dar a machadada final na santidade da globalização e do mercado livre do capital sem a intervenção do Estado. A instabilidade política foi aumentando e hoje estamos a regressar à situação que existia no começo do século XX no período que decorreu entre as duas grandes guerras mundiais. A tendência  é para a formação de Estados-nação populistas, fascistas, racistas e xenófobos. Muitos políticos são radicais de esquerda ou de direita e tentam ganhar a simpatia do eleitorado desiludido com os partidos tradicionais. Temos assim uma Europa desunida como a Inglaterra, a Hungria, a Itália , a Polónia a saírem dos carris e a não respeitar os valores humanistas ou democráticos. Nos Estados Unidos temos também  Donald Trump erguendo muros para impedir a imigração de povos que fogem à fome e à miséria e cometendo barbaridades como o isolamento de crianças dos pais.

E aqui surge a opinião do economista britânico Stephen D. King que publicou recentemente o livro Lamentável Mundo Novo e em que profetiza o Fim da Globalização e o Regresso da História  E para terminar irei transcrever algumas passagens da parte final. E passo a citar: “ A globalização tem sido associada à melhoria dos níveis de vida de uma parte cada vez maior da população do mundo que tem estado a aumentar. O euro poderá não conseguir sobreviver se alguns países estiverem condenados à estagnação. A queda do império soviético e o fracasso da tentativa de garantir a paz no Médio Oriente encorajou os EUA a olharem para próprio interior centrando-se nos seus interesses mais restritos na esperança de poder isolar-se de um mundo crescentemente caótico. Mas o recuo dos EUA só contribuiu para o caos. Quem poderia patrocinar um Plano Marshall no século XXI ? Se sentimos algum nervosismo perante a aceleração da imigração  temos de pensar mais em apoiar o desenvolvimento nas zonas mais pobres do Mundo”. Relativamente à NATO  Stephen D.King diz o seguinte : “ a manutenção da NATO é seguramente mais cara para os EUA do que par os outros Estados membros mas os EUA beneficiam em muito mais estável do que poderia acontecer se prevalecesse o inverso. E termina concluindo : “ os que favorece, a insularidade e o protecionismo desafiados a explicar como são capazes de pensar que a História está do seu lado.. Se prevalecerem as suas ideias teremos um Lamentável Mundo Novo.”

Estas considerações são pertinentes e deviam ser reflectidas pelas grandes potências para evitar as consequências de um futuro trágico ou seja de um regresso da História ao período que se viveu durante as duas grandes guerras mundiais.

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publicado por pontodemira às 18:20
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Terça-feira, 27 de Novembro de 2018

A gratuitidade dos manuais escolares

 

Quando a escolaridade é obrigatória faz todo o sentido que se distribuam gratuitamente os manuais a todos os alunos. Mas se as famílias pertencem à classe média ou alta custa a compreender que usufruam das mesmas regalias dos alunos  mais pobres. Para colmatar estas disparidades e reduzir as despesas do Estado bastaria que se adoptassem as seguintes medidas :

  1. a) Os manuais escolares deviam ser livros únicos e de capa dura.
  2. b) Os exercícios e trabalhos de casa seriam feitos em cadernos à parte e não nos próprios manuais
  3. c) No fim do ano todos os livros seriam entregues aos professores para poderem ser utilizados por outros alunos.
  4. e) Os manuais que não fossem devolvidos em boas condições deveriam ser pagos pelos pais.

Desta forma o Estado pouparia muito dinheiro que poderia ser investido na melhoria  do equipamento escolar e na aquisição de material didáctico. Uma outra forma de poupar dinheiro seria o Estado utilizar a Imprensa Nacional Casa da Moeda para editar os manuais.

No meu tempo de estudante os manuais escolares passavam muitas vezes de uns irmãos para os outros pois a estrutura dos livros mantinha-se durante muito tempo sem sofrer alterações. Recordo-me também que havia isenção de propinas e bolsas de estudo para os alunos que tivessem respectivamente médias de 12 ou 14 valores, se as famílias não tivessem recursos para mandar estudar os filhos.

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publicado por pontodemira às 20:56
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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2018

A Estranha Ordem das Coisas

Este é o título de um livro escrito pelo Neurologista e Neurocientista António Damásio Professor da Universidade de Califórnia. Não é fácil resumir um livro com 300 páginas. Irei fazer uma síntese dos aspectos mais interessantes, transcrevendo algumas passagens.

1-As bactérias foram as primeiras formas de vida remontando a quase a 4 mil milhões de anos. O seu corpo consiste apenas numa célula que nem sequer tem um núcleo. Não têm cérebro nem dispõem de mente. No entanto têm um comportamento inteligente. São capazes de lidar com a adversidade do meio ambiente e de competir com outros grupos para obter território e recursos. As bactérias que detectam “ desertores “ no grupo, ou seja, quando  certos membros não ajudam no esforço de defesa, elas isolam-nos pois não aceitam as bactérias vira-casacas que não colaboram. As bactérias regeram durante milhares de milhões de anos a sua vida segundo um esquema automático que prefiguram vários comportamentos e ideias que os seres humanos  vieram a usar na construção de culturas.

Também 2% de todas as espécies de insectos têm comportamentos sociais que rivalizam com muitos feitos sociais humanos. A este grupo pertencem as formigas, as abelhas, as vespas e as térmitas. As suas rotinas estão gravadas geneticamente e permitem a sobrevivência do grupo. Elas colaboram umas com as outras e dividem o trabalho de forma inteligente pelo grupo. Constroem ninhos, sistemas de ventilação e de remoção de resíduos e tratam de guardar em segurança as rainhas. O mecanismo que de forma não consciente e não deliberada orienta a selecção de estruturas e mecanismos biológicos capazes de manter a vida e proporcionar a evolução das espécies designa-se por homeostasia.

Os sentimentos não surgiram ao mesmo tempo que a vida. Para António Damásio isso só aconteceu quando apareceram os organismos dotados de sistema nervoso ou seja há cerca de 600 milhões de anos. A criação das mentes e dos sentimentos que lhe estão associados ou seja as diferente capacidades sensoriais-olfacto, paladar, tacto, audição e visão- baseia-se nas interacções entre o sistema nervoso e o seu organismo.

2-Voltando às bactérias convém salientar que foram as primeiras formas de vida e que são os habitantes mais numerosos da Terra. No intestino humano há 100 biliões de bactérias. Como já foi dito as bactérias são criaturas inteligentes, comunicam umas com as outras. Os cálculos que realizam permitem-lhes viver de forma independente ou unir-se com outras conforme o que for melhor. Às células sem núcleo( procariotas ) seguiu-se as células nucleadas (eucariotas) e depois os organismos multicelulares.As células bacterianas colaboram para criar os organelos de células mais complexas ( as mitocôndrias )  As células nucleadas por sua vez colaboram para construir tecidos e estes colaboram na criação de órgãos e sistemas. O sistema circulatório possibilita a distribuição de moléculas nutrientes e de oxigénio para cada célula do corpo. Distribuem por exemplo as moléculas resultantes da digestão levadas a cabo no sistema gastrointestinal. Os sistemas nervosos são o expoente máximo dos sistemas. O sistema nervoso é constituído por células chamadas neurónios. A extensão fibrosa que sai do neurónio designa-se por axónio e à ligação de um neurónio com outro neurónio dá-se o nome de sinapse. Quando há uma descarga eléctrica de uma célula há uma libertação de moléculas químicas ( neurotransmissor ) na região em que o neurónio entra em contacto com outro neurónio ( sinapse) ou com uma célula muscular. O sistema nervoso é constituído por um processador central a que se dá convencionalmente o nome de cérebro. O corpo humano é assim constituído por um corpo, um sistema nervoso e de uma mente que deriva de ambos. A mente cultural humana surgiu há 50 000 anos. Toda a mente é composta por imagens desde a representação de objectos e acontecimentos aos conceitos  e traduções verbais correspondentes. A maioria das imagens que entra na nossa mente desencadeia uma resposta emotiva. Qualquer processo sensorial pode servir de activador, desde  o paladar,ao olfacto. À visão  não importa se a imagem está a ser criada no momento actual pela percepção ou se está a ser recuperada da memória. Qualquer imagem que entre na mente tem direito a uma resposta emotiva. Na opinão do Professor Damásio os animais com cérebro complexo semelhante ao nosso, terão provavelmente sentimentos sobrepostos como nós.

3-A vida começou por ser regulada sem qualquer tipo de sentimento. Não havia nem mente nem consciência. As criaturas mais simples do que nós , incluindo as plantas sentem e reagem aos estímulos que existem no seu ambiente. Os sentimentos são, simultânea e interactivamente fenómenos tanto do corpo como do sistema nervoso. O sistema nervoso interage com várias partes do corpo graças a vias neurais distribuídas por todo o organismo e na direcção inversa graças a moléculas químicas que se deslocam na corrente sanguínea. Os sentimentos da vida que nos fazem sentir bem promovem estados homeostáticos benéficos. Os estados perturbados que correspondem à representação de um corpo alterado pela doença são desagradáveis. A tristeza contínua motivada por perdas pessoais têm diversas diversas maneiras de perturbar a saúde, reduzindo as respostas imunitárias e diminuindo a capacidade de alerta que nos pode proteger dos mais diversos riscos

Um outro aspecto relacionado com a mente é a consciência que tem a ver com a subjectividade e a experiência integrada. A mente consciente trabalha com as imagens de diversas classes sensoriais: visuais , auditivas, tácteis, gustativas e olfactivas. As experiências mentais que constituem a consciência dependem de imagens mentais e de processos de  subjectividade que faz com que essas imagens sejam nossas. Para o Prof. António Damásio as bactérias e os protozoários reagem e sentem as condições do meio ambiente. As plantas reagem à temperatura, ao nível de hidratação e à quantidade de luz do sol desenvolvendo lentamente raízes ou orientando as folhas ou as flores. Mas não são conscientes pois lhes falta um sistema nervoso e condições básicas  para a existência de experiências conscientes.

No processo cultural humano intervêm todas as faculdades mentais: capacidade de criar imagens, os afectos e a consciência. Nele participa também a actividade cultural, a memória, a linguagem,a imaginação e o raciocínio.

4-A medicina progrediu gradualmente nos últimos dois séculos e hoje através de vacinas, antibióticos e cirurgias é possível pôr termo a doenças e epidemias que eram incuráveis e mortais. Pela manipulação genética podem eliminar-se certas doenças hereditárias mas não é tarefa fácil pois a maior parte das doenças hereditárias não são provocadas por um único gene problemático mas por vários ou até por muitos. Depois não é fácil que tal intervenção não provoque efeitos perigosos e indesejáveis. Todas estas inovações têm vindo a aumentar a longevidade do ser humano. E há até quem diga como o historiador Yaval Harari que estamos a caminho da imortalidade e do Homo Deus. A criação de robots pode levar à execução de quase todas as tarefas que um ser humano faz. Com os humanos a perderem os seus empregos a Humanidade pertencerá, segundo Harari, aos que tiverem adquirido a imortalidade. Mas um robot não é um ser humano porque lhe falta os sentimentos e os afectos. Os robots não têm vida. Até hoje ninguém conseguiu criar vida num laboratório.

5-O progresso técnico e científico e o avanço da medicina permitiram uma melhoria considerável do nível de vida dos seres humanos e uma maior longevidade. Mas nem tudo são rosas e há que considerar também os aspectos negativos. A possibilidade e usar armamento nuclear pode desencadear uma guerra de efeitos catastróficos. O risco do terrorismo e das infecções resistentes a antibióticos são outros aspectos a ter em conta. A globalização gera muitas vezes desigualdades sociais e desemprego. As democracias liberais estão também a abrir caminho a regimes autocráticos e popularistas. Para o Prof. António Damásio a homeostasia pode ser alargada, com maior ou menor esforço, à família e ao pequeno grupo mas não resulta em colectividades grandes ou cacafónicas. E acrescenta “ em condições normais nos organismos humanos individuais o sistema circulatório não luta com o sistema nervoso nem o coração entra em guerra com os pulmões para decidir qual deles é o mais importante. No entanto esse compromisso pacífico não se aplica aos grupos sociais dentro de um país nem aos países de uma união geopolítica. E não é preciso ir mais longe para ver como alguns países recebem os imigrantes que fogem à guerra e à miséria. E volto a citar o Prof. Damásio : “na ausência de uma negociação massiva e  iluminada de afecto e razão é difícil antever qualquer sucesso . As  estratégias cooperativas fazem parte  da composição biológica e homeostática  dos seres humanos. O equilíbrio entre a cooperação salutar e a competição destrutiva depende em grande medida da contenção civilizacional e da governação justa e democrática capaz de representar aqueles que estão a ser governados.” Para alguns filósofos e especialistas em IA e na robótica preveem que o progresso científico e tecnológico irá reduzir o estatuto do ser humano,   a emergência de superorganismos e que nem a consciência nem os sentimentos terão lugar nos organismos futuros. No campo oposto estão aqueles que entendem que a cooperação acaba por dominar graças ao empreendimento civilizacional sustentado ao longo de múltiplas gerações.

6-No último capítulo o Prof. António Damásio acaba por explicar por que razão deu ao livro o título de “ A estranha ordem das coisas “. Todos nós nos interrogamos como é possível que seres vivos tão simples como as bactérias e até mesmo os insectos tenham comportamentos inteligentes como os seres humanos. E, para mim, as interrogações e o mistério prosseguem : “ De onde veio a vida ? Se o Universo é regulado por uma complexidade de leis e obedeceu a uma determinada ordem como é que do BIg Bang inicial resultou tudo isto ? Claro que para um crente como eu  por detrás disto está um Criador ( Deus ) que orientou tudo para que na diversidade surgissem seres de diferentes graus de complexidade e uma evolução programada até chegar ao homem. Será que tudo veio do nada como alguns querem ? Sendo assim é caso para perguntar: E o nada de onde veio ?

O professor Damásio termina o livro dizendo : “Embora seja possível falar com alguma confiança das características e das operações dos organismos vivos e da sua evolução, e embora seja possível situar o início do universo há cerca de 13 mil milhões de anos não temos qualquer relato científico satisfatório quanto à origem do Universo, ou seja, não temos uma teoria de tudo que nos diga respeito. Serve isto para dizer que os nossos esforços são modestos e hesitantes, e que devemos estar abertos e atentos quando decidimos abordar o desconhecido. “

 

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Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018

SER MORTAL

 

Ao longo dos séculos a longevidade dos seres humanos tem vindo a aumentar. A partir de meados do século XX só quatro em cada cem pessoas em países industrializados morriam antes dos trinta anos. Este progresso deve-se ao desenvolvimento da medicina, ao aparecimento de vacinas e de outros medicamentos que que eliminam certas doenças malignas e na maior parte dos casos mortais. Este tema é abordado em todos os seus pormenores no livro “ Ser Mortal “ , escrito pelo médico cirurgião americano de origem indiana, Atul Gawande. Irei escrever uma síntese do livro fazendo referência aos aspectos mais relevantes e de maior interesse.

É um facto que com a idade avançada começam a surgir as doenças. Muitos órgãos do corpo humano entram em falência. Depois dos 85 anos 40% não tem nenhum dente. O cálcio começa a sair do esqueleto e a entranhar-se nos tecidos. As veias ficam mais estreitas e rígidas e o coração tem de gerar mais pressão. Devido a este esforço para bombear o sangue o coração fica com as paredes mais grossas e o seu rendimento diminui. Por volta dos 40 anos começamos a perder massa muscular e força. A nossa capacidade pulmonar diminui e o mesmo se passa com a memória e o discernimento. O ADN das nossas células é frequentemente danificado mas tem capacidade para se renovar. Se um gene ficar com danos há cópias extra, disponíveis, no gene e se uma célula inteira morrer pode ser substituído por outras. Mas tudo isto tem um limite. O cabelo torna-se grisalho porque se esgotam as células de pigmentação que dão cor ao cabelo. Mas o reservatório das células estaminais esgota-se. Aos 50 anos metade do cabelo de uma pessoa fica grisalho. No interior das células da pele, os mecanismos que eliminam os desperdícios avariam aos poucos e os resíduos acabam por formar um coágulo de pigmento castanho-amarelado conhecido por lipofuscina. São as manchas da idade que vemos na pele. Quando a lipofuscina se acumula nas glândulas sudoríperas estas deixam de funcionar. Desta forma resulta que na velhice ficamos mais vulneráveis às insulações e ao cansaço pelo calor. Com a idade ocorre também o enevoamento esbranquiçado do cristalino e a qualidade da luz que chega à retina de um sexagenário saudável é um terço da de um jovem de 20 anos. A todos estes factos Atul Gawande designa como “ O Mundo que Desmorona “.

Uma pessoa a quem tenha sido diagnosticada a doença de Alzheimer ou a doença de Parkinson ou as que tenham sofrido um AVC e perdido as suas capacidades motoras são naturalmente dependentes e a precisar de cuidados médicos ou de assistência permanente. A família destes doentes não tem, na maioria dos casos, possibilidade de as atender a tempo inteiro. Surgiram então ao longo dos anos instituições para resolver estes casos: asilos, lares e hospitais. Nos Estados Unidos foram até criadas “ residências com assistência à autonomia “ ou seja andares com sala , quarto de dormir e cozinha individuais para manter a privacidade dos utentes. Nalguns casos até se foi mais longe introduzindo no lar animais domésticos, plantas e até crianças. O objectivo era atacar o que se designou por as “ Três Pragas “ da vida de um lar: tédio, solidão e a impotência. Para combater estes efeito colocariam plantas em todos os quartos, e no sítio da relva cultivariam legumes e flores.

Quando as capacidades das pessoas se deterioram por causa da idade ou degradação do estado de saúde o que é que se deve tentar reparar e quando se deve deixar as pessoas sossegadas ? Esta é uma pergunta que o dr. Atul Gawande faz. Uma outra questão que levanta é como deve ser a relação médico doente quando este está a sofrer e tem uma doença incurável Nesta situação há três tipos de relação a considerar: uma relação paternalista; uma relação informativa e uma relação interpretativa. Na relação paternalista o médico diz o que entende ser melhor para o doente e tenta convencê-lo. Na relação informativa dá-se a conhecer ao doente os vários tipos de tratamentos que podem ser aplicados e cabe a ele tomar uma decisão. Na relação interpretativa o papel do médico é ajudar o doente a determinar o que realmente quer. Neste caso o médico pergunta ao doente: Qual a coisa mais importante para si ? Quais são as suas preocupações ? Depois disso o médico vai indicar qual o tratamento apropriado para alcançar as finalidades indicadas. Há doentes que preferem os cuidados paliativos mas os que têm a expectativa de viver mais tempo optam pela quimioterapia e pela cirurgia dos tumores malignos.

Na parte final do livro o dr. Atul Gawande faz um balanço de tudo o que escreveu e diz o seguinte: “ Ser Mortal é ter de lutar com o constrangimento da nossa biologia, com as limitações impostas pelos genes e células, pela carne e pelos ossos. Temos andado enganados sobre o papel enquanto médicos. Achamos que o nosso papel é garantir a saúde e a sobrevivência. Todavia na realidade vai além disso. É possibilitar o bem-estar. E o bem-estar prende-se com razões pelas quais desejamos viver. Essas razões importam não só no fim da vida quando nos tornamos frágeis, mas durante toda a vida. Sempre que uma doença grave ou uma lesão nos ataca e o nosso corpo e a nossa mente vão abaixo as perguntas vitais são as mesmas: Que noção tem da sua situação e dos seus potenciais desfechos ? Quais são os seus receios e as suas esperanças ? Que cedência está disposto a fazer e o que não aceita ? E qual é a linha de conduta mais adequada para alimentar esses objectivos ? E para terminar acrescenta: “ Ser homem é ser limitado, então o papel das profissões e instituições de saúde, desde os cirurgiões aos lares, devia ser ajudar as pessoas na sua luta com essas limitações. Por vezes podem oferecer uma cura, outras vezes um bálsamo e outras ainda menos que isso. Mas seja o que for que tivermos para dar, as nossas intervenções e os riscos e sacrifícios que acarreta só se justificam se forem ao encontro dos objectivos mais altos de uma pessoa.”

publicado por pontodemira às 09:51
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Sábado, 29 de Setembro de 2018

Os grandes filósofos: Leibniz

                                        

 

1-Leibniz nasceu em Leipzig em 1646. Era filho de uma família de protestantes. Desde muito cedo aprendeu as línguas clássicas, grego e latim. Na Universidade de Leipzig onde o pai era professor estudou Direito, Filosofia e Matemática recebendo o mestrado em Filosofia. Ainda jovem leu autores escolásticos como São Tomás de Aquino e interessou-se pelos filósofos seus contemporâneos como Bacon, Hobbes , Descartes e Espinosa. A carreira diplomática deu-lhe oportunidade de percorrer vários países da Europa. Fundou várias Academias e entre elas a Academia de Ciências de Berlim. Em 1676 inventou o cálculo diferencial e desenvolveu o sistema aritmético binário que funcionou com dois signos ( 0,1) como também executou uma máquina calculadora que trabalhou com esses algoritmos. Diríamos que foi o percursor do sistema de numeração digital utilizado nos computadores. Os últimos 40 anos passou-os como bibliotecário em Hannover. Um dos seus últimos projectos foi unir as Igrejas Cristãs mas o seu plano fracassou. Morreu em 1776 em Hannover depois de uma vida de intenso labor intelectual.

2-Leibniz escreveu um leque variado de assuntos abrangendo matérias como a matemática, a física, história e sobretudo filosofia. As suas principais obras filosóficas são : Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano , Teodiceia, Discursos da Metafísica, Princípios da Natureza e da Graça Fundados na Razão e a Monodologia.

3-Como filósofo Leibniz desenvolveu temas muito diversos que vão desde a metafísica ao conhecimento e à Teodiceia ( justificação racional de Deus ) . Irei tratar cada um deles separadamente, embora de forma sumária mas tocando nos aspectos essenciais que esclareçam o fundamental do pensamento filosófico de Leibniz

Metafísica:

Para Leibniz a realidade é composta por uma infinidade de substâncias ( Mónades ). As mónades ( em grego significa unidade ) são indivisíveis e portanto inextensas. Não têm portas nem janelas para o exterior mas têm actividade ou força própria ( vis ) A actividade das mónades determina a seguinte hierarquia:

1-Há formas substanciais ou mónades simples que asseguram a unidade dos corpos compostos. 2- Vêm depois as mónades capazes de perceber ( percepção ) própria dos animais. 3-Num plano superior temos as mónades dos espíritos capazes de reflectir e de se conhecerem a si próprio, própria dos homens. 4- No topo da escala está a mónade Divina pois Deus é o monarca do Divino Estado Espiritual

Em conclusão diria que as mónades são simples porque inextensas embora algumas também desempenhem funções complexas como perceber ( alma ) e reflectir ( espírito ). Não se relacionam umas com as outras pois são autónomas. De qualquer forma vivem na mais perfeita harmonia. E aqui surge a teoria dos relógios ( mónades ) e do relojoeiro (Deus ). Deus conseguiu desde o início regular os vários relógios e colocá-los a funcionar em completa sincronia. A isto chama Leibniz a harmonia preestabelecida.

Deus-

Para Leiniz a existência de seres contingentes e finitos postula a existência de um Ente necessário e infinito do qual tudo procede. Esse ser necessário é Deus. ( ens a se ). Se esse Deus é possível existe. Se Deus é impossível também o são todos os outros seres que existem. Se não há um ser necessário não há entes possíveis. Tal como Santo Anselmo também Leibniz demonstrou a existência de Deus através da prova ontológica

Conhecimento.

Para Leibniz há dois tipos de conhecimento: as verdades de razão e verdades de facto. As verdades de razão são verdades necessárias e baseiam-se no princípio da não contradição. São por isso verdades à priori que nada têm a ver com a experiência. Quando dizemos que dois e dois são quatro ou que um triângulo tem três ângulos, estamos a afirmar verdades evidentes à priori. As verdades de facto são verdades contingentes baseadas na experiência e no princípio da razão suficiente. São as verdades da física e da história que têm de ser comprovadas.

Resumindo: o princípio da identidade ou não contradição fundamenta as verdades necessárias, ou seja, o Ser não pode Ser e deixar de ser ao mesmo tempo. Se eu disser que o triângulo tem 3 ângulos não posso conceber um que não os tenha. Por outro lado o princípio da razão suficiente diz-nos que tem de haver uma razão para fundamentar as verdades contingentes. Tem de existir uma razão para que exista algo mais do que nada, já que algo existe.

Ideia

Todas as ideias são para Leibniz inatas e procedem da actividade interna das mónadas. Ao velho adágio latino e aristotélico que diz : “ nada está no intelecto que não tenha passado pelos sentidos, Leibniz acrescenta “ a não ser o próprio intelecto com as suas leis. “

Teodiceia-

A Teodiceia tem como objectivo justificar a existência de Deus. Se Deus é omnipotente e infinitamente bom ficamos sem saber por que existe o mal no mundo. O mal que existe no mundo pode ser metafísico, físico e moral. O mal metafísico nasce da impossibilidade do mundo e do homem serem perfeitos e infinitos. Existem atributos que pertencem exclusivamente a Deus. O mal físico pode gerar heroismo, abnegação ou altruísmo para quem procura ajudar quem sofre. O mal moral seria perfeitamente evitável.

O escritor Voltaire no livro Cândido ironiza Leibniz quando o dr. Panglos perceptor de Cândido reage perante as calamidades provocadas pelo terramoto de 1755 em Lisboa dizendo “ Tudo foi feito com a melhor das intenções no melhor dos mundos possíveis “

Conclusão:

Leibniz pertence ao grupo de filósofos racionalistas do século XVII do qual faziam parte Descartes e Espinosa. Enquanto para Descartes existiam 2 substâncias, corpo e alma, Espinosa admitia apenas uma substância da qual fazia parte Deus e toda a realidade. De maneira diferente pensava leibniz que como já referi entendia que havia uma infinidade de substâncias ( mónades)

que foram preordenadas por Deus desde o início para funcionarem em sincronia. Na filosofia de Leibiz há dois aspectos importantes a considerar: a Matemática e a teologia. O pensamento filosófico obedece aos mesmos princípios da análise e da lógica matemática. Depois Deus aparece como um ens a se ( ser necessário ) que é o princípio e a origem de tudo quanto existe.

Apesar de ser um luterano Leibniz considerava-se um” católico de coração” e fez tudo para unir católicos e protestantes mas os seus propósitos fracassaram .

publicado por pontodemira às 11:22
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