Quinta-feira, 25 de Agosto de 2022

O REGRESSO DA HIPÓTESE DE DEUS

O REGRESSO DA HIPÓTESE DE DEUS

Este é o título de um livro escrito por Stephen C. Meyer doutorado em filosofia da Ciência pela Universidade de Cambridge. Antes de assumir as funções de director do Centro de Ciência e Cultura do Discovery  Institute em Seatle dedicou-se à geofísica e ao ensino universitário.

Durante a Idade Média na Europa uma grande parte das pessoas acreditava  na existência de um Deus criador do Universo e da vida na Terra. Mas no período Iluminista a razão humana e a ciência afastavam a crença religiosa gerando um cepticismo em relação à existência de Deus. Ascensão do materialismo científico criou uma mundivisão baseada na ciência que colocava a matéria e a energia, e não Deus, como a realidade fundamental de onde decorre tudo o resto. Em 1854 Darwin escreve  o livro “ A Origem das Espécies” e nele esclarece que os organismos vivos através da selecção natural sofrem variações aleatórias o que explica a  adaptação dos mesmos ao ambiente sem ser necessário recorrer a um agente inteligente ou director.

Por volta de 2006 apareceu um grupo de cientistas e filósofos conhecidos por Novos Ateus que deu início à publicação de uma série de livros de grande sucesso comercial como a  “ Desilusão de Deus “ de Richar Dawkins, que defendeu que a ciência minava a crença em Deus. A este cientista juntaram-se outros como Victor Stenger e Stephen Hawking. Mas o autor do livro, Stephen Meyer, diz-nos que há três descobertas científicas fundamentais que suportam a confiança teísta daquilo a que se chamaria « O Regresso da Hipótese de Deus » : ( 1)  evidência da cosmologia que sugere que o Universo teve um começo;  ( 2) evidência da física que mostra que, desde o início, o Universo foi « afinado » para permitir a possibilidade de vida; ( 3) a evidência da biologia que estabelece que, desde o início surgiram na nossa biosfera grandes quantidades de nova informação genética funcional para possibilitar novas formas de vida-  o que implica a actividade de uma inteligência arquitecta. Ao estudo de cada evidência dedicou Stephen Meyer um capítulo, tendo depois inferido as seguintes hipóteses: 1- Hipótese de Deus e o princípio do Universo ; 2- Hipótese de Deus e o desígnio do Universo ; 3- Hipótese de Deus e  o Desígnio da Vida.

1-Hipótese de Deus e o Princípio do Universo. Antes da descoberta do começo do Universo os materialistas sentiam-se confiantes e afirmavam que o Universo era eterno e necessariamente existente e que não precisava de explicação causal. Embora os teístas não possam dizer previamente que Deus terá criado definitivamente um Universo que exibisse evidência de um começo temporal, reconheceram que a evidência desse começo é mais provável sendo dado o teísmo do que sendo dado o naturalismo.

2-A Hipótese de Deus e o Desígnio do Universo. Nenhum ser inteligente surgido após o começo do Universo poderia ter estabelecido as condições iniciais do Universo de que dependia a sua evolução e existência  posteriores . O tipo de  inteligência necessária para explicar a afinação do Universo  deve, de algum modo, preexistir ou existir independente do Universo material. Tanto o teísmo como o deísmo concebem Deus como uma existência independente do Universo material- quer num domínio eterno e e intemporal, quer no domínio do tempo independente do tempo do nosso  Universo. Ambos podem explicar (1) a origem do Universo no tempo ( ou seja no começo ) e (2) a afinação do Universo desde o começo do tempo.

3-A Hipótese de Deus e o Desígnio da Vida  O ADN de uma célula ou de um ser vivo tem uma complexidade semelhante ao software de um computador. Se o software de um computador tem na sua origem um programador também uma célula ou um ser vivo não nasce do nada mas de uma superinteligência que os teístas e deístas atribuem a Deus. E qual é  a diferença entre o teísmo e o deísmo ? O deísmo nega qualquer actividade divina no mundo natural após o primeiro momento da criação. Contudo a maioria dos evolucionistas teístas pensa que Deus sustenta activamente o funcionamento ordenado da natureza- as leis da natureza-  momento a momento.

Na parte final do livro Stephen C Meyer transcreve uma passagem do Livro Existencialismo e Humanismo  de Sartre em que ele diz que um Universo sem um Deus pessoal transcendente- ou um ponto de referência infinito – deixava as pessoas num estado de angústia, abandono e desespero. Angústia, porque podem nunca vir a saber se escolheram valores certos, pois não há um critério pelo qual julgar as escolhas ; abandono porque estamos verdadeiramente sozinhos nas escolhas e nenhuma fonte externa ou deus transcendente pode conferir sentido duradouro à nossa existência; e desespero porque o mundo que nos rodeia  pode não cooperar com as escolhas que fazemos.  Afinal de contas, se Deus não existe , não há critério pelo qual julgar essas escolhas. Ora não só o teísmo resolve muitos problemas filosóficos, como também a evidência empírica do mundo material aponta fortemente para a realidade de uma grande mente por trás do Universo. O nosso Universo belo, expansivo e afinado e a complexidade delicada, integrada e informacional dos organismos vivos são testemunhas da realidade de uma inteligência transcendente- um Deus pessoal. Assim não precisamos de « inventar » Deus ou sequer aceitar a existência de um Deus, como mera necessidade filosófica. Ao invés, reflectir sobre essa evidência pode permitir descobrir- ou redescobrir- a realidade de Deus. E de facto, se esta descoberta é uma boa notícia- não estamos sós num vasto Universo impessoal e sem sentido-  o produto da  « indiferença cega e impiedosa». Pelo contrário, a evidência aponta para uma inteligência pessoal por trás do mundo físico que observamos.

publicado por pontodemira às 22:00
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Sábado, 30 de Julho de 2022

ATÉ QUANDO IRÁ DURAR A GUERRA NA UCRÂNIA

 

1-É execrável e sem sentido a Guerra na Ucrânia. Um país que vivia em democracia e onde eram respeitados os direitos e liberdades individuais dos cidadãos. Se em alguma parte do território havia facções  pro-rússia isto seria um problema interno a resolver  pela própria Ucrânia e não pela interferência externa de outros países como a Rússia.  O que se está a passar deve-se ao poder expansionista de Putin que não olha a meios para atingir os fins. E quem é Putin ?  Sabemos que pertenceu ao KGB ,polícia secreta russa e que também foi primeiro-ministro quando sucedeu a Boris Ieltsin no período pós-União Soviética. Uma vez no poder transformou-se num ditador rodeado de  oligarcas e de cleptocratas. A riqueza da Rússia vai toda para as mãos da oligarquia que o apoia. O eleitorado de Putin está fora dos centros urbanos e é formado por rurais que desconhecem o que se está a passar na Ucrânia.  Depois como diz o politólogo Bernardo Pires de Lima numa entrevista ao Jornal Público , Putin tem a seu favor, e passo a cita,r «  uma máquina de propaganda brutal. Todos os dias é veiculada a ideia de que há uma invasão iminente da Rússia por parte das forças da NATO »   Acresce a tudo isto que os cidadãos não podem criticar Putin ou fazer manifestações nas ruas porque são logo presos. Há um controlo do poder judicial e do poder político de forma a perpetuar-se no governo.

2.A ambição imperialista de Putin e o sonho de repor a composição da antiga União Soviética e se possível ir mais além , começou em 2008 com a invasão da Geórgia. Seguiu-se depois a anexação da Crimeia em 2014. Perante a passividade da Comunidade internacional e da ONU esperou  pela ocasião certa para atacar a Ucrânia. Segundo dados da imprensa Putin ajudou o antidemocrata Trump a vencer as eleições nos EUA através de informações falsas divulgadas nos Media . Putin procura ainda ganhar a simpatia  dos países populistas europeus, como Orban na Hungria, para levar a sua estratégia política a bom termo. Certamente que ficou satisfeito com o Brexit ou seja com a saída do Reino Unido da União Europeia. Putin procurou assim as condições mais favoráveis para atacar a Ucrânia ou seja a desestabilização da Europa e a crise provocada pela pandemia do Covid19.

3-O que irá acontecer num futuro próximo na Ucrânia é fácil de adivinhar. Os Russos vão continuar a bombardear as cidades  de forma a reduzir a cinzas todas as infraestruturas e casas de habitação. Os ucranianos não vão ter homens nem equipamento militar adequado para resistirem aos russos. Se houver que estabelecer a paz os russos não irão devolver os territórios que estão já sob o seu controle. No fim estabelecerão um governo fantoche como já existe na Bielorrússia. Se tudo isto acontecer nada nos garante que daqui a um ano não haja novas incursões na Moldávia, na Polónia ou na Roménia. Todos sabemos que na ONU nada se decide porque há sempre um país que vota contra porque tem o direito a veto. Resta saber se a NATO tem capacidade e força de decisão para agir rápido e com eficiência.

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Segunda-feira, 27 de Junho de 2022

A TIRANIA DO MÉRITO

 

Este é o título de um livro escrito por Michael .J. Sandel professor de filosofia na universidade de Harvard. Nele abordou como tema o mérito que em países como os Estados Unidos da América se está a transformar em tirania. Para ele há três formas de entrar nas universidades de elite nos EUA : Yale, Stanford, Georgetown e na Universidade da Califórnia do Sul. Os que têm muito dinheiro e fazem uma grande doação à universidade mesmo que sejam pouco qualificados entram pela « porta das traseiras » Os que se servem de testes falsificados e de fraudes nos exames de admissão entram pela « porta lateral ».  Finalmente os que têm mérito próprio e bom desempenho nas provas de aptidão entram pela «porta da frente ». Aqueles que conseguem tirar um curso em universidades de elite ficam no topo da pirâmide e arranjam  um bom emprego. Os que têm apenas o ensino liceal ficam na base sem grandes saídas. É fácil distinguir aqui vencedores e perdedores. No alto da pirâmide estão os arrogantes que devido ao seu mérito tratam os de baixo com desprezo e humilhação. Temos assim uma meritocracia que pode provocar na sociedade efeitos nocivos como a arrogância e o ressentimento. A isto chama o filósofo Sandel a « Tirania do Mérito ». É claro que  a globalização e as novas tecnologias vieram agravar as desigualdades sociais  beneficiando os que estão no topo e lançando no desemprego os menos credenciados. Os trabalhadores aproveitam muitas vezes esta situação para atacar os imigrantes e as elites governantes. Daqui nasceram os partidos populistas que procuram agradar aos descontentes prometendo mundos e fundos que depois não vêm a cumprir. Uma vez no poder subvertem  as instituições democráticas e passam a ditadores ou autocratas. A Tirania do Mérito é em primeiro lugar fruto da desigualdade desenfreada e da mobilidade geral estagnada que desmoraliza os que foram deixados para trás ; em segundo lugar um diploma universitário é a principal via de acesso a um emprego respeitável e a uma vida decente ; em terceiro lugar insistir em que a melhor forma de resolver os problemas sociais e políticos consiste em recorrer a peritos altamente qualificados e imparciais é um conceito que corrompe a democracia e priva de poder os cidadãos. É preciso entender que o mérito se deve aos talentos inatos e como diz Sandel o nosso destino não está apenas nas nossas mãos e o devemos à graça de Deus ou aos caprichos da fortuna ou ao simples acaso, tanto o nosso sucesso como os nossos problemas.

Numa sociedade democrática que trabalha para o bem comum todos são necessários: electricistas, canalizadores, carpinteiros, etc.  Todos eles são aptos para a arte do debate democrático pois não são menos do que aqueles  que querem ser consultores de gestão. Uma comunidade justa e equilibrada só se consegue através de um justiça distributiva em que os grandes rendimentos e fortunas sejam tributados com impostos progressivos para que todos os cidadãos possam ter direito à saúde, à educação e a um emprego digno. Mas também é necessário uma justiça contributiva em que todos trabalhem e colaborem para o bem comum através de salários dignos. 

Na parte final do livro Sandel conclui o seguinte: « A crença meritocrática de que as pessoas merecem todas as riquezas que o mercado lhes outorgam em razão das suas capacidades torna a solidariedade uma proposta quase impossível.  Por que razão as pessoas bem sucedidas devem alguma coisa aos membros menos favorecidos da sociedade ?    A resposta a esta pergunta depende de reconhecermos que, por muito que nos esforcemos, não somos completamente autossuficientes ; viver numa sociedade que aprecia os nossos talentos é um caso de fortuna e não mérito próprio. Um sentido agudo das contingências da vida pode inspirar uma certa humildade : « Poderia ter sido eu, se a graça de Deus ou as circunstâncias do nascimento não tivessem decidido de outra maneira »   Tal humildade é o início do caminho que nos traz de volta da ética brutal do sucesso que nos separa. Aponta para além da tirania do mérito, para uma vida pública menos rancorosa e mais generosa.»

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Sábado, 28 de Maio de 2022

UMA BREVE HISTÓRIA DA IGUALDADE

 

Este é o título de um livro escrito por Thomas Piketty que é professor catedrático na É cole des Hautes Études en Science Sociales e professor da École d´Économie de Paris. Neste livro traça o percurso que se tem feito ao longo dos séculos para se corrigir  as desigualdades sociais. Logo na Introdução diz-nos que há um movimento para a igualdade desde o final do século XVIII. O mundo no início do ano de 2020 por mais injusto que possa parecer é mais igualitário que o de 1950 ou de 1900 embora estes fossem também mais igualitários do que o de 1850 ou de 1750. Entre 1780 e 2020 podemos observar evoluções que se dirigem para mais igualdade de estatuto, de propriedade, de rendimento, de género e raça na maior parte das regiões do planeta.

O filósofo Jean-Jacques Rousseau no século XVIII dizia que as discórdias na sociedade surgiram quando apareceu a propriedade privada  e a sua acumulação desmesurada. A Revolução Francesa que proclamou a trilogia liberdade, igualdade e fraternidade conduziu  à abolição dos privilégios da nobreza. A Revolta dos Escravos em São Domingos no ano de 1791 conduziu ao princípio do fim do sistema esclavagista atlântico. As mobilizações sociais e sindicais desempenharam um papel importante na instauração de novas relações de força entre capital e trabalho e na redução das desigualdades. Nos Estados Unidos da América foi necessário uma guerra civil para pôr fim em 1865, ao sistema esclavagista. As guerras de independência vieram pôr fim ao colonialismo europeu nas décadas 1950- 1960. A marcha para a igualdade apoiou-se em dispositivos institucionais mais específicos tais como: igualdade jurídica, sufrágio universal e democracia parlamentar, educação gratuita e obrigatória, seguro de saúde universal, imposto progressivo sobre o rendimento as sucessões e os imóveis, a liberdade de imprensa, a cogestão e o direito sindical, etc…

Apesar destes esforços que têm sido feitos as desigualdades de acesso à educação e à saúde continuam a ser abissais. Sabemos que a pressão da URSS e do movimento comunista internacional fez com que as classes possidente ocidentais aceitassem a Segurança Social e os impostos progressivos, as descolonizações  e os direitos cívicos. Acontece porém que as relações de força e a certeza dos bolcheviques conduziram a um desastre totalitário com o aparecimento do partido único, com a centralização burocrática, a propriedade estatal hegemónica e o repúdio da propriedade cooperativa e dos sindicatos. No século XX o país que aboliu por completo a propriedade privada , a Rússia, tornou-se no início do século XXI , a capital mundial dos oligarcas e da opacidade financeira.

Na parte final do livro Thomas Piketty diz-nos o que é preciso  fazer para atingir uma sociedade mais igualitária.  Tendo em conta esse objectivo defende  a possibilidade de uma sociedade democrática e federal, descentralizada e participativa, ecológica e mestiça, baseada no alargamento do Estado social e do imposto progressivo, na partilha do poder das empresas, na reparações  pós-coloniais e na luta contra as discriminações, na igualdade educativa e no cartão carbono, na desmercantilização gradual da economia, na garantia de um emprego e numa herança para todos, na redução drástica das desigualdades monetárias e num sistema eleitoral e mediático finalmente fora dos potentados do dinheiro.  E termina concluindo que se, os países ocidentais, ou uma parte deles saíssem das posturas capitalistas e nacionalistas habituais e adptassem um discurso baseado no socialismo democrático e na saída do neocolonialismo com medidas fortes de justiça social e de partilha das receitas das multinacionais e dos multimilionários à escala mundial, isso permitiria então, não só recuperar a credibilidade perante o Sul, mas também destruir os últimos argumentos do socialismo autoritário chinês em matéria de transparência e de democracia

publicado por pontodemira às 17:09
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Quarta-feira, 27 de Abril de 2022

A SABEDORIA EM TEMPO DE CRISE

                                       

Estamos a viver uma época de crise. Tudo começou com a pandemia que matou milhares de pessoas. As medidas de contenção  impostas obrigaram muitas empresas e restaurantes a fecharem as portas lançando no desemprego centenas de trabalhadores. Os funcionários dos serviços públicos foram obrigados a trabalhar on line e a fazer  horas extraordinárias para cumprir as tarefas de que foram incumbidos. O mesmo aconteceu com os profissionais de saúde, médicos e enfermeiros que foram sobrecarregados com serviços e tiveram de empenhar-se a fundo para salvar vidas.

Agora temos a Guerra da Ucrânia que está a reduzir a cinzas um país livre e  independente e que vivia em paz. Tudo isto se deve às ambições imperialistas de um governante que tem ódio aos países democráticos e as melhores relações com países de regime autocrático que não respeitam a liberdade dos cidadãos, que subordinam o poder judicial ao político de maneira a poderem perpetuar-se no poder. Fico impressionado com as imagens que vejo na televisão e que mostram a crueldade com que se matam cidadãos inocentes e que viviam em paz.

Muita gente pensou que com a queda do Muro de Berlim e com o fim da Guerra Fria se iria viver um período de liberdade de democracia e de paz. Tal não veio a acontecer e o que nos espera no futuro é a guerra em determinados países e a paz noutros. Será que não é possível estabelecer a paz no mundo ? Para o filósofo Rousseau o homem é por natureza bom mas a sua vida em sociedade fá-lo inclinar-se para o mal. Mas o filósofo Hobbes pensa de maneira diferente. Para ele o homem já nasce mau e não sabe viver em sociedade e por isso é preciso um Estado autoritário para o meter na ordem. Com o pensamento de Hobbes se identificam hoje os ditadores e autarcas e todos os políticos que reduzem a liberdade e os direitos dos cidadãos para se eternizarem no poder. Reflectindo bem, os homens não são como os animais irracionais e podem, se houver entendimento,  praticar o bem e estabelecer a paz.

À pandemia e à guerra na Ucrânia podemos juntar também as alterações climáticas que se estão a agravar de dia para dia. Há terras na África que estão a secar  e a tornar impossível a agricultura. A temperatura do ar está subir  e a derreter as calotas de gelo polares aumentando o volume da água do mar que pode depois invadir as terras que ficam junto à costa. As ondas de calor podem também provocar furacões e tempestades que se estão a tornar cada vez mais frequentes. E se não se tomarem medidas caminharemos para uma situação catastrófica.

Perante estas situações tão dramáticas que acabei de enumerar é conveniente agir com sabedoria. O Historiador José Mattoso abordou este tema num livro que escreveu que tem por título “ Levantar o Céu- Os labirintos da sabedoria “  A sabedoria pode estar associada à Razão ou à Fé.

  • Sabedoria e Razão. Neste caso a sabedoria tem a ver com os conhecimentos científicos, tecnológicos e artísticos. Os conhecimentos científicos e tecnológicos contribuíram para o desenvolvimento, para a melhoria do nível de vida e para o aumento da longevidade no século XX e XXI. Mas nem tudo é positivo no desenvolvimento. Há desperdícios e consumismo exagerado; concentração de riqueza nas mãos de uma percentagem reduzida de pessoas enquanto outras vivem na miséria. Também têm dado origem a utopias pessimistas. Orwell imaginou uma sociedade totalitária em que  há um big brother( chefe totalitário) a que todos têm de obedecer.
  • Sabedoria e Fé. A Fé nasce muitas vezes de uma experiência pessoal: contemplação das belezas da natureza, de uma obra de arte e dos ensinamentos de Jesus Cristo que podemos ler nos Evangelhos e nas Epístolas de São Paulo. A Fé como diz o Historiador José Mattoso não é uma doutrina mas uma práxis. No contacto com os que sofrem, os que passam fome podemos desenvolver o nosso espírito de solidariedade e fraternidade. E é assim ,como diz o Papa Francisco na encíclica Fratelli Tutti, que todos em conjunto podemos construir uma sociedade mais humana e mais justa, pôr fim à guerra e construir a Paz. A guerra como diz o Papa Francisco é um fracasso da política e da Humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal.Com o dinheiro usado em armas e noutras despesas militares, devia construir-se um Fundo Mundial para acabar de vez com a fome e para o desenvolvimento dos países pobres, a fim de que os seus habitantes não recorram a situações violentas ou enganadoras, nem precisem de abandonar os seus países à procura de uma vida mais digna.

E para terminar vou transcrever uma passagem do livro “ Levantar o Céu “ em que o Historiador José Mattoso diz o seguinte :  «  Enquanto houver sobre a Terra alguém que procure levantar o Céu, quer dizer, implantar um pouco de bondade e de beleza sobre a Terra, restabelecer equilíbrios, perdoar ofensas, renunciar ao poder, vibrar com uma cantata de Bach, arriscar a vida para matar a fome a alguém, comover-se com o riso de uma criança, sentir-se interpelado pelo mistério de Jesus Cristo no  Getsémani como Aquele que carrega os pecados do mundo- enquanto houver alguém que teime entregar-se à Vida sem pensar em si mesmo, mas tendo em mente os seus semelhantes- não é insensato manter a esperança. »

                                                                      

publicado por pontodemira às 21:26
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Quarta-feira, 30 de Março de 2022

A NOVA ARTE DA GUERRA- Sean Mc Fate

A NOVA ARTE DA GUERRA

Este    é o título de um livro escrito por Sean Mc Fate professor de estratégia na Universidade de Defesa Nacional e na School of Foreign Service da Universidade de Georgetown. Foi também paraquedista da 82ª divisão Aerotransportada do exército americano e mais tarde trabalhou numa empresa militar privada, onde integrou algumas missões a que faz referência . Neste livro  dá-nos uma visão actual sobre os conflitos mundiais  e a geoestratégia do futuro. Em breves palavras irei fazer um resumo dos pontos essenciais tratados no livro.

Sean Mc Fate  diz-nos logo de início que ganhar não é matar o maior número de inimigos ou capturar a maior extensão do território. A França foi derrotada na Argélia e na Indochina, a Grã Bretanha na Palestina e em Chipre, a URSS no Afeganistão, Israel no Líbano e os Estados Unidos no Vietname, Somália, Iraque e Afeganistão. As Nações Unidas não fizeram nada para travar os genocídios no Ruanda e no Dafur. Nem desafiaram a usurpação da Crimeia pela Rússia, nem puseram fim a décadas de matança no Médio Oriente.  Dos 194 países do mundo, quase metade vive alguma forma de guerra. A desordem tomou conta do Médio Oriente e da África, de partes significativas da Ásia e da América Latina. E avança na Europa. Os conflitos não começarão e acabarão, mas eternizar-se-ão em guerras sem fim. A desordem duradoura está aí e aqueles que souberem combatê-la ganharão. Precisamos de nos equivaler ao inimigo  e aprender a jogar segundo as regras da nova arte de guerra

1ª Regra A guerra convencional morreu . É um combate de Estado-contra-Estado em que o instrumento primordial do poder é a força bruta em que a batalha decide tudo o resto Apesar disso, continua ser o nosso modelo, e essa é a razão por que o Ocidente perde guerras contra inimigos mais fracos..É preciso reequilibrar as forças militares de modo a incluírem menos armas convencionais e mais forças de operações especiais  que desempenham tarefas como recolha de informações, engenharia, apoio médico, logística e uma miríade de competências altamente necessárias para apoiar os combatentes em cenário de guerra.. A 2ª  Regra A tecnologia não nos salvará.Os conflitos actuais já nos demonstraram que a tecnologia superior e o poder de fogo não vencem guerras. A guerra é uma forma de política armada e procurar uma solução técnica para um problema político é uma loucura. O poder do cérebro é superior ao poder de fogo e devemos investir nas pessoas, não em plataformas.. 3ª Regra. Guerra e Paz vão coexistir sempre. Conquistar os corações e as mentes é o único caminho para a vitória quando se travam guerras convencionais. É preciso adoptar estratégias. No sentido mais lato a grande estratégia é uma política que rege a maneira como o país se comporta nas relações internacionais.  4ª Regra . Conquistar o coração e a mente não basta.  A legitimidade em sociedades como a iraquiana ou a afegã não é conferida por um contrato social democrático, mas sim pelo Islão político. Devoção sincera a Deus e a observância das leis da sharia são mais importantes e é por isso que a Al-Quaeda, o Estado islâmico e os talibãs ganham terreno. A coerção tem funcionado em muitos casos. Em 1999 a Rússia esmagou a revolta chechena pondo cerco a Grózni, a capital da Chechénia e arrasando-a. Outra estratégia é a deslocalização. Durante a 2ª Guerra Mundial os chechenos queriam aproveitar a oportunidade para se separarem da União Soviética. Em resposta o Exército Vermelho espalhou os chechenos à força pelos 11 fusos horários da URSS.  Há uma terceira estratégia que é a importação e a diluição.  Mao na China anexou o Tibete e enviou para o Tibete milhões de chineses tornando os tibetanos uma minoria na sua própria pátria.5ª Regra. As melhores armas não disparam balas.  Hoje em dia, quando a Rússia pretende desestabilizar a Europa, não ameaça com uma acção militar, como era prática da antiga União Soviética. Em vez disso, bombardeia a Síria. Esta tática empurrou dezenas de milhares de refugiados para a Europa e exacerbou a crise da imigração, instigando o Brexit e alimentando políticas anti-establishment por todo o continente. 6ª Regra.Os mercenários vão dominar o panorama militar. Os mercenários são mais económicos e é por isso que sempre têm existido ao longo da história, sendo os exércitos nacionais actuais a excepção. Os relatórios indicam que existem na Síria 2 500 mercenários a soldo da Rússia. A Rússia utiliza-os igualmente na Ucrânia. A ONU abdicou do seu papel de prevenção de conflitos, a sua missão principal desde 1946. Nada fez para travar o crescimento dos mercenários, tal como não fez nada de significativo para travar as guerras no Iraque, Síria…por toda a parte. O Direito internacional não funciona nem  a ONU.. 7ª Regra. Vão surgir novas potências mundiais A erosão dos Estados encorajará novos tipos de superpotências a preencher o vazio de autoridade. Em 2016, os governos da Turquia e do Egipto avançaram mais abertamente para ditaduras de Estado policial em que o Estado profundo é o único Estado existente.  8ª Regra. Haverá guerras sem Estados O México é um exemplo de uma guerra sem Estados. Os carteis da droga combatem-se uns aos outros pelo controlo da região, enquanto os Estados são marginalizados e transformados em narco-estados zombies .Os conflitos na Somália e na República Centro-Africana inserem-se nesta categoria, uma vez que estes Estados não existem de facto. Chamamos-lhe Estados unicamente para poder localizá-los no mapa. A guerra do Congo é palco de outra guerra sem Estados. 9ª Regra. As guerras na sombra prevalecerão Perto do início da guerra da Ucrânia, forças russas por procuração fizeram explodir nos céus o voo 17 da Malaysia Airlines, matando 298 pessoas a bordo. A Rússia tornou-se uma superpotência de desinformação, adoptando uma estratégia de « matem-nos com confusão». E está a resultar. As evidências estão por toda a parte: tornar invisível uma guerra na Ucrãnia, recorrer à pirataria informática para interferir nas eleições presidenciais de 2016 nos EUA, influenciar a votação no Brexit, apoiar grupos políticos marginais, alimentar o nacionalismo de direita nos países da NATO e engendrar o seu papel dúbio no Médio Oriente. Quando Putin chegou ao poder em 1999, tinha perante si uma nação fraturada, devorada pelo crime organizado e pela anarquia. Então ele teve o seu momento. Uma série de explosões atingiu 4 edifícios de apartamentos em 3 cidades russas, incluindo Moscovo, matando 293 pessoas e ferindo 1000. Em breve se descobriu que as explosões foram obra de terroristas chechenos e ondas de pânico varreram a Rússia. Só que não foram os chechenos; foi Putin a tentar consolidar o seu poder político, facilitando a sua ascensão do cargo primeiro-ministro para a presidência.10ª Regra. Existem muitas maneiras de assegurar a vitória  A guerra híbrida descreve os conflitos actuais como uma mistura de prática da guerra convencional e não-convencional. Por exemplo a Rússia conquistou a Crimeia usando material convencional, como os tanques, e meios não convencionais, como os homenzinhos verdes

N a parte final do livro o autor termina dizendo que  o Ocidente será derrotado se não se adaptar ao futuro da guerra. As guerras deslocar-se-ão para a zona da sombra. Na era da informação, o anonimato é a arma de eleição. A subversão estratégica ganhará guerras, não as vitórias no campo de batalha. Numa era de desordem a grande estratégia devia procurar evitar que os problemas se transformassem em crises, e as crises em conflitos. A vitória será conseguida ou perdida no espaço da informação e não no campo da batalha

 

 

publicado por pontodemira às 22:23
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Quarta-feira, 9 de Março de 2022

O PRÍNCIPE_ MAQUIAVEL

Maquiavel nasceu na cidade de Florença em Itália e de todos os livros que escreveu  «O Príncipe » é considerado por muitos como a sua obra prima. Viveu em plena época renascentista e foi contemporâneo de grandes artistas : Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci, Ticiano e outros.  Ao escrever o livro “ O Príncipe “ dedicou-o a Lourenço de Médicis, pensando que daí  pudesse obter algum proveito, mas tal não veio a acontecer. Para compreendermos o seu pensamento selecionei algumas frases mais relevantes que passo a citar:

1-O desejo de conquistar é uma coisa muito comum e de acordo com a natureza, e todas as vezes que os homens que puderem fazer conquistas, serão louvados por isso ou, não serão censurados. 2-Quando como disse, os países que se conquistaram estão habituados a viver segundo as suas leis e em liberdade há três maneiras de conservar a sua posse: a primeira é destruí-los; a segunda é ir viver para lá pessoalmente; a terceira  é deixá-los viver segundo as suas leis e cobrar um tributo, depois de formar um governo de poucas pessoas que conservem a sua amizade.3- Na verdade, não existe maneira mais segura de fruir uma província conquistada do que arruinando-a. 4-O príncipe não deve ter outro objectivo nem outro pensamento, nem tomar a peito outra matéria, que não seja a arte da guerra, a organização e a disciplina militar. 5-O príncipe que deseja manter a sua posição, precisa também de aprender a não ser bom e a servir-se ou não dessa faculdade de acordo com a precisão. 6-É melhor ser temido do que amado, se só se puder ser uma delas. 7-Não deve preocupar o príncipe o facto de, para conservar todos os seus súbditos em união e obediência, ganhar fama de cruel, pois será muito mais compassivo do que os príncipes que, por excesso de clemência, deixam alastrar as desordens, das quais se geram assassínios e rapinas.8-Quando um príncipe comanda um exército, tendo às suas ordens uma multidão de soldados, então não se deve preocupar nada com a fama de cruel. 9-Convém saber que há dois tipos de  combates: pelas leis e pela força. A primeira é própria dos homens e a segunda é própria dos animais. Mas como muitas vezes aquela não chega, há que recorrer a esta, e por isso o príncipe precisa de saber ser animal e homem. É necessário ser raposa para reconhecer  as manhas e leão para meter medo aos lobos.

Da leitura do livro podemos concluir que para Maquiavel quem queria conquistar o poder todos os meios são lícitos O que conta é a razão de Estado e não os princípios éticos e morais. Segundo informações que recolhi o livro “ O Príncipe “ era uma obra de leitura obrigatória na Academia de Informações Externas da antiga União Soviética, da qual foi aluno Vladimir Putin que formava os espiões do KBG. Deste modo Putin leu este livro e aprendeu muito com ele. Era bom que ele tivesse lido também  a Encíclica Fratelli Tutti do Papa Francisco pois aprendia outra maneira totalmente diferente de fazer política. O Papa diz-nos, e todos nós sabemos, que a Paz não se constrói  com a guerra. Todos somos filhos de Deus e por isso devíamos ser irmãos uns dos outros. Com a polarização política em muitos países nega-se ao outro o direito a existir e de pensar. O mundo existe  para todos, porque todos nós, somos seres humanos, nascemos nesta Terra com a mesma dignidade. É possível um Planeta que garanta  terra, tecto e trabalho para todos. Este é  o verdadeiro caminho da Paz e não a estratégia insensata e míope de semear medo e desconfiança perante ameaças externas. Para tornar possível o desenvolvimento de uma comunidade mundial capaz de realizar a fraternidade é necessária a política melhor, a política colocada ao serviço do bem comum. Mas esta política não é a dos partidos populistas nem do liberalismo económico. A política populista está ao serviço do seu projecto pessoal e da sua permanência no poder. Os liberalismos sem controle estão ao serviço dos interesses económicos dos poderosos. A paz não é a ausência de guerra, mas o empenho incansável de reconhecer, garantir e reconstruir concretamente a dignidade, tantas vezes esquecida ou ignorada. A falta de desenvolvimento integral impede que se gere a paz. A partir do desenvolvimento incontrolado de armas nucleares, químicas e biológicas, conferiu-se à guerra um poder destrutivo, incontrolável que atinge muitos civis inocentes. A guerra não é uma solução pois os riscos são sempre superiores à hipotética utilidade que se lhe atribua. Toda a guerra  deixa o mundo pior do que se encontrava.

Para terminar direi que o Papa Francisco faz uma análise profunda do ponto de vista político, económico e sociológico, de todos os aspectos relacionados com a paz. Para se conseguir a paz é necessária a colaboração, o diálogo e o consenso entre Estados e instituições. É preciso também reconhecer que todos os homens são iguais em direitos e que tem de se respeitar a dignidade humana. Tudo isto tem na sua base a fraternida-de  e a amizade. Pela força, pela violência ou pela guerra nada se resolve e caminharí-amos para o caos.  Espero que Putin ponha termo a esta guerra absurda e reflita  nos estragos e no sofrimento que provocou ao povo Ucraniano. Mas para Putin a democracia não tem qualquer sentido e por isso tenta pela guerra tirar proveito da fragilidade de alguns países democráticos com pouca capacidade de resposta a agressões desencadeadas por grandes potências.

 

 

 

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Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2022

A Consciência Do Limite

 

1-Wittgenstein  nasceu em Viena no dia 26 de Abril de 1889. Em Berlim estudou engenharia mecânica e mais tarde em  Manchester iniciou os estudos em aeronáutica. Em 1911 começou os estudos de Filosofia com Russel no Trinity  College de Cambridge. No começo da 1ª  Grande Guerra alistou-se como soldado no exército austríaco. Em 1919 obteve  o título de professor do ensino primário na Escola Normal de Viena e foi colocado numa escola rural da Baixa Áustria. Em 1929 volta a Cambridge e obtém o doutoramento com o Tratactus. Na 2ª Grande Guerra trabalhou como voluntário em Londres. Em 1947 renuncia à cátedra e escolheu a Irlanda como destino de trabalho. Em 29 de Abril de 1951 morreu em Cambrige em casa do seu médico.

2-As obras de referência que nos deixou para análise do seu pensamento são:  O Tratado Lógico Filosófico,  As Investigações Filosóficas e o livro Da Certeza. O primeiro livro foi  a única obra filosófica publicada em vida.

3- Tratado Lógico Filosófico. Neste livro Wittgenstein pretende mostrar que há uma correspondência entre a forma da linguagem e a forma do mundo. Esta é a primeira fase da Filosofia de Wittgenstein e a que costuma designar-se como teoria figurativa ou pictórica do significado. O Tratado é considerado um dos textos de referência do atomismo lógico herdado de Russel que estabeleceu uma relação isomórfica entre a linguagem lógica e a realidade. O Mundo e a Linguagem teriam a mesma essência lógica o que possibilitaria que as palavras figurassem as coisas e as proposições os factos. E passo a citar algumas passagens do Tratado:

O mundo  é a totalidade dos factos não das coisas ; a realidade total é o mundo ;a imagem é um modelo da realidade ; a imagem lógica dos factos e o pensamento ; o pensamento é a proposição com sentido ; a totalidade das proposições é a linguagem ; o objectivo da Filosofia é a clarificação lógica  dos pensamentos  ,toda a dedução ocorre à priori ; os limites da minha linguagem significa  os limites do meu mundo ; a Matemática é um método da Lógica ; existe no entanto o inexprimível. É o que se revela, é o místico ; O método correcto da Filosofia seria o seguinte: só dizer o que deve ser dito isto é as proposições das ciências naturais. E o Tratado termina dizendo ; Acerca daquilo de que se não pode falar, trem que se ficar em silêncio

4-As Investigações   As Investigações começam com um texto extraído das Confissões de Santo Agostinho onde ele procura explicar como começou a falar. As pessoas mais velhas apresentavam-lhe objectos e nomeavam-nos.  Pegavam por exemplo numa maçã e diziam : «maçã ». E assim a pouco e pouco aprendia o que significavam as palavras e começava a utilizá-las para  dizer às pessoas o que queria. Isto pode levar as pessoas a pensar que a linguagem tem uma essência, uma única função e que a única função seria nomear objectos. Mas Wittgenstein  nas Investigações compara a linguagem a uma caixa de ferramentas. As palavras são ferramentas pois adquirem o seu significado quando se utilizam e por isso admite diferentes utilizações. Isto leva a pôr de  lado a ideia de que o significado de uma palavra era algo de imutável que a acompanhava sempre. Mas o significado da palavra estaria no uso que dela se faz num determinado contexto linguístico. Todos sabem que existe uma grande variedade de jogos: cartas, xadrez , futebol, jogo das escondidas, etc. Nuns há vencedores e vencidos. Uns têm regras a respeitar . Mas nem todos têm uma característica comum. Assim devemos ver a palavra « jogo » enquanto termo para semelhanças de família. Diz-nos ainda que muitos filósofos esvoaçam à toa como moscas dentro de uma garrafa a bater nas paredes. A forma de resolver este problema é tirar a rolha e voar para fora da garrafa.

5-Da Certeza Este é o último livro escrito por Wittgenstein . Podemos duvidar de muitas coisas mas também há certezas que não podemos pôr em causa. E vou citar alguns exemplos que o filósofo nos dá: Pelo facto de me parecer a mim- ou a toda a gente – que uma coisa é assim, não se segue que ela o seja; O que podemos perguntar é se faz sentido duvidar dela ; Eu sei «isso» significa. « Sou capaz de errar acerca disso» Mas se o sou, tem de se poder comprovar objectivamente ; Se a experiência é o fundamento da nossa certeza, naturalmente que se trata da experiência passada; Nós sabemos que a água ferve quando a pomos ao lume. Como sabemos ? A experiência ensinou-no-lo; Não posso estar em erro  acerca de 12X12= 144; E não se pode opor a certeza matemática à relativa incerteza das proposições empíricas.

6-Conclusão.  Wittgenstein é um representante da filosofia pós-moderna. Partilhou a certeza de Shopenhauer de que não podemos conhecer o mundo tal como ele é mas que lidamos sempre com a nossa representação, com a imagem que dele construímos. Concorda ainda com a crítica ao conhecimento humano que Kant desenvolveu na Crítica da Razão Pura de que só podemos conhecer o mundo dos fenómeno, isto é, a  realidade tal como ela é recebida pelos nossos sentidos. A realidade tal como é em si mesma é-nos vedada. Para Wittgenstein os limites da filosofia são a ética, a estética, a metafísica e a Religião. A filosofia só pode preocupar-se dos factos e só as proposições da ciência natural se podem afirmar. Considerava a Matemática como um método da Lógica. A filosofia serviria apenas para desatar nós e clarificar ideias. Para terminar direi que Wittgenstein é dos filósofos de pensamento mais complexo e de mais difícil interpretação.

 

 

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Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2022

O HOMEM EM BUSCA DE UM SENTIDO

 

Este é o título de um livro escrito por Victor Frankl, formado em Neurologia pela Universidade de Viena onde viria a doutorar-se  em Psiquiatria.. Especializou-se no estudo da depressão e do suicídio. No início foi influenciado por Sigmund Freud e Alfred Adler de quem se afastou mais tarde. Foi obrigado a interromper a sua carreira devido à ascensão do Nacional Socialismo (nazismo ) em Viena de Áustria onde vivia. Foi-lhe oferecida a hipótese de emigrar mas decidiu permanecer na Áustria para auxiliar os pais que era judeus. Em 1942 foi deportado para um gueto e mais tarde seguiu para o campo de concentração de Auschwitz. Conseguiu sobreviver e regressou à Áustria onde desenvolveu a Logoterapia que divulgou como professor em várias Universidades. Morreu aos 92 anos em 1997. No fim da guerra a mulher estava morta tal como os pais e o irmão.

Na sua actividade como médico usou com método a Logoterapia que procura dar sentido à vida às pessoas que caíram em depressão e se encontram num vazio existencial. O livro que escreveu  “ O Homem Em Busca De Um Sentido “, foi lido por 12 milhões de pessoas em todo o mundo. O livro procura transmitir a mensagem que só a procura de um sentido na vida nos pode libertar do sofrimento. Irei fazer um pequeno resumo do livro pondo em destaque os aspectos mais importantes.

Logo na Nota Introdutória Victor Frankl diz-nos que a vida não é uma busca de prazer como pensava Freud nem uma busca de poder como ensinou Adler- mas sim uma busca de sentido. A mais importante tarefa de qualquer pessoa é descobrir o sentido para a sua vida. E há 3 fontes possíveis de sentido : o trabalho (fazer alguma coisa significativa ) ; o amor (cuidar de outra pessoa ) e a coragem em tempos difíceis. O sofrimento em si mesmo e por si mesmo é destituído de sentido. Conferimos sentido ao sofrimento pela maneira como lhe reagimos. As forças fora do nosso controlo podem levar-nos tudo excepto a liberdade de escolhermos como responderemos a uma situação. Não podemos controlar o que nos acontece na vida mas podemos sempre controlar o que iremos fazer quanto àquilo que nos acontece.

1-Experiências no campo de concentração. No campo de concentração havia prisioneiros que actuavam como administradores gozando privilégios especiais. Os prisioneiros fracos ou doentes incapazes de trabalhar eram enviados para um dos grandes campos centrais que estavam dotados de câmaras de gás e crematórios. Só os mais brutais de entre os preso eram escolhidos para essas tarefas. Em geral só conseguiriam ficar vivos aqueles que, anos a saltar de campo em campo, tinham perdido todos os escrúpulos na sua luta pela existência. Victor Frankl diz-nos que em dado momento sentiu que transcendia aquele mundo sem sentido e que, vindo não sabe de onde, encontrou um vitorioso  “ SIM “ em resposta à pergunta sobre a existência de um sentido último. Qualquer homem pode, mesmo nas circunstâncias mais difíceis decidir o que será feito dele, mental e espiritualmente. Uma vida activa pode dar ao homem a oportunidade de realizar valores num trabalho criativo, enquanto a vida passiva de fruição lhe concede a oportunidade de se realizar mediante a experiência da beleza, da arte e da natureza. Se existe um sentido na vida então tem de haver um sentido no sofrimento. O sofrimento é parte inextirpável da vida tal como o destino e a morte. Sem o sofrimento e a morte  a vida humana não está completa. A forma como o homem aceita o seu destino e todo o sofrimento que ele acarreta, a forma como ele carrega a sua cruz concede-lhe bastas oportunidades - de mesmo nas circunstâncias mais difíceis – para dar sentido à sua vida. Quando um homem descobre que  o seu destino é sofrer, terá de aceitar esse sofrimento. Terá que reconhecer o facto de que, até mesmo no sofrimento não é o único e não está só no universo. Ninguém pode libertá-lo do sofrimento ou sofrer em seu lugar. A sua oportunidade única reside na forma como carrega o seu fardo. Disse também aos seus camaradas que a vida humana, fosse quais fossem as circunstâncias, nunca deixaria de ter sentido e que esse significado infinito da vida incluiria o sofrimento e a decadência física, as provações e a morte.

2-Logoterapia  Para Frankl a logoterapia afasta-se da psicanálise na medida em que considera o Homem um ser cuja principal preocupação é o preenchimento de um sentido e não a mera gratificação e satisfação de impulsos e instintos, ou, a mera reconciliação de pretensões conflituantes do id, ego e superego ou a mera adaptação  e ajustamento à sociedade e ao meio ambiente.

Na parte final do livro Frankl diz o seguinte: « Nos campos de concentração pudemos ver e testemunhar como camaradas se comportavam como porcos enquanto outros agiam como Santos. O Homem tem ambas as capacidades  dentro de si mesmo; qual delas é transformada em acto depende de decisões mas não das condições. O Homem é esse ser que inventou as câmaras de gás em Auschwitz ; no entanto é igualmente o ser  que entrou nas câmaras de gás de cabeça erguida com o Pai Nosso na boca ou Shema Israel nos lábios. »

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Domingo, 9 de Janeiro de 2022

VIVO ATÉ À MORTE

 

Este é o título de um livro de que é autor Paul Ricoeur que começou a escrever em 1996 e acabou um mês antes da sua morte. Quem é Paul Ricoeur ?  É um filósofo que fez o doutoramento em Sorbonne e deu aulas como professor em Strasbourg, Paris e Chicago . A sua actividade como filósofo e pensador começou no período que se seguiu à 2ª Guerra Mundial. O seu nome está ligado ao pensamento filosófico da hermenêutica mas também à filosofia da vontade, à ética, à antropologia filosófica, à epistemologia das ciências humanas, à filosofia do tempo e da narratividade. Ficou órfão prematuramente e acabou por ser criado pelos avós que eram protestantes. Deles herdou a crença na religião. Foi cristão ao longo da sua vida e aluno de Gabriel Marcel e de Emmanuel Mounier. Morreu em Paris em maio de 2005 com 92 anos de idade.

O livro Vivo até à Morte é constituído por 2 textos e 2 fragmentos. Todos eles são meditação sobre a morte.

1º texto  Até à morte : do luto e da boa disposição. Quando alguém desaparece uma questão surge e ressurge obstinadamente. Existirá ainda ? E onde ? Em que lugar ? Que espécie de seres são os mortos ? Todas as respostas dadas pelas outras culturas relativamente à sobrevivência dos mortos inserem-se nessa questão não posta em causa : passagem a um estado de ser, expectativa de ressurreição, reencarnação ou para espíritos mais filosóficos, alteração do estatuto temporal , elevação a uma eternidade imortal. Paul Ricoeur associa também a morte  à mortalidade ao dever-morrer um dia e ao ter de morrer. A ideia que morrerá necessariamente um dia, não sabendo quando nem como, veicula uma certeza( mors certa , hora incerta )  . À ideia de  morte Ricoeur associa também a de agonizante e a de moribundo. A tese ricoeuriana é a de que até à morte está-se sempre vivo e mesmo aquele que agoniza com a proximidade da morte deve ser visto e respeitado como vivente. Diz ainda que  luta contra o imaginário do morrer ligado ao olhar do espectador para quem o agonizante é um moribundo. Toda esta reflexão sobre o morrer e sobre o após-vida ( a ressurreição) passa pela meditação de 2 textos escritos por 2 sobreviventes dos campos de concentração ( Jorge Semprun Primo Levi). Na origem de muitas mortes está o Mal. Não é a morte que tem maiúscula mas o Mal, quando o contágio é extermínio, isto é programa de morte organizado pelo Malvado.

2º Texto A morte.   Paul Ricoeur diz-nos que a morte é verdadeiramente o fim da vida no tempo comum dele, enquanto vivente, e daqueles que lhe sobreviverão. É necessário um desprendimento que consistirá na transferência  para o outro do amor pela vida. Amar o outro, seu sobrevivente. Essa componente da renúncia à nossa sobrevivência completa o « desprendimento» para cá da morte não é somente perda mas ganho, libertação para o essencial.  Na 2ª linha de pensamento estão as implicações da confiança em Deus. Todas elas dizem respeito ao sentido, à inteligibilidade, à justificação da existência. Jesus utilizou uma linguagem diferente da linguagem do depois-da-morte e do fim dos tempos e nisso afasta-se da tradição profética onde tudo está no futuro. Não é somente no fim dos tempos que será concedida a «ressurreição» no último dia, mas é a partir de agora que o crente « passou » da morte à vida  ( Jo 5,245 )

Fragmentos.  Paul Ricoeur diz  que o cristianismo dele é fruto do acaso transformado em destino através de uma escolha contínua. Se fosse chinês haveria poucas possibilidades de ter sido cristão. É cristão devido às suas convicções e motivações. Na motivação estão os aspectos, as emoções e as paixões. Na convicção está o lado racional dos seus argumentos. Por destino entende o estatuto de uma convicção da qual pode dizer: assim me mantenho a isso adiro. Por adesão entendo o apego a uma figura pessoal através da qual o Infinito, o Altíssimo se deixa amar.  A sua adesão à figura de Jesus é assim duplamente mediada pelos textos canónicos e pelas tradições de interpretação que fazem parte da herança cultural e da motivação profunda das suas convicções. Ricoeur diz-nos ainda que não é um filósofo cristão mas um cristão filósofo. É um filósofo preocupado, dedicado e versado na antropologia filosófica. É sim um cristão de expressão filosófica, tal como Rembrand é um pintor em quanto tal e um cristão de expressão pictórica e Bach um músico enquanto tal e um cristão de expressão musical.

Ricoeur confessa que há uma coisa que o atormenta de forma insistente na sua adesão refletida à figura de Cristo. Será que Jesus morreu na cruz para satisfazer a justiça implacável de Deus que pede satisfação aos homens por um pecado que é em si mesmo digno de morte e encontra satisfação pelo próprio Filho de Deus Pai, que morre por nós ?

Eu que sou cristão, mas não teólogo, diria que Jesus morreu pregado na cruz porque não teve medo de dizer a verdade que a hierarquia religiosa e política dos judeus não aceitava mas também por amor aos Homens que quis redimir do pecado. Jesus ao ser crucificado disse: « Perdoa-lhes Pai, porque não sabem o que fazem » ( Luc.23,34 )

publicado por pontodemira às 21:15
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