Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018

SER MORTAL

 

Ao longo dos séculos a longevidade dos seres humanos tem vindo a aumentar. A partir de meados do século XX só quatro em cada cem pessoas em países industrializados morriam antes dos trinta anos. Este progresso deve-se ao desenvolvimento da medicina, ao aparecimento de vacinas e de outros medicamentos que que eliminam certas doenças malignas e na maior parte dos casos mortais. Este tema é abordado em todos os seus pormenores no livro “ Ser Mortal “ , escrito pelo médico cirurgião americano de origem indiana, Atul Gawande. Irei escrever uma síntese do livro fazendo referência aos aspectos mais relevantes e de maior interesse.

É um facto que com a idade avançada começam a surgir as doenças. Muitos órgãos do corpo humano entram em falência. Depois dos 85 anos 40% não tem nenhum dente. O cálcio começa a sair do esqueleto e a entranhar-se nos tecidos. As veias ficam mais estreitas e rígidas e o coração tem de gerar mais pressão. Devido a este esforço para bombear o sangue o coração fica com as paredes mais grossas e o seu rendimento diminui. Por volta dos 40 anos começamos a perder massa muscular e força. A nossa capacidade pulmonar diminui e o mesmo se passa com a memória e o discernimento. O ADN das nossas células é frequentemente danificado mas tem capacidade para se renovar. Se um gene ficar com danos há cópias extra, disponíveis, no gene e se uma célula inteira morrer pode ser substituído por outras. Mas tudo isto tem um limite. O cabelo torna-se grisalho porque se esgotam as células de pigmentação que dão cor ao cabelo. Mas o reservatório das células estaminais esgota-se. Aos 50 anos metade do cabelo de uma pessoa fica grisalho. No interior das células da pele, os mecanismos que eliminam os desperdícios avariam aos poucos e os resíduos acabam por formar um coágulo de pigmento castanho-amarelado conhecido por lipofuscina. São as manchas da idade que vemos na pele. Quando a lipofuscina se acumula nas glândulas sudoríperas estas deixam de funcionar. Desta forma resulta que na velhice ficamos mais vulneráveis às insulações e ao cansaço pelo calor. Com a idade ocorre também o enevoamento esbranquiçado do cristalino e a qualidade da luz que chega à retina de um sexagenário saudável é um terço da de um jovem de 20 anos. A todos estes factos Atul Gawande designa como “ O Mundo que Desmorona “.

Uma pessoa a quem tenha sido diagnosticada a doença de Alzheimer ou a doença de Parkinson ou as que tenham sofrido um AVC e perdido as suas capacidades motoras são naturalmente dependentes e a precisar de cuidados médicos ou de assistência permanente. A família destes doentes não tem, na maioria dos casos, possibilidade de as atender a tempo inteiro. Surgiram então ao longo dos anos instituições para resolver estes casos: asilos, lares e hospitais. Nos Estados Unidos foram até criadas “ residências com assistência à autonomia “ ou seja andares com sala , quarto de dormir e cozinha individuais para manter a privacidade dos utentes. Nalguns casos até se foi mais longe introduzindo no lar animais domésticos, plantas e até crianças. O objectivo era atacar o que se designou por as “ Três Pragas “ da vida de um lar: tédio, solidão e a impotência. Para combater estes efeito colocariam plantas em todos os quartos, e no sítio da relva cultivariam legumes e flores.

Quando as capacidades das pessoas se deterioram por causa da idade ou degradação do estado de saúde o que é que se deve tentar reparar e quando se deve deixar as pessoas sossegadas ? Esta é uma pergunta que o dr. Atul Gawande faz. Uma outra questão que levanta é como deve ser a relação médico doente quando este está a sofrer e tem uma doença incurável Nesta situação há três tipos de relação a considerar: uma relação paternalista; uma relação informativa e uma relação interpretativa. Na relação paternalista o médico diz o que entende ser melhor para o doente e tenta convencê-lo. Na relação informativa dá-se a conhecer ao doente os vários tipos de tratamentos que podem ser aplicados e cabe a ele tomar uma decisão. Na relação interpretativa o papel do médico é ajudar o doente a determinar o que realmente quer. Neste caso o médico pergunta ao doente: Qual a coisa mais importante para si ? Quais são as suas preocupações ? Depois disso o médico vai indicar qual o tratamento apropriado para alcançar as finalidades indicadas. Há doentes que preferem os cuidados paliativos mas os que têm a expectativa de viver mais tempo optam pela quimioterapia e pela cirurgia dos tumores malignos.

Na parte final do livro o dr. Atul Gawande faz um balanço de tudo o que escreveu e diz o seguinte: “ Ser Mortal é ter de lutar com o constrangimento da nossa biologia, com as limitações impostas pelos genes e células, pela carne e pelos ossos. Temos andado enganados sobre o papel enquanto médicos. Achamos que o nosso papel é garantir a saúde e a sobrevivência. Todavia na realidade vai além disso. É possibilitar o bem-estar. E o bem-estar prende-se com razões pelas quais desejamos viver. Essas razões importam não só no fim da vida quando nos tornamos frágeis, mas durante toda a vida. Sempre que uma doença grave ou uma lesão nos ataca e o nosso corpo e a nossa mente vão abaixo as perguntas vitais são as mesmas: Que noção tem da sua situação e dos seus potenciais desfechos ? Quais são os seus receios e as suas esperanças ? Que cedência está disposto a fazer e o que não aceita ? E qual é a linha de conduta mais adequada para alimentar esses objectivos ? E para terminar acrescenta: “ Ser homem é ser limitado, então o papel das profissões e instituições de saúde, desde os cirurgiões aos lares, devia ser ajudar as pessoas na sua luta com essas limitações. Por vezes podem oferecer uma cura, outras vezes um bálsamo e outras ainda menos que isso. Mas seja o que for que tivermos para dar, as nossas intervenções e os riscos e sacrifícios que acarreta só se justificam se forem ao encontro dos objectivos mais altos de uma pessoa.”

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Sábado, 29 de Setembro de 2018

Os grandes filósofos: Leibniz

                                        

 

1-Leibniz nasceu em Leipzig em 1646. Era filho de uma família de protestantes. Desde muito cedo aprendeu as línguas clássicas, grego e latim. Na Universidade de Leipzig onde o pai era professor estudou Direito, Filosofia e Matemática recebendo o mestrado em Filosofia. Ainda jovem leu autores escolásticos como São Tomás de Aquino e interessou-se pelos filósofos seus contemporâneos como Bacon, Hobbes , Descartes e Espinosa. A carreira diplomática deu-lhe oportunidade de percorrer vários países da Europa. Fundou várias Academias e entre elas a Academia de Ciências de Berlim. Em 1676 inventou o cálculo diferencial e desenvolveu o sistema aritmético binário que funcionou com dois signos ( 0,1) como também executou uma máquina calculadora que trabalhou com esses algoritmos. Diríamos que foi o percursor do sistema de numeração digital utilizado nos computadores. Os últimos 40 anos passou-os como bibliotecário em Hannover. Um dos seus últimos projectos foi unir as Igrejas Cristãs mas o seu plano fracassou. Morreu em 1776 em Hannover depois de uma vida de intenso labor intelectual.

2-Leibniz escreveu um leque variado de assuntos abrangendo matérias como a matemática, a física, história e sobretudo filosofia. As suas principais obras filosóficas são : Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano , Teodiceia, Discursos da Metafísica, Princípios da Natureza e da Graça Fundados na Razão e a Monodologia.

3-Como filósofo Leibniz desenvolveu temas muito diversos que vão desde a metafísica ao conhecimento e à Teodiceia ( justificação racional de Deus ) . Irei tratar cada um deles separadamente, embora de forma sumária mas tocando nos aspectos essenciais que esclareçam o fundamental do pensamento filosófico de Leibniz

Metafísica:

Para Leibniz a realidade é composta por uma infinidade de substâncias ( Mónades ). As mónades ( em grego significa unidade ) são indivisíveis e portanto inextensas. Não têm portas nem janelas para o exterior mas têm actividade ou força própria ( vis ) A actividade das mónades determina a seguinte hierarquia:

1-Há formas substanciais ou mónades simples que asseguram a unidade dos corpos compostos. 2- Vêm depois as mónades capazes de perceber ( percepção ) própria dos animais. 3-Num plano superior temos as mónades dos espíritos capazes de reflectir e de se conhecerem a si próprio, própria dos homens. 4- No topo da escala está a mónade Divina pois Deus é o monarca do Divino Estado Espiritual

Em conclusão diria que as mónades são simples porque inextensas embora algumas também desempenhem funções complexas como perceber ( alma ) e reflectir ( espírito ). Não se relacionam umas com as outras pois são autónomas. De qualquer forma vivem na mais perfeita harmonia. E aqui surge a teoria dos relógios ( mónades ) e do relojoeiro (Deus ). Deus conseguiu desde o início regular os vários relógios e colocá-los a funcionar em completa sincronia. A isto chama Leibniz a harmonia preestabelecida.

Deus-

Para Leiniz a existência de seres contingentes e finitos postula a existência de um Ente necessário e infinito do qual tudo procede. Esse ser necessário é Deus. ( ens a se ). Se esse Deus é possível existe. Se Deus é impossível também o são todos os outros seres que existem. Se não há um ser necessário não há entes possíveis. Tal como Santo Anselmo também Leibniz demonstrou a existência de Deus através da prova ontológica

Conhecimento.

Para Leibniz há dois tipos de conhecimento: as verdades de razão e verdades de facto. As verdades de razão são verdades necessárias e baseiam-se no princípio da não contradição. São por isso verdades à priori que nada têm a ver com a experiência. Quando dizemos que dois e dois são quatro ou que um triângulo tem três ângulos, estamos a afirmar verdades evidentes à priori. As verdades de facto são verdades contingentes baseadas na experiência e no princípio da razão suficiente. São as verdades da física e da história que têm de ser comprovadas.

Resumindo: o princípio da identidade ou não contradição fundamenta as verdades necessárias, ou seja, o Ser não pode Ser e deixar de ser ao mesmo tempo. Se eu disser que o triângulo tem 3 ângulos não posso conceber um que não os tenha. Por outro lado o princípio da razão suficiente diz-nos que tem de haver uma razão para fundamentar as verdades contingentes. Tem de existir uma razão para que exista algo mais do que nada, já que algo existe.

Ideia

Todas as ideias são para Leibniz inatas e procedem da actividade interna das mónadas. Ao velho adágio latino e aristotélico que diz : “ nada está no intelecto que não tenha passado pelos sentidos, Leibniz acrescenta “ a não ser o próprio intelecto com as suas leis. “

Teodiceia-

A Teodiceia tem como objectivo justificar a existência de Deus. Se Deus é omnipotente e infinitamente bom ficamos sem saber por que existe o mal no mundo. O mal que existe no mundo pode ser metafísico, físico e moral. O mal metafísico nasce da impossibilidade do mundo e do homem serem perfeitos e infinitos. Existem atributos que pertencem exclusivamente a Deus. O mal físico pode gerar heroismo, abnegação ou altruísmo para quem procura ajudar quem sofre. O mal moral seria perfeitamente evitável.

O escritor Voltaire no livro Cândido ironiza Leibniz quando o dr. Panglos perceptor de Cândido reage perante as calamidades provocadas pelo terramoto de 1755 em Lisboa dizendo “ Tudo foi feito com a melhor das intenções no melhor dos mundos possíveis “

Conclusão:

Leibniz pertence ao grupo de filósofos racionalistas do século XVII do qual faziam parte Descartes e Espinosa. Enquanto para Descartes existiam 2 substâncias, corpo e alma, Espinosa admitia apenas uma substância da qual fazia parte Deus e toda a realidade. De maneira diferente pensava leibniz que como já referi entendia que havia uma infinidade de substâncias ( mónades)

que foram preordenadas por Deus desde o início para funcionarem em sincronia. Na filosofia de Leibiz há dois aspectos importantes a considerar: a Matemática e a teologia. O pensamento filosófico obedece aos mesmos princípios da análise e da lógica matemática. Depois Deus aparece como um ens a se ( ser necessário ) que é o princípio e a origem de tudo quanto existe.

Apesar de ser um luterano Leibniz considerava-se um” católico de coração” e fez tudo para unir católicos e protestantes mas os seus propósitos fracassaram .

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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2018

A queda do ocidente? Uma provocação

 Este é o título de um livro escrito por Kishore Mahbubani, professor de Política Pública Aplicada na Universidade de Singapura. O autor faz uma análise política e económica sobre a evolução do Ocidente nos últimos dois séculos. Logo no primeiro capítulo diz que estamos a caminhar para uma nova Ordem. Entre o ano 1 e o ano de 1820 as duas maiores economias tinham sido a China e a Índia. Só a partir do século XIX a Europa começou a tomar a dianteira seguida pelos Estados Unidas. O desenvolvimento científico e tecnológico e o pensamento racional deu um enorme contributo para o avanço e supremacia dos países ocidentais. Mas como diz Kishore Mahbubani “ a maior dádiva que o Ocidente concedeu ao Resto do Mundo foi poder da Razão. As várias dimensões da razão ocidental foram-se instalando gradualmente nas mentes asaiáticas, através da Ciência, e da tecnologia do Ocidente, bem como o método científico na resolução dos problemas sociais. E esta disseminação da razão Ocidental acabou por desencadear revoluções silenciosas. A primeira revolução foi de teor político provocando mudanças evidentes nas sociedades que adoptaram formas democráticas de governação como a Índia, o Japão, a Coreia do Sul e o Sri Lanka. Cerca de 800 milhões de chineses foram resgatados à pobreza absoluta em 3 décadas. A segunda revolução foi do foro psicológico. Os cidadãos do Resto do Mundo desenvolveram a crença que podiam assumir o controlo das suas vidas e com o apoio da lógica racional, obter melhores resultados. A terceira revolução foi no campo da governação. Há 50 anos poucos governos asiáticos acreditavam que a boa governação racional poderia transformar as suas sociedades. Actualmente quase todos acreditam nisso. Durante dois séculos o Ocidente foi a locomotiva que conduziu o crescimento económico mundial. A 1ª e a 2ª Guerra Mundial devastou uma grande parte dos países europeus. A implantação do Plano Marshal ajudou a reconstrução de países como a França, a Alemanha e o Japão. Os Estados Unidos preocuparam-se mais com o armamento militar adquirindo pota- aviões, submarinos e também com o desenvolvimento nuclear. A sua estratégia passou a ser mais de intervenção política e militar na resolução de conflitos. Com o colapso da União Soviética e o Fim da Guerra Fria tudo se modificou. A China com Xiaoping lançou em 1978 o seu programa das Quatro Modernizações. A Índia em 2014 ultrapassou o Japão tornando-se a terceira economia do Mundo e a China impôs-se como a maior economia do Mundo Para que o Ocidente não se autodestrua Kishore propõe uma estratégia dos três Emes: minimalista, multicultural e maquiavélica. Ou seja o Ocidente e particularmente os EUA devem intervir o mínimo possível. As grandes decisões devem ser tomadas com recurso à Organização das Nações Unidas ( ONU ). E finalmente o poder político tem de agir com astúcia e calculismo. E para este caso dá um exemplo. Se um general parte para uma batalha com um exército duas vezes superior ao seu adversário a sua estratégia tem de ser diferente da que irá utilizar se tiver de lutar com um exército duas vezes maior que o seu. Refere ainda que durante a Guerra Fria a CIA instigou a criação da Al-Quaeda para lutar contra a ocupação soviética do Afeganistão e que foi essa mesma organização que planeou o ataque ao World Center no dia 11 de Setembro de 2011. E acrescenta ainda que num esforço para depor Assad da liderança da Síria, a Administração Obama transferiu os combatentes do Daesh do Afeganistão para a Síria para lutarem contra as forças de Assad e que para garantir que os combatentes do Daesh tivessem fundos suficientes os EUA não bombardearam as zonas petrolíferas controladas por aquela organização desde a Síria até à Turquia. A principal ameaça para a Europa não vem a ser da Rússia mas do mundo migratório do Norte de África e do Médio Oriente. Para contrariar este efeito a solução seria incentivar o desenvolvimento económico do Norte de África. Para os EUA a principal ameaça vem da China e não do Irão. Quanto mais os EUA gastam em despesas militares menos eficazes serão a longo prazo para lidar com a muito forte economia chinesa. O comportamento estratégico dos EUA deve basear-se mais na inteligência e não nas bombas. No penúltimo capítulo Kishore propõe um Mundo Melhor para Americanos e Europeus. Na sua opinião as elites ocidentais fracassaram na preparação das suas populações para a inevitável “ destruição criadora “ originada pela aprovação da entrada da China Na Organização mundial do Comércio ( OMC ) em 2001. Estes problemas para ele podiam ser resolvidos e dá como exemplo a Suécia e Singapura que têm desenvolvido várias redes de Segurança Social para ajudar as classes trabalhadoras a lidarem com as disrupções da globalização. Segundo as estatísticas 63% dos cidadãos norte americanos não têm poupanças suficientes para cobrir uma situação de emergência de 500 dólares. E no entanto os EUA gastam biliões de dólares em guerras e porta-aviões desnecessários enquanto 200 milhões de norte americanos vivem com a corda ao pescoço. Também a Europa terá de efectuar ajustamentos estruturais para lidar com o renascido Resto do Mundo. O político Kishore Mahbutani termina o livro dizendo que a era de domínio Ocidental está a chegar ao fim. Adivinha-se um inevitável futuro conturbado se o Ocidente não se conseguir libertar dos seus impulsos intervencionista e enveredar pelo caminho isolacionista e protecionista. Este aviso acerta bem em Trump e em políticos de outros países da Europa como a Hungria e a Polónia Comentário: De uma maneira geral apreciei a análise que Kishore faz sobre o desenvolvimento político e económico dos países do Oriente e Médio Oriente e também da Europa e dos EUA ao longo de vários séculos. Tenho no entanto reparos a fazer sobre alguns assuntos que aborda e relativamente aos quais não estou inteiramente de acordo. Assim, Kishore lamenta que a Turquia ao pedir em 1987 a adesão à União Europeia não tenha até hoje sido aceite como estado-membro. Penso que a principal razão está no facto de este país não respeitar as leis do jogo democrático como a liberdade de expressão e a independência dos tribunais. Uma outra questão que o autor põe em causa foi” o lançamento da Política Agrícola Comum ( PAC ) em 1962 que contribui para o enriquecimento de agricultores europeus mas empobreceu milhares de agricultores africanos, principalmente do Norte de África. “ Aqui é preciso ter em conta que os imigrantes que chegam hoje à Europa do Norte de África são em grande parte refugiados de um guerra imposta pelos jiadistas muçulmanos. Finalmente quando Kishore diz que o Ocidente tem de usar uma estratégia maquiavélica está a usar uma expressão controversa e polémica. Para Maquiavel os fins justificam os meios ou seja tudo é permitido inclusive matar e sem ter em conta a moral e os princípios éticos. O Prof. Freitas do Amaral no seu livro “ História do Pensamento Plítico Ocidental “ diz o seguinte: “ uma coisa é a habilidade política que é necessário a qualquer governante, outra é crime a mentira e a fraude sempre condenáveis.” Para terminar diria que muitos políticos nos dias de hoje são corruptos e servem-se de todos os meio para se manterem no poder.

publicado por pontodemira às 21:21
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Sábado, 4 de Agosto de 2018

Como garantir a democracia e a esperança numa sociedade global

Estamos a viver numa época global em que as notícias correm céleres e os acontecimentos podem ser vistos no momento em que passam. As ideologias espalham-se rapidamente de uns países para os outros e vão deixando marcas. Os refugiados que fogem à guerra e às perseguições e os imigrantes que não têm condições para viver nos países de origem procuram refúgio e trabalho na Europa e até nos Estados Unidos da América. Surgem então partidos populistas, racistas e xenófobos a fechar as portas e as fronteiras às pessoas que precisam de ajuda e que são tratadas como animais. Algumas democracias degeneraram e passaram rapidamente para regimes autocráticos e ditatoriais. É o que está a acontecer na Hungria, na Polónia e na Turquia.
Num artigo publicado na revista “ Visão “ traduzido da Time magazine, o americano James Stavridis diz o seguinte : “ Os ditadores surgem porque os governos eleitos têm dificuldade em enfrentar novos desafios: migrações globais, avanços tecnológicos, terrorismo transnacional e instabilidade internacional. A maioria dos países mais industrializados do mundo continuam a ser constituídos por democracias sólidas designadamente o Japão, o Canadá, a França, a Austrália e a Alemanha “
A sociedade global tem coisas boas mas também aspectos negativos. É certo que tirou da pobreza extrema muitas pessoas em países como a China e a Índia. Este é o lado bom. Acontece porém que a deslocalização de algumas empresas para os países de mão de obra barata atirou para o desemprego noutros lugares milhares de trabalhadores. As democracias liberais capitalistas que têm em vista a maximização do lucro pouco se importam com a justa distribuição da riqueza e com o respeito pelos direitos humanos. As estatísticas mostram que mais de 80% da riqueza mundial está concentrada nas mãos de 1% da população. Uma pergunta que se impõe é esta: Haverá alguma esperança no futuro desta sociedade global ? Será que se pode fazer alguma coisa para a melhorar ?
Num livro que tinha na minha estante com o título “ Religiões no Mundo “ e que só agora li, o padre e teólogo Hans Kung diz o seguinte: “ Não há sobrevivência no mundo sem um etos mundial. A nova constelação mundial exige uma nova ordem mundial que não pode ser alcançada pelas nações se não contarem com o apoio das religiões. E acrescenta; “ As Nações Unidas muitas vezes criticada e mais vezes ainda ignorada e entregue à sua própria sorte, encontra-se diante de tarefas imensas neste milénio: a vertiginosa globalização da economia, tecnologia e média exige uma direcção global por uma política global. Mas uma política global precisa de estar fundamentada numa ética global, numa ética mundial que possa ser sustentada e vivida pelos homens de todas as culturas e religiões, por crentes e não crentes. O nosso globo encontra-se ameaçado a partir de dentro. Ele pode explodir. Mas o novo globo também pode voltar a ser são, mais pacífico, mais humano se as pessoas em vez de se ameaçarem e se combaterem, dialogarem umas com as outras, se tolerarem e se respeitarem mutuamente. E termina com uma visão realista de esperança:
“ Não haverá sobrevivência da humanidade sem paz entre as nações
Não existirá paz entre as nações sem paz entre as religiões
Nem paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. “
Resta saber se políticos como Trump, Puttin, Kim Jong-un, Herdogan serão capazes de entender estas verdades e de as pôr em prática.
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Terça-feira, 3 de Julho de 2018

Os grandes filósofos:Jean Paul Sartre

 

1-Jean paul Sartre nasceu em Paris em 21 de Junho de 1905. Era filho de Jean Baptiste Sartre e de Anne Marie Sartre. Jean Paul Sartre ficou órfão de pai quando tinha apenas 15 meses e então mudou-se com a mãe para casa dos avós maternos. Até aos 10 anos foi educado em casa pelo avô e por alguns preceptores contratados. Desde muito cedo começou a ter acesso a obras literárias pertencentes ao seu avô. Ganhou também interesse pelo cinema que frequentava com a sua mãe. Em 1917 a mãe casou novamente com Joseph Mancy que passou a ser cotutor de Sartre e vão viver para La Rochelle. Em 1933 candidatou-se a uma bolsa de estudo e foi viver para Berlim tendo estudado obras de Husserl e a filosofia de Heidegger.Em 1939 serviu como meteorologista na 2ª Guerra Mundial. Foi aprisionado pelos alemães e permaneceu na prisão até 1941. De volta a Paris aliou-se à Resistência Francesa. A partir de 1950 tornou-se activista político e defendeu a libertação da Argélia. Foi também defensor das ideias marxistas. Em 1964 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura que ele recusou. Morreu em 15 de Abril de 1980 em Paris.

2-Sartre foi escritor e filósofo. No livro “ As Palavras “ que é uma autobiografia, Sartre dá a conhecer a sua paixão pelos livros e o seu interesse precoce pela leitura e pela escrita. Mostra ainda o seu ateísmo quando diz “ o ateísmo é uma empresa de longo fôlego e creio tê-la levado ao fim”. Faz ainda revelações surpreendentes como : “ Quanto mais absurda é a vida, menos suportável é a morte.” E acrescenta ainda “ As ervas daninhas também crescem; é a prova de que se pode chegar a grande sem deixar de ser mau “.

No livro a “ Náusea “ dá-nos também indicações do seu existencialismo latente . É um romance em forma de diálogo em que Sartre incarna a personagem principal denominada Roquentin. É notório o seu pessimismo quando diz “ Não tinha o direito de existir. Tinha aparecido por acaso, existia por acaso, existia como uma pedra, uma planta, um micróbio. A minha vida crescia à sorte e em todos os sentidos. Não posso pensar que vou pensar. Existo porque penso. Agora sei : existo, o mundo existe. E é tudo. Mas é-me indiferente. O essencial é o contingente não é a necessidade.” E mais adiante, a farpa é dirigida a Deus : “ Nenhum ser necessário pode explicar a existência; a contingência não é nenhuma ilusão óptica, uma aparência que se possa dissipar ; é o absoluto e por conseguinte a gratuitidade perfeita “ E conclui dizendo : “ O mundo está presente em toda a parte, à frente, atrás. Não houve nada antes dele, não. Não houve mundo em que ele tivesse podido não existir “ Mas é no livro O Ser e o Nada” que Sartre desenvolve mais aprofundadamente o seu sistema filosófico e reflecte sobre o conceito ontológico da existência.

3- Edmund Husserl e Martin Heidegger tiveram uma importância relevante no desenvolvimento do pensamento filosófico de Sartre. Ao primeiro foi Sartre buscar a metodologia fenomenológica. Deste modo o real está naquilo que vemos ou experimentamos. Ficam de lado as ideias transcendentes à margem da experiência existencial. Tal como Heidegger também para Sartre a existência é uma característica fundamental do homem. Existir é estar no mundo e não existe nenhum ente superior a não ser o homem

As traves mestras do pensamento filosófico Sartriano são: a Existência, o Existencialismo e a Liberdade.

Existência Para Sartre viemos ao mundo sem saber quando, como, nem porquê. A existência é uma contingência, uma finitude. A contingência e a morte levam-nos ao absurdo da vida. Resta ao homem resistir e viver na compreensão desse absurdo. Roquentin uma personagem do livro a Náusea diz com angústia e desespero “ estamos aqui tantas pessoas a comer e a beber para conservar a nossa existência e não há nada, nenhuma razão para existir.” Para Sartre a existência precede- é anterior- à essência. O homem elabora ideias, essências , teorias no decorrer da sua existência.

Existencialismo. Da análise ontológica, ou real, das coisas do mundo Sartre chega a três conceitos fundamentais: o em si, o para si, e o para o outro.                                                                                        

O em si é o mundo de todas as coisas que existem. O ser é, o ser é o que é, o ser em si não tem consciência de si e do mundo

O ser para si é a consciência ou encontro da consciência com o puro em si. É a consciência humana mas não tem consciência definida.

O para o outro. Sartre não defende o solipsismo. Só através da relação com as outras pessoas o homem se consegue ver como parte do mundo. O ser para si só é para si através do Outro

Liberdade- Para Sartre o homem deve ter uma liberdade total sem atender a normas morais. Afirma também que somos responsáveis pelo passado, pelo presente e pelo futuro e que o homem está condenado a ser livre. Não nega o determinismo a que estamos sujeitos mas entende porém que somos o que queremos ser e o que escolhemos ser. Embora a liberdade do homem não esteja limitada por normas morais a verdade é que a sua liberdade não é absoluta. O homem não só é responsável pela sua estrita individualidade mas também por todos os homens. Deste modo na sua acção o homem deve ter um projecto, um compromisso solidário ( engagement) com outros homens. Esta forma de pensar só aconteceu mais tarde com a sua evolução política.

4- CONCLUSÃO

O existencialismo ateu de Sartre nega os princípios morais e os dogmas da Igreja. Numa conferência que deu intitulada “ O existencialismo é um humanismo “ refere que o existencialismo não pode ser refúgio para o ódio, a violência e o escândalo. Pode haver uma moral laica em que os valores existam sem necessidade da existência de Deus” . De qualquer forma Sartre é um filósofo excessivamente individualista e tem na sua base uma concepção hedonista da vida que se pode resumir na frase ( profiter de la vie ) , aproveitar-se da vida, gozar o mundo que se pode, numa vida sem sentido.

 

 

publicado por pontodemira às 09:45
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Terça-feira, 12 de Junho de 2018

Eutanásia: Ética e Liberdade

 

1-A eutanásia é um assunto polémico: uns apoiam-na veementemente e outros repudiam-na sem reticências. Recentemente foi posta à votação na Assembleia da República e não passou. Assuntos como este em que estão em causa valores éticos não podem ser decididos levianamente nem sequer, esta é a minha posição pessoal, postos à votação ou submetidos a referendo. Para mim a eutanásia envolve duas situações emergentes de grau diverso: a eutanásia passiva e a eutanásia activa. No primeiro caso temos um doente que está a ser mantido vivo através de uma máquina ou em que há uma morte cerebral e a impossibilidade de sobreviver. Nesta situação não reputo que seja grave desligar a máquina ou suspender o tratamento. No segundo caso temos um doente que está a sofrer e que pede ao médico para lhe injectar um medicamento letal e que ponha termo à sua existência. Aqui, há que recorrer a tratamentos paliativos que evitem o sofrimento e não acabem com a vida do paciente mesmo que este pessoalmente o peça.

2-Para católicos ou crentes a vida é um dom de Deus e por isso não somos senhores nem donos dela. O 5º mandamento é taxativo quando diz “ Não matarás “. Mas, mesmo para os não crentes, há valores e direitos inalienáveis e invioláveis que dizem respeito à dignidade humana e que são ou deveriam ser respeitados por todos. Por isso custa a aceitar que um médico cuja deontologia profissional exige que trate, cure ou prolongue a vida a um doente aceite um pedido para pôr termo à vida de uma pessoa que está a sofrer. O Padre e Professor de Filosofia, Anselmo Borges,num artigo publicado no Diário de Notícias de 25-08-2018 diz o seguinte, e passo a transcrever: “Se a eutanásia fosse aprovada ficaria em vigor uma lei que concede o direito de pedi-la e o Estado teria mais um dever: concretizar esse direito, nos casos aceites, matando. E não se fuja às palavras, pois é de homicídio que se trata.” Mais à frente acrescenta “ Nos países onde ela foi aprovada, Holanda e Bélgica chegou-se ao ponto de praticar a eutanásia em crianças e a um casal de idosos que não queria ser um fardo para a família “

3-É certo que o homem é livre mas a liberdade tem limites e não se podem pôr em jogo valores aceites pela maioria da sociedade. Nos tempos que correm vale tudo e mais alguma coisa. Tudo é admissível e não há tabus. O aborto para alguns até pode ser feito em qualquer circunstância e sem olhar para o tempo de gestação. As barrigas de aluguer podem se bem lhes apetecer, em segredo, fazer negócio com o seu corpo e quem pede, não olha a meios para atingir os fins. No que diz respeito à eutanásia o tempo dirá se ficamos por aqui ou se iremos mais longe deitando por terra normas e princípios que deviam ser respeitados.

                                                                                                                               

publicado por pontodemira às 21:56
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Domingo, 22 de Abril de 2018

Fanatismo e fundamentalismo político e religioso

1-Num texto que escrevi recentemente abordei a evolução da democracia desde a Antiguidade Clássica até aos nossos dias. Resumindo direi que a democracia nasceu na Grécia no século V.a.c. Os cidadãos reuniam-se na Assembleia ou Eclesia que tinha poderes legislativos e podia decidir da paz e da guerra. Só que nem todos eram considerados cidadãos. Deste número eram excluídos os escravos, as mulheres e os estrangeiros ( metecos). Tínhamos aqui uma democracia directa.

Durante a Idade Média o regime político predominante era a monarquia absoluta. Todo o poder pertencia exclusivamente ao Rei. Na Inglaterra no século XIII foi proclamada a Magna Carta que pôs um travão ao poder discricionário do Rei e impôs as seguintes restrições: “ Nenhum homem livre poderá ser detido, preso, declarado fora da Lei, exilado ou punido de qualquer outra forma sem primeiro ser julgado pelos seus pares segundo as normas do reino “ A Carta declarava ainda que “ o suserano não seria autorizado a lançar impostos além daqueles há muito considerados legais, sem a aprovação do Grande Conselho composto por vassalos do Rei e pelos dignitários eclesiásticos” Essa assembleia recebeu depois o nome de Parlamento.

Em 1789 com a Revolução Francesa abriu-se o caminho para a democracia ao reconhecer a trilogia: liberdade, igualdade e fraternidade. Com a Declaração da Independência dos EUA em 1776 surge a Constituição democrática de 1789 na qual já aparece a separação de poderes.

Com o fim da 1º Grande Guerra Mundial dá-se a dissolução do Império Otomano e Austro-Húngaro e a grande depressão de 1920 faz com que muitos países da Europa, América Latina e Ásia se tornassem regimes autoritários. O fascismo instalou-se e ditaduras floresceram na Alemanha nazista, Itália, Espanha e Portugal. Com o fim da 2ª Grande Guerra Mundial houve uma reversão destes regimes e a democratização da Áustria, Itália e Japão. A Rússia e uma grande parte da Alemanha ficaram sob o domínio do bloco soviético e regimes não democráticos surgiram nos Balcãs, Brasil, Cuba e China. Com o colapso da União soviética e o fim da Guerra Fria seguiu-se a democratização e a liberalização dos antigos países do bloco soviético.

2-Depois de décadas a ganhar terreno a democracia entrou em regressão em países chamados democráticos.

A Revista “ Visão “ de 05-08-2018 , num artigo que tem por título Orbán e companhia Ilimitada põe em relevo o fanatismo e fundamentalismo político e religioso de alguns caudilhos e autocratas que governam o Mundo. Os países que foram objecto de análise são os seguintes: Turquia, Índia, Singapura, Malta, Eslováquia, Hungria, Rússia, China, Filipinas e atá os EUA. E passo a transcrever algumas passagens curiosas que definem bem o perfil desses políticos.

Turquia- A Diyanet emitiu em Fevereiro uma fatwa ( decreto para os fiéis ) a explicar que só os demónios comem e bebem com a mão esquerda. Desde que Erdogan tomou o poder, os canais públicos proíbem centenas de canções pop por serem “imorais”. No AKT partido do poder há dirigentes a garantirem que a “ Terra é plana “ e que quem julga o contrário está a deixar-se enganar por teorias franco-maçónicas ou por imagens forjadas pela NASA.

Índia- O primeiro ministro Narenda Modi põe em causa a teoria evolucionista de Charles Darwin e questiona o valor histórico do Tag Mahal classificado como património Mundial da Humanidade pois considera-o um símbolo islâmico. Por outo lado também não considera crime se as milícias hindus matarem quem comer ou comercializar carne de vaca.

Singapura-Acaba de aprovar um pacote legislativo que permite neutralizar qualquer protesto e bloquear todas as comunicações electrónicas da Cidade-Estado

Malta e Eslováquia assistiram ao implacável assassínio de jornalistas que investigaram esquemas de corrupção que alegadamente envolviam os respectivos primeiro -ministros

Hungria -Vítor Órbán assumiu-se como um dirigente messiânico. E neste aspectro está acompanhado por outros dirigentes políticos como Xi Jiping, Vladimir Putin Sisi e Donald Trump. Todos eles têm um discurso “nacional-populista.”

 

Estes são os políticos que temos e que dirigem países importantes como os EUA, China e Rússia. O nacional populismo, o nacionalismo identitário, a demagogia está a dominar determinados dirigentes políticos e a transformar democracias em regimes fascistas , autoritários e ditatoriais.

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Sexta-feira, 16 de Março de 2018

Análise crítica ao livro: Sapiens-Breve História da Humanidade

 

Análise crítica ao livro:Sapiens-História breve da Humanidade

Como já referi anteriormente este livro foi escrito pelo historiador Yuval Noah Harari, professor na Universidade Hebraica de Jerusalém. O tema foi desenvolvido com amplitude e profundidade recorrendo entre outros aos seguintes recursos: paleontologia, antropologia e sociologia. Há casos em que faz enquadramentos políticos e referências depreciativas a religiões e de modo particular ao cristianismo. Relativamente ao cristianismo escolhi algumas citações que passo a transcrever e a comentar:

1-“Como é que Armand Peugeot criou a empresa Peugeot? Da mesma forma que os sacerdotes e feiticeiros criaram deuses e demónios ao longo da história e que milhares de párocos franceses da época continuavam a criar o corpo de Cristo todos os domingos nas igrejas….. se um sacerdote católico envergando as suas vestes sagradas proferisse, de forma solene as palavras adequadas então o pão e o vinho ( abracadabra ) transformava-se no corpo e sangue de Cristo.( pag 45)”

A consagração que os sacerdotes fazem na missa, do pão e do vinho, é uma repetição do que Jesus fez na última ceia. Jesus partiu o pão e deu-o a comer aos seus discípulos dizendo: Tomai e comei isto é o meu corpo. Depois pegou no cálice e deu a beber o vinho aos discípulos dizendo: Tomai e bebei este é o meu sangue. Fazei isto em minha memória. Claro que não há nenhum abracadabra como ironicamente diz Harari. A transubstanciação é matéria de fé tal como é tudo que se relaciona com o transcendente. Por outro lado, misturar sacerdotes com feiticeiros é algo de ridículo que deixa ficar mal um historiador.

2-“ A cultura tende a afirmar que apenas proíbe o que não é natural. No entanto, de uma perspectiva biológica, nada há que não seja natural. O que for possível também é por definição natural….. Na verdade, os nossos conceitos de “ natural “ e de “ não natural “ não provêm da biologia, mas da teologia cristã . “ ( pag.179 )

Dizer que tudo o que é possível é natural não me parece correcto. É possível que alguém roube ou mate outra pessoa, que alguém seja pedófilo mas não me parece que tais comportamentos se possam classificar de naturais. Convém também esclarecer que uma grande parte de preceitos éticos têm origem no cristianismo. Mas esses preceitos não deixam de ser válidos e aceites por pessoas de outras religiões e até por não crentes.

3-..” A discórdia nos nossos pensamentos, ideias e valores nos obriga a pensar, a reavaliar e a criticar. A coerência é apanágio das mentes obtusas “ pag 200)

A coerência tem outro significado . Não é apanágio das mentes obtusas mas de todos os que agem em conformidade com o que dizem e pensam.

4-Os seguidores de Cristo e os de Alá mataram-se uns aos outros aos milhares, devastaram campos e pomares e transformaram cidades prósperas em ruinas fumegantes-tudo pela glória de Cristo ou de Alá. “( pag 209)

Concordo que durante longos períodos da História tanto cristãos como muçulmanos cometerem atrocidades. No que diz respeito aos cristãos há a referir o período negro das cruzadas e do Tribunal da Inquisição que mataram milhares de vítimas inocentes. Mas os cristãos que cometeram tais crueldades, de cristãos só tinham o nome e estavam precisamente nos antípodas do que Jesus ensinou e pregou. Harari esqueceu-se de mencionar os mártires que nos primeiros séculos do cristianismo morreram porque não tiveram medo de divulgar o Evangelho. Também Jesus morreu crucificado por dizer a verdade que não agradava à classe religiosa judaica. Como judeu Harari esquceu-se deste pormenor.

5-“No Norte da Península Ibérica em meados do sec. II a.c. era habitada pelos celtas nativos da península. Uma pequena e insignificante cidade de montanha chamada Numância atrevera-se a recusar o jugo romano. Quando os numantinos compreenderam que toda a esperança estava perdida, incendiaram a cidade e a maior parte suicidou-se para não se tornarem escravos de Roma. “ E daqui Harari parte para dizer que “ Os patriotas espanhóis que admiram o heroismo de Numância tendem a ser leais seguidores da Igreja Católica Apostólica Romana- uma Igreja cujo líder se senta em Roma e cujo Deus prefere ser abordado em latim “ ( pag226 )

O que aconteceu em Numância tem a ver com a política expansionista do império romano da altura e não com o Papa e com a Igreja Católica que estava ainda em formação. Por outro lado Deus não prefere nenhuma língua em particular e o latim hoje praticamente só é usado em cerimónias especiais. Se Deus preferisse ser abordado em latim então estaria a ouvir poucas pessoas.

6- “Assim nasceram as religiões monoteístas, cujos seguidores apelam ao poder supremo do Universo para os curar de doenças, ganhar o euromilhões e alcançar a vitória na guerra. “ (pag 256 )

Pedir a Deus pela Paz no Mundo é diferente de pedir a vitória numa guerra. Se alguém pedir a Deus a cura para uma determinada doença não vejo nenhum mal nisso. Se uma pessoa tem uma doença incurável e foi curada é natural que tenha sido atendida por Deus se a Ele recorreu com fé. Pedir a Deus para ganhar o Euromilhões essa só pode vir de um louco. O Evangelho é bem claro quando diz “ É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino do Céu. Procurai primeiro o Reino de Deus e tudo o mais virá por acréscimo. “

7- “ O cristianismo desenvolveu o seu próprio panteão de santos, cujos cultos pouco diferem de veneração dos deuses politeístas “

Os santos para os cristãos não são deuses mas intermediários entre os homens e Deus. Os Santos podem ser venerados mas não adorados pois a adoração só pode ser feita a Deus. Os cristãos não desenvolveram nenhum panteão de santos. Para que alguém se possa considerar Santo é necessário que outras pessoas ( médicos ) sejam testemunhas de um acontecimento extraordinário que não possa ser justificado pela ciência e esteja na origem da cura de determinada doença.

8- “ Os cristãos começaram a organizar actividades missionárias alargadas, dirigidas a todos os seres humanos. Numa das mais estranhas reviravoltas da história, esta seita judaica esotérica apoderou-se do poderoso Império Romano “

Os cristãos que organizaram actividades missionárias estavam a cumprir o que jesus Cristo lhes pediu :” Ide por toda a parte e divulgai o Evangelho. Para os judeus Israel era o Povo eleito de Deus. Mas para Jesus não havia distinção entre judeus, gregos, romanos, homens livres, escravos, homens e mulheres. E foi S.Paulo que abriu o caminho para a universalização do cristianismo. O cristianismo não é hoje uma seita esotérica mas a maior religião do mundo. Aos pequenos agrupamentos religiosos nascidos do cristianismo como os luteranos, os anglicanos, os adventistas, etc é que podemos designar como seitas. ( pag .257)

9- “ Como os monoteístas acreditam, que estão por norma na posse de toda a mensagem do Deus único, têm sido levados a desacreditar as outras religiões “(pag257)

Todos os que acreditam em Deus estão na posse da verdade. Mas ninguém tem a posse da verdade absoluta. O caminho para chegar a Deus é que pode variar.

10- “ A teologia monoteísta tende a negar a existência de todos os deuses, com excepção do Deus Supremo e a lançar no fogo do inferno todos os que os adoram “ (pag258 )

É lógico e evidente que uma religião monoteísta só admite a existência de um só Deus. Quanto ao fogo do inferno o que podemos dizer é que Deus é compassivo, cheio de misericórdia e sempre pronto a perdoar desde que as pessoas mostrem arrependimento. É claro que nenhum pai fica satisfeito com as asneiras que um filho faz. Jesus no alto da cruz e antes de morrer exclamou: “Pai perdoai-lhes que eles não sabem o que fazem “ Ninguém sabe o que vai ser no juízo final. Pessoalmente penso que os que levaram uma vida de pecado se manifestarem arrependimento serão perdoados.

 

11-“Quando Bem e Mal lutam, a que leis comuns obedecem e quem decretou essas leis?” ( pag. 260 )

Para as teorias dualistas existem dois deuses: o do Bem e o do Mal- Os homens terão que escolher de que lado ficam. Os cristãos têm um único Deus e capacidade para distinguir o que é Bem e agrada a Deus e o que é Mal e por isso não deve ser praticado.

12-“Os monoteístas são bons a explicar o Problema da Ordem, mas não o problema do Mal. Existe uma forma lógica de resolver o quebra-cabeças: argumentar que existe um Deus omnipotente que criou o Universo…e que é um Deus mau. No entanto, ainda não apareceu ninguém com coragem para propalar tal crença. “ (pag 261 )

Quando se fala de Mal é preciso distinguir entre mal físico provocado por uma doença ou o mal resultado de uma calúnia ou injúria. No primeiro caso é preciso compreender que nós somos seres limitados e finitos e que mais tarde ou mais cedo iremos morrer. O sofrimento provocado por outra pessoa poderia ser evitado se essa pessoa tivesse outro tipo de comportamento. Outra questão que se coloca é o mal provocado por um terramoto, furacão, tempestade, etc. Para que esta situação não acontecesse era necessário um mundo perfeito e essa perfeição pertence Deus . Para podermos usufruir as maravilhas do nosso planeta é necessário também ter em conta as contrariedades que podem acontecer. Há também quem ponha em causa a omnisciência de Deus. Se Deus conhece antecipadamente tudo o que vai acontecer não irá deste modo determinar as acções humanas? Deus não é a causa dos nossos actos pois se isso sucedesse estaria em causa o livre-arbítrio e a nossa liberdade. Não há por isso qualquer incompatibilidade entre os principais atributos de Deus: omnipotência, omnisciência e bondade.

13- “Os cientistas que estudam o funcionamento do organismo humano não encontram alma alguma. “ ( pag 277)

Toda a gente sabe que no homem há duas partes distintas: uma mais objectiva que tem a ver com o corpo e outra mais subjectiva que podemos relacionar com o psiquismo, com o espírito com a consciência moral. Seguindo a terminologia de Descartes diríamos que o corpo é a “res extensa” e o espírito a “res cogitans”.Só que estas duas realidades estão separadas. Mais tarde criou a” cogitatio” e esta realidade já não pode existir sem o corpo. Do ponto de vista metafísico há duas realidades: o corpo ou matéria de um lado a forma ,substância ou essência do outro lado que são imateriais. O espírito é pois a essência do corpo. Para a religião a alma está relacionada com a parte imaterial, com o espírito e por isso não desaparece com a morte do corpo. Para quem crê em Deus a vida não desaparece com a morte do corpo e não acaba no nada. Se isso acontecesse a vida não teria qualquer sentido. As pessoas que foram vítimas de injustiça neste mundo ficariam em pé de igualdade com criminosos e assassinos. Mas tudo isto é matéria de fé. Se eu não posso demonstrar que a alma existe e é imortal, o sábio e intelectual Harari também não pode provar o contrário. Quando Harari diz que ninguém viu a alma eu diria também que ninguém viu a consciência, a inteligência racional e no entanto sabemos que elas existem.

14-“Pouco antes da crucificação, uma mulher ungiu Cristo com um óleo precioso que valia 300 denários. Os discípulos de Jesus censuraram a mulher por ter desperdiçado tão grande soma em vez de a dar aos pobres, mas Jesus defendeu-a dizendo: Na verdade sempre tereis os pobres convosco e, quando quiserdes podereis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre tereis (Marcos,14-7). Hoje em dia, cada vez menos pessoas, incluindo cada vez menos cristãos, concordam com Jesus em relação a esta questão”.(pag311)

Harari é tendencioso nas análises que faz. Jesus sempre esteve ao lado dos pobres e desprotegidos. No episódio que Marcos relata Jesus não está a fazer o elogio da loucura ou do desperdício do dinheiro mas a louvar o gesto de reconhecimento de uma mulher que se desprendeu do melhor que tinha para o homenagear. Convém esclarecer que segundo o Evangelista S.João essa mulher chamava-se Maria e era irmã de Marta e de Lázaro o homem que foi arrancado do leito da morte por Jesus. Tem todo o sentido a alegria desta mulher e a sua gratidão sem limites. Seria humilhante para ela se Jesus a censurasse ou recusasse o seu gesto de gratidão.

15- “ A beleza da teoria de Darwin é que não precisa de presumir a presença de um criador inteligente para explicar como as girafas acabam por ficar com pescoços compridos” ( pag 463 )

Outro erro crasso de Harari. A Igreja hoje não põe em causa a teoria da evolução de Darwin. Não há qualquer incompatibilidade entre a Ciência e a Religião. O mundo nasceu como já se disse de uma explosão, de um Big-bang. Mas de quem partiu esse Big Bang. Se tudo saiu do Nada podemos também perguntar: E o Nada de onde veio? Como é que o Mundo sendo regido por leis de uma grande complexidade pode resultar do Nada. Tem que haver uma grande inteligência que oriente o Big bang inicial para uma evolução com determinado fim, ou seja, para o aparecimento de seres cada vez mais aperfeiçoados e complexos até chegar ao homem actual. O Génesis que relata a criação do Mundo e do homem em sete dias é hoje entendido pela Igreja como um mito que foi escrito por um autor que na sua época não tinha os conhecimentos que a ciência hoje nos revela. O que ele quis mostrar foi que por trás da criação esteve o dedo de Deus. E vou terminar com duas frases do cientista e físico Einstein: “ Sem Deus o mundo não é explicado satisfatoriamente. Quanto mais me aprofundo na Ciência mais me aproximo de Deus “

 

 

 

 

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Segunda-feira, 5 de Março de 2018

Sapiens: Breve História da Humanidade

Este é o título de um livro escrito pelo historiador Yuval Noah Harari, professor de História do Mundo na Universidade Hebraica de Jerusalém. É um texto interessante e muito bem escrito que descreve de forma exaustiva a História da Humanidade até aos nossos dias. É difícil fazer uma síntese de 486 páginas. De qualquer forma vou tentar fazer um esboço do mais importante.

Logo na primeira página o historiador diz que o Universo começou com um Big Bang há 13,5 mil milhões de anos e 300 000 anos depois a energia começou a fundir-se e a formar átomos e moléculas. Há 3,8 mil milhões de anos formaram-se estruturas mais complexas chamadas organismos. Os biólogos classificam os organismos em espécies, géneros e famílias. O homem pertence à espécie Sapiens (sábio ), ao género Homo( homem) e à família dos Símios. Os nossos parentes mais próximos são os chimpanzés, gorilas e orangotangos sendo os chimpanzés os mais próximos. Para o historiador Yuval Noah Harari a História do Homo Sapiens divide-se em 3 grandes períodos: Revolução Cognitiva ( há cerca 70 000 anos ), Revolução Agrícola (há cera de 12 000 anos ) e Revolução Industrial ( há cerca de 500 anos )

Revolução Cognitiva

Os seres humanos evoluíram inicialmente na África Oriental há cerca de 2,5 milhões de anos a partir do género anterior de símios chamados Australopitecos. Há cerca de 2 milhões de anos alguns desses homens e mulheres deixaram a terra natal e viajaram para o Norte de África, Europa e Ásia. Os humanos da Europa e Ásia Ocidental evoluíram para o Homo Neanderthalensis ( Homem do Vale neander. Nas regiões mais orientais da Ásia foram povoadas pelo Homo Erectus. Na ilha de Java Indonésia o Homo Soloensis ( Vale do Sul ) , na ilha das Flores o Homo florensis ( anões ) . Na gruta de Denisova na Sibéria encontrou-se outra espécie o Homo denisova.. Mas a evolução na África Oriental não parou e apareceram espécies novas : Homo Rudolfensis ( lago Rodolfo), o Homo Ergaster ( homem trabalhador ) e por fim o Homo Sapiens ( homem sábio ). Quando o Sapien chegou à Europa e ao Médio Oriente encontrou os Neandertais. O que terá então acontecido ? Para uns terá havido um cruzamento de espécies ( Teoria do Cruzamento). Para outros os seres humanos tinham anatomias diferentes e por isso não houve cruzamento ( Teoria da Substituição ). As duas populações continuaram separadas e os Neandertais acabaram por se extinguir ou serem mortos. Antes da Revolução cognitiva todas as espécies humanas viviam na região Afro-Asiática. A seguir o Sapiens adquiriu a tecnologia, as habilidades de organização e a visão necessária para se estabelecer no mundo exterior. O primeiro feito foi a colonização da Austrália há cerca de 45 000 anos. Por volta de 10 000 anos antes .de Cristo os seres humanos já viviam no porto mais a sul da América, a ilha da Terra do Fogo. Por volta de 12 000 a.c o aquecimento global derreteu o gelo e abriu uma passagem mais fácil de transpor entre o Alasca e o resto da América. O Homo Sapiens levou à extinção para metade de animais de grande porte do planeta.

Revolução Agrícola

Há cerca de 10 000 começou a Revolução Agrícola. O homem começou a deitar a sementes à terra, a regar, a arrancar as ervas daninhas e a conduzir ovelhas para melhores pastos. Passou assim de uma vida nómada para uma vida sedentária. O cultivo do trigo garantiu mais comida por unidade de trabalho. Aprendeu a domesticar os animais e a utilizá-los no cultivo das terras. À medida que os dados de informação ia aumentando o homem verificou que o cérebro não tinha capacidade para os registar. Os sumérios inventaram um tipo de escrita que lhes permitia converter números em símbolos. Os Egípcios inventaram um sistema de escrita completa através de hieróglifos. Os mesopotâmios criaram também um sistema de escrita completa a que se chamou cuneiforme. No século IX começou a desenvolver-se a linguagem matemática e apareceu a numeração árabe com 10 símbolos. Mais tarde apareceram outros símbolos acrescentados aos números árabes como os sinais de adição, subtração, multiplicação e divisão.

Com a vida sedentária levantou-se a questão de saber como é que os grandes grupos se organizavam. A ordem era mantida através de hierarquias. Havia chefes e subordinados, plebeus e escravos, brancos e negros e até a distinção entre homens e mulheres. Na Índia ainda hoje existem castas e diferenças sociopolíticas entre brâmanes( sacerdotes ) e shudras ( criados). No século XVI a exploração do ouro, diamantes e do açúcar no Brasil levou ao comércio e tráfico de escravos que eram sujeitos a condições desumanas. Na Revolução Agrícola a maior parte das sociedades são patriarcais e valorizam mais os homens do que as mulheres. O primeiro milénio antes de Cristo testemunhou o aparecimento de 3 ordens potencialmente universais: a ordem monetária, a ordem imperial e a ordem das religiões: budismo, cristianismo e islão. O aparecimento do dinheiro facilitou as relações comerciais entre povos e comunidades e permitiu às pessoas comprarem rápida e facilmente o valor dos diferentes bens e também armazenar riqueza. Os impérios agregaram povos distintos e tinham fronteiras flexíveis. As religiões assentam numa ordem sobre-Humana com normas e valores vinculativos. No primeiro milénio antes de Cristo na região Afro-Asiática alastraram religiões como o budismo na Índia e o taoismo e o confucionismo na China. A figura central do budismo não era Deus mas Sidharta Gautana. Depois de 6 anos de meditação compreendeu que que o sofrimento não é provocado pela má sorte, pela injustiça social ou pelos caprichos divinos. O sofrimento é provocado pelos padrões comportamentais da nossa mente. Não devemos ficar presos pela tristeza nem pela alegria e evitar os desejos. Se conseguirmos este objectivo atingimos a nirvana ( extinção do fogo) e somos libertados de todo o sofrimento. No primeiro milénio depois de Cristo a maior parte da Europa, da Ásia Ocidental e Norte de África eram monoteístas. Havia também religiões dualistas que assentam na existência de dois deuses um bom e outro mal que estavam em luta permanente .Esta religião teve como profeta Zoroastro ( Zaratrusta) e tornou-se a religião oficial do Império persa sassânido. Havia ainda duas outras seitas religiosas como os maniqueístas e os gnósticos que admitiam que o Deus Bom criou o espírito e a alma e o Deus Mau criou a matéria e o corpo. Os últimos 300 anos foram retratados como uma época de crescente secularismo, As novas religiões são agora o liberalismo, o comunismo, o capitalismo, o nacionalismo e o nazismo. Estas doutrinas são designadas por ideologias. O nazismo dado o seu carácter racista foi a ideologia que mais desrespeitou os direitos humanos e levou a cabo extermínios inqualificáveis.

Revolução industrial e científica

Que potencial desenvolveu a Europa no início deste período? A esta pergunta responde Yuval Noah Harari: há duas respostas complementares: a ciência e o capitalismo. Nos séculos XVIII e XIX quase todas as expedições militares importantes que deixaram a Europa rumo a terras distantes levavam a bordo cientistas. Durante os séculos XV e XVI os europeus começaram a desenhar mapas-mundi com muitos espaços vazios. Se queriam de facto controlar os vastos territórios tinham de reunir uma enorme quantidade de dados sobre geografia, o clima, a flora, a fauna, as línguas, as culturas e a história dos territórios que descobriam. Sem o apoio imperial é duvidoso que a ciência moderna tivesse progredido muito.

Um outro factor a ter em conta foi o credo capitalista. O dinheiro tem sido essencial tanto para construir impérios como para promover a ciência. Década após década a Europa Ocidental assistiu ao desenvolvimento de um sofisticado sistema financeiro capaz de oferecer grandes somas e crédito rápido que colocava à disposição de empreendedores privados e governantes. Os financiadores concederam aos holandeses crédito suficiente para criarem exército e frotas os quais lhe deram o controle das rotas e do comércio mundiais. E foram os mercadores holandeses e não o Estado Holandês que construiu o Império Holandês. As primeiras colónias inglesas na América foram estabelecidas no início do seculo XVIII através de sociedades por acções.

Entre os séculos XVI e XIX foram importados para a América 10 milhões de escravos africanos para plantações de açúcar. Empresas privadas de tráfico de escravos vendiam as suas acções nos mercados bolsistas de Amsterdão, Londres e Paris. As empresas compravam navios, contratavam marinheiros e soldados, compravam escravos em África e transportavam-nos para a América. O século XIX não trouxe consigo qualquer melhoria em termos de ética do capitalismo. A Revolução Industrial que venceu a Europa enriqueceu banqueiros e os donos do capital, mas condenou milhões de trabalhadores a uma vida de pobreza abjecta. A revolução industrial foi acima de tudo uma revolução Agrícola. A industrialização da agricultura permitiu que não fossem precisas tantas pessoas a trabalhar no campo. À medida que o consumismo aumentou   foi preciso melhorar as técnicas de trabalho utilizando novas   sementes e novas plantas. A revolução científica e industrial deram à humanidade poderes sobre-humanos e energia quase ilimitada A ordem social, a ordem política foram completamente transformadas bem como a vida quotidiana e a psicologia humana. Os nacionalistas acreditam que a autodeterminação política é essencial para a felicidade. Os comunistas postulam que toda a gente seria extremamente feliz sob uma ditadura do proletariado. Os capitalistas sustentam que apenas o mercado livre consegue assegurar a maior felicidade do maior número possível de pessoas. Na Revolução Agrícola nem tudo foram rosas. Os camponeses tiveram de trabalhar mais arduamente do que os recolectores para arrancar à terra os alimentos que precisavam. A disseminação dos impérios europeus aumentou imenso o poder colectivo da humanidade graças à circulação de ideias, tecnologias e colheitas e ao estabelecimento de novas vias de comércio. No entanto não foram boas notícias para milhões de africanos, nativos americanos e aborígenes australianos. Filósofos, sacerdotes e poetas têm-se debruçado sobre a natureza da felicidade durante milénios e muitos concluíram que os factores sociais, éticos e espirituais têm um impacto na nossa felicidade tão grande como as condições materiais. Descobriu-se que a felicidade não depende apenas de condições objectivas mas da inter-relação entre estas e as expectativas subjectivas.Os mecanismos bioquímicos podem também ter influência na felicidade. As pessoas que nascem com uma bioquímica cheia de vida podem ser felizes mesmo nas piores situações. Os que nascem com um bioquímica melancólica podem ser infelizes mesmo que ganhem milhões na lotaria. Para outros a felicidade consiste e entenderem a vida como um todo, como sendo algo significativo que vale a pena.

Os dois últimos capítulos do livro têm por tema: O fim do Homo Sapiens e O Animal que se tornou Deus. O historiador refere que os activistas dos direitos humanos receiam que a engenharia genética possa ser utilizada para criar super-homens que façam de todos nós seus escravos. Admite ainda que a engenharia genética e outras forças de engenharia biológica possam levar-nos a realizar alterações profundas a todos os níveis e que a Segunda Revolução cognitiva poderá criar um tipo de consciência completamente novo e transformar o Homo Sapiens em algo completamente diferente. As objecções éticas e políticas não irão travar a investigação. Se por hipótese for descoberto um medicamento que trave a doença de Alzheimer e esse medicamento possa melhorar a memória de pessoas saudáveis nenhuma autoridade o irá limitar apenas a doentes de Alzheimer. Acrescenta ainda que brincar com os nossos genes não vai necessariamente matar-nos mas poderá alterar o o Homo Sapiens de tal forma que deixaríamos de sê-lo. Diz ainda que a próxima fase da História inclui não só transformações tecnológicas e organizacionais como também transformações na consciência e na identidade humana. O Homo Sapiens está hoje a tornar-se um deus, preparado não só para adquirir a juventude eterna mas também as capacidades divinas da criação e da destruição. A seguir levanta algumas dúvidas. Mas terá diminuído o sofrimento do Mundo ? Muito do que se conseguiu implicou o sofrimento humano e também de animais. Há animais que estão a desaparecer e outros que já se extinguiram. Ninguém sabe para onde vamos e os seres humanos parecem mais irresponsáveis que nunca. Estamos a espalhar o caos sobre os nossos companheiros animais e o ecossistema envolvente. E para terminar ocorre-me também a mim fazer uma pergunta.Será que as grandes potências não poderão de um momento para o outro desencadear uma guerra nuclear capaz de pôr termo ao Universo em que vivemos ?

 

 

 

 

 

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Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2018

Três realidades distintas a exigirem soluções rápidas

 

1-Portugal é um país que felizmente não tem sido fustigado por tornados, abalos sísmicos de grandes dimensões. Mas temos outras realidades que igualmente nos devem preocupar e já provocaram vítimas e sofrimento a muitas pessoas. Refiro-me aos incêndios florestais, aos surtos de legionela e à poluição da água do rio Tejo. São problemas que não são de agora e se vêm arrastando e agravando de ano para ano. É necessário encontrar soluções rápidas por forma a evitar mais sofrimento.

2-Uma grande parte dos incêndios florestais têm na sua origem mãos criminosas. Impõe-se portanto uma maior vigilância das florestas e de pessoal que o faça a tempo inteiro durante todo o ano. A desertificação do interior do país leva ao abandono dos pinhais que deveriam ser limpos para evitar incêndios. Sendo assim, compete ao Estado e às autarquias formar equipas de sapadores que se encarreguem exclusivamente deste trabalho ao longo do ano. É necessário que os bombeiros tenham uma preparação específica para combater este tipo de incêndios e que também sejam fcalizadas e cumpridas as normas respeitantes à limpeza das bermas das estradas e da periferia das povoações. Só através destas medidas se poderão diminuir o número de incêndios e evitar que estes se propaguem de forma rápida e avassalador. Portugal é o país da União Europeia com mais área ardida e mais ocorrência de incêndios florestais calculando-se que já tenham ardido 520 mil hectares de floresta.

3-Também os surtos de legionela se vêm repetido com o tempo. Desde 2014 que já se registaram pelo menos três surtos pela seguinte ordem: Vila Franca de Xira,Hospital de Sâo Francisco de Xavier e Hospital da CUF. Pelo que li no jornal electónico “ Observador “ o Governo já elaborou uma lei que “ determina obrigações e sanções diferenciadas consoante o grau de risco de propagação de bactérias e de infecção e das características dos equipamentos como torres de arrefecimento de sistemas de climatização sendo aplicável a todos os sectores de actividade públicos e privados incluindo fábricas, escritórios, centros comerciais, hospitais, escolas e hotéis. Diz ainda a lei que “ o registo obrigatório das torres de refrigeração, em potenciais focos de disseminação da bactéria, terá de ser feito numa plataforma digital a ser criada para esse efeito. “ .Isto é já um bom começo. Não sei se a lei já foi aprovada e se já entrou em vigor. Mas não basta legislar pois é preciso verificar através de inspecções periódicas se as normas estão a ser cumpridas. Também nos incêndios florestais havia normas que não estavam a ser cumpridas e não foram apuradas responsabilidades.

4-Finalmente vem a notícia da actualidade que é a poluição da água do Tejo. A poluição também não é um caso novo. Já em 2015 num comunicado a Quercus vem denunciar que a poluição da água do Tejo era resultante da agricultura, da suinicultura das águas residuais e descargas de efluentes não tratados sem a competente acção de vigilância e controlo pelas autoridades responsáveis. E o comunicado conclui “ Nunca o Tejo e seus afluentes registou tão elevado grau de poluição de abandono e falta de respeito por parte de uma minoria que tudo destrói, perante a complacência das autoridades,” Esta crítica mantém-se actual pois a situação hoje é bem pior do que em 2015. Se não forem tomadas medidas drásticas estaremos a caminhar para a destruição de um ecossistema com as consequências que daí podem advir

 

 

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