Quinta-feira, 29 de Julho de 2021

O Século da Solidão- Como Restaurar As ligações Humanas

 

Este é o título de um livro escrito por Noreena Hertz, doutorada pela Universidade de Cambridge, economista, professora e comunicadora. Para a autora deste livro a solidão não tem a ver apenas com a crise pandémica que estamos a viver mas tem de ser encarada de um ponto de vista holístico ou seja nas múltiplas causas que estão na sua origem e nos múltiplos efeitos que está a provocar.

Logo na Introdução diz-nos que o século XXI é o século mais solitário de que temos conhecimento. A solidão existe em todos os continentes. No Japão por exemplo, os crimes cometidos por pessoas com mais de 60 anos quadruplicou nas últimas décadas. Há uma quantidade significativa de mulheres idosas que optam pela prisão como forma de escapar ao sentimento de isolamento social. Muitas descrevem a prisão como uma maneira de criarem para si uma comunidade a que não conseguem aceder em casa. No Reino Unido 2/5 de todos os idosos indicaram em 2014 que a televisão era a sua companhia principal. Em Tianjin, na China, um avô de  85 ano alcançou fama internacional em 2017 ao publicar o seguinte anúncio na paragem de um autocarro local « Homem só na casa dos 80 anos. A minha esperança é ser adaptado por uma pessoa ou uma família de bom coração. »  Tragicamente morreu 3 meses depois. Muitos vizinhos demoraram duas semanas a reparar que já não andava por ali.

E quais são os efeitos que a solidão provoca ?  A investigação mostra que a solidão é pior para a nossa saúde do que não praticar exercício físico, tão nocivo como o alcoolismo e duas vezes mais prejudicial para a obesidade. Estatisticamente a solidão equivale a fumar 15 cigarros por dia. A solidão pode também desencadear efeitos económicos e políticos. No Reino Unido, estima-se que as pessoas solitárias com mais de 50 anos custam ao Serviço Nacional de Saúde 1,8 mil milhões de libras. Por outro lado a solidão e o populismo de direita andam de mãos dadas e provocam divisões e extremismos nos EUA, na Europa e em todo o planeta.

Afinal o que é a solidão ? Podemos estar fisicamente rodeados de pessoas e sentirmo-nos sós, ou estar sozinhos e não ter solidão. A solidão tem a ver não apenas com a falta de apoio num contexto social ou familiar mas também no sentimento de termos sido excluídos política e economicamente.

Quais foram os factores que desencadearam a solidão ? As coisas não acontecem por acaso. Há uma fusão de causas e acontecimentos que explicam como nos tornámos tão solitários e atomizados. Os nossos smartphones e em particular as redes sociais desempenharam um papel determinante: roubaram a nossa atenção e afastando-a das pessoas em volta alimentaram o que há de pior em nós. A discriminação racial, étnica ou xenófoba no trabalho ou no local da residência aumenta 21% as possibilidades de solidão. A migração em grande escala para as cidades, a reorganização radical do espaço de trabalho e modificações fundamentais na forma de viver também são factores críticos. As políticas governamentais de austeridade asfixiaram bibliotecas, parques públicos, campos de jogos e centros juvenis e comunitários em várias partes do mundo. O neoliberalismo fez com que nos encarássemos a nós mesmos como competidores e não colaboradores, consumidores e não cidadãos, açambarcadores e não partilhadores, tomadores e não dadores, vigaristas e não auxiliadores, pessoas que nem sequer sabem o nome do vizinho. A verdade é que para não nos sentirmos sós precisamos de dar e receber, temos de religar o capitalismo à busca do bem-comum e colocar o cuidado, a compaixão, a cooperação no seu âmago estendendo estes comportamentos às pessoas que são diferentes de nós.

Na parte final do livro Noreea Hertz dá alguns conselhos para unir o mundo que está a desmembrar-se. Esta união só se consegue com a ajuda de todos: governo, sector empresarial e de nós todos. É necessário associar de novo o capitalismo ao cuidado e à compaixão. E tudo isto, acrescento eu , está em consonância com o que pensa o Papa Francisco.. É necessário depois criar uma forma de capitalismo mais cooperativo que produza resultados, não apenas no plano económico mas também social. É preciso  garantir uma rede de segurança social significativa  em que as metas orçamentais dos governos estejam alinhadas com o bem-estar geral dos cidadãos e que sejam consideradas as desigualdades estruturais no que toca à etnia e ao género. É fundamental também que as pessoas se sintam vistas e ouvidas. A democracia representativa tem duas consequências  inevitáveis: não são atendidas as preocupações de toda a gente e nem todas as opiniões recebem o mesmo grau de atenção. Por mais atomizados e polarizados  que estejam os países, as cidades e as comunidades é passando o tempo com as pessoas diferentes de nós e exercitando os nossos músculos de cooperação, compaixão e consideração que podemos sentirmo-nos mais interligados e desenvolvermos uma noção de destino partilhado e de pertença.

 A autora termina o livro dizendo que o futuro está nas nossas mãos. Precisamos de nos apressar menos e de parar mais par conversar, quer seja com o vizinho por quem passamos tantas vezes, mas a quem nunca dirigimos a palavra, um desconhecido que se perdeu ou de alguém que se sente visivelmente só. Precisamos de nos libertar das nossas auto-asfixiantes bolhas de privacidade digitais  e relacionarmo-nos com as pessoas à nossa volta. E para finalizar conclui: « quanto mais negligenciarmos a nossa responsabilidade menos competentes seremos a fazer todas estas coisas e menos humana será a nossa sociedade. O antídoto para o Século da Solidão em última análise é apenas estarmos sempre disponíveis para o outro, independentemente de quem esse outro seja.

 

 

publicado por pontodemira às 22:07
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Segunda-feira, 21 de Junho de 2021

SOBRE O FUTURO ( Perspectivas para a humanidade )

 

Este é o título de um livro escrito por Martin Rees, cosmólogo e astrofísico que foi professor de cosmologia. Astrofísica e Astronomia, presidente da Royal Society, mestre do Trinity College e director do Instituto de Astronomia da Universidade de Cambridge.

Logo no prefácio do livro o autor esclarece que escreve a partir de uma perspectiva pessoal em três modos: como cientista, como cidadão e como membro da espécie humana. A seguir na Introdução faz a seguinte pergunta: No caso de existirem alienígenas a observar o nosso planeta durante os seus quatrocentos e cinco milhões de séculos o que teriam visto ? Durante a maior parte desse período a aparência da Terra alterou-se muito gradualmente . Os Continentes derivaram, a cobertura de gelo expandiu-se e minguou, sucessivas espécies surgiram , evoluíram e extinguiram-se. Nos últimos séculos os padrões  de vegetação alteraram-se muito mais depressa do que antes. Isto assinalou o início da agricultura e depois da urbanização. E apareceram mudanças ainda mais rápidas. Em apenas cinquenta anos a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera começou a subir anormalmente depressa.

Mas este século é especial. É o primeiro em que a espécie, a nossa, terá tanto poder e será tão dominante que tem nas mãos o futuro do Planeta. Entrámos numa era a que alguns geólogos chamam o Antropoceno. Os seres humanos são agora tão numerosos e têm uma «  pegada » colectiva tão pesada que possuem capacidade de transformar e até de devastar a biosfera inteira. Os actos das pessoas podem desencadear alterações climáticas perigosas e extinções em massa se « pontos críticos » forem ultrapassados. A maior parte das pessoa do mundo vivem vidas melhores do que os pais viveram e a população que vivia em pobreza  abjecta tem vindo a diminuir. Essas melhorias não poderiam ter ocorrido sem os avanços da ciência e da tecnologia. As nossas vidas e a nossa saúde  podem beneficiar ainda mais devido aos progressos da biotecnologia da cibertecnologia, da robótica e da IA. É também evidente que o abismo entre aquilo que o mundo é e aquilo que poderia ser  é maior do que nunca. Há ainda mil milhões de pessoas a viver mal no mundo de hoje que poderia ser transformado através da redistribuição da riqueza das mil pessoas mais ricas do Planeta. Os avanços tecnológicos podem também ter os seus aspectos negativos quebrando padrões de trabalho. Por outro lado os avanços na genética e na medicina só irão melhorar a vida humana se estiverem disponíveis a todas as pessoas e não apenas para uns poucos de privilegiados.

Na parte final do livro o autor conclui o seguinte: « Os aspirantes a cientistas não devem aglomerar-se todos na unificação do cosmos e dos quanta e deverão compreender que os grandes desafios na investigação do cancro e na ciência do cérebro têm de ser abordados aos poucos em vez de tentarem fazer tudo de uma vez. O nosso futuro depende de tomarmos decisões sensatas sobre desafios chave: energia, alimentação, robótica, ambiente, espaço, etc. As decisões chave não devem ser tomadas apenas por cientistas ; elas dizem respeito a todos. Os avanços na tecnologia conduziram a um mundo onde a maior parte das pessoas desfruta de vidas mais seguras, mais longas e mais satisfatórias do que as gerações anteriores. Por outro lado a degradação ambiental, mudanças climáticas sem controlo e lados negativos involuntários das tecnologias avançadas são efeitos colaterais desses avanços. Os fossos entre países, nos níveis de riqueza e bem-esta.r mostra poucos sinais de se estreitar. É do interesse do mundo rico investir maciçamente na melhoria da qualidade de vida e das oportunidades de trabalho em países mais pobres. Os cientistas têm obrigações especiais que ultrapassam a sua responsabilidade de cidadãos. Há obrigações éticas a cumprir: evitar experiências que tenham até  o mais minúsculo dos riscos de conduzir à catástrofe. E respeitar o código de ética quando a investigação envolve cobaias animais ou seres humanos. A « Nave espacial Terra » está a precipitar-se pelo vazio. Os seus passageiros estão ansiosos e turbulentos. O seu sistema de suporte de vida é vulnerável a perturbações e colapsos. Mas existe insuficiente planeamento, insuficiente análise de horizontes, insuficiente consciência dos riscos a longo prazo. Seria vergonhoso se legássemos às gerações futuras um mundo empobrecido e perigoso. Temos de pensar globalmente, temos de pensar racionalmente, temos de pensar a longo prazo, capacitados pela tecnologia do século XXI, mas guiados pelos valores que a ciência não pode fornecer sozinha. Quanto às viagens aeroespaciais, pensar que o espaço oferece uma fuga para os problemas da Terra é uma ilusão perigosa. Temos de resolver aqui esses problemas. Lidar com as alterações climáticas pode parecer intimidante mas é uma brincadeira de crianças em comparação com terraformar Marte. Não há nenhum lugar no nosso sistema solar que ofereça um ambiente tão clemente comd são a Antártida ou o topo do Evereste. Não existe um « Planeta B »  para pessoas comuns avessas ao perigo . » O ambiente do espaço é inerentemente hostil aos seres humanos. Mas se nada existir lá fora além de esterilidade talvez seja melhor deixar as viagens para fabricadores robóticos.

publicado por pontodemira às 15:10
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Segunda-feira, 24 de Maio de 2021

AQUILO EM QUE CREIO

 

Este é o título de um livro escrito pelo teólogo Hans Kung que nasceu em Sursee na Suíça em 1928. Foi ordenado sacerdote em 1934 e  em 1960 nomeado professor de Teologia na Universidade de Tubinga na Alemanha onde trabalhou até 1966. Entre 1962 e1965 trabalhou como perito para o Concílio Vaticano II. Foi professor visitante em várias Universidades e Faculdades de Teologia dos EUA. Por ter posto em causa a infalibilidade papal em 1979 foi-lhe retirada a licença de ensinar teologia nas Universidades católicas permanecendo porém como sacerdote e professor de teologia ecuménica em Tubinga até 1966. Em 6 de Abril de 2021 morreu em Tubinga aos 93 anos de idade.

Na introdução ao livro “ Aquilo Em Que Creio “ o teólogo Hans Kung diz o seguinte : « Crer é o que move a razão, o coração e as mãos de uma pessoa, o que engloba o  pensamento, a vontade, o sentimento e a acção. No entanto, tal como o amor cego, a fé cega é-me suspeita desde os meus tempos de estudante em Roma; a fé cega conduziu à perdição de inúmeras pessoas e povos inteiros. Esforcei-me e esforço-me por cultivar uma fé que procura compreender, que não dispõe de muitas provas concludentes, mas sim de boas razões. Neste sentido a minha fé não é racionalista nem irracional, mas sim razoável.  « Em que creio », inclui portanto consideravelmente mais do que uma confissão de fé em sentido tradicional. « Em que creio » denota as convicções e atitudes fundamentais que foram e são importantes para mim, na vida, e que espero possa ajudar para a orientação existencial. O que se pretende é uma reflexão apoiada na  existência pessoal e seriamente informativa sobre como viver com sentido ».

Ao longo do livro que tem 10 capítulos Hans Kung diz-nos desenvolvidamente tudo o que é necessário fazer para fortalecer a fé e a confiança em Deus e também para dar sentido à vida. A cada pergunta que faz dá uma resposta.

1-O que é importante para mim como fundamento espiritual do ser humano ? Uma confiança básica, uma confiança existencial. É também necessário ultrapassar as crises existenciais.

2-A confiança na vida é boa. A alegria de viver é ainda melhor e ela pode até resultar da apreciação das belezas da natureza.

3-Com confiança na vida e alegria  de viver vamos pelo caminho da vida, mas  onde está o seu itinerário ?  Para que tudo corra bem é necessário aprender a comportarmo-nos humanamente e haver  um ética para a sobrevivência e uma ética universal de afirmação da vida. Todo o ser humano deve receber um tratamento humano. Isto significa que todas as pessoas sem distinção de sexo, idade, raça ou cor da pele possuem uma  dignidade inviolável e inalienável.

4-Qual é o sentido da vida ?  O sentido da vida não reside tanto no trabalho como na procura da vivência bela e da estetização. O hedonismo orientado apenas para a obtenção do prazer e para o gozo dos sentidos não proporciona uma felicidade existencial duradoura. Reconheço que sou incapaz de  me resignar a toda a miséria, à injustiça, à ausência de sentido deste mundo e por isso procuro um sentido último na vida dos outros e na minha própria vida. Toda e qualquer profissão pode transformar-se, independentemente da posição que se ocupa numa verdadeira vocação capaz de infundir satisfação e sentimento de realização.

 

5-Qual é o fundamento da vida ? O Deus eterno concede fundamento e sentido a todo o temporal e hoje não temos de desculpar-nos por professarmos uma fé esclarecida em Deus.

6- De onde vem o poder da vida ? Deus é Senhor de tudo: é o grande poder da vida, que concede e mantém toda a vida e todo o bem. Daí que esteja legitimado para esperar dos seres humanos, confiança e entrega. Deus é Ele mesmo origem, centro e meta do processo do mundo. Deus é verdadeiramente o espiritual, infinito, omnímodo- fundamento, apoio e sentido primigénio do mundo e do ser humano.

7- Um caminho de vida com sentido existencial, apoiado por um poder de vida, mas em conformidade com que modelo de vida ?  O modelo de vida será o de um cristão. E que é ser cristão ? Cristão é aquele que no seu caminho de vida totalmente pessoal ( todas as pessoas têm o seu ) se esforçam por se guiar na prática por Jesus Cristo. Não se exige mais. Para mim Jesus é e continuará a ser « o caminho , a verdade e a vida ». No entanto respeito que para os judeus seja a Tora, para os muçulmanos o Alcorão, para os hindus o darma, para os budistas a senda óctupla e para os tauistas o Tau.

8-Porque sofro ? Porque permite Deus o mal ? Leibniz no seu livro « Ensaios de Teodiceia sobre a Bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal » procura justificar Deus. Para Leibniz havia 3 tipos de mal : o mal metafísico ou limite do ser baseia-se na finitude do homem ; o mal físico ou dor tem a ver com a corporalidade do homem ; o mal moral existe em virtude  da liberdade do homem. Um mundo sem pecado nem sofrimento mas também sem liberdade humana não seria de antemão o melhor. Estaríamos assim no melhor de todos os mundos possíveis. Para Hans Kung há outra maneira de olhar o sofrimento e a cruz da vida pessoal. Dirigir o olhar para o Crucificado pode mostrar aos que vivem situações de extrema necessidade que também não foram abandonados totalmente pelos homens e por Deus. Partindo do Crucificado, o negativo pode ser enfrentado com uma profundidade que dificilmente parece possível para os humanistas não cristãos. Se Jesus não foi a pique no sofrimento mais extremo do abandono por parte dos homens e de Deus então também não se afundará aquele que se aferrar a Ele com confiança e fé.

9-No caminho de vida através da alegria e do sofrimento vital em que consiste a arte de viver ? Para se viver bem é necessário cumprir regras. A primeira é a do amor ao próximo. Santo Agostinho dizia. « Ama e faz o que quiseres »  A segunda é usar o poder em favor dos outros. O poder económico deve subordinar-se ao poder político e tanto o político como o económico à ética.  O outro conselho é consumir com contenção.

 10- No caminho da vida é também necessário uma visão da vida. Devemos pôr de lado todas as utopias ideológicas. Nada de ideias que não tenham os pés na terra.  Para alteração do paradigma que estamos a viver e que afeta o mundo, a política, a economia e as culturas precisamos com urgência de uma visão que tenha a discernir o contorno de um mundo mais pacífico, mais justo e mais humano. É preciso pôr em prática uma ética mundial que possa ser partilhada por pessoas de todas as religiões e tradições éticas. Essa ética assenta em primeiro lugar no princípio do humanitarismo: Todo o ser humano- independentemente de ser homem ou mulher, branco ou de cor, novo ou velho, rico ou pobre- deve receber um tratamento humano. Alguns politólogos preveem para o século XXI um choque de culturas. As religiões e as culturas do mundo em interacção com as pessoas de boa vontade podem contribuir para evitar tal choque , desde que ponham em prática as seguintes ideias:

- não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões.

-não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões

-não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais

-o nosso planeta não sobreviverá em paz e justiça sem um novo paradigma de relações internacionais construído com base em critérios éticos globais.

publicado por pontodemira às 12:48
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Sexta-feira, 30 de Abril de 2021

COMO EVITAR UM DESASTRE CLIMÁTICO

 

 

Este é o título de um livro escrito por Bill Gates, empresário, filantropo e que fundou juntamente com Paul Allen a Microsoft. Neste livro o autor descreve as alterações climáticas que se estão a agravar de dia para dia, as causas que lhe dão origem e das soluções e inovações que é necessário fazer.

Logo no início Bill Gates diz-nos que há 50 mil milhões de emissões de gases com efeito de estufa que lançamos anualmente na atmosfera. Para travar o aquecimento global e evitar as piores consequências das alterações climáticas que se revelarão trágicas, a humanidade tem de parar de adicionar gases com feito de estufa na atmosfera. O que está na origem desta poluição é o consumo excessivo de combustíveis fósseis que são usados de diferentes maneiras: nos transportes terrestres, aéreos e marítimos ; no fabrico de energia eléctrica e também no fabrico de cimento e betâo.  Os gases com efeito de estufa aprisionam o calor na atmosfera provocando uma subida da temperatura à superfície do planeta. Quanto maior for a quantidade de gases maior é a subida da temperatura. Estes combustíveis são na verdade o resultado do carbono que foi armazenado no subsolo, graças a plantas que morreram há milhões de anos e foram convertidas em petróleo, carvão ou gás natural. Quando extraímos combustíveis fósseis e os queimamos emitimos dióxido de carbono que se acumula na atmosfera. A luz do sol, por exemplo, passa pela maioria dos gases com efeito de estufa sem ser absorvida. A maior parte atinge a Terra e aquece-a tal como sempre aconteceu. A Terra irradia alguma energia de volta para o espaço e parte é absorvida pelos gases com efeito de estufa. Ao activar as moléculas desses gases fá-los vibrar mais depressa aquecendo a atmosfera. Apenas as moléculas constituídas por diferentes átomos possuem a estrutura certa para absorver a radiação e começar a aquecer, o que acontece com o dióxido de carbono e o metano. O aquecimento da Terra vai provocar o aquecimento dos oceanos e causar o aumento dos furacões. Numas regiões chove de mais e noutras o cenário é de secas. Um clima mais quente significa um aumento do risco de incêndios florestais. Um outro efeito do aumento da temperatura é  a subida do nível dos mares. O fenómeno tem a ver com o derretimento das calotas polares e também porque a água do mar expande-se ao ser aquecida.

As alterações climáticas estão a tornar a vida mais difícil devido à ocorrência de ciclones, tempestades e enchentes. O calor também não  é bom para a actividade pecuária. Os animais serão também menos produtivos e têm mais probabilidades de morrer  cedo o que faz aumentar os preços da carne, dos ovos e dos lacticínios.  As comunidades que dependem da pesca  encontrarão também problemas. O número de pessoas que terá dificuldade em obter água potável duplicará. Por outro lado os efeitos das alterações climáticas  são cumulativos. Os mosquitos, por exemplo, começarão a viver noutro locais à medida que o planeta aquecer e irâo a abandonar as regiões mais secas em troca de outras mais húmidas. E passaremos a ter  casos de malária e outras doenças transmissíveis por insectos onde nunca existiram.

Para reverter esta situação que se adivinha catastrófica para a humanidade é necessário substituir os combustíveis fósseis por energias limpas e renováveis como as fotovoltaicas e as eólicas. Se isso não for feito as emissões de carbono continuarão a aumentar e caminharemos para um desastre ambiental. Para que a descarbonização possa ter êxito é necessário o esforço conjunto de todos: cidadãos, empresários, cientistas e de um compromisso assumido por todos os Estados, sobretudo os mais poluidores a nível internacional.  Os cidadãos devem preferir no futuro os carros eléctricos, escolher máquinas que gastem menos energia, optar por lâmpadas LED e evitar o consumo excessivo de carne, pois as vacas são altamente poluidoras. Os empresários devem investir em equipamentos inovadores e amigos do ambiente. Aos cientistas compete descobrir novas técnicas ou aperfeiçoar as que já existem de forma a melhorar o ar que respiramos. Aos Estados pertence investir em energias limpas e fixar metas para diminuir os gases com efeito de estufa.

Para terminar vou transcrever o que Bill Gates diz  no final do livro : «  Quando temos uma visão das alterações climáticas baseadas em factos, percebemos que temos algumas ferramentas para evitar um desastre eminente,  mas não todas. Identificamos os obstáculos que nos impedem de implementar soluções disponíveis e de  desenvolver as inovações que nos faltam. E vemos o que precisamos de fazer para superar obstáculos. Se nos mantivermos focados ao objectivo- a eliminação de gases com efeito de estufa- e fizermos planos concretos para o atingir, seremos capazes de evitar um desastre climático. Podemos manter o planeta habitável, ajudar centenas de milhões de pessoas pobres a tirar o máximo de proveito das suas vidas e preservar um lugar para as gerações futuras.» 

Nota final: Bill Gates sugere ainda duas soluções para a descarbonização do ar:  A 1ª seria a instalação de centrais de captura do dióxido de carbono do ar ( CDA ) ; A 2ª consisitiria através da geoengenharia espalhar partículas minúsculas nas camadas superiores da atmosfera de forma a dispersar a luz solar e causar a descida da temperatura. A outra hipótese seria tornar as nuvens mais claras através pulverização de um spray de sal o que aumentaria a capacidade   de reflexão reduzindo assim a temperatura da superfície da Terra.

E Bill Gates acrescenta que a geoengenharia é a única capaz de reverter os efeitos do aquecimento global sem consequências diretas na economia

Para terminar diria eu que é nosso dever preservar  o planeta Terra e deixá-lo aos vindouros em condições de ser habitável e de poderem também como nós usufruir das suas maravilhas.

 

publicado por pontodemira às 21:46
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Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2021

SONHEMOS JUNTOSO- CAMINHO PARA UM FUTURO MELHOR - PAPA FRANCISCO

 

Este é um livro que surgiu em tempo de confinamento e que resultou de uma entrevista que o papa Francisco concedeu a Austen Ivereigh, escritor e jornalista britânico e autor de duas biografias do Papa. Da conversa que teve com o papa sugeriu-lhe a redacção de um livro que lhe desse espaço para desenvolver as suas ideias e as pôr à disposição de um público mais vasto. E assim surgiu este livro que comprei numa loja que vende jornais e revistas.

No prólogo o Papa Francisco diz-nos que em momentos de crise vê-se o bem e o mal : as pessoas mostram-se como são. Algumas dedicam tempo a servir os necessitados, enquanto outras enriquecem à custa da necessidade dos demais. Deus quer construir o mundo connosco como colaboradores a todo o momento. Convidou-nos a que nos unamos a Ele desde o princípio, em tempos de paz e em tempo de crise: desde sempre e para sempre. O futuro não depende de um mecanismo invisível e no qual os humanos não são espectadores passivos. Quando o Senhor nos pede que sejamos fecundos, que dominemos a Terra, o que está a dizer é “ sede cocriadores do futuro “. Colocamos a máscara para nos protegermos a nós mesmos e aos outros de um vírus que não podemos ver. Mas que fazemos com os restantes que não  podemos ver ?  Como podemos encarar as pandemias da fome, da violência e da mudança climática ?  Precisamos de economias que permitam a todos o acesso aos frutos da criação e às necessidades básicas da vida : terra, teto e trabalho. Milhões de pessoas perguntam a si mesmas entre si onde poderíamos encontrar Deus nesta crise. O que me vem à mente é a imagem do transbordar de um rio. Na sociedade, a misericórdia de Deus brota nestes  “ momentos de transbordo “. O transbordo encontra-se no sofrimento que esta crise deixou exposta e na actividade  com que tantos procuram responder a ela. Vejo um transbordo de misericórdia derramando-se ao nosso redor. O Papa Francisco expõe o seu pensamento ao longo do livro que está dividido em três partes: Um tempo para ver, um tempo para escolher e um tempo para agir.

1-Um Tempo para Ver-  Logo no começo o Papa Francisco faz as seguinte perguntas :  Como nos tornámos cegos à beleza da criação ? Como nos esquecemos dos dons de Deus e dos nossos irmãos ? Como podemos explicar que vivemos num mundo onde a natureza está sufocada, onde os vírus se propagam como o fogo e causam o desmoronamento das nossas sociedades, onde a pobreza mais dilacerante convive com a riqueza mais inconcebível, onde povos inteiros -como os robingyas – estão relegados para a lixeira ? Os caminhos que impedem de ver a realidade e de reagir a ela são : o narcisismo, o desânimo e o pessismismo. O Papa Francisco lembra que na Encíclica  “Laudato Si “  chama a atenção para a necessidade de uma conversão ecológica., não apenas para evitar que a humanidade destrua a natureza mas também para evitar que se destrua a si própria. E faz um apelo à “ ecologia integral “  ou seja cuidar não apenas da natureza mas também uns dos outros como criaturas de um Deus que nos ama. Por outras palavras se pensas que o aborto, a eutanásia e a pena de morte são aceitáveis o teu coração terá dificuldade em preocupar-se com a contaminação dos rios e com a destruição das florestas. É necessário um novo humanismo que possa canalizar a irrupção de fraternidade e pôr fim à globalização da indiferença e à hiperinflação do individual.

2-Um Tempo para Escolher- O Papa Francisco chama a  atenção para os princípios orientadores da nossa escolha e que constam da Doutrina Social da Igreja ( DSI ) Esses princípios são: o bem comum e o destino universal dos bens. A igreja pede-nos que tenhamos em vista o bem de toda a sociedade, o bem que partilhamos, o bem do povo no seu todo assim como os bens  a que cada um deveria ter acesso. Por outro lado toda a gente ter acesso aos bens da vida : Terra , Teto e Trabalho. Deus planeou os bens da Terra para todos sem excluir ninguém. A  DSI mencionou ainda mis dois princípios: solidariedade e subsidiariedade. A solidariedade diz-nos que temos deveres para com os outros e que somos chamados a participar  na sociedade. Isto significa perdoar dívidas, acolher os deficientes e trabalhar para que os sonhos e esperanças dos outros se convertam nos nossos.  A subsidiariedade diz-nos que devemos respeitar a autonomia dos outros, como sujeitos capazes do seu destino. Chama também a atenção para as escolhas que devemos fazer. Se queremos proteger e regenerar a Mãe Terra então temos que pôr de lado um modelo económico que considera o crescimento a qualquer preço como o seu principal objectvo. A expansão ilimitada da produtividade e do consumo vai provocar um desastre ambiental. E nós somos  parte da criação e não donos dela. Mais à frente o Papa diz que as mulheres foram as mais afectadas e mais resilientes nesta crise. São elas as que tendem a trabalhar nos sectores mais afectados pela pandemia a nível mundial. Cerca de 70% dos que trabalham na saúde são mulheres. Assume ainda como pressuposto que as mulheres qualificadas devem ter igual acesso à liderança, salários equivalentes e outras oportunidades. O Vaticano está a dar o exemplo nomeando mulheres para cargos importantes. Assim no Dicastério para  Leigos, a Família e a Vida, os dois subsecretários são mulheres; o Director do Museu do Vaticano é uma mulher e na Secretaria de Estado ou Chancelaria o subsecretário da secção para as Relações com os Estados é uma mulher.

Para dar unidade à Igreja e acabar com desacordos paralisantes o Papa no seu pontificado já convocou três Sínodos: Sobre a Família, sobre os jovens e sobre a Amazónia. A palavra sínodo vem do grego syn-odos que significa caminhar juntos. A falta de celebração da missa dominical nalgumas regiões da Amazónia não se deve exclusivamente à falta de ministros ordenados mas também à escassez de missionários  na Amazónia. Muitos sacerdotes de nove países que fazem fronteira com a Amazónia ofereceram resistência a serem enviados como missionários para a região

3-Um Tempo para Agir- O modelo do laissez faire centrado no mercado, confunde fins e meios. O lucro converte-se na meta a atingir em vez de meio para alcançar bens maiores. E a ideia de que a riqueza se progredir descontroladamente criará prosperidade para todos é falsa como já ficou provado.  As desigualdades sociais são bem latentes. A dignidade dos nossos povos exige corredores seguros para os migrantes e refugiados. Temos de acolher, promover e integrar aqueles que chegam à procura de uma vida melhor para si mesmos e família. A ideologia neodarwinista da sobrevivência do mais forte apoiada por um mercado desenfreado e obcecado pelo lucro e pela soberania individual, penetrou e endureceu os nossos corações. O populismo gera medo e semeia pânico:  são a exploração da angústia popular não são o seu remédio. E o Papa conclui que não sairemos desta crise senão aceitarmos um princípio de solidariedade entre os povos. E acrescenta: «necessitamos de políticos apaixonados pela missão de garantir para todo o povo os três T : Terra, Teto e Trabalho. Se pusermos a Terra, a habitação e o trabalho digno para todos no centro das nossas acções estaremos a restaurar a dignidade.

Veremos agora o que o Papa Francisco diz sob os Três  T:

TERRA-Os bens e os recursos da terra são destinados a todos. O ar fresco, a água limpa e uma dieta equilibrada são vitais para a saúde e o bem-estar dos nossos povos. Ponhamos a regeneração da terra e o acesso universal aos seus bens no centro do nosso futuro pós-covid.

TETO- É preciso humanizar o nosso ambiente urbano: assegurar habitações sustentáveis e adequadas para as famílias, dignificar as zonas periféricas das nossas cidades integrando-as por meio de políticas sociais.

TRABALHO- O nosso trabalho é condição fundamental para a nossa dignidade e bem-estar. Como será o nosso   futuro quando 40% ou 50% dos jovens não tiverem trabalho. O assistencialismo é por vezes necessário mas o mais importante é contribuir para uma vida digna, ganha com o seu trabalho. O Papa sugeriu ainda um rendimento básico universal ( UBI ) a todos os cidadãos que poderia distribuir através de um sistema de impostos. Sugeriu ainda uma redução do horário de trabalho, ou seja, trabalhando menos para que mais gente tenha acesso ao mercado laboral . Tudo isto em vez dos falsos pressupostos da famosa teoria do derrame segundo a qual uma economia em crescimento nos fará mais ricos a todo.

  Estas sugestões abrem caminho para um futuro melhor.

publicado por pontodemira às 19:27
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Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2021

EUTANÁSIA: SIM OU NÃO

 

A vida é feita  de momentos bons e de outros maus, de alegrias e de tristezas. Há também momentos em que somos felizes e outros em que somos abatidos pelo sofrimento. Actualmente estamos a viver momentos dramáticos com a pandemia covid19 que está a matar todos os dias  milhares de pessoas em todo o mundo

E foi precisamente agora que foi aprovada na Assembleia da República uma Lei que permite a eutanásia. Trata-se de uma lei fracturante  que divide a sociedade em dois grupos divergentes. Há os que defendem a eutanásia e os que são contra. O segundo grupo, dos que estão contra, é constituído na sua grande maioria por cristãos ( católicos, protestantes, evangélicos, etc). Para os crentes a vida tem sentido.  Sabem que Deus criou o mundo e o homem e que Deus nunca os abandona nem nos momentos  mais difíceis ou de sofrimento. A vida é um dom gratuito de Deus e há que respeitá-la. No primeiro grupo estão os cépticos para quem a vida não tem qualquer sentido e o remédio neste caso é  pôr fim ao sofrimento pelo suicídio ou através da morte assistida. Este é o desespero de quem acredita que não há vida para além desta e que tudo acaba quando morrermos. Ao absurdo da vida só resta o absurdo do suicídio. E aqui vou citar o pensamento do Padre e Professor de Filosofia Anselmo Borges que na crónica que escreveu no dia 31-01-2021 no Diário de Notícias, com o título , O sentido da vida e o sofrimento, diz o seguinte : «  Há um pensamento radical que põe o pensamento em sobressalto.  Cada um de nós sabe que não esteve sempre no mundo, isto é, que nem sempre existiu e que não existirá sempre. Houve um tempo em que ainda não existíamos, ainda não vivíamos e haverá um tempo em que já não existiremos, já não viveremos cá, deixaremos de viver neste mundo . Nesta constatação experienciamos que somos de nós, somos donos de nós- essa é a experiência da liberdade – mas não  nos pertencemos totalmente, não somos a nossa origem nem temos poder pleno sobre o nosso fim. Viemos ao mundo sem nós -ninguém nos perguntou se queríamos vir- e um dia a morte chega e leva-nos pura e simplesmente. Não nos colocámos a nós próprios na existência nem dispomos totalmente do nosso futuro, não somos o nosso fundamento. Aqui, perante a certeza de que nem sempre estive cá e de que não estarei cá sempre, pois morrerei, ergue-se, enorme, irrecusável, a pergunta:  donde vim ,? Para onde vou ? qual o sentido da minha existência ? que valor tem a minha vida ?   Esta pergunta formula-se em relação a todos os seres humanos, à vida em geral, a toda a realidade: porque há algo e não nada. E continua…    De facto o ser humano não pode viver sem sentido.  Aliás a existência humana está baseada na convicção do sentido. Há um pré-saber do sentido, de tal modo qua sua própria negação ainda o afirma. No limite, não é possível o “  suicídio lógico “, pois quem pegasse numa arma para suicidar-se, porque tudo é absurdo, estava a negar o absurdo e afirmar o sentido… »

Mas a Lei da Eutanásia pode esbarrar ainda com o artigo 24º da Constituição que nos diz que a vida é um direito inviolável. É óbvio e não temos dúvidas que se pretende condenar a pena de morte e que ninguém pode tirar a vida a outra pessoa. O que está em causa também é se a nossa liberdade nos permite que deleguemos noutra a capacidade de nos matar. Para os médicos existe o dever deontológico de preservar a vida e não de eliminá-la. Se a Lei chegar ao Tribunal Constitucional  iremos ver se  vai ser  ou não considerada inconstitucional.

 

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Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2021

O REGRESSO DA ULTRADIREITA- DA DIREITA RADICAL À DIREITA EXTREMISTA

 

Este é o título do livro escrito por CAS MUDDE que nasceu em 1967 nos Países Baixos. É professor de Relações Internacionais da Universidade de Geórgia e também professor do Centro de Investigação sobre o Extremismo ( C-Rex ) da Universidade de Oslo.

Neste livro o autor faz uma análise detalhada dos partidos de ultradireita pondo em destaque todos os elementos que ajudam a uma melhor compreensão dos mesmos partidos como a história, a ideologia, a organização, as causas e as consequências. Sugere ainda o que a sociedade civil e os partidos devem fazer para enfrentar e combater estas ideologias.

Em primeiro lugar convém esclarecer o que o autor entende por ultradireita. Logo na introdução do livro estabelece uma diferença entre a chamada « direita » mainstream na qual se incluem os conservadores e os liberais libertários e a « direita »  antissistema que é hostil à democracia liberal e a que ele chama  ultradireita. A ultradireita divide-se em dois subgrupos:  1- a direita extremista e  a 2- direita radical.   A direita  extremista rejeita a essência da democracia, isto é a soberania popular e a regra da maioria. E dá como exemplo desta direita extremista o fascismo que levou ao poder Hitler e Benito Mussolini. A direita radical aceita a essência da democracia mas opõe-se  a elementos fundamentais da democracia liberal como os direitos das minorias, o Estado de Direito e a separação de poderes. A direita radical confia no poder do povo e  a direita extremista não. À direita radical é também associado o tema populista. O populismo em teoria é a favor da democracia  mas de uma democracia antiliberal. No populismo há também 2 grupos homogéneos mas antagónicos: o povo puro e a elite corrupta

Quando o autor acabou de escrever o livro em 2019 três dos cinco  países mais populosos do mundo tinham líderes de ultradireita ( Brasil, Índia e EUA ) O maior partido do mundo é o partido  do povo Indiano ( BJP ) da direita radical populista. Na União Europeia ( EU ) há 2 governos completamente controlados por partidos da direita radical  populista ( a Hungria e a Polónia ).  Outros 4 governos incluem partidos deste tipo ( Áustria, Bulgária, Itália e Eslováquia ) Os partidos da ultradireita em questão são  FPO ( Áustria,  Frente Patriótica ( Bulgária, DF ( Dinamarca, Fidesz ( Hungria), Lega ( Itália ) , Pis ( Polónia ), SNS ( Eslováquia ).

Os termos «esquerda»  e «direita » remontam à Revolução Francesa ( 1789-1791 ), quando os apoiantes do Rei se sentavam à direita do presidente do Parlamento francês e os adversários à sua esquerda. Os do lado direito eram a favor do« ancien» regime enquanto os do lado esquerdo apoiavam a democratização e a soberania popular.  Com A Revolução Industrial a direita e a esquerda passaram a ser definidas principalmente em termos de política socioeconómica, com a direita a apoiar o marcado livre e a esquerda defendendo um papel mais activo do Estado. Na última década a distinção esquerda direita tem sido definida mais em termos socioculturais, com a direita a defender o autoritarismo( contra a esquerda libertária ), ou o nacionalismo  ( contra  o internacionalismo de esquerda ). Para o italiano Norberto Bobbio a esquerda  considera que as desigualdades fundamentais  entre pessoas são artificiais e negativas, devendo ser  superadas por intervenção do Estado enquanto a direita acredita que as desigualdades entre as pessoas são naturais e positivas devendo ser ignoradas pelo Estado. Estas desigualdades podem ser também culturais, económicas, raciais ou religiosas.

As ideologias fundamentais no âmbito da direita extremista são o fascismo e o nazismo e os aspectos  ideológicos fundamentais da direita radical populista são o nativismo ( combinação de nacionalismo e de xenofobia), o autoritarismo e o populismo. O objectivo último da direita radical  populista é a etnocracia em que a cidadania se baseia na etnicidade e por isso se devem fechar as fronteiras aos imigrantes. O autoritarismo acredita numa sociedade com uma ordem rigorosa na qual as infracções à autoridade têm de ser punidas severamente. As políticas da ultradireita surgem em variadas formas de acordo com as ideologias e com os tipos de  organizações.. Nas organizações temos  partidos, movimentos sociais e subgrupos. Os partidos políticos concorrem às eleições mas os movimentos sociais não o fazem mas são bem organizadas. As subculturas nem sequer têm boa organização. Todos os partidos têm líderes importantes e conhecidos, membros e activistas e uma base eleitoral demarcada. A ultradireita dedica-se fundamentalmente a três tipos de acções: eleições, manifestações e violência.

O que se pode fazer para derrotar a ultradireita ?  Das abordagens que foram feitas há   destacar quatro atitudes mais proeminentes: demarcação, confronto, cooptação e incorporação.

Demarcação: Muitos partidos do mainstream declaram oficialmente que os partidos da direita radical populista estão fora campo democrático e, por isso, excluíram-nos do jogo político.

Confronto: Estratégias de confronto implicam uma oposição activa a partidos de ultradireita e na maior parte das vezes à sua política.

Cooptação: Os partidos democráticos liberais excluem partidos da direita radical populista mas não as suas ideias, começando por adoptar o discurso da direita radical.

Incorporação: A incorporação significa que posições da direita radical populista e também partidos são incorporados no mainstream e normalizados. Em 1940   o populista Berlusconi formou um governo de coligação da Aliança Nacional « pós-fascista » com  a LN da direita radical populista.

Na parte final do livro CAS MUDDE diz que a melhor estratégia para enfrentar a direita radical é o fortalecimento da democracia liberal. E enumera alguns princípios que devem ser seguidos:  1- É preciso explicar por que  motivos a democracia liberal é o melhor sistema político; 2-Desenvolver e difundir políticas baseadas nas ideologias democratas liberais ( por ex. ( democrata-cristã, conservadora, verde, liberal, social democrata ) ;3-Abordar as questões que nos dizem respeito e à maioria da população e postular as nossas posições informadas do ponto de vista ideológico sem esquecer os temas como a corrupção, o crime e a imigração; 4 –Definir direitos claros no que se refere  a formas de colaboração e a posições compatíveis com valores democratas liberais.

 Em Portugal temos neste momento um partido de ultradireita que é o Chega. É como se sabe um partido racista, xenófobo, anti-imigração e que procura aproveitar-se do descontentamento de vários estratos sociais. Está  a fazer uma campanha suja nas eleições para  Presidente da República fazendo críticas ridículas aos outros candidatos

Quase todos os candidatos estão a fazer uma miríade de promessas ao eleitorado. Esquecem-se no entanto que o Presidente da República não tem poderes legislativos nem executivos. O candidato do CHEGA, André Ventura vai até mais longe e diz que se for eleito demite o primeiro ministro António Costa. Mas não é pelo facto do primeiro ministro agradar ou desagradar ao Presidente da República que este o pode demitir. Só em casos excepcionais previstos no artº 198 º da Constituição é que o Presidente da República o pode fazer. O Presidente da República tem o papel de árbitro e nesse âmbito a magistratura de influência. A ele cabe também a fiscalização do sistema político.

O CHEGA dificilmente ganhará umas eleições legislativas. Mas se algum dia obtiver um bom resultado quem sabe se o PSD e o CDS não se juntarão a ele para formar uma coligação como aconteceu nos Açores.

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Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2020

DEUS E O MERCADO

 

Este é o título de um livro no qual o Padre Vítor Melícias e o Prof. João César das Neves  entram num diálogo provocador entre Religião e Economia. Este diálogo é moderado pelo jornalista Nicolau Santos

Não existe um modelo cristão de economia. Para a Igreja a Economia deve servir o Homem e o bem-estar público. O Prof JCN diz que aqui todos estamos de acordo mas isso nem sempre acontece. Para o Padre  V M é preciso mudar o capitalismo dominado pelo sistema financeiro. No sistema capitalista o capital produz aquilo que mais lhe convém que é a acumulação de mais capital e a concentração de mais poder. A deslocalização de empresas tem como objectivo aproveitar a mão de obra mais barata para gerar mais lucros e não para embaratecer os produtos. O pobre porque não pode armazenar tem de vender em períodos de baixa e de comprar em períodos de alta. O rico pode comprar em períodos de baixa e vender em períodos de alta. Para alterar tudo isto é necessária a conversão de mentalidades e dos comportamentos. Todas as pessoas têm direito aos bens essenciais e a uma existência digna. Os bens que Deus criou são para uso e benefício de todos e não são propriedade exclusiva de ninguém. O direito de propriedade privada não elimina o direito universal ao uso em função da propriedade universal de todos os bens. Nos tempos modernos foi ganhando forma a chamada Economia Social integrando as cooperativas, as mutualidades, as misericórdias e outras associações e fundações de solidariedade. Todas estas instituições nos dizem que é preciso compatibilizar a moral com a Economia.  Para o Prof.JCN o capitalismo tirou muita gente da pobreza e que hoje se vive melhor do que há 100 anos atrás. Os que estão a viver pior são os que vivem em situações de guerra, de epidemia e de exploração ou dissolução social como em países de África, na Venezuela ou em países Africanos.  O Pe. VM não concorda que hoje se esteja a viver melhor pois as desigualdades provocam multidões de empobrecidos, de famintos, de deslocados e de migrantes forçados. A acumulação de riqueza deve ter um limite e por isso é necessário regulamentar o abuso da economia. Impõe-se uma reforma do sistema fiscal de forma a que haja taxas de impostos mais elevados e mais justas para milionários e bilionários. Para o Pe. VM quem domina a Economia é o Mercado. E o Mercado capitalista visa o lucro e o ganho de mais capital acumulável e não condicionar quanto às suas opções de aplicação em investimentos, em armas, em drogas e em indústrias poluentes ou coisas do género desde que deem lucro. É preciso uma Economia Social que invista na saúde, na formação profissional e nas possibilidades de trabalharem em igualdade de oportunidades. Talvez produzindo outro tipo de bens mas com a participação de todos e em concreto benefício de todos. A Economia que temos e que está agora a dominar o mundo, sufoca e mata a ética. Se uma pessoa decidir uma coisa eticamente correcta mas empresariamente inconveniente é pura e simplesmente posto no olho da rua.  Para o Prof JCN a área económica é uma das poucas onde há consenso ético : toda a gente sabe onde está o bem e o mal. Isto não quer dizer que haja aldrabices. Mas há consenso. O problema está na ganância que todos temos porque  somos seres humanos. Para o Pe. VM  a ética que a Economia de Mercado mais precisa nem é a das pessoas individuais mas de uma ética colectiva de tipo institucional. Ambos concordam que é preciso uma Economia Humana  de solidariedade universal, ecológica. Na Economia capitalista quem comanda e vota é o capital; nas entidades de Economia Social como são associações de pessoas deixa de haver capital de cada um dos participantes para haver capital institucional. Para o Papa Francisco a Economia que temos mata e que hoje impera a globalização da indiferença perante o sofrimento alheio e que há urgência de pensar e reformar a Economia vigente.  Par o Prof JCN o Papa não está a falar desta economia aquela que temos mas da Economia de exclusão e da desigualdade social.  O Papa também faz a distinção entre empresários e especuladores. O especulador não ama a sua empresa nem os trabalhadores mas só os vê como meios para produzir lucro. A Doutrina Social da Igreja contribui para a  melhoria da Economia através de 3 grandes princípios: 1- o destino universal dos bens que está tão esquecido porque os capitalistas  não gostam dele ; 2-a subsidiariedade ou seja a participação de todos segundo  as próprias capacidades e poderes ;3- e a solidariedade quer humana quer ecológica

Na parte final do livro há uma discordância mais acentuada a respeito do capitalismo e da teoria de Adams Smith segundo a qual existe uma mão invisível que regula o Mercado. O Prof CN diz que tudo o que comemos vem do capitalismo, que é horrível, tem imensos defeitos mas sem eles não comíamos. O Pe. VM  discorda  e pergunta : Então e quando não havia capitalismo as pessoas não comiam nem bebiam ?

 O jornalista Nicolau Santos admitiu que se está a verificar uma maior concentração da riqueza em grupos cada vez mais restritos e perguntou como isso se vai resolver.  Para o Prof. JCN o capitalismo pode não ser um sistema perfeito mas todas as tentativas para o mudar como o fascismo e o marxismo fracassaram.  Para o Pe. VM há que mudar algumas regras básicas desse mesmo sistema. É preciso que haja capacidade para todos participarem quer na produção, quer no uso e acesso a bens e mudar a lógica ou resignação de « vamos enriquecer alguns , pessoas ou países, para depois  darem uma esmolinha aos pobrezinhos ». Para o Prof. JCN não há um sistema capitalista mas muitos sistemas capitalistas. O Pe. VM concorda mas diz que todos são filhos da mesma mãe , da mesma filosofia e da mesma lógica. O capitalismo não visa à nascença eliminar a pobreza nem se  opõe ao crescimento das desigualdades. Será talvez favorável a remediar a pobreza mas não a evitá-la ou a erradicá-la. O Prof. JCN diz que isso é falso porque foi com o capitalismo que se deu cabo da pobreza. Essas discordâncias em relação ao capitalismo confirmam pois para o Prof. JCN que este é o melhor sistema.  Mas o Pe. VM volta a discordar . Há pessoas a ir ao Mercado e não podem comprar porque não têm dinheiro. Outras estão desempregadas e ninguém lhe dá garantias que podem ir ao Mercado ou subir para o autocarro sem dinheiro para o bilhete. Os donos do capital não devem tomar decisões sozinhos mas nelas devem intervir trabalhadores, governos e Estados.

Como é que se pode melhorar o capitalismo? Perguntou o jornalista Nicolau Santos . Para o Pe. VM tem de haver uma conversão de mentalidades. Mesmo admitindo que diminui o número de pobres e aumenta a classe média a verdade é que dele resultam também injustiças e desigualdades. As grandes decisões não podem ser tomadas apenas pelos donos do capital e os que mexem os cordelinhos da finança. Os trabalhadores e todos os intervenientes no processo produtivo devem ser ouvidos. Se continuarmos a aceitar e a defender de que é impossível alterar as regras negativas do capitalismo porque também há aspectos positivos então é que não muda mesmo. O Prof. JCN entende  que para salvar o sistema é preciso uma maior presença de Jesus e da Igreja nas coisas económicas, mudando a atitude das pessoas. Ninguém consegue controlar o sistema. Nem a finança, nem o Estado, nem a classe média. O sistema não existe é uma ficção. Para o Pe. VM se ninguém manda e ninguém controla temos arranjar maneira de o alterar. O bem comum e o interesse geral não pode andar descontrolado, sem comando nem orientação.

O jornalista Nicolau Santos refere segundo a revista Forbes as personalidades mais ricas do mundo: Jeff Bezos, Bill Gates, Warren Buffett, etc…   O Prof. JCN diz que esses nomes não encaixam na definição de capitalismo que o Pe. VM usou.  O Pe.VM respondeu que para ele encaixam todos.  Aqueles que tiveram uma ideia produtiva acharam uma mina. E o mal não é terem ficado ricos, é o facto de passarem a usar a sua riqueza como capital, com os métodos e as finalidades do capitalismo mais e mais lucrativo. Incluem-se aqui os que têm acesso privilegiados a bens e os utilizam segundo as regras e fins do capitalismo sem preocupações de solidariedade, de equidade e não de exclusão. E vai mais longe acrescentando que um professor ou político que ensina, defende, divulga e justifica o capitalismo é capitalista mesmo que não seja endinheirado nem empresário. E termina concluindo: « Há que fazer tudo por tudo para reconciliar Deus e o Mercado. O Mercado quer que, pela liberdade, concorrência e eficácia todos e cada um tenha mais ; Deus quer que, pela fraternidade e solidariedade humana e ecológica todos e cada um, tendo mais sejam melhores »  A conjugação entre Economia de Mercado e Economia de Deus estará em conseguir que, tendo todos mais bens, sejam todos mais irmãos.

 

 

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Domingo, 22 de Novembro de 2020

A TERRA INABITÁVEL-Como vai ser a vida pós-Aquecimento Global

 

Este é o título de um livro escrito por David Wallace-Wells formado pela Universidade de Chicago e que é editor e colunista da Revista New York e escreve ainda para o Jornal britânico The Guardian.  O livro lança um alerta para as alterações climáticas que estamos a viver e que podem lançar o mundo para a autodestruição. O aumento do carbono na atmosfera irá desencadear uma série de efeitos em cascata pondo em perigo os ecossistemas e a vida no planeta Terra. Desses efeitos em cascata o autor destaca os seguintes:  morte por calor ; fome ;  afogamentos;  incêndios ; o fim da água doce ;  oceanos moribundos ; ar irrespirável ; pragas do aquecimento ; colapso económico ; e conflitos  devido a migrações em larga escala.

De quem é a culpa de tudo isto ?  Em primeiro lugar, como diz David Wallace-Wrlls, temos a influência e a preferência das empresas em relação aos combustíveis fósseis, mas também a inércia e a sedução dos lucros a curto prazo e também as preferências dos trabalhadores e consumidores do mundo inteiro. A verdade porém é que o aquecimento já está a atingir os seres humanos com tanta dureza que não devíamos precisar de olhar para o outro lado, para as espécies em extinção e para os ecossistemas em perigo para perceber evolução da terrível ofensiva do clima.

As coisas más que vão proliferar é inumerável. Todos nós somos responsáveis pela degradação do meio ambiente.  Uns acreditam que a Ciência e a Tecnologia irão repor a normalidade e não nos devemos preocupar com o futuro. Outros pensam que já cá não estão quando as coisas se complicarem mais. É claro que não podemos ser egoístas e que também temos que pensar no futuro dos nossos netos. A situação climática alarmante que estamos a viver e que vai agravar-se durante as próximas décadas exige de todos nós impulsos éticos que tenham repercussão nas políticas a seguir. O mais trágico será a apatia , a acomodação e a indiferença dos seres humanos em não corrigir aquilo que ainda será possível alterar.

Na parte final do livro e face ás alterações climáticas que estamos a viver como o aumento das temperaturas, os furacões e a dimensão dos incêndios, o autor faz algumas perguntas pertinentes.  Quanto faremos para travar o desastre ? E com que rapidez ? Se os seres humanos são culpados de todos estes problemas deverão também ser capazes de os desfazer. E acrescenta para terminar :  «  num documento de 2018, 42 cientistas de todo o mundo alertaram que num cenário em que nada mude, nenhum ecossistema da Terra estará a salvo com alterações generalizadas e importantes.  Sabemos que metade da Grande Barreira dos Corais já morreu ;  há metano a libertar-se do permafrost ártico e este pode nunca voltar a congelar ; se a temperatura subir 4º C  a produção de cereais poderá reduzir cerca de 50 %.  Mas existem instrumentos para parar esta tragédia. E dá alguns exemplos : um imposto sobre o carbono; intervenção do aparelho político para reduzir agressivamente a energia suja ; uma abordagem a novas práticas agrícolas e a substituição da carne e dos laticínios na alimentação global ; investimentos públicos em energia verde e fabrico de aparelhos para a captura do carbono da atmosfera.

Estas soluções são viáveis mas é necessário o empenhamento e um acordo político a nível mundial para as fazer cumprir.

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Terça-feira, 27 de Outubro de 2020

CARTA ENCÍCLICA: FRATELLI TUTTI- PAPA FRANCISCO

 

Logo na introdução o Papa Francisco lembra que « Deus criou os seres humanos iguais nos direitos, deveres e na dignidade, e chamou-os a conviver entre si como irmãos » .Por isso o ponto de partida e a ideia chave do pensamento do Papa Francisco está na fraternidade e na amizade social. É pelo diálogo, pelo respeito dos direitos humanos, pelo consenso sem esquecer os mais pobres que se pode construir uma sociedade mais justa e equilibrada. O pensamento do Papa Francisco é desenvolvido ao longo de sete capítulos dos quais irei fazer uma síntese dos mais importantes de cada um.

1-As  sombras de um mundo fechado. Com o fim de duas guerras mundiais criou-se a expectativa que era possível caminhar para a paz. Os pais fundadores da União Europeia avançaram para uma Europa Unida capaz de promover a paz e a cooperação entre todos os povos do continente. Mas começa a haver sinais de regressão com o aparecimento de partidos nacionalistas fechados. A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos mas não somos irmãos. Com a polarização política em muitos países nega-se a outros o direito de  existir e  de pensar. O objecto de descarte não são apenas os alimentos  mas os próprios seres humanos. Os direitos humanos não são suficientemente universais. Enquanto uma parte da Humanidade vive na opulência, outra vê a própria dignidade não reconhecida, desprezada ou espezinhada  e os seus direitos fundamentais ignorados ou violados. Há também um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade. Relativamente à pandemia e a outros flagelos o Papa recorda que ninguém se salva sozinho e que só é possível salvarmo-nos juntos. Revela ainda a falta de dignidade humana nas fronteiras sobretudo em regimes populistas que impedem a todo o custo a entrada de imigrantes que fogem da  guerra ´de perseguições e de catástrofes naturais.

2-Um estranho no caminho . Ao citar a parábola do Bom Samaritano o Papa quer com isto dizer que também hoje se olha com indiferença e por vezes desprezo para as pessoas carenciadas a precisar de ajuda ou de apoio : « aqueles que cuidam do sofrimento e aqueles que passam ao largo; aqueles que se debruçam sobre o caído e  o reconhecem necessitado de ajuda e aqueles que olham distraídos e aceleram o passo. A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define todos os projectos económicos, políticos, sociais e religiosos. Dia a dia enfrentamos a opção de sermos bons samaritanos ou viajantes indiferentes que passam ao largo. Todos temos algo de ferido, de salteador, daqueles que passam ao largo e do bom samaritano.

3-Pensar e gerar um Mundo Aberto. Ninguém amadurece nem alcança a sua plenitude isolando-se O amor exige progressiva capacidade de acolher o outro. As sociedades têm que ser abertas e que integrem todos. Só uma sociedade aberta e fraterna é capaz de preocupar-se por garantir de modo eficiente e estável que todos sejam acompanhados no percurso da vida não apenas para assegurar as suas necessidades básicas  mas para que possam dar o melhor de si mesmos.  « O mundo existe para todos, porque todos nós, seres humanos, nascemos nesta Terra com a mesma dignidade. Temos o dever de garantir que cada pessoa viva com dignidade e disponha de adequadas oportunidades para o seu desenvolvimento integrado. É possível desejar um Planeta que garanta terra , teto e trabalho para todos. Este é o verdadeiro caminho da Paz e não a estratégia insensata e míope  de semear medo e desconfiança perante ameaças externas. Com efeito a paz real e duradoura é possível só a partir de uma ética global de solidariedade e cooperação ao serviço de um futuro modelado pela interdependência e a corresponsabilidade  da família humana inteira. »

4-Um Coração Aberto ao Mundo Inteiro. O ideal seria o migrante não ter que emigrar e criar possibilidades de ele viver e crescer com dignidade nos países de origem. Quando não for possível há que respeitar o direito que todo o ser humano de encontrar um lugar onde possa satisfazer as suas necessidades básicas e da família e realizar-se plenamente como pessoa. Os nossos esforços  a favor das pessoas migrantes pode resumir-se em quatro verbos: acolher, proteger, promover, integrar.. Para que isso aconteça é necessário que haja um ordenamento jurídico, político e económico mundial que « incremente e guie a colaboração internacional para o desenvolvimento solidário de todos os povos ». Sabemos que a estas medidas se opõem os nacionalismos fechados. Para eles o migrante é visto como um usurpador que nada oferece. Mas só poderá ter futuro, como diz o Papa, uma cultura sociopolítica que inclua o acolhimento gratuito. Quanto à dicotomia globalismo e isolacionismo o Papa diz « que a sociedade mundial não é o resultado da soma de vários países, mas sim a própria comunhão que existe entre eles, a mútua inclusão que precede o aparecimento de todo o grupo particular. Hoje nenhum Estado nacional isolado é capaz de garantir o bem comum da própria população.

5-A Política Melhor. Para tornar possível o desenvolvimento de uma comunidade mundial capaz de realizar a fraternidade é necessária a política melhor, a política colocada ao serviço do bem comum. Mas esta política não é certamente a dos partidos populistas nem do liberalismo económico. A política populista está ao serviço do seu projecto pessoal e da sua permanência no poder. Os liberalismos estão ao serviço dos interesses económicos dos poderosos. O mercado só por si não resolve tudo. A conhecida teoria do «derrame» ou do «gotejamento» ou seja o aumento crescimento económico chega a um ponto em que dele beneficiam também os pobres. Ora esta teoria é falsa. Como diz o Papa,a fragilidade dos sistemas mundiais perante a pandemia evidenciou que nem tudo se resolve com a liberdade de mercado. A crise financeira de 2008 provou a fragilidade do liberalismo económico. A política melhor só é possível através da criação de  organizações mundiais mais eficazes dotadas de autoridade para assegurar o bem comum mundial, a erradicação da fome e da miséria e a justa defesa dos direitos humanos fundamentais. É preciso também uma reforma quer da ONU quer da arquitectura económica e financeira mundial. Uma boa política é aquela que avança para uma ordem social e política cuja alma seja a caridade.

6-Diálogo e Amizade Social. Para nos encontrar e ajudar mutuamente precisamos de dialogar. Entre a indiferença egoísta e o protesto violento há uma opção sempre possível: o diálogo. Um pacto realista e inclusivo deve ser também um pacto cultural, que respeite e assuma as diversas visões do mundo, as culturas e os estilos da vida  que coexistem na sociedade. Um pacto cultural tem de respeitar a diversidade oferecendo-lhe caminhos de promoção e integração social. Este facto pacto implica também aceitar a possibilidade de ceder algo para o bem comum. Ninguém será capaz de possuir toda a verdade nem satisfazer a totalidade dos seus desejos, porque tal pretensão levaria a querer destruir o outro, negando-lhe os seus direitos.

7-Percurso de um Novo Encontro. Em muitas partes do Mundo fazem falta percursos de  paz que levem a cicatrizar as feridas. Há necessidade de artesãos da paz prontos a gerar com criatividade e ousadia, processos de cura e de um novo encontro. Os bispos da Coreia do Sul destacaram que uma verdadeira paz « só se pode alcançar quando lutamos pela justiça ou através do diálogo buscando a reconciliação e o desenvolvimento mútuo » . A paz  « não é a ausência de guerra, mas o empenho incansável de reconhecer, garantir e reconstruir concretamente a dignidade, tantas vezes esquecida ou ignorada. A falta de desenvolvimento humano integral impede que se gere a paz. Quando a sociedade- local, nacional ou mundial- abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. A guerra e a pena de morte também não são soluções para situações extremas. A partir do desenvolvimento de armas nucleares, químicas e biológicas, conferiu-se à guerra um poder destrutivo, incontrolável que atinge muitos civis inocentes. A guerra não é uma solução pois os riscos são sempre superiores à hipotética utilidade que se lhe atribua. Toda a guerra deixa o mundo pior do que se encontrava. Quanto à pena de morte a Igreja  desde os primeiros séculos sempre se manifestou claramente contra. Os argumentos contrários à pena de morte são os seguintes:  probabilidades de erro judicial,  e também o uso que dela fazem os regimes totalitários e ditatoriais que a utilizam como instrumento de supressão  de dissidência política ou perseguição das minorias religiosas e culturais. A rejeição firme da pena de morte mostra até que ponto é possível reconhecer  a dignidade inalienável de todo o ser humano.

8-As Religiões ao Serviço da Fraternidade no Mundo.  AS religiões oferecem uma preciosa contribuição para a construção da fraternidade e a defesa da justiça na sociedade. Entre as causas mais importantes da crise do mundo moderno são a consciência humana a anestesiada e o afastamento de valores religiosos e também o predomínio do individualismo e das filosofias materialistas que divinizam o homem e colocam os valores humanos e materiais no lugar dos princípios supremos e transcendentes. Os ministros da religião não devem fazer política partidária, própria dos leigos, mas  eles não podem renunciar à dimensão política da existência o que implica atenção constante ao bem comum e a preocupação pelo desenvolvimento humano integral. Se a música do Evangelho cessar de se repercutir nas nossas casas, nas nossas praças, nos postos de trabalho, na política e  na economia, teremos  extinguido a melodia que nos desafiava a lutar pela dignidade do homem e da mulher. Existe um caminho humano fundamental que não deve ser esquecido no caminho da fraternidade e da paz: é a liberdade religiosa para crentes de todas as religiões. O culto sincero e humilde a Deus, leva não à discriminação, ao ódio e à violência, mas ao respeito pela sacralidade da vida, ao respeito pela dignidade e liberdade dos outros   e a m solícito compromisso em prol do bem-estar de todos. Num encontro que o Papa teve o Grande Imã Ahmad Al- Tayyab , declarou firmemente que as religiões nunca incitam à guerra e nunca solicitam sentimentos de ódio, hostilidade e extremismo. Estas calamidades são fruto de desvio  dos ensinamentos religiosos e do uso político das religiões. Com efeito, Deus o Todo Poderoso, não precisa ser defendido  por ninguém e não quer que o seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas.

Para terminar direi que o Papa Francisco faz uma análise profunda, do ponto de vista político, económico e sociológico, de todos os aspectos relacionados com a Paz. Para se conseguir a paz é necessária a colaboração, o diálogo e o consenso entre Estados e instituições. É preciso também reconhecer que todos os homens são iguais em direitos e que tem de se respeitar a dignidade humana. Tudo isto tem na sua base a fraternidade e a amizade. Pela força, pela violência ou pela guerra nada se resolve e caminharíamos para  o caos.

publicado por pontodemira às 20:54
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