Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2023

GUERRA E PAZ

 

É um clássico da literatura universal escrito por L. Tolstoi. Tudo se passa no início do século XIX quando a Rússia é devastada pelo exército de Napoleão. Enquanto a nobreza vivia no luxo, no fausto e nos bailes mundanos os servos e soldados encontravam-se mergulhados na miséria. Quanto às desigualdades sociais Tolstoi é a favor de uma sociedade mais justa e fraterna.

Mas não é sobre este livro que irei falar. O título Guerra e Paz tem a ver com os períodos em que países, estados e nações viveram em paz ou em guerra. E aqui irei fazer, baseando-me no livro « Breve História da Democracia» de John Kean, um pequeno resumo da democracia ao longo dos séculos. Para o autor do livro que é professor da Universidade de Sydney, a democracia passou por três fases: Democracia de Assembleia, Democracia Representativa e Democracia Monotorizada.

1-Democracia  de Asssembleia. Ao contrário do que se pensa  este tipo de democracia nasceu na Síria-Mesopotâmia no século 2500 a.C e só em 507 aC é iniciada  em Atenas. Nas assembleias públicas reuniam-se os cidadãos e debatiam livremente, concordando ou discordando e decidindo entre si enquanto iguais, sem interferências de chefes de tribo, monarcas ou tiranos. Em Atenas no ano de 507 aC a Assembleia reunia num anfiteatro em forma de taça, ao ar livre , numa colina sobre a cidade. Os cidadãos de Atenas dispunham ainda de outro espaço público: a ágora localizada na encosta noroeste da Acrópole. A política era detida colectivamente: não apenas por homens de famílias importantes ou abastadas mas também por carpinteiros,, agricultores, construtores navais, marinheiros, sapateiros, vendedores de especiarias e ferreiros.  Atenas era uma democracia sem partidos. Os cidadãos desfrutavam de uma isonomia ( igualdade perante a lei ) no direito de falar e da liberdade de « governar» e de ser governado em alternância. Existia um órgão o Conselho dos Quinhentos cuja função era propor e conduzir legislação para a Assembleia. O Conselho também elegia 50 senadores para supervisionar a administração quotidiana do Governo e resolver disputas entre cidadãos.  Havia também o ostracismo ou seja uma estratégia para bloquear a ascensão de demagogos, conspiradores e tiranos ou expulsá-los da cidade caso um número mínimo de votantes fosse favorável. Mais tarde começaram a surgir em Atenas os inimigos da democracia. Os principais opositores eram os aristocratas que tinham aversão pela democracia: Platão era antidemocrata pois entendia a democracia como uma forma desordenada e perigosa de governo  pelos ignorantes. Com a Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta que durou 30 anos começa a queda da democracia. Os líderes militares  como Péricles obtiveram o direito de exercer funções durante mandatos sucessivos. Em 359 aC Atenas foi obrigada a submeter-se ao reino da Macedónia.

2-Democracia Representativa. No século XII d.C começou uma nova fase de democracia. Com o aumento dos territórios tornou-se inviável o governo de assembleia. Surgiram então autogovernos populares baseados na eleição de representantes que ocupam cargos e governam  em nome da população durante um determinado período de tempo. Aparecem novas instituições, parlamentos, constituições escritas, partidos políticos, mesas de voto, editores independentes  e imprensa diária. O surgimento de assembleias populares começou no norte do actual território de Espanha com Afonso IX que reuniu as primeiras cortes na cidade de Leão. Nas cortes reuniram-se nobres, bispos e cidadãos abastados.  O rei prometeu consultar e aceitar os conselhos dos bispos, nobres e homens bons nas cidades, nas questões de guerra e de paz, dos pactos e dos tratados.. Em 1215 foi assinada a Magna Carta. Em 1776 da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América nasce uma República de autogoverno. Em 1890 foi concedido o direito de voto às mulheres na Nova Zelândia. No período de 1920- !939 com o início da 2ª Guerra Mundial  vem  a destruição da democracia representativa originando « tiranias púrpuras», ditaduras militares e totalitarismo

3-Democracia Monotorizada  Com o fim da 2ª Guerra Mundial e a partir de 1945 deu-se a evolução para uma democracia monotorizada. Para isso contribuiu o advento dos primeiros meios de transmissão massiva: rádio,, cinema ,televisão. Tudo isto está associado às sociedades saturadas pelos meios multimédia. A partir daqui vão criar-se práticas para a monotorização de eleições, cogestão de locais de trabalho. Criaram-se também mecanismos reguladores e de responsabilização pública. Dentro e fora dos Estados há organismos fiscalizadores rigorosos e independentes. Tudo isto irá manter  em permanente alerta as empresas, os governos, os partidos e os políticos eleitos. As instituições que poem em causa o poder e as que se destinam à sua regulação estão por todo o lado. A democracia monotorizada ocorre onde quer que existam abusos de poder.

Hoje a democracia está em crise  em quase todos os Continentes. O direito de escolha em eleições livres e justas, a liberdade de imprensa e de expressão estão a ser postas em causa em muitos países do mundo. Temos regimes despóticos na Rússia, na Turquia, no Irão e na China. O populismo está a encaminhar algumas democracias para regimes autocráticos e o poder a cair nas mãos de plutocratas ou de ditadores militares. Os governos populistas eleitos na Índia, na Hungria e no México podem fazer surgir o despotismo.

Na parte final do livro o político John Keane diz-nos que a democracia monotorizada é claramente a melhor arma criada até agora para quebrar os monopólios de poder irresponsável onde e quando funcionarem. A democracia questiona os arrogantes e assume o lado dos menos poderosos contra aqueles que abusam do poder. E  a pergunta que me ocorre fazer para terminar é a seguinte:

Será que alguma vez vai haver  paz em todos os países do planeta Terra? Penso que não. Aparecem sempre políticos de ambições imperialistas como Putin ou de tendência xenófoba ou racista que detestam e odeiam imigrantes ou grupos étnicos. Depois Se não forem corrigidas as desigualdades sociais irá continuar a agitação e a instabilidade

publicado por pontodemira às 18:31
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Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2022

A LEI DA EUTANÁSIA

 

A Assembleia da República aprovou recentemente a Eutanásia que permite a morte medicamente assistida. Na Europa, segundo dados recolhidos , há quatro países onde a eutanásia é permitida: Países Baixos, Bélgica, Luxemburgo e Espanha. A estes países junta-se agora Portugal.

Trata-se de uma lei polémica , controversa e que poderá deslizar aplicando a eutanásia a situações de grande vulnerabilidade física, psíquica, social e económica. Isto parece estar a acontecer em países como o Canadá, Bélgica e Países Baixos.

Para um crente católico, cristão a vida é um dom de Deus e não deve ser descartada mesmo em situações mais trágicas. As pessoas não são seres perfeitos e por isso durante a vida têm momentos bons e de felicidade mas também situações difíceis de dor e de sofrimento. Compreendo que os doentes em estado terminal e sem esperança de vida com dores terríveis se sintam inclinados para a situação mais fácil que é pôr termo à vida. Sabemos também que hoje há cuidados paliativos que permitem aliviar ou mesmo eliminar esse sofrimento.  Por isso para  quem  acredita que a vida não acaba com a morte era bom reflectir antes de tomar uma decisão errada. Também não compreendo que um suicídio possa ser medicamente assistido. Os médicos têm deveres deontológicos a cumprir pois pelo juramento de Hipócrates comprometem-se a respeitar a dignidade da vida humana do doente. Os médicos existem para ajudar as pessoas a suplantar as doenças e a viver melhor, mais tempo e a não para provocar a morte. A vida é um bem inalienável a que todos têm direito

 A pena de morte para punir certos tipos de crime já não existe na maioria dos países civilizados. Mas vamos supor que algum país a queria impor usando para isso um referendo.  Aqui ocorre perguntar:  Será que o povo poderia, através deste meio, legalizar aquilo que iria contra o direito inviolável à vida de um cidadão ?  Penso também que não faz qualquer sentido submeter a « Lei da Eutanásia » a um referendo embora aqui haja o consentimento da pessoa que vai morrer.

publicado por pontodemira às 17:37
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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2022

A TARDE DO CRISTIANISMO- O tempo de transformação

 

Este é o título de um livro escrito por Tomás Halik, filósofo, sociólogo, teólogo e sacerdote. É agora professor da Universidade Charles de Praga e capelão da Paróquia Académica. Desde 1989 tem sido orador regular e professor convidado de diversas universidades estrangeiras como Oxford, Boston e Havard.

Logo no início do livro diz, citando  o Papa Francisco, que «Este nosso tempo não é uma época de mudanças mas de mudança de época.» A secularização acabou por  não provocar o fim da Religião, mas antes a sua transformação. Para Tomás Halik a Igreja Católica encontra-se hoje numa situação semelhante àquela que tinha anterior à Reforma. Os casos de abuso sexual abalaram a credibilidade da Igreja e suscitaram muitas questões acerca de todo o sistema eclesial. Com a pandemia do coronavírus muitas Igrejas fecharam e para o teólogo foram um profético sinal de alarme:  em breve poderá bem ser o estado permanente da Igreja se ela não passar por uma profunda transformação. Mas se elas conseguirem resistência às tentações do egocentrismo, do narcisismo colectivo, do clericalismo, do isolacionismo e do provincianismo, elas poderão oferecer um contributo precioso para um novo, mais amplo e mais profundo ecumenismo.

A inspiração para o título do livro « A Tarde do Cristianismo » tem a ver com  uma metáfora escolhida por Carl Gustav Jung, o fundador da psicologia analítica, para descrever a dinâmica de uma vida humana  individual. Essa metáfora pode também ser aplicada à História do Cristianismo. Jung comparou  um período da vida humana com curso de  um só dia.:  a manhã da vida corresponde à juventude e ao início da vida adulta;  ao meio dia começa a crise devido ao cansaço e à sonolência ; a tarde da vida é a idade madura e a velhice.  É o tempo oportuno para o desenvolvimento da vida espiritual. E tudo isto para concluir que  também esta metáfora se aplica à História do Cristianismo. Para a História do Cristianismo o meio-dia corresponde ao período que vai da Idade Média tardia até ao período moderno, englobando o Renascimento, a Reforma, o Cisma dentro do Cristianismo Ocidental e também o Iluminismo do qual resultaram críticas à Religião e à ascensão do ateísmo. Hoje estamos no limiar da tarde do Cristianismo.  A  crise que estamos a viver aponta uma nova forma de Cristianismo talvez mais profunda e madura. Como diz Tomás Halik «a secularização não foi o fim da História da Religião, não foi como imaginavam os ideólogos do secularismo, a vitória da luz da razão sobre as trevas da Religião. Pelo contrário, foi uma transformação da Religião e um passo mais no caminho para uma fé mais madura »

E chegando aqui Tomás Halik levanta as seguintes questões : Que forma pode a Igreja assumir hoje  que seja benéfico para uma vida de fé ? Que  forma de igreja pode responder às necessidades da fé de hoje e aos actuais sinais dos tempos ? Há 4 conceitos que é preciso seguir: 1- O conceito de igreja como povo de Deus ; conceito de igreja como escola de sabedoria ; 3- O conceito de igreja como hospital  de campanha ; 4- A ideia de igreja como lugar de encontro, de diálogo, ministério de acompanhamento e de reconciliação. Reconhece também que há 3  tipos de igreja : 1- A igreja terrena ( eclesia militans ) ; 2- A igreja sofredora e penitente como as almas do purgatório ( eclesia poenitens) ; 3- E a igreja triunfante dos santos no céu ( eclesia triunphans ).  Hoje no limiar da Tarde do Cristianismo , a igreja deve voltar a ser  comunidade a caminho aprofundando o carácter peregrino da fé para cruzar este novo limiar. Mas também precisa de construir  vivos centros espirituais onde seja possível extrair coragem e inspiração para a jornada que se avizinha. Os cristãos devem recorrer a esses centros, mas não podem neles erguer « três tendas» bem acima das preocupações mundanas da vida e do mundo como desejavam os apóstolos no Monte Tabor. Para que  uma Igreja seja realmente uma Igreja e não uma seita fechada precisa de empreender uma mudança radical na maneira como se vê  na sua compreensão ao serviço de Deus e das pessoas neste mundo. Tomás Halik está convicto que o ministério do acompanhamento espiritual individual será crucial para o papel pastoral da Igreja na Tarde do Cristianismo. Esse acompanhamento que já está a ser feito pelos capelães nos hospitais, nas prisões, no exército poderá também assumir a forma de acompanhamento espiritual de pessoas em todas as situações difíceis da vida. E chegando aqui o teólogo levanta algumas questões:

1-Qual é a tarefa para esta tarde- a tarde da vida de cada um, uma tarde da história humana, a tarde do Cristianismo, a tarde da história da fé ?   A resposta é a transformação e a mudança. É necessário passar do egocentrismo para uma história contínua dos mistérios do Natal e da Páscoa. Os conceitos de clericalismo, fundamentalismo, tradicionalismo e triunfalismo reflectem várias manifestações de egocentrismo da Igreja. Se a igreja é incapaz de oferecer uma forma de cristianismo diferente não é surpreendente que muitas pessoas acreditem que a única alternativa que resta é abandonar o Cristianismo e a fé.

2-Qual será o futuro do Cristianismo ? A verdadeira resposta deve assumir a forma de seguir a Cristo. Isso implica buscar sempre o Ressuscitado de novo. É preciso buscá-lo nas estradas, no caminho como os discípulos de Emaús e nas feridas do mundo como o apóstolo Tomé.

Num cristianismo dinâmico e auto -transcendente é possível encontrar , por intermédio de Cristo, um Deus cada vez mais presente em todas as coisas, em todos os acontecimentos da nossa vida e nas mudanças do  mundo.

Para terminar é fácil concluir que a Igreja não só Portugal, mas de uma maneira geral em todo o mundo, está  a sofrer uma grave crise. A pandemia e o fecho das igrejas contribuiu para agravar a crise, mas a situação já existia antes e tem na sua origem outras causas. A catequese é importante mas a doutrina por si só não chega. Para um cristão é importante pôr em prática as 3 virtudes teologais: fé, esperança e caridade. E a caridade só se realiza através de actos : apoio aos mais necessitados, aos sofredores e aos que precisam de ajuda nos diversos problemas da vida. Ocupa-se tempo de mais com futilidades e o estilo de vida hedonista e materialista leva muita gente a esquecer o espiritual e a olhar de lado para os que necessitam de ajuda. Por outro lado há crianças que fazem uma profissão de fé e adultos que são crismados e deixam de imediato a Igreja. Será que alguém os convenceu a assumir compromissos religiosos porque fica bem e depois perdem a fé. Muitas vezes são os pais ou a família que não dão o exemplo e isso tem reflexos negativos no comportamento dos filhos.

publicado por pontodemira às 22:19
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Domingo, 23 de Outubro de 2022

LIBERALISMO E SEUS DESCONTENTES

 

Este é o título de um livro escrito por Francis Fukuyuma, filósofo, investigador e director adjunto da equipa de planeamento político do Departamento de Estado norte-americano.

Com a queda do Muro de Berlim, a dissolução da União Soviética e o fim da Guerra Fria, pensou-se que a democracia liberal iria ser o sistema político dominante levando a um período de paz e prosperidade. Foi nesta altura que Francis Fukuyuma escreveu o livro “ O Fim da História e o Último Homem”. Mas hoje vivemos um tempo de grande agitação.  A Rússia invadiu a Ucrânia, o populismo autoritário está a impor-se nalguns países e a China que não respeita as regras democráticas pois é uma ditadura, está a querer invadir Taiwan.  E aqui ocorre perguntar : Será que o liberalismo democrático acabará por se impor ?

Para tratar este tema Fukuyama escreveu recentemente o” livro Liberalismo e Seus Descontentes” . É sobre ele que irei fazer um breve resumo focando os aspectos mais importantes.

É um facto que o liberalismo se encontra hoje seriamente ameaçado. Líderes eleitos democraticamente estão a subverter o sistema judicial, a silenciar os órgãos de comunicação independentes e a tentarem perpetuar-se no poder. É o caso de ViKtor Orban na Hungria, Jaroslaw Kacznski na Polónia, Bolsonaro no Brasil e Erdogan na Turquia. Com o tempo o liberalismo económico foi evoluindo para o que se apelida de neoliberalismo, aumentando drasticamente a desigualdade e causando crises financeiras devastadoras como aconteceu nos finais da década de 1970.

E o que vem a ser o liberalismo clássico ? As sociedades liberais  conferem o direito à autonomia individual ou seja à capacidade de fazer escolhas no que respeita à expressão, à associação, à crença e à vida política. O liberalismo é frequentemente subsumido no termo democracia embora sejam noções distintas. A democracia refere-se ao governo pelo povo em eleições multipartidárias, livres e justas. O liberalismo refere-se ao estado de direito, ao sistema de regras formais que restringem os poderes do executivo, mesmo quando esse executivo é democraticamente legitimado pela via eleitoral. O liberalismo, mais que a democracia tem sido alvo dos ataques mais cerrados no ano recente. Putin já afirmou que o liberalismo é uma « doutrina obsoleta » e tem trabalhado afincadamente para silenciar os seus críticos, para prender, assassinar ou perseguir os seus opositores e suprimir qualquer espécie de espaço público independente. Há  3 justificações fundamentais a favor das sociedades liberais:

A primeira é de ordem pragmática.  O liberalismo é uma forma de regular a violência, que permite que populações diversas convivam pacificamente. A segunda é de ordem moral. O liberalismo protege a dignidade humana básica e a capacidade de escolha de cada  indivíduo. A terceira justificação é económica: o liberalismo promove o crescimento económico e protege os direitos de propriedade e de liberdade comercial

Mas o Liberalismo não é incompatível com a intervenção do Estado. Fukuyama diz, e muito bem .que o Estado tem plena legitimidade para intervir quando se encontram circunstâncias adversas que fogem do seu controlo. Os Estados são necessários para providenciar os bens públicos, que os mercados por si só não asseguram desde a saúde pública, ao sistema judicial às forças de segurança e defesa nacional. Na Escandinávia as pessoas  muitas vezes pagam mais de metade dos rendimentos anuais em impostos, mas em compensação recebem educação de qualidade até ao fim do ensino universitário, bons cuidados de saúde, reformas e outros benefícios que os americanos têm de pagar do seu bolso.

O autonomia individual uma das características do liberalismo foi levada ao extremo por liberais de direita, preocupados sobretudo com a liberdade económica. O mesmo aconteceu com os liberais de esquerda que valorizaram um tipo de autonomia baseado na autorrealização individual que evoluiu para políticas identitárias modernas. Estas tendem a focar-se na raça, na etnicidade e no género. A política identitária é muito pronunciada nos Balcãs, no Afeganistão. Myanmar, Quénia, Nigéria, Sri Lanka, Iraque , Líbano, levando à divisão entre grupos religiosos ou étnicos

Outra característica das sociedades liberais é a liberdade de expressão que não existe na Rússia de Putin nem na China O  iliberalismo tem-se manifestado tanto à direita como à esquerda. Mas nenhum dos extremos propõe uma alternativa plausível ao liberalismo clássico. O crescimento espantoso da China nas últimas décadas deve-se à criação de um sector privado importante. Foi esse sector privado e não a esfera das pesadas empresas estatais o responsável pela maior parte do crescimento de alta tecnologia.

No fim do livro FuKuyama enumera os princípios em que se deve reger uma democracia liberal : 

1-O Estado moderno tem de ser impessoal pois deve relacionar-se com os cidadãos em termos de igualdade e não na base de laços familiares, políticos ou pessoais; 2-deve levar o federalismo (    subsidiariedade) a sério, descentralizando o poder adequadamente pelos níveis mais baixos do poder; 3-proteger a liberdade de expressão mediante o entendimento dos seus limites; 4.deve dar primazia aos direitos individuais sobre o direitos  de grupos culturais; 5-as sociedades liberais assumem a igualdade da dignidade humana ancorada na capacidade individual de fazer escolhas. Embora a autonomia seja um valor liberal essencial, não é  um bem absoluto que automaticamente anule todas as outras concepções de vida boa; 6- o último princípio é o da moderação. Mesmo que a autonomia pessoal seja a fonte da realização individual, isso não significa que a liberdade e a constante eliminação de constrangimentos tornem uma pessoa ainda mais realizada . A moderação individual e comunitária tornou-se a chave para a renovação e sobrevivência do próprio liberalismo

         

publicado por pontodemira às 19:20
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Quinta-feira, 29 de Setembro de 2022

UMA TEORIA DA DEMOCRACIA COMPLEXA

 

Este é o título de um livro escrito por Daniel Innerarity , catedrático de Filosofia Política e Social, Investigador Ikerbasque na Universidade  do País Basco e director do Instituto de Gobernanza Democrática.

A sociedade de hoje é muito diferente da que existia  no tempo da Revolução Francesa em que foram proclamados os valores da liberdade, igualdade e fraternidade. A Revolução industrial foi um período de desenvolvimento tecnológico causando grandes transformações na sociedade. Na Inglaterra os cartistas exigiram o sufrágio universal masculino.  As modificações económicas e tecnológicas consolidaram o sistema capitalista e foi dado um passo para os governos democráticos.

Hoje temos uma sociedade complexa devido a problemas de vária ordem : degradação ambiental, e ecológica, crises económicas e financeiras, conflitos internos e externos, migrações entre países.. Uma sociedade complexa vai originar também uma democracia complexa. Em que os problemas não se resolvem com políticas simplistas mas com processos que envolvem peritos, especialistas, corporações e instituições. Na maior parte dos casos também requerem soluções a longo prazo que são incompatíveis com o mandato dos governantes eleitos por períodos de 4 a 5 anos.

Depois desta breve síntese passo a citar algumas passagens do livro:

A principal ameaça à democracia não é a violência nem a corrupção, ou a ineficiência, mas sim a simplicidade. A uniformidade, a simplificação e os antagonismos toscos exercem uma grande sedução sobre aqueles que não toleram a ambiguidade, a heterogeneidade e a plurissignificação do mundo. Os nossos sistemas políticos não estão a ser capazes de gerir a crescente complexidade do mundo. A democracia não é incompatível com a complexidade, antes pelo contrário. O seu dinamismo interno e a sua capacidade de autotransformação fazem dela o sistema de governo mais bem preparado para geri-la.

 A primeira coisa que um conceito complexo de democracia nos ensina é que a democracia é um processo. Uma democracia de qualidade é mais sofisticada do que a aclamação plebiscitária: nela deve haver espaço para a recusa e o protesto, sem dúvida. Mas também para a transformação e a construção. Como evitar que o simplismo e a mera recusa sejam eleitoralmente tão rendíveis ? Façamos intervir no processo democrático mais valores, actores e instâncias.

Temos de aprender a mover-nos em cenários de maior instabilidade quando se trata de  construir cidades e sistemas de energia inteligentes, prevenir conflitos, lutar com as alterações climáticas, combater a pobreza , a instabilidade financeira, a degradação ambiental ou gerir as crises. O actual incremento da complexidade exige uma profunda revisão das nossas concepções da democracia e das nossas práticas de governo.

 Na era da globalização, as condições em que os seres humanos vivem são mais complexas  e inabarcáveis. O caos e a auto-organização surgem segundo as lógicas dos sistemas dinâmicos complexos, tanto na natureza como na sociedade. O objectivo do governo consiste precisamente em criar um ambiente em que a sociedade possa reflectir acerca daquilo que quer para si própria.

 A sociedade é complexa pelo aspecto que nos oferece( heterogeneidade, discordância, caos, desordem, diferença, ambivalência, fragmentação, dispersão). Pela sensação que produz ( incerteza , insegurança ) e por aquilo que se pode fazer ou não com ela ( ingovernavilidade,inabarcabilidade ). Os maiores desafios do futuro  têm a ver com as transformações repentinas ou  «catástrofes normais »

A sociedade democrática é atravessada por diferenças de opinião, de classe e de interesse que tornam duvidosas todas as tentativas de identificar uma vontade inequívoca do povo . A democracia é uma forma de organização política da sociedade em que o conflito nunca se resolve definitivamente na unidade de uma vontade  comum. Na UE não há um poder central que deva ser conquistado numa competição entre partidos políticos,    nem as políticas são decididas por um governo maioritário mas sim por uma negociação entre o Conselho, o Parlamento e a Comissão. Governar é uma acção incerta, difícil e aberta ao fracasso. A política intervém numa sociedade em que existem diversos sistemas ( económico, legal, ambiental científico) . Cada um desses sistemas tem um conjunto de valores, semânticas, racionalidades, preferências e interesses que não coincidem completamente com o dos outros. Numa perspectiva indirecta  governar consiste em facilitar a reflexão  desses sistemas autónomos para que eles mesmos descubram as suas possibilidades catastróficas e se protejam delas com algum tipo de autolimitação A força do governo não consiste em obrigar o povo a fazer alguma coisa , mas sim numa autoridade que anime o povo a fazer o que convém ao bem comum. Uma democracia de transformação tem de realizar 3 tipos de operações: 1- gerar a mudança social proposta. 2- evitar situações indesejáveis que devem ser previstas para não ocorrerem. 3- configurar uma subjectividade capaz de construir  e implementar essas decisões políticas o que passa necessariamente pela negociação democrática, pelo pacto ,pelo acordo e pela cooperação. Não há democracia sem uma opinião pública que exerça um controlo efectivo sobre o poder, expresse as suas críticas e faça verdadeiramente as suas exigências. A crescente complexidade do político torna difícil que haja uma opinião pública competente para entender e julgar aquilo que está a acontecer. As democracias devem abrir-se aos outros contemporâneos (transnacional), às gerações futuras(intergeracional), à igualdade de género( paritária) e às questões ecológicas e deveriam também completar aquela que é agora uma reduzida democracia eleitoral. As democracias eleitorais têm um viés sistemático a favor do presente e menosprezam o futuro, ou seja, tendem a pôr os interesses dos eleitores actuais acima dos eleitores futuros. A política ambiental e as alterações climáticas deve ser compatível com a democracia; se não for, além duma ameaça contra o ambiente físico teríamos uma ameaça contra a nossa forma de viver civilizada.. Não há fórmula alternativa à democracia representativa que garanta melhor o pluralismo e a equidade. A função das instituições numa democracia representativa é dupla: 1- inclusão do maior número possível de pontos de vista e interesses no processo político e 2- ponderação do peso real desses pontos de vista e interesses, corrigindo as sua assimetrias. As democracias não estarão em condições de responder aos desafios com que se confrontam se não melhorarem os seus recursos cognitivos. As democracias são os sistemas políticos mais inteligentes, mas são também aqueles que exigem que se desenvolva mais inteligência colectiva se quiserem manter os seus padrões de legitimidade. A política está concentrada no curto prazo e rege-se pela lógica  dos períodos legislativos e do calendário eleitoral, o que, associado à aceleração eleitoral a leva a actuar quando as coisas não têm remédio, a legislar sobre o passado, a praticar gestos de soberania que não têm nenhuma eficácia. Nas sociedades modernas, os actores e sistemas sociais devem ser capazes de funcionar como totalidade complexas que interagem e não como mera agregação de elementos. Vivemos numa época que podemos caracterizar pela volatilidade. A volatilidade manifesta-se na imprevisibilidade que faz fracassar as sondagens, na instabilidade permanente, nas turbulências políticas, nas disrupções de toda a espécie, na histeria e na virilidade. Se até há pouco catalogávamos as pessoas  como liberais, conservadoras, socialistas ou comunistas, agora deveríamos agrupá-las em desconcertadas, voluntaristas, oportunistas, indiferentes ou  Irritadas. A grande politização que nos espera é a do mundo digital. Hoje podemos garantir que no século XXI. a política é precisamente isso: a institucionalização de um nível de reflexibilidade para que os nossos dispositivos automatizados sejam desenhados de acordo com aquilo que decidimos ter , uma vida comum bem sucedida. Cada época histórica tem uma forma de governo. O mundo actual deve ser governado de acordo com o seu nível de complexidade. Que tipo de democratização pode ser levado a cabo neste plano global ?  Para uns, a solução seria fortalecer os vínculos entre as estruturas domésticas e as internacionais, enquanto os cosmopolitas reclamarão que se avance no sentido de dotar essas instituições globais de propriedades dos estados ( lógica parlamentar e opinião pública unificada». Em ambos os casos prevalece o modelo de Estado nacional, bem como o governo de legitimidade democrática, bem como a aspiração de que as estruturas globais se vão parecendo o mais possível com o Estado nacional. É pouco realista pensar em transplantar as categorias da democracia próprias do  Estado-nação para os processos da União Europeia e, mais ainda, para a governança global. O que é razoável é entender que nos processos globais » há pouco lugar para a democracia, mas muito espaço para a legitimidade ». A este nível, a questão da legitimidade tem mais a ver com os requisitos da justiça do que da democracia. Num mundo interdependente, com várias formas novas de autoridade não democrática, é muito inverosímil que a democracia possa existir apenas a um nível, seja ele nacional, global ou transnacional. Tomar o Estado nacional por única realidade possível para o exercício da democracia e por modelo universal equivale a considerar uma das suas concretizações históricas como a única possibilidade de democratização. Que  a  democracia moderna tenha encontrado a sua forma no Estado nacional não quer dizer que não possa acontecer sob um formato diferente, ou em condições   muito diversas. Fazer da democracia uma realidade mais complexa implica ter em conta essa dimensão global em que a nossa vida colectiva se desenrola, nesse contexto de crescentes interdependências.. Se a política é articulação das formas de viver em conjunto do que se trata agora é de como devemos conviver, de que forma nos organizamos e quais as nossas obrigações recíprocas no contexto das profundas interdependências geradas pela globalização. No fundo, o problema não é se, nos âmbitos globais, pode ou não haver uma democracia semelhante aquela que configuramos nos estados nacionais, mas sim como superar a incongruência entre os espaços sociais e os espaços políticos. O fundamental é que haja governo ou governação legítimos, e não tanto que possam ou não estender-se globalmente os requisitos democráticos que só são válidos ,estritamente falando, para os espaços delimitados. Nesse sentido, as instituições internacionais tornam possível que a política recupere a capacidade de actuação face aos processos económicos desnacionalizados.

publicado por pontodemira às 12:08
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Quinta-feira, 25 de Agosto de 2022

O REGRESSO DA HIPÓTESE DE DEUS

O REGRESSO DA HIPÓTESE DE DEUS

Este é o título de um livro escrito por Stephen C. Meyer doutorado em filosofia da Ciência pela Universidade de Cambridge. Antes de assumir as funções de director do Centro de Ciência e Cultura do Discovery  Institute em Seatle dedicou-se à geofísica e ao ensino universitário.

Durante a Idade Média na Europa uma grande parte das pessoas acreditava  na existência de um Deus criador do Universo e da vida na Terra. Mas no período Iluminista a razão humana e a ciência afastavam a crença religiosa gerando um cepticismo em relação à existência de Deus. Ascensão do materialismo científico criou uma mundivisão baseada na ciência que colocava a matéria e a energia, e não Deus, como a realidade fundamental de onde decorre tudo o resto. Em 1854 Darwin escreve  o livro “ A Origem das Espécies” e nele esclarece que os organismos vivos através da selecção natural sofrem variações aleatórias o que explica a  adaptação dos mesmos ao ambiente sem ser necessário recorrer a um agente inteligente ou director.

Por volta de 2006 apareceu um grupo de cientistas e filósofos conhecidos por Novos Ateus que deu início à publicação de uma série de livros de grande sucesso comercial como a  “ Desilusão de Deus “ de Richar Dawkins, que defendeu que a ciência minava a crença em Deus. A este cientista juntaram-se outros como Victor Stenger e Stephen Hawking. Mas o autor do livro, Stephen Meyer, diz-nos que há três descobertas científicas fundamentais que suportam a confiança teísta daquilo a que se chamaria « O Regresso da Hipótese de Deus » : ( 1)  evidência da cosmologia que sugere que o Universo teve um começo;  ( 2) evidência da física que mostra que, desde o início, o Universo foi « afinado » para permitir a possibilidade de vida; ( 3) a evidência da biologia que estabelece que, desde o início surgiram na nossa biosfera grandes quantidades de nova informação genética funcional para possibilitar novas formas de vida-  o que implica a actividade de uma inteligência arquitecta. Ao estudo de cada evidência dedicou Stephen Meyer um capítulo, tendo depois inferido as seguintes hipóteses: 1- Hipótese de Deus e o princípio do Universo ; 2- Hipótese de Deus e o desígnio do Universo ; 3- Hipótese de Deus e  o Desígnio da Vida.

1-Hipótese de Deus e o Princípio do Universo. Antes da descoberta do começo do Universo os materialistas sentiam-se confiantes e afirmavam que o Universo era eterno e necessariamente existente e que não precisava de explicação causal. Embora os teístas não possam dizer previamente que Deus terá criado definitivamente um Universo que exibisse evidência de um começo temporal, reconheceram que a evidência desse começo é mais provável sendo dado o teísmo do que sendo dado o naturalismo.

2-A Hipótese de Deus e o Desígnio do Universo. Nenhum ser inteligente surgido após o começo do Universo poderia ter estabelecido as condições iniciais do Universo de que dependia a sua evolução e existência  posteriores . O tipo de  inteligência necessária para explicar a afinação do Universo  deve, de algum modo, preexistir ou existir independente do Universo material. Tanto o teísmo como o deísmo concebem Deus como uma existência independente do Universo material- quer num domínio eterno e e intemporal, quer no domínio do tempo independente do tempo do nosso  Universo. Ambos podem explicar (1) a origem do Universo no tempo ( ou seja no começo ) e (2) a afinação do Universo desde o começo do tempo.

3-A Hipótese de Deus e o Desígnio da Vida  O ADN de uma célula ou de um ser vivo tem uma complexidade semelhante ao software de um computador. Se o software de um computador tem na sua origem um programador também uma célula ou um ser vivo não nasce do nada mas de uma superinteligência que os teístas e deístas atribuem a Deus. E qual é  a diferença entre o teísmo e o deísmo ? O deísmo nega qualquer actividade divina no mundo natural após o primeiro momento da criação. Contudo a maioria dos evolucionistas teístas pensa que Deus sustenta activamente o funcionamento ordenado da natureza- as leis da natureza-  momento a momento.

Na parte final do livro Stephen C Meyer transcreve uma passagem do Livro Existencialismo e Humanismo  de Sartre em que ele diz que um Universo sem um Deus pessoal transcendente- ou um ponto de referência infinito – deixava as pessoas num estado de angústia, abandono e desespero. Angústia, porque podem nunca vir a saber se escolheram valores certos, pois não há um critério pelo qual julgar as escolhas ; abandono porque estamos verdadeiramente sozinhos nas escolhas e nenhuma fonte externa ou deus transcendente pode conferir sentido duradouro à nossa existência; e desespero porque o mundo que nos rodeia  pode não cooperar com as escolhas que fazemos.  Afinal de contas, se Deus não existe , não há critério pelo qual julgar essas escolhas. Ora não só o teísmo resolve muitos problemas filosóficos, como também a evidência empírica do mundo material aponta fortemente para a realidade de uma grande mente por trás do Universo. O nosso Universo belo, expansivo e afinado e a complexidade delicada, integrada e informacional dos organismos vivos são testemunhas da realidade de uma inteligência transcendente- um Deus pessoal. Assim não precisamos de « inventar » Deus ou sequer aceitar a existência de um Deus, como mera necessidade filosófica. Ao invés, reflectir sobre essa evidência pode permitir descobrir- ou redescobrir- a realidade de Deus. E de facto, se esta descoberta é uma boa notícia- não estamos sós num vasto Universo impessoal e sem sentido-  o produto da  « indiferença cega e impiedosa». Pelo contrário, a evidência aponta para uma inteligência pessoal por trás do mundo físico que observamos.

publicado por pontodemira às 22:00
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Sábado, 30 de Julho de 2022

ATÉ QUANDO IRÁ DURAR A GUERRA NA UCRÂNIA

 

1-É execrável e sem sentido a Guerra na Ucrânia. Um país que vivia em democracia e onde eram respeitados os direitos e liberdades individuais dos cidadãos. Se em alguma parte do território havia facções  pro-rússia isto seria um problema interno a resolver  pela própria Ucrânia e não pela interferência externa de outros países como a Rússia.  O que se está a passar deve-se ao poder expansionista de Putin que não olha a meios para atingir os fins. E quem é Putin ?  Sabemos que pertenceu ao KGB ,polícia secreta russa e que também foi primeiro-ministro quando sucedeu a Boris Ieltsin no período pós-União Soviética. Uma vez no poder transformou-se num ditador rodeado de  oligarcas e de cleptocratas. A riqueza da Rússia vai toda para as mãos da oligarquia que o apoia. O eleitorado de Putin está fora dos centros urbanos e é formado por rurais que desconhecem o que se está a passar na Ucrânia.  Depois como diz o politólogo Bernardo Pires de Lima numa entrevista ao Jornal Público , Putin tem a seu favor, e passo a cita,r «  uma máquina de propaganda brutal. Todos os dias é veiculada a ideia de que há uma invasão iminente da Rússia por parte das forças da NATO »   Acresce a tudo isto que os cidadãos não podem criticar Putin ou fazer manifestações nas ruas porque são logo presos. Há um controlo do poder judicial e do poder político de forma a perpetuar-se no governo.

2.A ambição imperialista de Putin e o sonho de repor a composição da antiga União Soviética e se possível ir mais além , começou em 2008 com a invasão da Geórgia. Seguiu-se depois a anexação da Crimeia em 2014. Perante a passividade da Comunidade internacional e da ONU esperou  pela ocasião certa para atacar a Ucrânia. Segundo dados da imprensa Putin ajudou o antidemocrata Trump a vencer as eleições nos EUA através de informações falsas divulgadas nos Media . Putin procura ainda ganhar a simpatia  dos países populistas europeus, como Orban na Hungria, para levar a sua estratégia política a bom termo. Certamente que ficou satisfeito com o Brexit ou seja com a saída do Reino Unido da União Europeia. Putin procurou assim as condições mais favoráveis para atacar a Ucrânia ou seja a desestabilização da Europa e a crise provocada pela pandemia do Covid19.

3-O que irá acontecer num futuro próximo na Ucrânia é fácil de adivinhar. Os Russos vão continuar a bombardear as cidades  de forma a reduzir a cinzas todas as infraestruturas e casas de habitação. Os ucranianos não vão ter homens nem equipamento militar adequado para resistirem aos russos. Se houver que estabelecer a paz os russos não irão devolver os territórios que estão já sob o seu controle. No fim estabelecerão um governo fantoche como já existe na Bielorrússia. Se tudo isto acontecer nada nos garante que daqui a um ano não haja novas incursões na Moldávia, na Polónia ou na Roménia. Todos sabemos que na ONU nada se decide porque há sempre um país que vota contra porque tem o direito a veto. Resta saber se a NATO tem capacidade e força de decisão para agir rápido e com eficiência.

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Segunda-feira, 27 de Junho de 2022

A TIRANIA DO MÉRITO

 

Este é o título de um livro escrito por Michael .J. Sandel professor de filosofia na universidade de Harvard. Nele abordou como tema o mérito que em países como os Estados Unidos da América se está a transformar em tirania. Para ele há três formas de entrar nas universidades de elite nos EUA : Yale, Stanford, Georgetown e na Universidade da Califórnia do Sul. Os que têm muito dinheiro e fazem uma grande doação à universidade mesmo que sejam pouco qualificados entram pela « porta das traseiras » Os que se servem de testes falsificados e de fraudes nos exames de admissão entram pela « porta lateral ».  Finalmente os que têm mérito próprio e bom desempenho nas provas de aptidão entram pela «porta da frente ». Aqueles que conseguem tirar um curso em universidades de elite ficam no topo da pirâmide e arranjam  um bom emprego. Os que têm apenas o ensino liceal ficam na base sem grandes saídas. É fácil distinguir aqui vencedores e perdedores. No alto da pirâmide estão os arrogantes que devido ao seu mérito tratam os de baixo com desprezo e humilhação. Temos assim uma meritocracia que pode provocar na sociedade efeitos nocivos como a arrogância e o ressentimento. A isto chama o filósofo Sandel a « Tirania do Mérito ». É claro que  a globalização e as novas tecnologias vieram agravar as desigualdades sociais  beneficiando os que estão no topo e lançando no desemprego os menos credenciados. Os trabalhadores aproveitam muitas vezes esta situação para atacar os imigrantes e as elites governantes. Daqui nasceram os partidos populistas que procuram agradar aos descontentes prometendo mundos e fundos que depois não vêm a cumprir. Uma vez no poder subvertem  as instituições democráticas e passam a ditadores ou autocratas. A Tirania do Mérito é em primeiro lugar fruto da desigualdade desenfreada e da mobilidade geral estagnada que desmoraliza os que foram deixados para trás ; em segundo lugar um diploma universitário é a principal via de acesso a um emprego respeitável e a uma vida decente ; em terceiro lugar insistir em que a melhor forma de resolver os problemas sociais e políticos consiste em recorrer a peritos altamente qualificados e imparciais é um conceito que corrompe a democracia e priva de poder os cidadãos. É preciso entender que o mérito se deve aos talentos inatos e como diz Sandel o nosso destino não está apenas nas nossas mãos e o devemos à graça de Deus ou aos caprichos da fortuna ou ao simples acaso, tanto o nosso sucesso como os nossos problemas.

Numa sociedade democrática que trabalha para o bem comum todos são necessários: electricistas, canalizadores, carpinteiros, etc.  Todos eles são aptos para a arte do debate democrático pois não são menos do que aqueles  que querem ser consultores de gestão. Uma comunidade justa e equilibrada só se consegue através de um justiça distributiva em que os grandes rendimentos e fortunas sejam tributados com impostos progressivos para que todos os cidadãos possam ter direito à saúde, à educação e a um emprego digno. Mas também é necessário uma justiça contributiva em que todos trabalhem e colaborem para o bem comum através de salários dignos. 

Na parte final do livro Sandel conclui o seguinte: « A crença meritocrática de que as pessoas merecem todas as riquezas que o mercado lhes outorgam em razão das suas capacidades torna a solidariedade uma proposta quase impossível.  Por que razão as pessoas bem sucedidas devem alguma coisa aos membros menos favorecidos da sociedade ?    A resposta a esta pergunta depende de reconhecermos que, por muito que nos esforcemos, não somos completamente autossuficientes ; viver numa sociedade que aprecia os nossos talentos é um caso de fortuna e não mérito próprio. Um sentido agudo das contingências da vida pode inspirar uma certa humildade : « Poderia ter sido eu, se a graça de Deus ou as circunstâncias do nascimento não tivessem decidido de outra maneira »   Tal humildade é o início do caminho que nos traz de volta da ética brutal do sucesso que nos separa. Aponta para além da tirania do mérito, para uma vida pública menos rancorosa e mais generosa.»

publicado por pontodemira às 17:41
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Sábado, 28 de Maio de 2022

UMA BREVE HISTÓRIA DA IGUALDADE

 

Este é o título de um livro escrito por Thomas Piketty que é professor catedrático na É cole des Hautes Études en Science Sociales e professor da École d´Économie de Paris. Neste livro traça o percurso que se tem feito ao longo dos séculos para se corrigir  as desigualdades sociais. Logo na Introdução diz-nos que há um movimento para a igualdade desde o final do século XVIII. O mundo no início do ano de 2020 por mais injusto que possa parecer é mais igualitário que o de 1950 ou de 1900 embora estes fossem também mais igualitários do que o de 1850 ou de 1750. Entre 1780 e 2020 podemos observar evoluções que se dirigem para mais igualdade de estatuto, de propriedade, de rendimento, de género e raça na maior parte das regiões do planeta.

O filósofo Jean-Jacques Rousseau no século XVIII dizia que as discórdias na sociedade surgiram quando apareceu a propriedade privada  e a sua acumulação desmesurada. A Revolução Francesa que proclamou a trilogia liberdade, igualdade e fraternidade conduziu  à abolição dos privilégios da nobreza. A Revolta dos Escravos em São Domingos no ano de 1791 conduziu ao princípio do fim do sistema esclavagista atlântico. As mobilizações sociais e sindicais desempenharam um papel importante na instauração de novas relações de força entre capital e trabalho e na redução das desigualdades. Nos Estados Unidos da América foi necessário uma guerra civil para pôr fim em 1865, ao sistema esclavagista. As guerras de independência vieram pôr fim ao colonialismo europeu nas décadas 1950- 1960. A marcha para a igualdade apoiou-se em dispositivos institucionais mais específicos tais como: igualdade jurídica, sufrágio universal e democracia parlamentar, educação gratuita e obrigatória, seguro de saúde universal, imposto progressivo sobre o rendimento as sucessões e os imóveis, a liberdade de imprensa, a cogestão e o direito sindical, etc…

Apesar destes esforços que têm sido feitos as desigualdades de acesso à educação e à saúde continuam a ser abissais. Sabemos que a pressão da URSS e do movimento comunista internacional fez com que as classes possidente ocidentais aceitassem a Segurança Social e os impostos progressivos, as descolonizações  e os direitos cívicos. Acontece porém que as relações de força e a certeza dos bolcheviques conduziram a um desastre totalitário com o aparecimento do partido único, com a centralização burocrática, a propriedade estatal hegemónica e o repúdio da propriedade cooperativa e dos sindicatos. No século XX o país que aboliu por completo a propriedade privada , a Rússia, tornou-se no início do século XXI , a capital mundial dos oligarcas e da opacidade financeira.

Na parte final do livro Thomas Piketty diz-nos o que é preciso  fazer para atingir uma sociedade mais igualitária.  Tendo em conta esse objectivo defende  a possibilidade de uma sociedade democrática e federal, descentralizada e participativa, ecológica e mestiça, baseada no alargamento do Estado social e do imposto progressivo, na partilha do poder das empresas, na reparações  pós-coloniais e na luta contra as discriminações, na igualdade educativa e no cartão carbono, na desmercantilização gradual da economia, na garantia de um emprego e numa herança para todos, na redução drástica das desigualdades monetárias e num sistema eleitoral e mediático finalmente fora dos potentados do dinheiro.  E termina concluindo que se, os países ocidentais, ou uma parte deles saíssem das posturas capitalistas e nacionalistas habituais e adptassem um discurso baseado no socialismo democrático e na saída do neocolonialismo com medidas fortes de justiça social e de partilha das receitas das multinacionais e dos multimilionários à escala mundial, isso permitiria então, não só recuperar a credibilidade perante o Sul, mas também destruir os últimos argumentos do socialismo autoritário chinês em matéria de transparência e de democracia

publicado por pontodemira às 17:09
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Quarta-feira, 27 de Abril de 2022

A SABEDORIA EM TEMPO DE CRISE

                                       

Estamos a viver uma época de crise. Tudo começou com a pandemia que matou milhares de pessoas. As medidas de contenção  impostas obrigaram muitas empresas e restaurantes a fecharem as portas lançando no desemprego centenas de trabalhadores. Os funcionários dos serviços públicos foram obrigados a trabalhar on line e a fazer  horas extraordinárias para cumprir as tarefas de que foram incumbidos. O mesmo aconteceu com os profissionais de saúde, médicos e enfermeiros que foram sobrecarregados com serviços e tiveram de empenhar-se a fundo para salvar vidas.

Agora temos a Guerra da Ucrânia que está a reduzir a cinzas um país livre e  independente e que vivia em paz. Tudo isto se deve às ambições imperialistas de um governante que tem ódio aos países democráticos e as melhores relações com países de regime autocrático que não respeitam a liberdade dos cidadãos, que subordinam o poder judicial ao político de maneira a poderem perpetuar-se no poder. Fico impressionado com as imagens que vejo na televisão e que mostram a crueldade com que se matam cidadãos inocentes e que viviam em paz.

Muita gente pensou que com a queda do Muro de Berlim e com o fim da Guerra Fria se iria viver um período de liberdade de democracia e de paz. Tal não veio a acontecer e o que nos espera no futuro é a guerra em determinados países e a paz noutros. Será que não é possível estabelecer a paz no mundo ? Para o filósofo Rousseau o homem é por natureza bom mas a sua vida em sociedade fá-lo inclinar-se para o mal. Mas o filósofo Hobbes pensa de maneira diferente. Para ele o homem já nasce mau e não sabe viver em sociedade e por isso é preciso um Estado autoritário para o meter na ordem. Com o pensamento de Hobbes se identificam hoje os ditadores e autarcas e todos os políticos que reduzem a liberdade e os direitos dos cidadãos para se eternizarem no poder. Reflectindo bem, os homens não são como os animais irracionais e podem, se houver entendimento,  praticar o bem e estabelecer a paz.

À pandemia e à guerra na Ucrânia podemos juntar também as alterações climáticas que se estão a agravar de dia para dia. Há terras na África que estão a secar  e a tornar impossível a agricultura. A temperatura do ar está subir  e a derreter as calotas de gelo polares aumentando o volume da água do mar que pode depois invadir as terras que ficam junto à costa. As ondas de calor podem também provocar furacões e tempestades que se estão a tornar cada vez mais frequentes. E se não se tomarem medidas caminharemos para uma situação catastrófica.

Perante estas situações tão dramáticas que acabei de enumerar é conveniente agir com sabedoria. O Historiador José Mattoso abordou este tema num livro que escreveu que tem por título “ Levantar o Céu- Os labirintos da sabedoria “  A sabedoria pode estar associada à Razão ou à Fé.

  • Sabedoria e Razão. Neste caso a sabedoria tem a ver com os conhecimentos científicos, tecnológicos e artísticos. Os conhecimentos científicos e tecnológicos contribuíram para o desenvolvimento, para a melhoria do nível de vida e para o aumento da longevidade no século XX e XXI. Mas nem tudo é positivo no desenvolvimento. Há desperdícios e consumismo exagerado; concentração de riqueza nas mãos de uma percentagem reduzida de pessoas enquanto outras vivem na miséria. Também têm dado origem a utopias pessimistas. Orwell imaginou uma sociedade totalitária em que  há um big brother( chefe totalitário) a que todos têm de obedecer.
  • Sabedoria e Fé. A Fé nasce muitas vezes de uma experiência pessoal: contemplação das belezas da natureza, de uma obra de arte e dos ensinamentos de Jesus Cristo que podemos ler nos Evangelhos e nas Epístolas de São Paulo. A Fé como diz o Historiador José Mattoso não é uma doutrina mas uma práxis. No contacto com os que sofrem, os que passam fome podemos desenvolver o nosso espírito de solidariedade e fraternidade. E é assim ,como diz o Papa Francisco na encíclica Fratelli Tutti, que todos em conjunto podemos construir uma sociedade mais humana e mais justa, pôr fim à guerra e construir a Paz. A guerra como diz o Papa Francisco é um fracasso da política e da Humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal.Com o dinheiro usado em armas e noutras despesas militares, devia construir-se um Fundo Mundial para acabar de vez com a fome e para o desenvolvimento dos países pobres, a fim de que os seus habitantes não recorram a situações violentas ou enganadoras, nem precisem de abandonar os seus países à procura de uma vida mais digna.

E para terminar vou transcrever uma passagem do livro “ Levantar o Céu “ em que o Historiador José Mattoso diz o seguinte :  «  Enquanto houver sobre a Terra alguém que procure levantar o Céu, quer dizer, implantar um pouco de bondade e de beleza sobre a Terra, restabelecer equilíbrios, perdoar ofensas, renunciar ao poder, vibrar com uma cantata de Bach, arriscar a vida para matar a fome a alguém, comover-se com o riso de uma criança, sentir-se interpelado pelo mistério de Jesus Cristo no  Getsémani como Aquele que carrega os pecados do mundo- enquanto houver alguém que teime entregar-se à Vida sem pensar em si mesmo, mas tendo em mente os seus semelhantes- não é insensato manter a esperança. »

                                                                      

publicado por pontodemira às 21:26
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