Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2021

SONHEMOS JUNTOSO- CAMINHO PARA UM FUTURO MELHOR - PAPA FRANCISCO

 

Este é um livro que surgiu em tempo de confinamento e que resultou de uma entrevista que o papa Francisco concedeu a Austen Ivereigh, escritor e jornalista britânico e autor de duas biografias do Papa. Da conversa que teve com o papa sugeriu-lhe a redacção de um livro que lhe desse espaço para desenvolver as suas ideias e as pôr à disposição de um público mais vasto. E assim surgiu este livro que comprei numa loja que vende jornais e revistas.

No prólogo o Papa Francisco diz-nos que em momentos de crise vê-se o bem e o mal : as pessoas mostram-se como são. Algumas dedicam tempo a servir os necessitados, enquanto outras enriquecem à custa da necessidade dos demais. Deus quer construir o mundo connosco como colaboradores a todo o momento. Convidou-nos a que nos unamos a Ele desde o princípio, em tempos de paz e em tempo de crise: desde sempre e para sempre. O futuro não depende de um mecanismo invisível e no qual os humanos não são espectadores passivos. Quando o Senhor nos pede que sejamos fecundos, que dominemos a Terra, o que está a dizer é “ sede cocriadores do futuro “. Colocamos a máscara para nos protegermos a nós mesmos e aos outros de um vírus que não podemos ver. Mas que fazemos com os restantes que não  podemos ver ?  Como podemos encarar as pandemias da fome, da violência e da mudança climática ?  Precisamos de economias que permitam a todos o acesso aos frutos da criação e às necessidades básicas da vida : terra, teto e trabalho. Milhões de pessoas perguntam a si mesmas entre si onde poderíamos encontrar Deus nesta crise. O que me vem à mente é a imagem do transbordar de um rio. Na sociedade, a misericórdia de Deus brota nestes  “ momentos de transbordo “. O transbordo encontra-se no sofrimento que esta crise deixou exposta e na actividade  com que tantos procuram responder a ela. Vejo um transbordo de misericórdia derramando-se ao nosso redor. O Papa Francisco expõe o seu pensamento ao longo do livro que está dividido em três partes: Um tempo para ver, um tempo para escolher e um tempo para agir.

1-Um Tempo para Ver-  Logo no começo o Papa Francisco faz as seguinte perguntas :  Como nos tornámos cegos à beleza da criação ? Como nos esquecemos dos dons de Deus e dos nossos irmãos ? Como podemos explicar que vivemos num mundo onde a natureza está sufocada, onde os vírus se propagam como o fogo e causam o desmoronamento das nossas sociedades, onde a pobreza mais dilacerante convive com a riqueza mais inconcebível, onde povos inteiros -como os robingyas – estão relegados para a lixeira ? Os caminhos que impedem de ver a realidade e de reagir a ela são : o narcisismo, o desânimo e o pessismismo. O Papa Francisco lembra que na Encíclica  “Laudato Si “  chama a atenção para a necessidade de uma conversão ecológica., não apenas para evitar que a humanidade destrua a natureza mas também para evitar que se destrua a si própria. E faz um apelo à “ ecologia integral “  ou seja cuidar não apenas da natureza mas também uns dos outros como criaturas de um Deus que nos ama. Por outras palavras se pensas que o aborto, a eutanásia e a pena de morte são aceitáveis o teu coração terá dificuldade em preocupar-se com a contaminação dos rios e com a destruição das florestas. É necessário um novo humanismo que possa canalizar a irrupção de fraternidade e pôr fim à globalização da indiferença e à hiperinflação do individual.

2-Um Tempo para Escolher- O Papa Francisco chama a  atenção para os princípios orientadores da nossa escolha e que constam da Doutrina Social da Igreja ( DSI ) Esses princípios são: o bem comum e o destino universal dos bens. A igreja pede-nos que tenhamos em vista o bem de toda a sociedade, o bem que partilhamos, o bem do povo no seu todo assim como os bens  a que cada um deveria ter acesso. Por outro lado toda a gente ter acesso aos bens da vida : Terra , Teto e Trabalho. Deus planeou os bens da Terra para todos sem excluir ninguém. A  DSI mencionou ainda mis dois princípios: solidariedade e subsidiariedade. A solidariedade diz-nos que temos deveres para com os outros e que somos chamados a participar  na sociedade. Isto significa perdoar dívidas, acolher os deficientes e trabalhar para que os sonhos e esperanças dos outros se convertam nos nossos.  A subsidiariedade diz-nos que devemos respeitar a autonomia dos outros, como sujeitos capazes do seu destino. Chama também a atenção para as escolhas que devemos fazer. Se queremos proteger e regenerar a Mãe Terra então temos que pôr de lado um modelo económico que considera o crescimento a qualquer preço como o seu principal objectvo. A expansão ilimitada da produtividade e do consumo vai provocar um desastre ambiental. E nós somos  parte da criação e não donos dela. Mais à frente o Papa diz que as mulheres foram as mais afectadas e mais resilientes nesta crise. São elas as que tendem a trabalhar nos sectores mais afectados pela pandemia a nível mundial. Cerca de 70% dos que trabalham na saúde são mulheres. Assume ainda como pressuposto que as mulheres qualificadas devem ter igual acesso à liderança, salários equivalentes e outras oportunidades. O Vaticano está a dar o exemplo nomeando mulheres para cargos importantes. Assim no Dicastério para  Leigos, a Família e a Vida, os dois subsecretários são mulheres; o Director do Museu do Vaticano é uma mulher e na Secretaria de Estado ou Chancelaria o subsecretário da secção para as Relações com os Estados é uma mulher.

Para dar unidade à Igreja e acabar com desacordos paralisantes o Papa no seu pontificado já convocou três Sínodos: Sobre a Família, sobre os jovens e sobre a Amazónia. A palavra sínodo vem do grego syn-odos que significa caminhar juntos. A falta de celebração da missa dominical nalgumas regiões da Amazónia não se deve exclusivamente à falta de ministros ordenados mas também à escassez de missionários  na Amazónia. Muitos sacerdotes de nove países que fazem fronteira com a Amazónia ofereceram resistência a serem enviados como missionários para a região

3-Um Tempo para Agir- O modelo do laissez faire centrado no mercado, confunde fins e meios. O lucro converte-se na meta a atingir em vez de meio para alcançar bens maiores. E a ideia de que a riqueza se progredir descontroladamente criará prosperidade para todos é falsa como já ficou provado.  As desigualdades sociais são bem latentes. A dignidade dos nossos povos exige corredores seguros para os migrantes e refugiados. Temos de acolher, promover e integrar aqueles que chegam à procura de uma vida melhor para si mesmos e família. A ideologia neodarwinista da sobrevivência do mais forte apoiada por um mercado desenfreado e obcecado pelo lucro e pela soberania individual, penetrou e endureceu os nossos corações. O populismo gera medo e semeia pânico:  são a exploração da angústia popular não são o seu remédio. E o Papa conclui que não sairemos desta crise senão aceitarmos um princípio de solidariedade entre os povos. E acrescenta: «necessitamos de políticos apaixonados pela missão de garantir para todo o povo os três T : Terra, Teto e Trabalho. Se pusermos a Terra, a habitação e o trabalho digno para todos no centro das nossas acções estaremos a restaurar a dignidade.

Veremos agora o que o Papa Francisco diz sob os Três  T:

TERRA-Os bens e os recursos da terra são destinados a todos. O ar fresco, a água limpa e uma dieta equilibrada são vitais para a saúde e o bem-estar dos nossos povos. Ponhamos a regeneração da terra e o acesso universal aos seus bens no centro do nosso futuro pós-covid.

TETO- É preciso humanizar o nosso ambiente urbano: assegurar habitações sustentáveis e adequadas para as famílias, dignificar as zonas periféricas das nossas cidades integrando-as por meio de políticas sociais.

TRABALHO- O nosso trabalho é condição fundamental para a nossa dignidade e bem-estar. Como será o nosso   futuro quando 40% ou 50% dos jovens não tiverem trabalho. O assistencialismo é por vezes necessário mas o mais importante é contribuir para uma vida digna, ganha com o seu trabalho. O Papa sugeriu ainda um rendimento básico universal ( UBI ) a todos os cidadãos que poderia distribuir através de um sistema de impostos. Sugeriu ainda uma redução do horário de trabalho, ou seja, trabalhando menos para que mais gente tenha acesso ao mercado laboral . Tudo isto em vez dos falsos pressupostos da famosa teoria do derrame segundo a qual uma economia em crescimento nos fará mais ricos a todo.

  Estas sugestões abrem caminho para um futuro melhor.

publicado por pontodemira às 19:27
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Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2021

EUTANÁSIA: SIM OU NÃO

 

A vida é feita  de momentos bons e de outros maus, de alegrias e de tristezas. Há também momentos em que somos felizes e outros em que somos abatidos pelo sofrimento. Actualmente estamos a viver momentos dramáticos com a pandemia covid19 que está a matar todos os dias  milhares de pessoas em todo o mundo

E foi precisamente agora que foi aprovada na Assembleia da República uma Lei que permite a eutanásia. Trata-se de uma lei fracturante  que divide a sociedade em dois grupos divergentes. Há os que defendem a eutanásia e os que são contra. O segundo grupo, dos que estão contra, é constituído na sua grande maioria por cristãos ( católicos, protestantes, evangélicos, etc). Para os crentes a vida tem sentido.  Sabem que Deus criou o mundo e o homem e que Deus nunca os abandona nem nos momentos  mais difíceis ou de sofrimento. A vida é um dom gratuito de Deus e há que respeitá-la. No primeiro grupo estão os cépticos para quem a vida não tem qualquer sentido e o remédio neste caso é  pôr fim ao sofrimento pelo suicídio ou através da morte assistida. Este é o desespero de quem acredita que não há vida para além desta e que tudo acaba quando morrermos. Ao absurdo da vida só resta o absurdo do suicídio. E aqui vou citar o pensamento do Padre e Professor de Filosofia Anselmo Borges que na crónica que escreveu no dia 31-01-2021 no Diário de Notícias, com o título , O sentido da vida e o sofrimento, diz o seguinte : «  Há um pensamento radical que põe o pensamento em sobressalto.  Cada um de nós sabe que não esteve sempre no mundo, isto é, que nem sempre existiu e que não existirá sempre. Houve um tempo em que ainda não existíamos, ainda não vivíamos e haverá um tempo em que já não existiremos, já não viveremos cá, deixaremos de viver neste mundo . Nesta constatação experienciamos que somos de nós, somos donos de nós- essa é a experiência da liberdade – mas não  nos pertencemos totalmente, não somos a nossa origem nem temos poder pleno sobre o nosso fim. Viemos ao mundo sem nós -ninguém nos perguntou se queríamos vir- e um dia a morte chega e leva-nos pura e simplesmente. Não nos colocámos a nós próprios na existência nem dispomos totalmente do nosso futuro, não somos o nosso fundamento. Aqui, perante a certeza de que nem sempre estive cá e de que não estarei cá sempre, pois morrerei, ergue-se, enorme, irrecusável, a pergunta:  donde vim ,? Para onde vou ? qual o sentido da minha existência ? que valor tem a minha vida ?   Esta pergunta formula-se em relação a todos os seres humanos, à vida em geral, a toda a realidade: porque há algo e não nada. E continua…    De facto o ser humano não pode viver sem sentido.  Aliás a existência humana está baseada na convicção do sentido. Há um pré-saber do sentido, de tal modo qua sua própria negação ainda o afirma. No limite, não é possível o “  suicídio lógico “, pois quem pegasse numa arma para suicidar-se, porque tudo é absurdo, estava a negar o absurdo e afirmar o sentido… »

Mas a Lei da Eutanásia pode esbarrar ainda com o artigo 24º da Constituição que nos diz que a vida é um direito inviolável. É óbvio e não temos dúvidas que se pretende condenar a pena de morte e que ninguém pode tirar a vida a outra pessoa. O que está em causa também é se a nossa liberdade nos permite que deleguemos noutra a capacidade de nos matar. Para os médicos existe o dever deontológico de preservar a vida e não de eliminá-la. Se a Lei chegar ao Tribunal Constitucional  iremos ver se  vai ser  ou não considerada inconstitucional.

 

publicado por pontodemira às 16:37
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Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2021

O REGRESSO DA ULTRADIREITA- DA DIREITA RADICAL À DIREITA EXTREMISTA

 

Este é o título do livro escrito por CAS MUDDE que nasceu em 1967 nos Países Baixos. É professor de Relações Internacionais da Universidade de Geórgia e também professor do Centro de Investigação sobre o Extremismo ( C-Rex ) da Universidade de Oslo.

Neste livro o autor faz uma análise detalhada dos partidos de ultradireita pondo em destaque todos os elementos que ajudam a uma melhor compreensão dos mesmos partidos como a história, a ideologia, a organização, as causas e as consequências. Sugere ainda o que a sociedade civil e os partidos devem fazer para enfrentar e combater estas ideologias.

Em primeiro lugar convém esclarecer o que o autor entende por ultradireita. Logo na introdução do livro estabelece uma diferença entre a chamada « direita » mainstream na qual se incluem os conservadores e os liberais libertários e a « direita »  antissistema que é hostil à democracia liberal e a que ele chama  ultradireita. A ultradireita divide-se em dois subgrupos:  1- a direita extremista e  a 2- direita radical.   A direita  extremista rejeita a essência da democracia, isto é a soberania popular e a regra da maioria. E dá como exemplo desta direita extremista o fascismo que levou ao poder Hitler e Benito Mussolini. A direita radical aceita a essência da democracia mas opõe-se  a elementos fundamentais da democracia liberal como os direitos das minorias, o Estado de Direito e a separação de poderes. A direita radical confia no poder do povo e  a direita extremista não. À direita radical é também associado o tema populista. O populismo em teoria é a favor da democracia  mas de uma democracia antiliberal. No populismo há também 2 grupos homogéneos mas antagónicos: o povo puro e a elite corrupta

Quando o autor acabou de escrever o livro em 2019 três dos cinco  países mais populosos do mundo tinham líderes de ultradireita ( Brasil, Índia e EUA ) O maior partido do mundo é o partido  do povo Indiano ( BJP ) da direita radical populista. Na União Europeia ( EU ) há 2 governos completamente controlados por partidos da direita radical  populista ( a Hungria e a Polónia ).  Outros 4 governos incluem partidos deste tipo ( Áustria, Bulgária, Itália e Eslováquia ) Os partidos da ultradireita em questão são  FPO ( Áustria,  Frente Patriótica ( Bulgária, DF ( Dinamarca, Fidesz ( Hungria), Lega ( Itália ) , Pis ( Polónia ), SNS ( Eslováquia ).

Os termos «esquerda»  e «direita » remontam à Revolução Francesa ( 1789-1791 ), quando os apoiantes do Rei se sentavam à direita do presidente do Parlamento francês e os adversários à sua esquerda. Os do lado direito eram a favor do« ancien» regime enquanto os do lado esquerdo apoiavam a democratização e a soberania popular.  Com A Revolução Industrial a direita e a esquerda passaram a ser definidas principalmente em termos de política socioeconómica, com a direita a apoiar o marcado livre e a esquerda defendendo um papel mais activo do Estado. Na última década a distinção esquerda direita tem sido definida mais em termos socioculturais, com a direita a defender o autoritarismo( contra a esquerda libertária ), ou o nacionalismo  ( contra  o internacionalismo de esquerda ). Para o italiano Norberto Bobbio a esquerda  considera que as desigualdades fundamentais  entre pessoas são artificiais e negativas, devendo ser  superadas por intervenção do Estado enquanto a direita acredita que as desigualdades entre as pessoas são naturais e positivas devendo ser ignoradas pelo Estado. Estas desigualdades podem ser também culturais, económicas, raciais ou religiosas.

As ideologias fundamentais no âmbito da direita extremista são o fascismo e o nazismo e os aspectos  ideológicos fundamentais da direita radical populista são o nativismo ( combinação de nacionalismo e de xenofobia), o autoritarismo e o populismo. O objectivo último da direita radical  populista é a etnocracia em que a cidadania se baseia na etnicidade e por isso se devem fechar as fronteiras aos imigrantes. O autoritarismo acredita numa sociedade com uma ordem rigorosa na qual as infracções à autoridade têm de ser punidas severamente. As políticas da ultradireita surgem em variadas formas de acordo com as ideologias e com os tipos de  organizações.. Nas organizações temos  partidos, movimentos sociais e subgrupos. Os partidos políticos concorrem às eleições mas os movimentos sociais não o fazem mas são bem organizadas. As subculturas nem sequer têm boa organização. Todos os partidos têm líderes importantes e conhecidos, membros e activistas e uma base eleitoral demarcada. A ultradireita dedica-se fundamentalmente a três tipos de acções: eleições, manifestações e violência.

O que se pode fazer para derrotar a ultradireita ?  Das abordagens que foram feitas há   destacar quatro atitudes mais proeminentes: demarcação, confronto, cooptação e incorporação.

Demarcação: Muitos partidos do mainstream declaram oficialmente que os partidos da direita radical populista estão fora campo democrático e, por isso, excluíram-nos do jogo político.

Confronto: Estratégias de confronto implicam uma oposição activa a partidos de ultradireita e na maior parte das vezes à sua política.

Cooptação: Os partidos democráticos liberais excluem partidos da direita radical populista mas não as suas ideias, começando por adoptar o discurso da direita radical.

Incorporação: A incorporação significa que posições da direita radical populista e também partidos são incorporados no mainstream e normalizados. Em 1940   o populista Berlusconi formou um governo de coligação da Aliança Nacional « pós-fascista » com  a LN da direita radical populista.

Na parte final do livro CAS MUDDE diz que a melhor estratégia para enfrentar a direita radical é o fortalecimento da democracia liberal. E enumera alguns princípios que devem ser seguidos:  1- É preciso explicar por que  motivos a democracia liberal é o melhor sistema político; 2-Desenvolver e difundir políticas baseadas nas ideologias democratas liberais ( por ex. ( democrata-cristã, conservadora, verde, liberal, social democrata ) ;3-Abordar as questões que nos dizem respeito e à maioria da população e postular as nossas posições informadas do ponto de vista ideológico sem esquecer os temas como a corrupção, o crime e a imigração; 4 –Definir direitos claros no que se refere  a formas de colaboração e a posições compatíveis com valores democratas liberais.

 Em Portugal temos neste momento um partido de ultradireita que é o Chega. É como se sabe um partido racista, xenófobo, anti-imigração e que procura aproveitar-se do descontentamento de vários estratos sociais. Está  a fazer uma campanha suja nas eleições para  Presidente da República fazendo críticas ridículas aos outros candidatos

Quase todos os candidatos estão a fazer uma miríade de promessas ao eleitorado. Esquecem-se no entanto que o Presidente da República não tem poderes legislativos nem executivos. O candidato do CHEGA, André Ventura vai até mais longe e diz que se for eleito demite o primeiro ministro António Costa. Mas não é pelo facto do primeiro ministro agradar ou desagradar ao Presidente da República que este o pode demitir. Só em casos excepcionais previstos no artº 198 º da Constituição é que o Presidente da República o pode fazer. O Presidente da República tem o papel de árbitro e nesse âmbito a magistratura de influência. A ele cabe também a fiscalização do sistema político.

O CHEGA dificilmente ganhará umas eleições legislativas. Mas se algum dia obtiver um bom resultado quem sabe se o PSD e o CDS não se juntarão a ele para formar uma coligação como aconteceu nos Açores.

publicado por pontodemira às 20:54
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Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2020

DEUS E O MERCADO

 

Este é o título de um livro no qual o Padre Vítor Melícias e o Prof. João César das Neves  entram num diálogo provocador entre Religião e Economia. Este diálogo é moderado pelo jornalista Nicolau Santos

Não existe um modelo cristão de economia. Para a Igreja a Economia deve servir o Homem e o bem-estar público. O Prof JCN diz que aqui todos estamos de acordo mas isso nem sempre acontece. Para o Padre  V M é preciso mudar o capitalismo dominado pelo sistema financeiro. No sistema capitalista o capital produz aquilo que mais lhe convém que é a acumulação de mais capital e a concentração de mais poder. A deslocalização de empresas tem como objectivo aproveitar a mão de obra mais barata para gerar mais lucros e não para embaratecer os produtos. O pobre porque não pode armazenar tem de vender em períodos de baixa e de comprar em períodos de alta. O rico pode comprar em períodos de baixa e vender em períodos de alta. Para alterar tudo isto é necessária a conversão de mentalidades e dos comportamentos. Todas as pessoas têm direito aos bens essenciais e a uma existência digna. Os bens que Deus criou são para uso e benefício de todos e não são propriedade exclusiva de ninguém. O direito de propriedade privada não elimina o direito universal ao uso em função da propriedade universal de todos os bens. Nos tempos modernos foi ganhando forma a chamada Economia Social integrando as cooperativas, as mutualidades, as misericórdias e outras associações e fundações de solidariedade. Todas estas instituições nos dizem que é preciso compatibilizar a moral com a Economia.  Para o Prof.JCN o capitalismo tirou muita gente da pobreza e que hoje se vive melhor do que há 100 anos atrás. Os que estão a viver pior são os que vivem em situações de guerra, de epidemia e de exploração ou dissolução social como em países de África, na Venezuela ou em países Africanos.  O Pe. VM não concorda que hoje se esteja a viver melhor pois as desigualdades provocam multidões de empobrecidos, de famintos, de deslocados e de migrantes forçados. A acumulação de riqueza deve ter um limite e por isso é necessário regulamentar o abuso da economia. Impõe-se uma reforma do sistema fiscal de forma a que haja taxas de impostos mais elevados e mais justas para milionários e bilionários. Para o Pe. VM quem domina a Economia é o Mercado. E o Mercado capitalista visa o lucro e o ganho de mais capital acumulável e não condicionar quanto às suas opções de aplicação em investimentos, em armas, em drogas e em indústrias poluentes ou coisas do género desde que deem lucro. É preciso uma Economia Social que invista na saúde, na formação profissional e nas possibilidades de trabalharem em igualdade de oportunidades. Talvez produzindo outro tipo de bens mas com a participação de todos e em concreto benefício de todos. A Economia que temos e que está agora a dominar o mundo, sufoca e mata a ética. Se uma pessoa decidir uma coisa eticamente correcta mas empresariamente inconveniente é pura e simplesmente posto no olho da rua.  Para o Prof JCN a área económica é uma das poucas onde há consenso ético : toda a gente sabe onde está o bem e o mal. Isto não quer dizer que haja aldrabices. Mas há consenso. O problema está na ganância que todos temos porque  somos seres humanos. Para o Pe. VM  a ética que a Economia de Mercado mais precisa nem é a das pessoas individuais mas de uma ética colectiva de tipo institucional. Ambos concordam que é preciso uma Economia Humana  de solidariedade universal, ecológica. Na Economia capitalista quem comanda e vota é o capital; nas entidades de Economia Social como são associações de pessoas deixa de haver capital de cada um dos participantes para haver capital institucional. Para o Papa Francisco a Economia que temos mata e que hoje impera a globalização da indiferença perante o sofrimento alheio e que há urgência de pensar e reformar a Economia vigente.  Par o Prof JCN o Papa não está a falar desta economia aquela que temos mas da Economia de exclusão e da desigualdade social.  O Papa também faz a distinção entre empresários e especuladores. O especulador não ama a sua empresa nem os trabalhadores mas só os vê como meios para produzir lucro. A Doutrina Social da Igreja contribui para a  melhoria da Economia através de 3 grandes princípios: 1- o destino universal dos bens que está tão esquecido porque os capitalistas  não gostam dele ; 2-a subsidiariedade ou seja a participação de todos segundo  as próprias capacidades e poderes ;3- e a solidariedade quer humana quer ecológica

Na parte final do livro há uma discordância mais acentuada a respeito do capitalismo e da teoria de Adams Smith segundo a qual existe uma mão invisível que regula o Mercado. O Prof CN diz que tudo o que comemos vem do capitalismo, que é horrível, tem imensos defeitos mas sem eles não comíamos. O Pe. VM  discorda  e pergunta : Então e quando não havia capitalismo as pessoas não comiam nem bebiam ?

 O jornalista Nicolau Santos admitiu que se está a verificar uma maior concentração da riqueza em grupos cada vez mais restritos e perguntou como isso se vai resolver.  Para o Prof. JCN o capitalismo pode não ser um sistema perfeito mas todas as tentativas para o mudar como o fascismo e o marxismo fracassaram.  Para o Pe. VM há que mudar algumas regras básicas desse mesmo sistema. É preciso que haja capacidade para todos participarem quer na produção, quer no uso e acesso a bens e mudar a lógica ou resignação de « vamos enriquecer alguns , pessoas ou países, para depois  darem uma esmolinha aos pobrezinhos ». Para o Prof. JCN não há um sistema capitalista mas muitos sistemas capitalistas. O Pe. VM concorda mas diz que todos são filhos da mesma mãe , da mesma filosofia e da mesma lógica. O capitalismo não visa à nascença eliminar a pobreza nem se  opõe ao crescimento das desigualdades. Será talvez favorável a remediar a pobreza mas não a evitá-la ou a erradicá-la. O Prof. JCN diz que isso é falso porque foi com o capitalismo que se deu cabo da pobreza. Essas discordâncias em relação ao capitalismo confirmam pois para o Prof. JCN que este é o melhor sistema.  Mas o Pe. VM volta a discordar . Há pessoas a ir ao Mercado e não podem comprar porque não têm dinheiro. Outras estão desempregadas e ninguém lhe dá garantias que podem ir ao Mercado ou subir para o autocarro sem dinheiro para o bilhete. Os donos do capital não devem tomar decisões sozinhos mas nelas devem intervir trabalhadores, governos e Estados.

Como é que se pode melhorar o capitalismo? Perguntou o jornalista Nicolau Santos . Para o Pe. VM tem de haver uma conversão de mentalidades. Mesmo admitindo que diminui o número de pobres e aumenta a classe média a verdade é que dele resultam também injustiças e desigualdades. As grandes decisões não podem ser tomadas apenas pelos donos do capital e os que mexem os cordelinhos da finança. Os trabalhadores e todos os intervenientes no processo produtivo devem ser ouvidos. Se continuarmos a aceitar e a defender de que é impossível alterar as regras negativas do capitalismo porque também há aspectos positivos então é que não muda mesmo. O Prof. JCN entende  que para salvar o sistema é preciso uma maior presença de Jesus e da Igreja nas coisas económicas, mudando a atitude das pessoas. Ninguém consegue controlar o sistema. Nem a finança, nem o Estado, nem a classe média. O sistema não existe é uma ficção. Para o Pe. VM se ninguém manda e ninguém controla temos arranjar maneira de o alterar. O bem comum e o interesse geral não pode andar descontrolado, sem comando nem orientação.

O jornalista Nicolau Santos refere segundo a revista Forbes as personalidades mais ricas do mundo: Jeff Bezos, Bill Gates, Warren Buffett, etc…   O Prof. JCN diz que esses nomes não encaixam na definição de capitalismo que o Pe. VM usou.  O Pe.VM respondeu que para ele encaixam todos.  Aqueles que tiveram uma ideia produtiva acharam uma mina. E o mal não é terem ficado ricos, é o facto de passarem a usar a sua riqueza como capital, com os métodos e as finalidades do capitalismo mais e mais lucrativo. Incluem-se aqui os que têm acesso privilegiados a bens e os utilizam segundo as regras e fins do capitalismo sem preocupações de solidariedade, de equidade e não de exclusão. E vai mais longe acrescentando que um professor ou político que ensina, defende, divulga e justifica o capitalismo é capitalista mesmo que não seja endinheirado nem empresário. E termina concluindo: « Há que fazer tudo por tudo para reconciliar Deus e o Mercado. O Mercado quer que, pela liberdade, concorrência e eficácia todos e cada um tenha mais ; Deus quer que, pela fraternidade e solidariedade humana e ecológica todos e cada um, tendo mais sejam melhores »  A conjugação entre Economia de Mercado e Economia de Deus estará em conseguir que, tendo todos mais bens, sejam todos mais irmãos.

 

 

publicado por pontodemira às 12:40
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Domingo, 22 de Novembro de 2020

A TERRA INABITÁVEL-Como vai ser a vida pós-Aquecimento Global

 

Este é o título de um livro escrito por David Wallace-Wells formado pela Universidade de Chicago e que é editor e colunista da Revista New York e escreve ainda para o Jornal britânico The Guardian.  O livro lança um alerta para as alterações climáticas que estamos a viver e que podem lançar o mundo para a autodestruição. O aumento do carbono na atmosfera irá desencadear uma série de efeitos em cascata pondo em perigo os ecossistemas e a vida no planeta Terra. Desses efeitos em cascata o autor destaca os seguintes:  morte por calor ; fome ;  afogamentos;  incêndios ; o fim da água doce ;  oceanos moribundos ; ar irrespirável ; pragas do aquecimento ; colapso económico ; e conflitos  devido a migrações em larga escala.

De quem é a culpa de tudo isto ?  Em primeiro lugar, como diz David Wallace-Wrlls, temos a influência e a preferência das empresas em relação aos combustíveis fósseis, mas também a inércia e a sedução dos lucros a curto prazo e também as preferências dos trabalhadores e consumidores do mundo inteiro. A verdade porém é que o aquecimento já está a atingir os seres humanos com tanta dureza que não devíamos precisar de olhar para o outro lado, para as espécies em extinção e para os ecossistemas em perigo para perceber evolução da terrível ofensiva do clima.

As coisas más que vão proliferar é inumerável. Todos nós somos responsáveis pela degradação do meio ambiente.  Uns acreditam que a Ciência e a Tecnologia irão repor a normalidade e não nos devemos preocupar com o futuro. Outros pensam que já cá não estão quando as coisas se complicarem mais. É claro que não podemos ser egoístas e que também temos que pensar no futuro dos nossos netos. A situação climática alarmante que estamos a viver e que vai agravar-se durante as próximas décadas exige de todos nós impulsos éticos que tenham repercussão nas políticas a seguir. O mais trágico será a apatia , a acomodação e a indiferença dos seres humanos em não corrigir aquilo que ainda será possível alterar.

Na parte final do livro e face ás alterações climáticas que estamos a viver como o aumento das temperaturas, os furacões e a dimensão dos incêndios, o autor faz algumas perguntas pertinentes.  Quanto faremos para travar o desastre ? E com que rapidez ? Se os seres humanos são culpados de todos estes problemas deverão também ser capazes de os desfazer. E acrescenta para terminar :  «  num documento de 2018, 42 cientistas de todo o mundo alertaram que num cenário em que nada mude, nenhum ecossistema da Terra estará a salvo com alterações generalizadas e importantes.  Sabemos que metade da Grande Barreira dos Corais já morreu ;  há metano a libertar-se do permafrost ártico e este pode nunca voltar a congelar ; se a temperatura subir 4º C  a produção de cereais poderá reduzir cerca de 50 %.  Mas existem instrumentos para parar esta tragédia. E dá alguns exemplos : um imposto sobre o carbono; intervenção do aparelho político para reduzir agressivamente a energia suja ; uma abordagem a novas práticas agrícolas e a substituição da carne e dos laticínios na alimentação global ; investimentos públicos em energia verde e fabrico de aparelhos para a captura do carbono da atmosfera.

Estas soluções são viáveis mas é necessário o empenhamento e um acordo político a nível mundial para as fazer cumprir.

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Terça-feira, 27 de Outubro de 2020

CARTA ENCÍCLICA: FRATELLI TUTTI- PAPA FRANCISCO

 

Logo na introdução o Papa Francisco lembra que « Deus criou os seres humanos iguais nos direitos, deveres e na dignidade, e chamou-os a conviver entre si como irmãos » .Por isso o ponto de partida e a ideia chave do pensamento do Papa Francisco está na fraternidade e na amizade social. É pelo diálogo, pelo respeito dos direitos humanos, pelo consenso sem esquecer os mais pobres que se pode construir uma sociedade mais justa e equilibrada. O pensamento do Papa Francisco é desenvolvido ao longo de sete capítulos dos quais irei fazer uma síntese dos mais importantes de cada um.

1-As  sombras de um mundo fechado. Com o fim de duas guerras mundiais criou-se a expectativa que era possível caminhar para a paz. Os pais fundadores da União Europeia avançaram para uma Europa Unida capaz de promover a paz e a cooperação entre todos os povos do continente. Mas começa a haver sinais de regressão com o aparecimento de partidos nacionalistas fechados. A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos mas não somos irmãos. Com a polarização política em muitos países nega-se a outros o direito de  existir e  de pensar. O objecto de descarte não são apenas os alimentos  mas os próprios seres humanos. Os direitos humanos não são suficientemente universais. Enquanto uma parte da Humanidade vive na opulência, outra vê a própria dignidade não reconhecida, desprezada ou espezinhada  e os seus direitos fundamentais ignorados ou violados. Há também um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade. Relativamente à pandemia e a outros flagelos o Papa recorda que ninguém se salva sozinho e que só é possível salvarmo-nos juntos. Revela ainda a falta de dignidade humana nas fronteiras sobretudo em regimes populistas que impedem a todo o custo a entrada de imigrantes que fogem da  guerra ´de perseguições e de catástrofes naturais.

2-Um estranho no caminho . Ao citar a parábola do Bom Samaritano o Papa quer com isto dizer que também hoje se olha com indiferença e por vezes desprezo para as pessoas carenciadas a precisar de ajuda ou de apoio : « aqueles que cuidam do sofrimento e aqueles que passam ao largo; aqueles que se debruçam sobre o caído e  o reconhecem necessitado de ajuda e aqueles que olham distraídos e aceleram o passo. A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define todos os projectos económicos, políticos, sociais e religiosos. Dia a dia enfrentamos a opção de sermos bons samaritanos ou viajantes indiferentes que passam ao largo. Todos temos algo de ferido, de salteador, daqueles que passam ao largo e do bom samaritano.

3-Pensar e gerar um Mundo Aberto. Ninguém amadurece nem alcança a sua plenitude isolando-se O amor exige progressiva capacidade de acolher o outro. As sociedades têm que ser abertas e que integrem todos. Só uma sociedade aberta e fraterna é capaz de preocupar-se por garantir de modo eficiente e estável que todos sejam acompanhados no percurso da vida não apenas para assegurar as suas necessidades básicas  mas para que possam dar o melhor de si mesmos.  « O mundo existe para todos, porque todos nós, seres humanos, nascemos nesta Terra com a mesma dignidade. Temos o dever de garantir que cada pessoa viva com dignidade e disponha de adequadas oportunidades para o seu desenvolvimento integrado. É possível desejar um Planeta que garanta terra , teto e trabalho para todos. Este é o verdadeiro caminho da Paz e não a estratégia insensata e míope  de semear medo e desconfiança perante ameaças externas. Com efeito a paz real e duradoura é possível só a partir de uma ética global de solidariedade e cooperação ao serviço de um futuro modelado pela interdependência e a corresponsabilidade  da família humana inteira. »

4-Um Coração Aberto ao Mundo Inteiro. O ideal seria o migrante não ter que emigrar e criar possibilidades de ele viver e crescer com dignidade nos países de origem. Quando não for possível há que respeitar o direito que todo o ser humano de encontrar um lugar onde possa satisfazer as suas necessidades básicas e da família e realizar-se plenamente como pessoa. Os nossos esforços  a favor das pessoas migrantes pode resumir-se em quatro verbos: acolher, proteger, promover, integrar.. Para que isso aconteça é necessário que haja um ordenamento jurídico, político e económico mundial que « incremente e guie a colaboração internacional para o desenvolvimento solidário de todos os povos ». Sabemos que a estas medidas se opõem os nacionalismos fechados. Para eles o migrante é visto como um usurpador que nada oferece. Mas só poderá ter futuro, como diz o Papa, uma cultura sociopolítica que inclua o acolhimento gratuito. Quanto à dicotomia globalismo e isolacionismo o Papa diz « que a sociedade mundial não é o resultado da soma de vários países, mas sim a própria comunhão que existe entre eles, a mútua inclusão que precede o aparecimento de todo o grupo particular. Hoje nenhum Estado nacional isolado é capaz de garantir o bem comum da própria população.

5-A Política Melhor. Para tornar possível o desenvolvimento de uma comunidade mundial capaz de realizar a fraternidade é necessária a política melhor, a política colocada ao serviço do bem comum. Mas esta política não é certamente a dos partidos populistas nem do liberalismo económico. A política populista está ao serviço do seu projecto pessoal e da sua permanência no poder. Os liberalismos estão ao serviço dos interesses económicos dos poderosos. O mercado só por si não resolve tudo. A conhecida teoria do «derrame» ou do «gotejamento» ou seja o aumento crescimento económico chega a um ponto em que dele beneficiam também os pobres. Ora esta teoria é falsa. Como diz o Papa,a fragilidade dos sistemas mundiais perante a pandemia evidenciou que nem tudo se resolve com a liberdade de mercado. A crise financeira de 2008 provou a fragilidade do liberalismo económico. A política melhor só é possível através da criação de  organizações mundiais mais eficazes dotadas de autoridade para assegurar o bem comum mundial, a erradicação da fome e da miséria e a justa defesa dos direitos humanos fundamentais. É preciso também uma reforma quer da ONU quer da arquitectura económica e financeira mundial. Uma boa política é aquela que avança para uma ordem social e política cuja alma seja a caridade.

6-Diálogo e Amizade Social. Para nos encontrar e ajudar mutuamente precisamos de dialogar. Entre a indiferença egoísta e o protesto violento há uma opção sempre possível: o diálogo. Um pacto realista e inclusivo deve ser também um pacto cultural, que respeite e assuma as diversas visões do mundo, as culturas e os estilos da vida  que coexistem na sociedade. Um pacto cultural tem de respeitar a diversidade oferecendo-lhe caminhos de promoção e integração social. Este facto pacto implica também aceitar a possibilidade de ceder algo para o bem comum. Ninguém será capaz de possuir toda a verdade nem satisfazer a totalidade dos seus desejos, porque tal pretensão levaria a querer destruir o outro, negando-lhe os seus direitos.

7-Percurso de um Novo Encontro. Em muitas partes do Mundo fazem falta percursos de  paz que levem a cicatrizar as feridas. Há necessidade de artesãos da paz prontos a gerar com criatividade e ousadia, processos de cura e de um novo encontro. Os bispos da Coreia do Sul destacaram que uma verdadeira paz « só se pode alcançar quando lutamos pela justiça ou através do diálogo buscando a reconciliação e o desenvolvimento mútuo » . A paz  « não é a ausência de guerra, mas o empenho incansável de reconhecer, garantir e reconstruir concretamente a dignidade, tantas vezes esquecida ou ignorada. A falta de desenvolvimento humano integral impede que se gere a paz. Quando a sociedade- local, nacional ou mundial- abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. A guerra e a pena de morte também não são soluções para situações extremas. A partir do desenvolvimento de armas nucleares, químicas e biológicas, conferiu-se à guerra um poder destrutivo, incontrolável que atinge muitos civis inocentes. A guerra não é uma solução pois os riscos são sempre superiores à hipotética utilidade que se lhe atribua. Toda a guerra deixa o mundo pior do que se encontrava. Quanto à pena de morte a Igreja  desde os primeiros séculos sempre se manifestou claramente contra. Os argumentos contrários à pena de morte são os seguintes:  probabilidades de erro judicial,  e também o uso que dela fazem os regimes totalitários e ditatoriais que a utilizam como instrumento de supressão  de dissidência política ou perseguição das minorias religiosas e culturais. A rejeição firme da pena de morte mostra até que ponto é possível reconhecer  a dignidade inalienável de todo o ser humano.

8-As Religiões ao Serviço da Fraternidade no Mundo.  AS religiões oferecem uma preciosa contribuição para a construção da fraternidade e a defesa da justiça na sociedade. Entre as causas mais importantes da crise do mundo moderno são a consciência humana a anestesiada e o afastamento de valores religiosos e também o predomínio do individualismo e das filosofias materialistas que divinizam o homem e colocam os valores humanos e materiais no lugar dos princípios supremos e transcendentes. Os ministros da religião não devem fazer política partidária, própria dos leigos, mas  eles não podem renunciar à dimensão política da existência o que implica atenção constante ao bem comum e a preocupação pelo desenvolvimento humano integral. Se a música do Evangelho cessar de se repercutir nas nossas casas, nas nossas praças, nos postos de trabalho, na política e  na economia, teremos  extinguido a melodia que nos desafiava a lutar pela dignidade do homem e da mulher. Existe um caminho humano fundamental que não deve ser esquecido no caminho da fraternidade e da paz: é a liberdade religiosa para crentes de todas as religiões. O culto sincero e humilde a Deus, leva não à discriminação, ao ódio e à violência, mas ao respeito pela sacralidade da vida, ao respeito pela dignidade e liberdade dos outros   e a m solícito compromisso em prol do bem-estar de todos. Num encontro que o Papa teve o Grande Imã Ahmad Al- Tayyab , declarou firmemente que as religiões nunca incitam à guerra e nunca solicitam sentimentos de ódio, hostilidade e extremismo. Estas calamidades são fruto de desvio  dos ensinamentos religiosos e do uso político das religiões. Com efeito, Deus o Todo Poderoso, não precisa ser defendido  por ninguém e não quer que o seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas.

Para terminar direi que o Papa Francisco faz uma análise profunda, do ponto de vista político, económico e sociológico, de todos os aspectos relacionados com a Paz. Para se conseguir a paz é necessária a colaboração, o diálogo e o consenso entre Estados e instituições. É preciso também reconhecer que todos os homens são iguais em direitos e que tem de se respeitar a dignidade humana. Tudo isto tem na sua base a fraternidade e a amizade. Pela força, pela violência ou pela guerra nada se resolve e caminharíamos para  o caos.

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Quinta-feira, 15 de Outubro de 2020

A Democracia em decadência

A democracia em decadência

 

A democracia deriva da palavra grega demokratia. Decompondo a palavra temos demo ( povo) e Kratia( poder,governo ). Deste modo a democracia era o governo ou poder do povo. A democracia nasceu na Grécia mais propriamente na Cidade-Estado de Atenas. No ano de 508 a.c. Este processo deve-se ao cidadão ateniense Clístenes. O poder legislativo competia à Assembleia do Povo ou Eclesia que tinha o poder de aprovar as leis e decidir da guerra e da paz. Havia no entanto pessoas como os estrangeiros, mulheres e escravos que não eram considerados cidadãos. Como o número de cidadãos era reduzido o poder era exercido por todos. Tínhamos assim uma democracia directa.

Na Idade Média não houve democracia. Durante muitos séculos prevaleceu o poder absoluto dos reis. Em 1215 é aprovada a Magna Carta que limita o poder dos monarcas em Inglaterra. Aqui são dados os primeiros passos  para a democracia. Outros se irão seguir. A Revolução inglesa de 1688 que leva à proclamação da Declaração dos Direitos de 1689 ( Bill Of Rights ) que impõe limites à acção da Coroa. A Revolução Americana de 1776 que conduziu à Declaração de Independência dos EUA. A Revolução Francesa de 1789 que culminou com a publicação dos Direitos do Homem e do Cidadão.

No século XIX com o fim da 2ª Grande Guerra Mundial e com a implosão do Estado Soviético começa o período áureo da democracia e o aparecimento na Europa de Estados-Nação que já tinha começado no  fim da 1ª grande Guerra. No século XXI, concomitantemente com a degradação do meio ambiente, a democracia também entrou em decadência. Para esta situação contribuiu  o aparecimento de partidos populistas, nacionalista, xenófobos e racistas. Os partidos populistas de extrema direita ou de extrema esquerda radicais estão espalhados por todo o mundo. Vou apenas referir alguns mais citados na imprensa e nos media.

EUA- Donald Trump ataca impiedosamente a imprensa. Reforça a polarização da sociedade com fortes ataques aos seus oponentes. Os Republicanos em alguns estado eliminam dos cadernos eleitorais os Afro-Americanos. Com a maioria no Senado faz tudo o que quer. Travou o impeachment e nomeou para o Supremo Tribunal uma juíza sem esperar pelos resultados das próximas eleições. Quando Hobama estava no poder aconteceu precisamente o contrário. Este não pode nomear um juiz e teve de esperar pelo resultado das eleições. Segundo o Los Angeles Time  « no mundo de Trump só os otários e os falhados pagam impostos » Daí que seja acusado de fraude fiscal e fuga ao fisco.

RÚSSIA-Putin está há 26 anos no poder e faz tudo para continuar à frente até 2036. Putin é um autocrata que altera a constituição para se perpetuar no poder. Ataca os seus opositores ou manda envenená-los. A riqueza do país está nas mãos de alguns plutocratas.

HUNGRIA- Vitor Urban reforma o sistema judiciário aumentando o número de juízes do Supremo Tribunal de 8 para 15 e deu a Urban o poder de nomear juízes pondo em causa a independência judicial. Reduziu os poderes do Parlamento e a pluralidade mediática e introduziu medidas anti-imigrações.

TURQUIA- O presidente Erdogan adoptou uma linha populista de direita. Trocou o sistema de parlamentarista para presidencialista e eliminou os poderes judiciais. Marginalizou minorias étnicas como os curdos. Persegue a imprensa e a oposição. Detém oposicionistas e jornalistas e demite funcionários públicos. A justiça também não é considerada independente.

Uma característica comum a todos os partidos populistas é a sua politica anti-imigração.  Esquecem-se porém que a maior parte dos imigrantes fogem dos seus países de origem por não terem condições de sobrevivência devido à fome ou às perseguições religiosas ou políticas.

O Papa Francisco na sua recente Encíclica «Fratelli Tutti »  é bem claro quando diz que «  As migrações constituirão uma pedra angular do futuro do mundo. Hoje porém são afectadas por uma perda daquele sentido de responsabilidade fraterna, sobre a qual assenta a sociedade civil. A Europa, por exemplo, corre sérios riscos de ir por este caminho. Entretanto  ajudada pelo seu património cultural e religiosos, possui os instrumentos para defender a centralidade da pessoa humana e encontrar o justo equilíbrio entre estes dois deveres: o dever moral de tutelar os direitos dos seus cidadãos e o dever de garantir a assistência e o acolhimento dos imigrantes ».

Para terminar quero apenas dizer que o aparecimento de  governos populistas  na Europa poderá levar ao colapso da União Europeia e criar também instabilidade a nível mundial.

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Sábado, 26 de Setembro de 2020

BOA ECONOMIA PARA TEMPOS DIFÍCEIS

 

Este é o título de um livro da autoria de ABIJIT  V. BANERJEE  e  ESTHER DUFLO vencedores do Prémio Nobel da Economia 2019. Para estes economistas a economia não é uma ciência exacta como a física e a Matemática e por isso não há certezas absolutas para partilhar. Os economistas erram com frequência as suas previsões. No entanto é sempre possível colocar a dignidade humana como questão central e repensar as prioridades económicas e a forma como é a sociedade criada pelos seus membros e que estão em dificuldade.

Ao longo do livro são dadas as melhores respostas para os maiores problemas. E são vários os problemas que são abordados: imigração, comércio, crescimento económico, desigualdades sociais, dinheiro e dignidade.

1-Imigração- Para a maioria dos partidos políticos, sobretudo os populistas,  a imigração é um veneno e uma praga a combater. Mas os imigrantes com poucas qualificações geralmente não prejudicam os empregos dos nativos. O impacto sobre os salários dos nativos é em geral muito reduzido. Os salários de pessoas com poucas qualificações não são afectados pela imigração.

2-Comércio. O comércio livre é um tema controverso. Por um lado pode-se comprar mais barato no estrangeiro ,mas as importações mais baratas vão fechar algumas empresas e colocar no desemprego muitas pessoas. A conclusão global a que chegam os autores do livro é que é preciso encontrar uma solução para o sofrimento que acompanha a necessidade de mudar  e de ir para outro lugar. Os economistas  e os decisores políticos ficaram surpreendidos com a reação hostil ao comércio livre pois tomaram como certo que os trabalhadores podem trocar de emprego ou de local e, se o não conseguissem fazer, seria uma falha deles próprios. Esta crença influenciou a política social e criou o conflito que vivemos actualmente entre « vencidos» e todos os outros

3-Crescimento económico. Durante 30 anos que separaram o fim da 2ª Grande Guerra Mundial da crise da OPEP, o crescimento na Europa Ocidental, nos EUA e no Canadá foi o mais rápido da História. Quando os países membros da OPEP em 1973 anunciaram o embargo do petróleo, o crescimento parou. Nos países ricos do Ocidente foi uma época medíocre de estagflação ( estagnação económica acompanhada de inflação. ) Uma grande parte dos economistas chegou à conclusão que impostos reduzidos sobre rendimentos elevados não garantem, por si só, crescimento económico. A China ( e o resto do mundo ) terão de enfrentar a realidade de que o seu crescimento vertiginoso está a chegar ao fim. A teoria que surgiu nos EUA e no Reino Unido de pedir aos pobres que « apertem o cinto » na esperança de que os benefícios concedidos aos ricos acabarão por chegar a todos não favorece em nada o crescimento e ainda menos os pobres. Até o FMI reconhece agora que sacrificar os pobres em prol do crescimento era uma política prejudicial. Não se sabe quando é que o comboio do crescimento irá partir. A verdade é que os pobres se estiverem de boa saúde, souberem ler e escrever e tiverem boa preparação têm mais condições para apanhar o comboio.

4 Desigualdades sociais. Não é razoável aceitar que os mercados produzam sempre resultados justos, aceitáveis ou sequer eficientes. É  necessário , por isso, que haja impostos que tributem os patrimónios muito elevados e também impostos progressivos com taxas máximas para os rendimentos de valor acentuado.

5-Dinheiro e dignidade. A tensão entre dinheiro e dignidade deve ser uma das preocupações da política social. Assim devia ser incluído nos programas sociais um Rendimento básico individual. O RBI prevê que o governo pague a todos um rendimento mínimo garantido substancial ( a quantia de 1000 dólares mensais foi sugerida para os EUA ) . Outra medida sugerida seria o modelo dinamarquês de « flexisegurança ». Se os trabalhadores podem ser despedidos com bastante facilidade, os desempregados são subsidiados para que não sofram uma grande perda económica havendo um esforço do governo para que o trabalhador regresse ao mercado ( talvez depois de uma requalificação significativa ) Mas para as pessoas mais velhas é muito difícill esta solução. Outra estratégia mais realista seria o governo aumentar a procura de serviços públicos que requerem muita mão de obra. Incluem-se aqui os cuidados a idosos, a educação e os cuidados infantis. É provável que os robôs não sejam capazes de substituir completamente o toque humano.  Outra medida seria estabelecer um limite às empresas para substituir pessoas por robôs.

A terminar o livro os autores esclarecem o seguinte: « A boa economia prevalece sobre a ignorância e a ideologia para assegurar que as redes de mosquiteiros tratadas com insecticidas fossem distribuídas gratuitamente em vez de vendidas em África, reduzindo assim em mais de metade as mortes por malária na infância. A economia má apoiou os enormes benefícios concedidos aos ricos e a redução dos programas de  ajuda social e vendeu a ideia que o Estado é impotente e corrupto e que os pobres são preguiçosos e preparou o caminho para o impasse actual de explosão da desigualdade e inércia furiosa. A economia míope disse-nos que o comércio é bom para todos e que o crescimento rápido está em todo o lado. A economia cega não se apercebe da  explosão da desigualdade em todo o mundo, do aumento da fragmentação social que lhe está associada e da catástrofe ambiental iminente protelando a tomada de medidas, talvez de forma irreversível ».

Resumindo diria eu que a boa economia resulta das boas medidas que os governos tomarem e dos investimentos que forem feitos nas seguintes áreas: educação e saúde ;transportes não poluentes como o comboio ; energias renováveis ; segurança social criando subsídios para desempregados ;apoio a jovens empreendedores e as empresas que criem empregos.

E vou terminar com duas frases que vêm no fim do livro e que passo a citar: « A boa economia por si só não nos pode salvar. No entanto, sem ela estaremos condenados a repetir os erros do passado ».

 

publicado por pontodemira às 19:57
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Segunda-feira, 31 de Agosto de 2020

TUDO O QUE NÃO VEMOS- ZIYA TONG

 

Estamos a caminhar para a autodestruição do Planeta Terra. As alterações climáticas são evidentes, a poluição está a aumentar todos os dias, os glaciares polares estão a derreter, os recifes dos corais estão a desaparecer bem como algumas espécies de animais terrestres e aquáticos. Isto é o que podemos ver mas há muitas coisas escondidas ( ângulos mortos ) que só através de lentes científicas podemos observar. O livro atrás referido como título desta crónica trata com desenvolvimento todos os ângulos mortos da realidade que não vemos. O livro tem como autora Ziya Tong e está dividido em 3 capítulos. No 1º capítulo aborda os ângulos mortos com que todas as pessoas nascem e revela como a ciência e a tecnologia permitem ver para além  dos nossos limites ; o 2º capítulo trata dos ângulos mortos colectivos e investiga  como caímos na cegueira de forma voluntária ; no último capítulo são examinados os ângulos mortos geracionais, isto é,  formas  de pensar o mundo que parecem naturais e inevitáveis mas que são na verdade maneiras de ver herdadas e passadas de geração em geração.

1-Ângulos mortos biológicos. A nossa constituição biológica não nos permite ver organismos muito pequenos como as bactérias e os micróbios. Para isso temos que usar um microscópio. Para vermos através de vastas distâncias no espaço temos que usar telescópios. As lentes tecnológicas têm de ser usadas tanto para olhar para dentro do corpo humano como para espreitar os próprios átomos que compõem o mundo material.

Na tentativa de eliminar parasitas indesejados lançamos sobre as nossas plantas e os nossos solos mais de 2 milhões de toneladas de pesticidas. Cinquenta por cento da vida na Terra é invisível  e no entanto é responsável  por tornar o planeta habitável. Os cientistas sabem agora que as mais ínfimas formas de vida na Terra têm a responsabilidade de fazer com que sistema à escala planetária funcione e isto inclui o próprio ar que respiramos e os alimentos que comemos. As mais insignificantes formas de vida na Terra desempenham um papel essencial na criação dos sistemas que sustentam a vida no planeta . Há muito que somos cegos aos serviços invisíveis que as bactérias prestam pois devemos-lhe a nossa vida. As coisas que vemos  não são sistemas fechados poi necessitamos da energia do mundo à nossa volta para manter a existência. Devido aos nossos ângulos mortos não somos capazes de ver como estamos intimamente ligados ao universo à nossa volta.

2-Ângulos mortos Sociais.  Colectivamente caímos na cegueira de forma voluntária. Os nossos alimentos vêm de lugares que nâo vemos; a nossa energia é produzida de forma que não entendemos; os nossos resíduos desaparecem sem termos de nos preocupar com isso. Ao utilizarmos os combustíveis fósseis vamos libertar 45% mais de dióxido de carbono do que aquele que estaria naturalmente na atmosfera. Deixámos de usar os nossos resíduos  para cultivar alimentos no solo e voltámo-nos para adubos químicos. Este é o sistema que nos sustenta na Terra e o nosso suporte de vida. E os resultados ruinosos  que ele provoca aumentaram rapidamente: sobrepopulação, alterações climáticas e zonas mortas.

3-Ângulos mortos civilizacionais. Há verdades que as pessoas  não vêm e desconhecem ou não ligam qualquer importância encarando com normalidade mesmo as coisas mais aberrantes. O O Tempo é imperceptível e não tem um valor  absoluto mas relativo. Este é o nosso ângulo morto pois confundimos a nossa medida humana com o próprio tempo. Se tivermos 2 relógios um na Terra e outro em Júpiter eles movem-se relativamente um ao outro a diferente ritmos de velocidade  e marcariam nos mostradores horas diferentes. A hora também não é igual aqui na Terra e a 20 Kms de altitude no espaço. Os relógios que estão mais afastados da sua gravidade sentem menos o seu efeito e andam mais devagar. As alterações climáticas estão a desequilibrar muitas espécies e ecossistemas As abelhas que fazem a polinização de muitas plantas não a estão a fazer na devida altura pondo em risco as colheitas. A invenção do relógio humano veio impor um ritmo artificial ao nosso tempo e às mudanças do nosso ritmo de vida

Espaço. Segundo dado estatísticos temos o acesso vedado a 99% do mundo à nossa volta. O mundo sem limites torna-se um mundo medido. As medidas não definem somente as fronteiras do nosso mundo mas também definem quem o ocupa. Segundo dados que foram recolhidos 33 milhões de hectares de terra em todo o mundo foram tomados a camponeses e agricultores e vendidos a estrangeiro. Na China devido à falta de alojamentos muitos pobres foram obrigados a viver debaixo da terra. Em Pequim cerca de 1 milhão de pessoas vivem numa rede subterrânea de antigos abrigos antiaéreos.

Robôs humanos. Actualmente há câmaras de vigilância quase em todos os países do mundo. Todo o nosso planeta está rodeado por olhos. Somos seguidos por câmaras que estão no céu a 35 Kms e digitalizando. Mas não damos por isso. Se essa vigilância nos protege de criminosos a verdade é que também é uma intrusão na vida privada das pessoas.

O Império vai Nu. Vivemos numa época em que as desigualdades são evidentes. O fosso entre ricos e pobres é de tal ordem que as 42 pessoas mais ricas do planeta têm tanto dinheiro como a metade mais pobre da população mundial. Enquanto os nativos da Austrália ficavam satisfeitos se a natureza lhe satisfizesse as necessidades básicas na sociedade capitalista moderna o excesso é uma necessidade. Numa economia assente no crescimento é preciso produzir, consumir e deitar fora.

Na parte final do livro a autora Ziya Tong reflecte sobre aquilo que é necessário fazer para salvar o nosso planeta. Na alegoria da caverna de Platão os prisioneiros ao verem sombras de pessoas projectadas nas paredes da caverna pensaram que eram reais e confundiam a aparência com a realidade. Também nós humanos muitas vezes ficamos cegos e não vemos a verdadeira realidade que os cientistas nos transmitem: a poluição da Terra a aumentar,e algumas espécies de animais a desaparecer. Não vemos que o ritmo infernal da vida que levamos é criado por nós. Ziya Tong diz e muito bem que « Se queremos sobreviver e chegar ao século XXII vamos precisar de um novo modelo global. Temos de alterar o sistema que construímos cujo objectivo é ser dono do máximo de coisas possível: ser dono do tempo, do espaço, de alimentos, de energia, de tudo excepto do lixo. Se uma revolução destruir um governo mas os padrões sistemáticos do pensamento permanecerem os mesmos então esses padrões irão repetir-se »

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Quarta-feira, 5 de Agosto de 2020

MARCO AURÉLIO- IMPERADOR ROMANO E FILÓSOFO

 

Sempre que tenho de sair de Trancoso e me desloco às cidades mais próximas como a Guarda, Viseu ou Coimbra, vou sempre a uma livraria procurar as novidades literárias. Desta vez encontrei  o livro atrás mencionado, com o título desta crónica, que suscitou a minha curiosidade. Li e gostei. O livro Meditações foi escrito pelo Imperador Marco Aurélio que foi também um filósofo.  Para começar irei descrever em traços largos os aspectos mais importantes da sua biografia.

1-O nome de família de Marco Aurélio era Vero. O Imperador Adriano chamava-o sempre por Verísssimo ( O mais sincero, o mais honesto ). Este Imperador adoptou e designou como seu sucessor Antonino-o-Pio e este por ordem de Adriano adoptou Marco Aurélio, então com 17 anos de idade. Quando chegou a adulto Marco Aurélio tornou-se co-regente do pai adoptivo Antonino-o-Pio. Com ele subiu ao trono um filósofo. Antonino-o-Pio morreu em  161 e sucedeu-lhe Marco Aurélio então com 40 anos. No Oriente a luta contra os Partos aumentou de violência mas a situação era mais perigosa no Danúbio. Os Germanos tinham-se unido numa sólida aliança sob a direcção de Marcomanos. Em 167 as tribos germânicas lançaram um ataque contra a Panónia, actual Hungria e infligiram uma pesada derrota a um exército romano. Depois dirigiram-se para os Alpes e invadiram a Itália do Norte. E aqui começou a guerra dos Marcomanos. Mas a paz com os Partos facilitou a vida aos Romanos. Marco Aurélio chamou as legiões  do Oriente e com esta ajuda pode expulsar os Germanos para o outro lado dos Alpes. O altruísmo e a confiança do Imperador estoico encheu os soldados de uma nova coragem. Marco Aurélio levou a guerra ao próprio território dos Marcomanos e reconquistou a sua capital . Marco Aurélio foi morto no ano de 180 pela peste quando preparava uma nova expedição contra os Marcomanos.

2-. Marco Aurélio foi  um filósofo que aderiu à corrente filosófica do estoicismo. Na infância teve uma educação esmerada: estudou Homero, Hesíodo, aprendeu Desenho, Pintura e Retórica. O inspirador do seu pensamento foi Epitecto. Escreveu uma espécie de diário filosófico que consta de 12 livros. Marco Aurélio imprimiu à sua filosofia uma forma meditativa e contemplativa. Aceita que a filosofia tem 3 partes distintas: física, lógica e ética. Uma grande parte do seu pensamento tem como objectivo a moral. Para Marco Aurélio o homem deve viver segundo a razão. A razão humana procede da razão cósmica divina. O homem tem de viver segundo os imperativos dessa razão que representa o bem. Para ele Deus está imanente na natureza e panteisticamente na humanidade. Daí decorre o sentimento de amor ao próximo, a fraternidade, o altruísmo e a compreensão mesmo em caso de ofensa à nossa pessoa. A virtude consiste em viver de acordo com a natureza . Este caminho conduz à ataraxia ( paz interior ). Não há felicidade sem uma vida virtuosa. O homem deve tornar-se independente das coisas exteriores renunciando às paixões e à exterioridade mundanas. Os princípios do pensamento  ético de Marco Aurélio são muito parecidos com os do cristianismo: amor ao próximo, compreensão, tolerância, fraternidade. Mas enquanto para o estoicismo estes princípios assentam na natureza que é igual em todas as pessoas para os cristãos eles têm a sua origem num Deus Pessoal que é pai de todos e a todos acolhe como filhos. Por outro lado os estoicos em relação ao mal adoptam uma atitude mais passiva e de resignação. Os cristãos entendem que devem lutar para corrigir o que está mal e lutar por uma sociedade mais justa, mais honesta e humana. Uma outra característica do estoicismo é o alheamento perante o sofrimento , a dor e  a morte. O que acontece tem inevitavelmente de acontecer e há como que um determinismo na natureza ao qual não podemos fugir. Por fim vou transcrever algumas citações do livro de Marco Aurélio.

CITAÇÕES:

1-O que é divino merece o nosso respeito pela sua excelência; o que é humano merece o nosso afecto porque é semelhante a nós próprios, e por vezes também, a nossa piedade

2-Não desperdices o tempo que te resta de vida a especular sobre os outros- a não ser que possa afectar um bem comum. Fazê-lo irá impedir-te de fazer algo de útil.

3-Qual é a singularidade do homem bom ? Aceitar de bom grado todas as experiências que o Destino lhe envia.

4-Enquanto estás vivo e capaz sê bondoso.

5-Nunca te deixes levar pela emoção. Age com justiça e vê as coisas como realmente são.

6-Lembra-te deste princípio quando alguma coisa  ameaça causar-te dor: a coisa em si não é de maneira nenhuma um infortúnio;  suportá-la e resistir-lhe é uma felicidade.

7-O principal bem de um ser racional é a solidariedade com o seu semelhante- é nossa razão de existir.

8-Crença, decoro , justiça e verdade« desapareceram da terra e só são encontradas no céu »

9-Não assumas que uma coisa é impossível só porque te parece difícil. Reconhece apenas que, se ela é humanamente  possível, também poderás fazê-la.

10-A nossa vida é curta. As únicas recompensas da nossa existência aqui são um carácter imaculado e acções altruístas.

11-A única coisa que é preciosa: viver esta vida em verdade e com rectidão. E ser tolerante com aqueles que não o fazem.

12-Perfeição de carácter: viver cada dia como se fosse o último, sem frenesim, nem apatia, nem fingimentos

13-Os humanos foram feitos para ajudar os outros. E quando ajudamos os outros- ou os ajudamos a fazer algo- estamos a fazer aquilo para que fomos criados

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