Quarta-feira, 1 de Março de 2017

A Ordem Mundial

A Ordem Mundial

Este é o título de um livro de Henry Kissinger que foi conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado durante as administrações de Richard Nixon e Gerald Ford. Ganhou também o prémio Nobel da Paz em 1963 e é autor de uma vasta obra sobre política externa e diplomacia.

É um livro com 476 páginas divididas em 9 capítulos e por isso levei algum tempo a lê-lo. Henry Kissinger aborda temas relacionados com a geopolítica, a geoestratégia, tratados, alianças e convenções que ao longo dos séculos procuraram manter a Paz e a Ordem Mundial. Para Kissinger há três tipos de ordem: mundial, internacional e regional. A Ordem Mundial é um conceito perfilhado por determinada região ou civilização sobre a justeza dos compromissos e a distribuição do poder que considera aplicável a todo o mundo ; a ordem internacional é a aplicação prática desse princípio a uma parte considerável do globo ; a ordem regional envolve os mesmos princípios na aplicação a áreas geográficas determinadas. Nestes sistemas há dois componentes a destacar: um conjunto de regras de aceitação geral e um equilíbrio de poder.

Na Europa desde o Império Romano e do Sacro Império Romano Germânico até ao século XX, com a 1ª e a 2ª Guerras mundiais alternaram-se períodos de guerra e de Paz. Sucederam-se Tratados e Convenções tentando impor uma ordem universal. Com a ascensão do príncipe Carlos de Habsburgo (1500-1558) houve a primeira tentativa de implantar uma ordem mundial. Este soberano governou os seguintes países: Áustria, Alemanha, norte de Itália, República Checa, Eslováquia, Hungria, leste da França, Bélgica, Países Baixos e Espanha.

Com a revolta protestante- iniciada quando Lutero afixou nas portas do castelo Wittenberg as 95 teses que proclamavam a relação directa dos indivíduos com Deus- começou uma guerra ente católicos e protestantes ( Guerra dos 30 Anos ). Esta guerra acabou com a Paz de Vestefália em 1684. Surgiu então o equilíbrio de poder como sistema. Ficou estabelecido o conceito de soberania do Estado e da liberdade de escolha de religião. Foram estabelecidos laços diplomáticos e neutralidade ideológica.

Com a revolução francesa e as invasões napoleónicas a Europa entra novamente em convulsão. O Congresso de Viena ( 1814-1815 ) vem estabelecer novamente a Paz. A 1ª Guerra Mundial ( 1914-!918) desestabiliza outra vez a Europa e causa milhões de mortos. O Tratado de Versalhes ( 1919 ) põe termo ao conflito e estabelece a Paz. Mas a subida ao poder de Hitler vem desencadear a 2ª Guerra Mundial ( 1939-1945 ) que deixou muitos países destroçados. A Alemanha de leste é ocupada pela União Soviética e a parte ocidental pelos países aliados que se empenharam em criar a República Federal da Alemanha. Mais tarde com a queda do Muro de Berlim e com a desagregação da União Soviética começou a Guerra Fria entre as duas potências mundiais: EUA e Rússia.

Durante o período da Guerra Fria a América contribuiria para a recuperação europeia com o programa de assistência greco-turco de 1947 e o Plano Marshall de 1948. Em 1949 os Estados Unidos construíram pela primeira vez uma aliança de tempo de paz, o Tratado do Atlântico Norte. Na Europa com a criação da moeda única em 2002 e uma estrutura formal em 2004 nasce uma Europa Unida. Mas Henry Kissinger diz que “ a união europeia ao subtrair soberania e funções governativas aos seus Estados membros nomeadamente o controle da moeda e das fronteiras caminhou para um resultado híbrido, alguma coisa situada constitucionalmente entre um Estado e uma Confederação e administrada mediante encontros de ministros e uma burocracia comum (pa111-12) “

Ao referir-se ao Islamismo diz que há duas versões universalistas de ordem mundial: a versão sunita protagonizada pela Irmandade Muçulmana fundada em 1948 pelo Hamas, movimento radical que subiu ao poder em Gaza em 2007 e pelo movimento Al Quaeda ; e a versão xiita corporizada pela revolução de Kommeini e pelo derivado libanês “ o Estado dentro do Estado “, Hezbollah .

Até ao fim da 2ª Guerra Mundial, a maior parte da Ásia viveu isolada. As condições diplomáticas de tipo vestefalianas só começaram a emergir com a descolonização subsequente à devastação da ordem europeia por duas guerras mundiais. O processo de emancipação foi brutal e sangrento: guerra chinesa ( 1950-53) ; confronto sino-soviético (1955-1980 ) ; movimentos revolucionários de guerrilha por todo o sudoeste asiático, a Guerra do Vietname ( 1961-1975 ). Após décadas de guerra e convulsões revolucionárias a Ásia sofreu uma transformação drástica. O Japão adoptou instituições democráticas e edificou uma economia que rivalizava e em alguns casos ultrapassava a das nações ocidentais. Em 1979 a China mudou de rumo e Deng Xiaoping proclamava uma política externa não ideológica e uma política de reformas económicas que tiveram um efeito transformador profundo na China e no Mundo

Durante os séculos que esteve em isolamento o Japão bebeu da cultura e da religião chinesa. O imperador japonês tal como o chinês era considerado filho dos céus e um intermediário entre o humano e o divino. O imperador também era considerado um descendente da deusa do sol que gerara o primeiro imperador e outorgara aos seus sucessores um direito eterno de soberania. No fim do século XIX o Japão saiu do seu isolamento modernizando as sua indústrias e as forças armadas e orienta a sua economia para a exportação. A partir daí começa a entrar em guerra com países vizinhos vindo a culminar com o ataque a Pearl Harbor em 1941 . Os Estados Unidos responderam com uma intervenção nuclear a qual resultou na rendição incondicional da Japão

A Índia outro grande país da Ásia não teve uma existência pacífica ao longo dos séculos., Foi invadida pelos seguintes povos: persas, gregos, árabes, turcos e afegãos, mongóis, mogois e países europeus. Na Índia se desenvolveram também três religiões: induísmo, budismo e islamismo. Ao contrário dos chineses os indianos não obrigaram os estrangeiros e invasores a adoptar a sua cultura ou religião. Em 1857 após um conflito com a Companhia das Índias Ocidentais, a Inglaterra potência, colonizadora, começa a administrar a Índia de outra maneira. As várias regiões são ligadas por linha de caminho de ferro e por uma língua comum, o inglês. Em 1947 é reconhecida a Independência à Índia e fica à frente do governo Nehru. A partir daí a Índia tomou uma posição neutral situando-se acima das políticas do poder. O papel da Índia na ordem mundial foi sempre

Complicado devido à vizinhança com países beligerantes como o Paquistão, o Afeganistão, o Bangladesh e a China.

Após a proclamação da Independência em   1776   e da Apresentação da Declaração dos Direitos Humanos, os Estados Unidos saem das suas fronteiras não com fins expansionistas mas para estabelecer uma ordem mundial baseada no equilíbrio de poder, no respeito pelas liberdades individuais. Todos os presidentes americanos do pós- guerra concordaram que aos Estados Unidos cabia a missão altruísta de resolução de conflitos e a proclamação da igualdade entre nações tendo em vista a paz mundial e a harmonia universal. Em 1945 devido ao impulso do presidente Truman nasce a Organização das Nações Unidas. As Nações Unidas teriam como missão implementar a segurança colectiva através de um Conselho Mundial, o Conselho de Segurança, que teria como “ membros permanentes “ com direito a veto as cinco grandes potências ( Estados Unidos, Grã -Bretanha, França, URSS e China ). O Conselho de Segurança incluía ainda, um grupo rotativo de mais nove países que tinha a responsabilidade de “ manter a paz e a segurança internacionais. Em 1954 John Foster Dulles ampliou o sistema de alianças formando a SEATO ( Organização do Tratado do Sudoeste Asiático) e em 1955 o Pacto de Bagdad para o Médio Oriente. Em 1950 os Estados Unidos intervieram na guerra da Coreia e evitaram que a Coreia do Norte se apoderasse da Coreia do Sul. Mas em 1975 não foram capazes de impedir que o Vietname do Norte conquistasse o Vietname do Sul. A América perdera assim a sua primeira guerra em prol da uma ordem mundial

Com a proliferação das armas nucleares vai aumentar as probabilidades de um conflito nuclear e o equilíbrio entre as super-potências nucleares como os Estados Unidos e a Rússia e acaba por ser prejudicado. Outro factor de desestabilização é o ciberespaço e a pirataria informática que ameaça ter acesso a documentos secretos que vão pôr em causa e a ordem mundial. A informática e a internet têm ainda o inconveniente de fazerem um Estado ao gosto e preferência do eleitorado , podem levar os candidatos a primeiro-ministro ou a presidente da república a fazer um programa destinado a captar essa simpatias e não um programa que melhor sirva os interesses do país.

Quais os passos a seguir para chegar a uma ordem mundial no nosso tempo ?

Durante muitos anos pensou-se que o mercado global e o sistema económico global resolvia por si só todos os problemas sem a intervenção do Estado. Em 2008 esta teoria foi desmentida. Na origem da crise está sempre a especulação desenfreada e a subavaliação sistémica do risco. Ao terminar o seu livro Henry Kissinger diz o seguinte: “ A reconstrução do sistema internacional é o derradeiro desafio da diplomacia do nosso tempo. Uma Ordem Mundial que afirme a dignidade individual e a governação representativa e promova a cooperação internacional segundo normas preestabelecidas pode ser a nossa esperança e deve ser a nossa ambição. Todavia, a ordem mundial não será realizada pela acção isolada de nenhum país por si só. Para alcançar uma ordem mundial genuína é necessário que todos os intervenientes, embora mantendo-se fieis aos seus valores, saibam assumir uma nova cultura, que será global, estrutural e jurisdicional, um conceito de ordem que transcenda o ponto de vista e os ideais de cada região ou de cada nação por si. “

 

publicado por pontodemira às 19:22
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


.posts recentes

. Os incêndios florestais (...

. Os grandes filósofos: Mar...

. Os Grandes filósofos: Ben...

. Os incêndios florestais

. O Euro- como moeda única ...

. O Papa Francisco peregrin...

. O terrorismo

. As baboseiras do Sr. Jero...

. Bandarra: profetismo mes...

. A Ordem Mundial

.arquivos

. Outubro 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Setembro 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Outubro 2014

. Julho 2014

. Maio 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

blogs SAPO

.subscrever feeds