Quinta-feira, 9 de Janeiro de 2014

A ALEGRIA DO EVANGELHO- DO PAPA FRANCISCO

1-Para o Papa Francisco a Igreja precisa de ser reformada. Essa reforma passa necessariamente pela divulgação do Evangelho e pela atitude missionária. Logo na Introdução do livro Evangelii Gaudium ( A Alegria do Evangelho ) o Papa diz que  o grande risco do mundo actual é a tendência para o consumismo ,para o individualismo, para o comodismo e para os prazeres superficiais. E acrescenta que “ é na doação que devemos procurar a alegria e não no comodismo e no isolamento( pag 13 ). É pela Evangelização que nós podemos ganhar a alegria de viver. A actividade missionária constitui hoje o máximo desafio para a Igreja e deve ser a primeira  de todas as causas. ( 18)

2-A Alegria do Evangelho está assim ligada à actividade missionária. Os primeiros missionários foram os discípulos de Jesus. O Papa utiliza mesmo o neologismo “ primeirismo “ para significar que foram eles os primeiros a tomar a iniciativa. A Igreja tem nos dias de hoje de se renovar e de sair do interior de si própria de forma a entrar em contacto com a comunidade que a envolve , tornando-se mais próxima das pessoas e chegar às periferias ou aos novos âmbitos socioculturais. ( 29 ) O Papa chama a atenção para o facto de nem sempre a Igreja utilizar a forma mais adequada na transmissão do Evangelho. E recomenda aos sacerdotes que” o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar de misericórdia do Senhor que nos incentiva a praticar o bem possível. Um pequeno passo, no meio das limitações humanas, pode ser mais agradável  a Deus do que a vida extremamente correcta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades. ( 38 ) A Igreja deve abrir as suas portas a todos. E nem sequer as portas dos sacramentos se deveriam fechar por uma razão qualquer. A Eucaristia não deve ser um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. ( 40 ). Hoje e sempre “ os pobres são destinatários perfeitos do Evangelho “ E o Papa termina dizendo : “ Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças “.

3-Entre os desafios do Mundo actual está uma economia de exclusão e de desigualdade social.” Esta economia mata, como diz Papa. E continua “ é de lamentar que se dê mais importância à descida de dois pontos na bolsa do que a um idoso sem abrigo que morre de enregelamento. ( 45 ) . Numa sociedade em que o que conta é a competitividade, o ser humano é considerado como um bem de consumo que se pode usar e deitar fora.  Esta é a cultura do descartável. Os excluídos não são apenas  “explorados “ mas resíduos,  “ sobras “.

Para os economistas liberais o crescimento económico é que vai contribuir para uma maior equidade e inclusão social.  Mas como diz o Papa trata-se de uma opinião que nunca foi confirmada pelos factos. O que realmente se verifica é que os excluídos da sociedade continuam a esperar e que cada vez mais estamos confrontados com a globalização da indiferença em que a maioria das pessoas se encontra incapaz  de se compadecer do sofrimento alheio.  ( 46 ) . A economia contemporânea criou a idolatria do dinheiro. Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. “ As ideologias neoliberais negam qualquer controle do Estado e assim instala-se uma  “ nova tirania invisível “ sem regras e leis. A tudo isto vem juntar-se a corrupção e a evasão fiscal em que o poder e o ter não têm limites. O Papa diz que os ricos devem ajudar os pobres e exorta a  “ uma solidariedade  “desinteressada e  a um regresso da economia e das finanças a uma ética própria ao ser humano.  Quando o Estado e a Sociedade abandonam as periferias não há paz nem serviços secretos que garantam a tranquilidade. São as desigualdades sociais que geram violência. O processo de secularização conduz também ao relativismo moral e à ausência de valores éticos. O individualismo torna as pessoas egoístas e desestabiliza os vínculos entre as pessoas e as relações familiares. ( 54 ). O Papa diz que é necessária uma evangelização que ilumine os novos modelos de relacionamento com Deus, com os outros e com o ambiente e que suscite valores fundamentais.

Em muitas partes do Mundo, as cidades são cenários de protestos em massa, onde milhares de habitantes reclamam liberdade, participação, justiça e várias reivindicações que, se não forem adequadamente interpretadas, nem pela força poderão ser silenciadas.. Na Igreja há também tentações que é preciso corrigir. Não se pode agir como se Deus nâo existisse, decidir como se os pobres não existissem, trabalhar como se aqueles que não receberam o anúncio não existissem  ( 59 e 63 ) . É preciso dizer não ao mundanismo espiritual ( 72 ) das pessoas que vivem fechadas em si mesmas no seu subjectivismo e se sentem superiores aos outros por cumprirem determinadas normas ou por serem irredutivelmente fieis a um certo estilo católico próprio do passado.

Um outro erro que se deveria evitar é falar sobre  “o que se deveria fazer “.  O Papa aqui utiliza outro neologismo a que dá o nome de  “ deveraqueismo “ ( 74 ) Neste pecado se incluem os mestres espirituais e peritos de pastoral que dão instruções ficando de fora.

O Papa reconhece o papel importante da mulher tanto na Igreja como nas estruturas sociais. Mas tira quaisquer dúvidas quando diz que o sacerdócio reservado aos homens é uma questão que não se põe em discussão. Considera no entanto que o sacerdócio é uma função, e na Igreja as funções “ não dão justificação à superioridade de uns sobre os outros  “ ( 79 ) E acrescenta  “ com efeito uma mulher Maria é mais importante do que os bispos .

4-Como povo de Deus, a Igreja tem o dever de anunciar o Evangelho. Ao anunciar o Evangelho a Igreja anuncia também a salvação e a misericórdia de Deus. Como diz o Papa ninguém se salva sozinho, isto é, como indivíduo isolado ou pelas próprias forças. A fé cristã exprime-se de diferentes modos conforme a cultura de cada povo embora a mensagem revelada seja só uma, pois tem um conteúdo transcultural . ( 88 )

No anúncio da palavra tem um papel fundamental a homilia. O Papa aconselha a que esta seja breve e transmita de forma sintética e clara a mensagem evangélica. A linguagem deve por sua vez ser positiva ou seja não importa tanto o que não se deve fazer mas sim propor  o que se deve fazer melhor.

5-A evangelização deve também ter uma dimensão social. O cristão não pode viver indiferente ao meio que o cerca ignorando os que sofrem e precisam de ajuda. Como diz o Papa “ uma fé autêntica  – que nunca é cómoda e individualista- comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a Terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela “  ( 135 ).  Tal  como fez Jesus Cristo, os pobres e os excluídos da sociedade devem estar na ordem das prioridades de todos os cristãos. O Papa diz mesmo que quer uma Igreja pobre para os pobres. E acrescenta “ a dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política económica. Assim os planos de assistência, que acorrem a determinadas emergências deveriam considerar-se apenas respostas provisórias. Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do Mundo e em definitivo problema algum. A desigualdade é a raiz dos males socais. ( 148 ). E mais adiante acrescenta “  se realmente queremos alcançar uma economia global saudável, precisamos, neste momento da história, de um modo mais eficiente de interacção que, sem prejuízo da soberania das nações, assegure o bem-estar económico a todos os países e não a alguns . ( 150 ). O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha ; requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados par uma melhor distribuição de rendimentos.  ( 149 ).

O Papa termina este capítulo dizendo que a Evangelização implica também o caminho do diálogo. Esse diálogo tem que fazer-se com o Estado, com a sociedade e com crentes que não fazem parte da Igreja Católica. ( 165 ). Há ainda a considerar o diálogo entre a Fé , a Razão e a Ciência.. Como diz o Papa a filosofia, a teologia e a própria Fé elevam o ser humano até ao mistério que transcende a natureza e a inteligência humana. A Fé não tem medo da Razão; pelo contrário procura-a e tem confiança nela, porque “ a luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus e não se podem contradizer entre si. Quando o progresso das ciências, torna evidente uma determinada conclusão que a razão não pode negar, a fé não a contradiz.  ( 168 ) O diálogo ecuménico entre as várias religiões poderá também trazer uma contribuição para a unidade da família humana ( 168 )

6-Na parte final da exortação apostólica o Papa diz ainda que a Evangelização enriquece a mente e o coração e faz-nos sair dos nossos esquemas espirituais limitados. Algumas pessoas não se dedicam à missão porque creem que nada pode mudar e assim, segundo elas, é inútil esforçarem-se. E com esta mentalidade é impossível ser missionário.

FRANCISCO JOSÉ SANTIAGO MARTINS

publicado por pontodemira às 19:09
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