Sábado, 23 de Junho de 2012

TEORIAS POLÍTICAS- THOMAS MORE

1-Thomas More ( 1478-1535 ) nasceu em Londres e foi jurista, advogado e um orador brilhante. Sucedeu ao cardeal  Wolsey como chanceler do reino.  Viveu em pleno período do Renascimento e foi um grande humanista. Interessou-se pela política sendo incumbido de missões diplomáticas. Podemos conhecer o rosto de More através dos desenhos do pintor alemão Holbein que se tornou favorito da aristocracia inglesa. Sabemos ainda que foi amigo de Erasmo que lhe dedicou o livro “ Elogio da Loucura “

Quando Henrique VIII, por não ter um filho barão, resolveu divorciar-se de Catarina  ( tia do imperador Carlos V ) para casar com Ana Bolena , desencadeou todo um processo que vai levar à cisão com o papado. O Parlamento acabou por aprovar o Acto de Supremacia e reconhecer Henrique VIII como chefe da Igreja de Inglaterra. Thomas More, cristão e católico convicto, não concordou com o Rei e demitiu-se de chanceler ,retirando-se da vida política. Mais tarde por instigação de Ana Bolena é preso e acabou por ser executado em 1535. Antes de morrer, as suas últimas palavras foram : “ morro como servidor  do meu rei, mas primeiro que tudo como servidor de Deus . “ Em 1935 foi canonizado pela Igreja e é  hoje venerado como santo.

2-A obra de referência de Thomas More é o livro “ UTOPIA “. A palavra utopia vem do grego ou-Topos , não-lugar, ou seja um lugar que não existe em  lado nenhum ( inexistente ).

A personagem principal do livro é o navegador português Rafael  Hitlodeu que dialoga com Thomas More sobre os problemas da sociedade do seu tempo e compara depois com o que viu na Ilha da Utopia. É nas aventuras que tem com o italiano Américo Vespúcio pelas Américas que ele descobriu essa ilha surpreendente.

Na  primeira parte do livro Thomas More analisa em pormenor o ambiente político e social da sociedade inglesa criticando as ocupações dos príncipes que se preocupam mais com a guerra do que em governar com justiça  e na paz ; não poupa “ os maus professores,  sempre mais prontos a bater nos alunos do que em ensinar ( Utopia-ed.Europa –América pag. 27 ) ; aponta o dedo aos “ nobres que, não satisfeitos com a sua própria ociosidade, vivem preguiçosamente, como zângãos, do trabalho dos seus rendeiros, a quem esfolam até ao osso, fazendo-os pagar rendas elevadíssimas “ ( U-pag 29 ) ; ataca a prostituição e toda a espécie de venalidades e vícios ; critica  os “  pregadores hábeis e sinuosos, que vendo os homens pouco dispostos a conformar os seus costumes à doutrina cristã, torcem e vergam o Evangelho, como se fora uma régua de chumbo, e moldam-no aos costumes dos homens, com o fim de, ao menos deste modo, terem um ponto comum. Não vejo qualquer resultado, excepto o  de ter dado segurança e estabilidade ao próprio mal  “ ( U- pag 55 ) .

Na segunda parte do livro Thomas More relata o que Rafael Hitlodeu viu na Ilha da Utopia. A capital é Amaurota, cidade fantasma que é banhada pelo rio Anidro ( rio sem água ) A cidade é rodeada por altas muralhas e as casas têm todas duas portas , uma para a rua e a outra para o jardim. O recheio das casas não pertence individualmente e ninguém e as pessoas mudam de casa de 10 em 10 anos tirando à sorte a que lhes cabe.

INSTITUIÇÕES LEIS E COSTUMES:

Cada grupo de 30 famílias elege 1 filarca ou sifogrante. Dez sifograntes elegem um profilarca ou traníboro  . O conjunto de 200 traníboros formam o Senado.

As refeições são comuns. O almoço é breve e o jantar mais longo. Não existem tabernas, nem cervejarias , nem bordeis que favoreçam o  vício e a libertinagem. Toda a Ilha é uma única família. Para os utopianos felicidade e virtude não são incompatíveis. Podem gozar-se os prazeres  bons e honestos se houver a virtude de, pela razão, controlar os “ apetites e desprezos “ . A razão inspira “ amor e veneração pela majestade divina” e por outro lado incita a viver alegremente e sem tristeza. Os falsos prazeres são , por exemplo, os que resultam da vaidade, da avareza, dos jogos de azar e da caça.

Há ainda regras no que respeita ao casamento. As mulheres não podem casar-se antes dos 18 anos e os rapazes antes dos 22 . O matrimónio só é dissolvido pela morte.” Os que rompem os laços do casamento sâo castigados com a mais dura escravidão” . Caso o culpado reincida no crime de adultério o castigo é a morte . “ ( U- pag 108 )

As pessoas devem ser humildes e modestas no vestir. “ O príncipe não se distingue dos outros cidadãos por vestuário principesco “ ( U. pag 110 )

Os utopianos são pessoas amigas e pacíficas e por isso “  detestam e abominam a guerra como coisa brutal e selvagem. Não fazem nunca a guerra . “ ( U- pag 114 )

RELIGIÃO

Na Ilha da Utopia reina a tolerância religiosa. Ninguém é censurado ou criticado  pela religião que professa “ Aqueles que não aceitaram a religião cristã não se opõem a ela nem maltratam os convertidos “ ( U.pag 126 ) São pessoas que acreditam na vida para além da morte e por isso “ choram os doentes e não os mortos . Desprezam a ociosidade e acham que a felicidade extraterrestre se alcança com trabalhos e serviços prestados uns aos outros “ ( U-pag129 )

Também a vida religiosa se processa em democracia. “ Os sacerdotes são escolhidos pelo povo, tal como os outros magistrados , em escrutínio secreto para evitar a intriga “ ( U-pag 131 ) E para que a igualdade religiosa seja perfeita “ os templos não são reservados a um só culto, mas a todas as crenças dos seus cidadãos, que, embora variadas, concorrem para o mesmo fim, a glorificação da Natureza divina “ ( U-pag 133 9 )

CONCLUSÃO:

Thomas More contrapõe à sociedade ociosa, egoísta e exploradora do seu tempo uma comunidade imaginária de bens e serviços onde não há propriedade privada nem dinheiro e onde todos se ajudam e se dão bem.  Na Ilha da Utopia “ não há pobres ou mendigos. Embora ninguém possua coisa alguma, todos são ricos “ U- 137 )

Poderíamos classificar os utopistas de epicuristas  por evitarem a dor e o sofrimento e procurarem a felicidade através dos prazeres que a natureza lhes proporciona, tanto ao corpo( sem abusos  nem excessos ) como  ao espírito ( contemplando a verdade e praticando a virtude ).

Thomas More admite o casamento dos padres e não condena em absoluto o divórcio. O adultério é no entanto considerado  um crime a merecer punição severa

O substantivo utopista aplica-se ainda hoje para englobar um conjunto de valores e de princípios que caracterizam uma sociedade ideal, mas difícil de atingir.

 

FRANCISCO JOSÉ SANTIAGO MARTINS

publicado por pontodemira às 18:50
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