Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

SERÁ QUE DEUS EXISTE ?

 

1-Um terramoto de grandes proporções arrasou quase por completo o Haiti, que já era considerado um dos países mais pobres do continente americano. Morreram milhares de pessoas e muitos tiveram que ser resgatados dos escombros em condições difíceis e em grande sofrimento. Há ainda a registar um número considerável de crianças que ficaram órfãos e vão precisar de muito carinho e apoio das organizações humanitárias internacionais. De um momento para o outro o Haiti transformou-se num inferno onde o pânico e o caos se instalaram.  Muitas pessoas com o terror estampado no rosto começaram a deambular de um lado para o outro à procura dos seus familiares desaparecidos.  Apesar da ajuda rápida de muitos países a situação agravou-se ainda mais com a falta de água e de alimentos. A reconstrução do Haiti vai levar anos e só com a solidariedade da comunidade internacional e de todas as pessoas generosas e de boa- vontade será possível. Para a posteridade ficaram as marcas deixadas nos adultos e nas crianças que sobreviveram a esta tragédia de dimensões dantescas. Não vai ser fácil esquecer o drama e a angústia por que passaram.

 

2-Para alguns crentes e agnósticos levanta-se a questão de saber  onde estava Deus, se de facto Ele existe, na altura do terramoto. Na verdade custa a compreender ,e quase nos revolta, que crianças e pessoas de bem, algumas a trabalhar em instituições humanitárias tenham morrido estupidamente neste sismo. Até parece que Deus abandonou todas estas pessoas, algumas das quais eram mesmo necessárias à comunidade. O que para uns é um mistério para outros é um castigo.

Também para algumas seitas milenaristas todas as tragédias que acontecem são um castigo de Deus. Tudo isto tem a ver com a forma  literalista  como interpretam a Bíblia. Quem ignora a hermenêutica ( interpretação ) do texto bíblico confunde muitas vezes o que é simbólico e mítico com a realidade.  Assim, o dilúvio e a destruição de Sodoma e Gomorra são vistos como um castigo de Deus. Só  que Deus , por essência,  não pode ser vingativo nem castigador. Embora o sofrimento seja inevitável e faça parte da vida a verdade é que o Homem provém de um acto de bondade de Deus que o criou para ser feliz e não para sofrer. Muitos movimentos religiosos fundamentalistas foram profundamente influenciados pela cultura judaica que ia ao ponto de considerar a doença como um castigo resultante do pecado.

 

3-Afastada a hipótese da justiça retributiva de um Deus castigador, como explicar então o sofrimento e a dor de tantos inocentes e as vítimas de tantas tragédias naturais. Há coisas que são difíceis de explicar porque ultrapassam em muito a nossa compreensão. O sofrimento que provém da calúnia, das ofensas morais, das agressões físicas e ainda os atentados à honra e à dignidade dos seres humanos é talvez mais fácil de explicar. Deus criou o homem livre e capaz de praticar o bem e o mal. O maior bem do homem é precisamente a sua liberdade. Se assim não fosse seria uma marionete comandado por um “ deus ex machina    Mas o mais difícil de  perceber é sem dúvida o sofrimento causado por cataclismos, intempéries,  vulcões, sismos  e outros acidente naturais. Será que Deus não poderia ter criado o Mundo de forma a que estas situações não se verificassem ? Provavelmente sim, mas aqui levanta-se a dúvida se  esse Mundo permitiria a vida à espécie humana. Seria talvez um Mundo melhor mas provavelmente sem condições para ser habitado por seres humanos. Por outro lado uma vida onde não houvesse sofrimento e dor não daria lugar a actos de filantropia , de amor, de  bondade e de coragem. E é através desses actos que o homem ou mulher  mais se aproxima de Deus criador. Para o crente que acredita que a vida não acaba na Terra e, para lá da morte nos espera uma vida de felicidade sem fim, vale a pena todos os sacrifícios.

 

4-Temos por isso que afastar a ideia absurda de que o sofrimento é um castigo de Deus.  Jesus dá-nos o exemplo do servo- sofredor que suportou humilhantemente a morte na cruz por amor de nós e para nossa salvação. Ao terceiro dia ressuscitou e deu-nos a esperança de que também connosco acontecerá o mesmo. A vida é feita de alegrias e tristezas, de felicidade e de sofrimento. Deus não quer o nosso sofrimento mas quando isso acontece temos que o aceitar tal como Jesus o fez.  Embora Deus seja uma verdade da fé e da razão não é fácil explicar racionalmente tudo o que acontece no Mundo.

No século XVIII Leibniz criou o termo Teodiceia, que à letra significa Justiça de Deus, para racionalmente explicar a questão do mal na sua relação com Deus. Da análise que fez concluiu que dentro das inúmeras combinações possíveis do mundo, Deus escolheu precisamente a mais perfeita de todas. De qualquer forma não se pode inferir que  a expressão “mais perfeita “ seja sinónimo de perfeição absoluta. É nesse erro que Voltaire incorre quando no seu livro Cândido se  aproveita do terramoto de 1755 em Lisboa para fazer chacota de Leibniz e ironizar que,  afinal não vivemos no melhor dos mundos possíveis.

Para terminar diria que os mistérios de Deus são insondáveis e que todas as explicações que possamos dar ficam muito aquém da verdade absoluta.

 

FRANCISCO  MARTINS

 

publicado por pontodemira às 23:05
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