Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

MAQUIAVELISMO POLÍTICO

 

1-Quando falamos em “ maquiavelismo político temos inevitavelmente de fazer uma referência a Nicolau Maquiavel, para melhor  compreender o significado desta expressão. Quem foi esta figura que muitos políticos ainda hoje tentam imitar ?

Maquiavel nasceu em Florença, Itália , em 1469 vindo a falecer em 1537 com 58 anos de idade. Viveu no período do Renascimento, uma época em que a Itália se encontrava dividida em pequenas cidades-estado, semelhantes à“ polis “ da Grécia Antiga. As maiores cidades da Itália eram Roma ( sede do papado ) , Veneza , Nápoles e Milão. Em 1498 Maquiavel foi nomeado Secretário da segunda chancelaria de Florença logo a seguir à queda do frade beneditino Savanarola, que quis levar o cristianismo à sua expressão mais pura, combatendo a corrupção e os poderosos do seu tempo. Devido aos excessos que cometeu e aos ódios que suscitou, acabou por ser preso e executado. Com a subida dos Médicis ao poder, Maquiavel foi deposto mas voltou a cair em graça e regressou ao seu posto de trabalho , embora  por pouco tempo , retirando-se finalmente da vida pública. Durante operíodo em que exerceu a sua actividade política foi incumbido de várias embaixadas : ao reino da França, ao Imperador da Alemanha e ao Papa.

Dos livros que escreveu o mais lido e conhecido é sem dúvida “ O Príncipe “ dedicado a Lourenço de Médicis.  Trata-se de um verdadeiro manual político sobre a arte de conquistar o poder e  dos meios para o conservar. Foi Maquiavel o primeiro a utilizar a palavra Estado. Para ele “ todos os estados, todos os poderes que tiveram ou têm autoridade sobre os homens, foram ou são repúblicas ou principados “ (1).  Como nacionalista que era quis fazer da Itália um Estado-Nação sob a tutela de um príncipe forte e bem armado. As sucessivas invasões da Itália por franceses, espanhóis, suíços e alemães tinham-na desagregado e enfraquecido. Para garantir a unidade era necessário um exército nacional bem armado e comandado por um príncipe com a autoridade e a força suficiente para ser respeitada. A sua divisa e bandeira política era a de uma” Itália unida, armada e despadrada. “ . O Estado devia ser laico e secular, respeitando a religião, mas indiferente ou repudiando mesmo os valores cristãos.

A amoralidade política é ainda outra característica importante do Estado. Os fins justificam sempre os meios utilizados. É legítimo usar a força, o medo, a mentira para obter ou conservar o poder. O que interessa fundamentalmente é a “ razão de Estado “ e não os princípios éticos e morais. Desde que o príncipe alcance o resultado pretendido todos os meios são tidos como honrosos.

Chegados aqui, importa saber qual é o ideal do Príncipe, quais as qualidades que deve possuir e os princípios por que se deve guiar. Em primeiro lugar o príncipe deve dedicar-se exclusivamente ao exército (  um príncipe que não seja devotado ao seu exército, para além de outros males, como já se disse,  não pode ser estimado pelos seus soldados nem confiar na sua lealdade  pag.88 ).  Depois, e de acordo com a teoria de Maquiavel, as características do Príncipe são as seguintes :

O calculismo-Não podendo o Príncipe ser simultaneamente amado e temido é preferível ser temido. ( “  de tudo isto resulta um dilema: se mais vale ser amado do que temido ou se o contrário. O ideal é ser as duas coisas, mas como é difícil reunir as duas coisas, é muito mais  seguro - quando uma delas tiver que faltar - ser temido do que amado. ( pag 102 ).

A manha e a força ( o príncipe deve procurar imitar a raposa e o leão, porque o leão não sabe defender-se das armadilhas e a raposa não consegue defender-se dos lobos. O que precisa, portanto, é ser raposa para saber esquivar-se das armadilhas e ser leão para aterrorizar os lobos. “ ( pag. 108 )

Tomar sempre o partido de alguém e evitar a neutralidade (  Os príncipes irresolutos, para fugirem aos perigos do presente, seguem, na maioria dos casos, a via da neutralidade, e, na maioria das situações, encontram nessa atitude a sua perdição. “ ( pag.140 )

 

Evitar os aduladores  ( “um príncipe, portanto, deve sempre tomar conselho, mas apenas quando é sua vontade e não vontade de outros. Deste modo, deve desencorajar quem quer que seja de, por iniciativa própria, lhe dar conselhos. A menos que  para tal seja solicitado “ ( pag. 149 )

 

Reservar só para si as tarefas boas (“ os príncipes devem atribuir a outrem a execução de tarefas punitivas, reservando para si próprios as que envolvem a concessão de graças. De novo concluo que um príncipe deve estimar os grandes, mas sem se fazer odiar pelo povo . “ ( pag.118 )

 

Ser indiferente ao bem e ao mal ( “ e por aqui se deve ver que o ódio tanto se concita através das boas obras como das mais funestas. Por conseguinte, como atrás referi, se um príncipe quiser conservar o seu estado, é , muitas vezes forçado a não ser bondoso, porque, quando a generalidade dos cidadãos de que julgueis necessitar para essa conservação - sejam eles populares, soldados ou grandes senhores - são corruptos, convém agir de maneira conforme aos seus anseios para os contentar. E quando assim for os actos de bondade passam a ser-vos hostis. ( pag121 )

 

Como se pode facilmente concluir a filosofia política de Maquiavel aponta claramente para o totalitarismo. Não admira que alguns políticos como Mussolini, Hitler, Estaline e Lenine o tenham lido e apreciado.

 

2-Nos dias de hoje ainda aparecem muitos políticos que se deixam seduzir pelas ideias de Maquiavel. Na caça ao voto, sobretudo nas eleições autárquicas, vale tudo : ofertas em dinheiro e /ou géneros, intimidações, ameaças e chantagem Tenho a maior consideração pelos políticos honestos que se servem de meios lícitos para alcançar ou conservar o poder : inteligência, oratória, apresentação de obras feitas ou programas políticos bem elaborados e exequíveis. Pelo contrário metem-me nojo os que infelizmente pondo em jogo a sua dignidade e honestidade, não olham a meios para atingir os fins. E para finalizar passo a referir o que pensa a este respeito o Prof. Freitas do Amaral que no livro História das Ideias Políticas diz o seguinte: “ Não é aceite, sobretudo no nosso tempo, que um governante use o assassinato, o roubo, a fraude, para se manter no poder ou para conduzir os negócios políticos do seu país. Uma coisa é a habilidade política, que é indispensável a qualquer governante, outra coisa é o crime, que mesmo em nome da razão de Estado não pode deixar de ser condenado em qualquer político “ ( pag.220 )

 

1-      As citações foram extraídas do livro “ O Príncipe “ Maquiavel  colecção grandes filósofos- Edições Silabo.

 

 

FRANCISCO  MARTINS

 

publicado por pontodemira às 19:27
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