Terça-feira, 4 de Agosto de 2009

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1-Utopia é uma palavra muito utilizada em política e que muitas vezes se refere a algo inatingível ou difícil de concretizar. É provável que poucas pessoas saibam que esta expressão é da autoria de Tomás Morus, político inglês que nasceu em Londres em 1478 e morreu em 1535. Formado em direito chegou a chanceler do rei Henrique VIII. Era amigo de Erasmo que lhe dedicou o livro  “ O Elogio da Loucura “. Foi um grande humanista e um católico que nas situações mais difíceis deu sempre testemunho da sua fé. Por se ter oposto ao divórcio de Henrique VIII e ao cisma com a Igreja Católica, acabou por ser decapitado . Em 1935 viria a ser canonizado como santo pela Igreja Católica.

Tomás Morus escreveu o livro “ Utopia que vem a ser publicado em latim em 1516, no tempo em que governava em Portugal D.Manuel I. A palavra utopia tem origem no grego. Decompondo a palavra temos : Ou ( não ) topus ( lugar ). Esta expressão quer simplesmente dizer : lugar que não existe em lado nenhum.. O livro compõe-se de duas partes. Na primeira Rafael Hitloideu ( navegador português) faz um retrato da sociedade do seu tempo tanto na Inglaterra como nos principais países europeus. Critica de forma implacável “ um grande número de nobres que, não satisfeitos com a sua própria ociosidade, vivem preguiçosamente, como zângãos, do trabalho dos rendeiros “ ( 1-Utopia –Europa América ,p.28). Os ladrões pululam um pouco por todo o lado.E as causas são várias : a guerra é uma delas mas não é a principal. Pior do que isso são “ os nobres, os ricos e mesmo certos reverendos padres, santos homens, sem dúvida, não só se não contentam com os rendimentos anuais, que, desde os seus antepassados sugam das terras, insatisfeitos com a sua vida ociosa e cheia de prazeres, que em nada aproveita ao bem comum, como roubam todo o espaço arável para o converterem em pastagens, rodeando-o de cercas e deitam abaixo casas e aldeias deixando apenas a igreja para servir de curral aos carneiros “ ( p 31 ). E mais adiante recrimina “ os pregadores hábeis e sinuosos, que…vendo os homens pouco dispostos a conformarem os seus costumes à doutrina cristã, torceram e vergaram o Evangelho, como se fora uma régua de chumbo, e moldaram-no aos costumes dos homens com o fim de , ao menos deste modo, terem um ponto em comum. Não vejo qualquer resultado, excepto o ter dado segurança e estabilidade ao próprio mal “ ( p 55 ).  Rafael faz assim uma crítica dura aos poderosos do seu tempo para finalmente apontar a propriedade privada e o dinheiro como fonte e origem de todos estes males.

Como Tomás Morus não acredita neste diagnóstico, Rafael, para o convencer, passa a apontar o que viu na ilha Utopia.  Esta ilha é constituída por 54 cidades sendo a maior de todas Amaurota que é a capital. Por ela passa o rio Anidro ( rio sem água ). Toda a gente vive na mais completa harmonia. As casas são atribuídas por um período de 10 anos. Tal como Platão na República, no qual Morus se inspira , a vida é comunitária: as refeições são tomadas em comum e o vestuário tem a mesma forma para todos. De uma maneira geral não é permitida a ociosidade. O horário de trabalho é de 6 horas por dia. Embora a prática da agricultura seja comum a todos, cada indivíduo tem de aprender um ofício específico. O dinheiro não é utilizado nas transacções. A característica dominante da actividade política e administrativa é a eleição dos magistrados pelas famílias.

E como é a vida na Utopia ?  Viver conforme a natureza. “ O homem que segue o curso da natureza é aquele que se orienta pela razão nos seus apetites e desprezos “ (p 91 ) E mais à frente diz “ os utopistas vivem em paz e amizade uns com os outros “ (p 109 ) O próprio príncipe não se distingue das outras cidades pelo vestuário principesco . As insígnias do bispo limitam-se a um pequeno círio que ostentam e pelo qual os fiéis o reconhecem “ ( p 110 ). Os utopistas nunca fazem a guerra. Na religião praticam a tolerância. Rafael diz que “ aqueles que não aceitam a religião cristã não se opõem a ela nem maltratam os convertidos. Uma das leis mais antigas ordena que ninguém seja censurado pela religião que professa “ ( p 126 ) E vai mais longe quando refere que “ os templos não são reservados a um só culto, mas de todas as crenças dos cidadãos que, embora variadas, concorrem para o mesmo fim, a glorificação da Natureza divina “ (p 133)

Por aqui podemos ver que Tomás Morus é um homem adiantado para a sua época, pois a sua proposta revela uma aproximação ecuménica das várias religiões.  Rafael quase no fim do seu discurso esclarece que na utopia não há pobres ou mendigos. Embora ninguém possua coisa alguma, todos são ricos. Finalmente Tomás Morus tem o seguinte desabafo: “ tenho de confessar que há , na república da Utopia, muita coisa que eu desejaria para os nossos países, embora o meu anseio ultrapasse a esperança de o conseguir, “ ( p 140 )

 

2-Será que nos dias de hoje há lugar para as utopias ? Será utopia pensar que é possível pôr termo à fome, à miséria e à pobreza no mundo ? Dizem os entendidos que o planeta Terra tem recursos suficientes para alimentar todos os povos e se há fome é porque não são tomadas as medidas necessárias para pôr termo a este flagelo. Será um sonho pensar que é possível viver em paz e acabar com a guerra que destrói muitos países levando a população à miséria e à intranquilidade ? O homem não é como pensava Hobbes, naturalmente mau ( Homo hominis lúpus- homem lobo do homem ). O voluntariado, as associações filantrópicas e humanitárias, os missionários, provam que é possível construir um mundo melhor.  Enquanto os Estados teocráticos não puserem de lado o seu fundamentalismo religioso e pensarem que há um só Deus que nos une a todos, não é possível construir a paz.  Será que é  ilusório pensar numa sociedade mais justa e equitativa que faça uma correcta distribuição da riqueza nacional ? Será que pela solidariedade e pela partilha de todos não será possível combater os casos de miséria extrema ?

 

O livro de Tomás Morus é actual e pode ajudar-nos a reflectir sobre questões que são de sempre. É verdade que não é pela socialização dos meios de produção que as coisas se resolvem. Mas o Estado tem um papel importante a desempenhar intervindo quando é necessário, regulando a economia e combatendo a corrupção.

 

1-Todas as citações foram extraídas do livro  de bolso ,Utopia,Publicações –América

 

FRANCISCO MARTINS

 

 

publicado por pontodemira às 19:50
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